REENCARNAÇÃO

A reencarnação fazia parte dos dogmas dos Judeus, sob o nome de ressurreição. Só os Saduceus, cuja crença era a de que tudo acaba com a morte, não acreditavam nela. As idéias dos judeus sobre esse ponto, como sobre muitos outros, não eram claramente definidas porque apenas tinham vagas e incompletas noções acerca da alma e da sua ligação com o corpo. Criam eles que um homem que vivera podia reviver, sem saberem precisamente de que forma. Isso fica evidenciado em algumas passagens da Bíblia. Esse pensamento não muito claro de como se “revive” se perpetuou e foi adotado pelos Evangélicos, que acreditam que, após a morte, a alma fica no cemitério (ou num limbo) junto ao corpo, esperando o momento em que Jesus retornará e (de alguma forma) os mortos sairão dos túmulos.

A reencarnação foi parte integrante da doutrina cristã até o Concílio de Constantinopla, em 533 D.C., quando, por motivos políticos, foi formalmente repudiada pelo clero. Mesmo assim, a idéia persistiu entre alguns cristãos, especialmente os Cátaros, no século XII. Suas idéias (bem interessantes, que com certeza inspiraram os criadores de The Matrix) se chocavam diretamente com a da Igreja Católica, e por isso a “Santa” Inquisição lançou mão de uma campanha militar de 20 anos pra erradicar os Cátaros da face da Terra. Além deles, Giordano Bruno (queimado vivo em 1600) sentiu na pele a intolerância da ICAR ao defender idéias heréticas, como o Hermetismo, o Heliocentrismo e a Metempsicose.

O Budismo traz consigo o conceito de Samsara, um “ciclo da vida carregado de sofrimento, morte e renascimento, sem começo nem fim”, mas em geral ele prefere não se deter nos detalhes da reencarnação. Afinal, se não existe um EU, por que perder tempo com a ilusão de um EU que acha que está reencarnando?

No Hinduísmo a reencarnação é a base de sua sociedade: Você reencarna continuamente, como vemos nos versos do Bhagavad Gita:

…Os sábios não lamentam nem os vivos nem os mortos. Nunca houve nenhum tempo em que Eu fosse inexistente, nem você, e nem haverá futuro em que não existiremos. Como a alma que se encarna passa sucessivamente, no mesmo corpo, da infância à juventude e à velhice, o mesmo se dá pela transmigração de um corpo a outro. E os sábios não se perturbam com isso. Oh, Arjuna, somente pela interação dos sentidos existe frio, calor, prazer e dor. Essas coisas são temporárias, surgindo e desaparecendo. Então tente tolerar isso. Ó valoroso entre os homens, saiba que quem mantém um sábio julgamento na tristeza ou na alegria, e em ambas se mantém imperturbável, é digno da liberação (Nirvana). Os sabedores da Verdade concluíram, estudando a natureza dos dois:

no irreal não há duração,
e no real não há cessação.

Aquilo que pelo corpo se espalha é de natureza eterna. Ninguém pode destruir a nossa alma imperecível. Só o corpo material certamente morrerá, mas a alma é eterna em existência, indestrutível e infinita.
(…)
Quem pensa que a alma (ayam) pode matar ou morrer não entende a realidade, mas quem tem conhecimento sabe que a alma não mata e não pode ser morta. Nem nascimento nem morte pode acontecer a alma. Ela existe eternamente, e nunca é destruída quando o corpo perece. Oh, Arjuna, como pode alguém que sabe que a alma é eterna, não-nascida e indestrutível e imperecível causar a morte de alguma pessoa? E a quem ele mata?
Como quem muda de roupa e abandona as roupas velhas, a alma aceita um novo corpo descartando o corpo inútil. Ninguém pode ferir a alma com nenhuma espécie de arma; não há fogo que a queime; a água não pode molhá-la nem pode o vento secá-la. Nossa alma individual sendo imóvel e imutável, insolúvel, inquebrável e primordial. Sabendo, pois, que a alma é imperceptível, inconcebível e imutável, é impróprio pra você se lamentar.

Bhagavad Gita cap. 2; 11-25

ASATO MA

Om asato ma sat gamaya,
Tamaso ma jyotir gamaya,
Mrityor ma amritam gamaya

A ausência de verdade me conduz à verdade.
A escuridão me conduz à luz.
A morte me conduz à imortalidade.

Para os hindus, você hoje pode ser um Ser Humano e na próxima vida vir como uma vaca, ou um coelho. Por isso o respeito deles aos animais (eles podem ser seus parentes!). Considero a noção de Metempsicose um retrocesso por parte da natureza (que, em tudo o mais que vemos, não retroage. Ao contrário: evolui). A Doutrina Espírita me pareceu a mais correta nesse sentido, quando diz que a alma começa seu aprendizado nos minerais, vai adquirindo percepções e sentimentos como plantas e aprende a exercitar os instintos como animais irracionais. Só depois de muito tempo nestes estágios poderia então adquirir e dominar um veículo tão complexo como o corpo humano, que possibilita a consciência de questionar, dominar e transmutar todos os instintos e sentimentos. O ponto de vista da Teosofia, através de Alice Bailey (no livro O reaparecimento do Cristo) não parece ser diferente:

Deve-se levar em conta que, praticamente, todos os grupos e escritos esotéricos têm posto em relevo, irrefletidamente, a questão das passadas encarnações e sua recordação que resulta impossível de serem constatadas, porque qualquer um pode dizer e afirmar o que bem lhe aprouver; o ensinamento se tem baseado em leis inexistentes que se supõe regerem a equação tempo e intervalo entre uma vida e outra, esquecendo-se que o tempo é um produto da consciência cerebral, que não tem existência fora do cérebro; a ênfase tem sido posta sobre um falso conceito a respeito do relacionamento: O ensinamento, até agora difundido sobre a Reencarnação foi mais prejudicial que proveitoso.

Pouco sabemos além do fato de que tal lei existe. Aqueles que conhecem, por experiência, a realidade deste retorno, repelem, de plano, os pormenores fantásticos e improváveis que os grupos teosóficos e ocultistas expõem como realidades. A lei existe, porém nada sabemos acerca de seu mecanismo. Muito pouco se pode dizer a respeito dela que seja exato e isto não pode ser refutado.

1) A Lei do Renascimento é uma grande lei natural de nosso planeta.
2) É um processo estabelecido e levado a cabo de acordo com a Lei de Evolução.
3) Está intimamente relacionada com a Lei de Causa e Efeito e por ela condicionada.
4) É um processo de desenvolvimento progressivo que permite ao homem avançar, desde o materialismo irracional mais grosseiro até uma perfeição espiritual e uma inteligente percepção, que lhe permitirão chegar a ser um membro do Reino de Deus.
5) Explica as diferenças que existem entre os homens e, em conexão com a Lei de Causa e Efeito denominada Lei do Carma no Oriente, explica as diferentes circunstâncias e atitudes para com a vida.
6) É a expressão do aspecto vontade da alma e não o resultado da decisão de uma forma material; é a alma que existe em todas as formas que reencarna, escolhendo e construindo os adequados veículos físico, emocional e mental, com os quais pode aprender as lições necessárias.
7) A Lei de Renascimento, no que concerne à humanidade, entra em vigência no plano da alma. A encarnação é motivada e dirigida desde o nível da alma no plano mental.
8) As almas encarnam, ciclicamente, em grupos, de acordo com a Lei, a fim de estabelecer corretas relações com Deus e com seus semelhantes.
9) O desenvolvimento progressivo, de conformidade com a Lei do Renascimento, está condicionado, em grande parte, pelo princípio mental “assim como o homem pensa em seu coração, assim ele é“. Estas breves palavras merecem uma cuidadosa reflexão.
10) Sob a Lei do Renascimento, o ser humano lentamente desenvolve sua mente, logo, esta começa a controlar o sentimento, a natureza emocional e, finalmente, revela ao homem sua alma, natureza e meio ambiente.
11) Nessa etapa do desenvolvimento, o homem começa a percorrer o Caminho do Retorno e se dirige, paulatinamente, depois de muitas vidas, para o Reino de Deus.
12) Quando o homem – devido à mentalidade desenvolvida, à sabedoria adquirida, ao serviço prático prestado e à compreensão – aprendeu a nada pedir para o eu separado, então já não deseja viver nos três mundos e se libera da Lei do Renascimento.
13) Então, é consciente do grupo, da alma de seu grupo e da alma de todas as formas, alcançando, tal como Cristo dissera, uma etapa de perfeição crística, chegando “à Medida da estatura da Plenitude do Cristo” (Ef. 4,13)

Os gregos Órficos, por exemplo, expunham sua Doutrina Palingenésica numa roupagem filosoficamente avançada, que influenciou Sócrates e Platão (na obra Fédon), dentre outros. Antes dele, Pitágoras também a adotou como condição sine qua non para a evolução plena da alma. Clemente de Alexandria (posteriormente cassado pela Igreja Católica) e Orígenes, o Cristão (considerado “o maior erudito da Igreja antiga”) também a divulgariam.

“Dizem, com efeito, que o homem piedoso e fiel aos seus juramentos revive nos filhos dos seus filhos e na sua posteridade. Quanto aos ímpios e injustos, mergulham-nos na lama do Hades (inferno) e os condenam a transportar água num crivo; durante a vida, os condenam à infâmia, e todos esses castigos que Glauco enumerou a propósito dos justos que parecem injustos são aplicados aos maus.”

Platão; A República (Cap. II)

Na Europa gaulesa e britânica, os druidas acreditavam na reencarnação em termos semelhantes aos gregos e budistas.

Enfim, a reencarnação é mais uma regra do que uma exceção na cultura humana. Mas o processo não é muito claro em nenhuma cultura, por isso abre margem para especularmos a respeito. O pensamento abaixo não tem a pretensão de reescrever a teoria da reencarnação pra qualquer doutrina, apenas fornecer um ponto de vista alternativo, paralelo. O texto não é exatamente meu; é sim uma coletânea de coisas que foram debatidas na lista Voadores, principalmente por Lázaro Freire, Patrícia Montini e Arauto Draconiano.

CONTRAPONTO

Vejamos alguns dados que comprometem o raciocínio reencarnacionista tradicional:

1) Nascidos nesse planeta até meados de 2002 = 106.456.367.669 pessoas.
Fonte: Population Reference Bureau

2) Pessoas ainda vivas até meados de 2002 = 6.215.000.000 pessoas.
Fonte: Population Reference Bureau

3) Razão entre total de espíritos encarnados e total de espíritos desencarnados aguardando reencarnação = 1:10.
Fonte: Várias obras espíritas dão essa estimativa.

4) Total de espíritos que já nasceram alguma vez nesse planeta, mas que já passaram a habitar planetas mais adiantados e não mais encarnarão aqui (digamos uma estimativa conservadora de 10% do total de nascidos) = 10.645.636.766,9.
Fonte: CHUTE BRABO.

Conclusão:

1) 95.810.730.902.1 vidas já foram realizadas, distribuídas entre 68.365.000.000 espíritos, o que dá uma média de 1,4 vidas por espírito, o que significa que, se cada um dos 68.365.000.000 espíritos ainda ligados a esse planeta tivesse tido o mesmo número de encarnações que os demais, então cada espírito teria reencarnado 1,4 vezes.

2) Prosseguindo nos cálculos, chegamos à conclusão de que, para que pelo menos 10% dos espíritos ainda ligados a este planeta (encarnados ou não) tenham tido 5 encarnações, os outros 90% teriam que ter tido SOMENTE UMA ENCARNAÇÃO.

Estranho, não? Vejamos abaixo um diálogo do filme Waking Life, que é uma espécie de Quem Somos Nós da Filosofia e dos sonhos lúcidos, e que eu recomendo dicumforça para todos os leitores deste blog:

MEMÓRIA COLETIVA

Estes são os mesmos atores do adorado filme Antes do amanhecer

– Não me sai da cabeça algo que você me disse.
– Algo que eu disse?
– É. Sobre a sensação de que você observa a sua vida, da perspectiva de uma velha à beira da morte… Lembra?
– Sim… Ainda me sinto assim, às vezes. Como se visse minha vida atrás de mim. Como se minha vida desperta fosse de lembranças…
– Exatamente. Ouvi dizer que Tim Leary, quando estava morrendo, disse que olhava para seu corpo que estava morto, mas seu cérebro estava vivo. Aqueles 6 a 12 minutos de atividade cerebral depois que tudo se apaga. E um segundo nos sonhos é infinitamente mais longo do que na vida desperta. Entende?
– Claro. Tipo, eu acordo às 10h12. Então, eu volto a dormir e tenho sonhos longos, complexos, que parecem durar horas. Aí eu acordo e são 10h13.
– Exato. Então aqueles 6 a 12 minutos de atividade cerebral… podem ser a sua vida inteira! Quero dizer, você é aquela velha, olhando para trás e vendo tudo.
– Se eu sou, o que você seria nisso?
– O que eu sou agora. Quero dizer, talvez eu só exista na sua mente. Eu sou apenas tão real quanto qualquer outra coisa.
– É… Andei pensando sobre algo que você disse.
– O que é?
– Sobre reencarnação, e de onde todas as novas almas vêm ao longo do tempo. Todo mundo sempre diz ser a reencarnação de Cleópatra, ou de Alexandre, o Grande… Não passam de bestas quadradas, como todo mundo. Quero dizer, é impossível. Pense sobre isso: a população mundial duplicou nos últimos 40 anos, certo? Então, se você acredita nessa história egóica de ter uma alma eterna, há 50% de chance da sua alma ter mais de 40 anos. Para que ela tenha mais de 150 anos, é… uma chance em seis.
– O que você está dizendo? Reencarnação não existe? Ou somos todos almas jovens? Metade de nós é de humanos de primeira viagem?
– Não, eu só quero dizer…
– Aonde você quer chegar?
Eu acredito que de alguma forma a reencarnação é uma expressão poética… do que realmente é a memória coletiva…
Eu li um artigo de um bioquímico, não faz muito tempo. Ele dizia que, quando um membro de uma espécie nasce, ele tem um bilhão de anos de memória para usar. É assim que herdamos nossos instintos.
– Eu gosto disso. É como se houvesse uma ordem telepática da qual nós fazemos parte, conscientes ou não. Isso explicaria os saltos aparentemente espontâneos, universais e inovadores na ciência e na arte. Como os mesmos resultados surgindo em toda a parte, independentemente. Um cara num computador descobre algo e, simultaneamente, várias outras pessoas descobrem a mesma coisa.
Houve um estudo em que isolaram um grupo por um tempo e monitoraram suas habilidades em fazer palavras cruzadas em relação à população em geral. Então, deram-lhes um jogo da véspera, que as pessoas já tinham respondido. A sua pontuação subiu dramaticamente. Tipo 20%. É como se, uma vez que as respostas estejam no ar, pudessem ser pescadas. É como se estivéssemos partilhando nossas experiências telepaticamente…


ACESSANDO VIDAS

População da Terra:

1000: 310 milhões
1900: 1,6 bilhões
1950: 2,7 bilhões
2000: 6 bilhões (incluindo muitos dos acima)
2050: 9 bilhões (idem)

Não precisa de muita conta ou chute para ver que, matematicamente, quase todos estão na primeira “encarnação” aqui. Ou que o que chamamos de reencarnação pode ser algo bem mais coletivo, assim como a evolução, se “Somos Todos Um Só”. Será por isso que tantas pessoas diferentes dizem acreditar (mesmo!) ter sido Cleópatra – ou Allan Kardec? Será que não está na hora de abrirmos a mente para um modelo um pouco mais akáshico e coletivo para reencarnação?

Por outro lado, é inegável (aos espiritualistas e sensitivos) que acessamos, senão “vidas”, pelo menos “vivências passadas”, até como parte de nossa experiência pessoal. Podemos inclusive ter lembranças e sincronicidades. Mas será que vem mesmo de um ego de nossa “propriedade”? Será que o que acessamos em TVP, Akash e sonhos, vem mesmo da continuidade de nosso ego pessoal? E se somos todos um só, por que precisamos “ter” um ego tão pessoal assim?

Num artigo publicado essa semana pela revista Science, o Dr. H. Henrik Ehrsson, do Departamento de Neurociências Clínicas do Instituto Karolinska, em Estocolmo (Suécia), conseguiu induzir pessoas sadias a uma experiência extra-corporal. Segundo Ehrsson, o fenômeno é “uma ilusão perceptiva na qual os indivíduos experimentam que seu centro de consciência, ou seu ‘eu‘, está situado fora de seus corpos físicos, e que olham para seus corpos do ponto de vista de outra pessoa. Esta ilusão demonstra que o sentido de ‘ser‘, localizado dentro do corpo físico, pode estar determinado plenamente por processos perceptivos, isto é pela perspectiva visual junto com o estímulo multi-sensorial do corpo”. Caso não tenham entendido, é um cientista neuronal dizendo que seu EU não necessariamente existe dentro do seu corpo!!! E baseado em métodos científicos, publicados na prestigiada revista Science!

Lázaro conta que, certa vez, teve certezas íntimas de ter sido um personagem conhecido. Para não viajar muito, aceitou talvez ter sido um conhecido do cara, um colaborador. Mas o fato é que ele pegava um livro e lhe vinha tudo, fora sincronicidades variadas. Tudo o que faria um espírita (ou ufólogo místico) pensar ter sido “o” cara, e tentar recuperar sua “missão”. Por precaução, preferiu confirmar para si mesmo do que sair revivendo sua “encarnação” anterior. E obteve algumas confirmações. Até que começou a acessar a vida de outro autor B, com a mesma sinceridade e intensidade. Mais confirmações vieram, do mesmo modo. Mais tarde, ao pegar em um livro de um autor C, um pacote de conhecimentos lhe veio à mente. Ele já sabia o que estava escrito, escrevia parecido com ele, se identificou muito com o autor. O mesmo valeu para D, que referências de espiritualidades confiáveis lhe disseram mais tarde ter sido ele em uma outra vida. De fato, ele se identificava com todos eles. E os vários karmas de A, B, C e D explicavam bem sua vida, tanto nos defeitos quanto nas qualidades. O problema é que essas pessoas tinham vivido praticamente no mesmo tempo!! Ainda tentaram lhe dizer que talvez eles tivessem se encontrado, ou que talvez ele tivesse sido um intelectual que estudou muito os quatro, mas no íntimo ele sabe que os “acessou” de alguma forma.

O fato é que o nosso “hardware”, mesmo sendo de última geração, parece poder acessar os “softwares” mais antigos via emulação.

Um modelo mais “dilatado” dos Arquivos Akáshicos pode responder por estes fenômenos. Pra quem não sabe, esses arquivos são como registros de eventos que acontecem em determinado lugar. Um sensitivo, por exemplo, poderia, ao caminhar nas praias da Normandia (França), “acessar” algumas cenas do desembarque do Dia-D (mais ou menos como aquela propaganda do History Channel, o “descubra onde você está“) que ficaram impressas no “éter” ou “Akash” (a matéria-prima do Universo, na metafísica). Seria pelos mesmos motivos que certos lugares ficam “mal assombrados”.

NO CARNAVAL

Tenho até uma história interessante pra compartilhar sobre isso. Há alguns anos, no Carnaval aqui em Recife, estava eu à noite seguindo o “Batutas de São José” e cantando a melodia mais linda de todo o Carnaval brasileiro (Hino dos Batutas) quando, ao entrar pela Av. Marquês de Olinda, próximo ao Marco Zero, entrei numa espécie de limbo onde “via”, com os olhos da mente (e superposicionados acima da minha visão “real”) personagens de outros carnavais. Pude perceber claramente pierrots e colombinas debruçados nas janelas dos casarões (há muito abandonados), jogando confetes e serpentinas. Foi uma experiência muito, muito diferente do que simplesmente imaginar aquilo. Eu estava VENDO, e ao mesmo tempo não vendo! Achei aquilo tão estranho (ver uma janela aberta com um palhaço de gola larga, e por trás a mesma janela fechada) e tão lindo (a chuva de confetes, as serpentinas ligando um prédio a outro) que acabei saindo daquele estado, com lágrimas nos olhos por não termos isso hoje em dia.

Explicações pra isso podem envolver que eu tenha “lembrado” de outra encarnação minha em Recife, naquele mesmo ponto, num Carnaval qualquer. Posso ter acessado os registros Akáshicos, ou simplesmente me desloquei na linha do tempo (como naquele filme Projeto Philadelfia). Ou eu surtei e deveria ter tomado remédios… Mas são questões que não deveriam estar em um ou outro compartimento de crenças: elas devem ser abordadas por todos os ângulos, pois não temos a certeza de NADA.

VIDAS PASSADAS

Uma pessoa faz Terapia de Vidas Passadas para saber porque não gosta da nora e então descobre que ela roubou seu marido em outra vida. Tudo faz sentido, tudo se encaixa magicamente como num romance da Zíbia Gasparetto, e a pessoa sai dali dizendo que “se resolveu”. Pode até ser que isso tenha vindo de uma vida passada sim (há outras possibilidades), e talvez até tenha sido a dela (há outras também). Mas não basta, a meu ver, saber que o peso daqui é igual ao de lá, e que tudo está certo na mesma proporção. Ao contrário, creio que as coisas se encaixam tão magicamente assim (em sonhos, regressões ou romances da Zíbia) exatamente porque foram “feitas sob medida”, ou seja, são a perfeita compensação da mente. É como uma equação, o problema (nora) está de um lado da igualdade de tal modo que tudo se equilibre SE… (E aí vem o conteúdo da regressão). É nessa hora que o terapeuta tem como compreender de QUAL tipo de igualdade e variáveis estamos falando, e começar a atuar de modo a criar uma nova relação entre a sogra e a nora – e, provavelmente, de um grande Édipo que haveria nesse tipo de compensação (roubar meu filho = roubar meu homem).

Pode ser que a pessoa tenha mesmo vivido aquilo em outra vida. Mas ela viveu inúmeras outras coisas, e se o inconsciente foi buscar AQUILO, é porque ali deve estar o simbolismo para reequilíbrio e resolução. Pelo mesmo motivo, ele poderia buscar no Akash, na vida de outra pessoa, em um mito do inconsciente coletivo re-dramatizado oniricamente pelo transe, ou mesmo fabricado na hora, oniricamente, como forte imagem de compensação. No final das contas, tanto faz.

Tempo e espaço são conceitos que não fazem sentido para o inconsciente.

Sigmund Freud

A nossa abordagem psicológica / metafísica de hoje é como aquela fábula do elefante e dos três cegos: todos estão certos e ao mesmo tempo todos estão errados. Ken Wilber nos fala que cada escola ou teoria psicológica seria mais adequada à explicação de uma série de comportamentos específicos dentro de um “espectro” de comportamentos possíveis ao desenvolvimento humano. Assim, teríamos desde um quadro mais mecanicista, dado, por exemplo, pelo behaviorismo radical, até os mais avançados, como a da Psicologia Transpessoal. Cada escola estando, dentro dos seu enquadramento teórico, relativamente certa, nestas condições.

O pensamento transpessoal de Ken Wilber bebe na tradição da Teosofia (e, consequentemente, dos Rosacruzes) que, por sua vez, se inspira no modelo budista Tibetano, encontrado no Livro Tibetano dos Mortos, que rompe com o que comumente conhecemos como reencarnação da personalidade. Baseado nisso, Frank Visser propõe que o Ego espiritual (ou seja, o que achamos ser o espírito de João pedreiro, que já foi Napoleão em outra vida e jogou pedra na cruz de Jesus em Jerusalém) está dissociado da personalidade terrena (ou seja, esse espírito não foi nada disso, sendo apenas uma gota num oceano que já comportou gotas que animaram Napoleão, João pedreiro e o miserável que jogou pedra na cruz). Após a morte do corpo físico, o Ego espiritual vai embora pro seu mar e aquela personalidade ainda permanece um tempo no mundo astral e mental, se desvanecendo gradualmente (como uma pilha perdendo a carga) até sumir. Puf! Ali, no oceano, o Ego “descansa” (por horas ou anos) até que sinta a necessidade (que ele descreve como uma “fome“) de receber estímulos dos planos mais grosseiros, de sentir-se “vivo”.

Nós não somos mandados de volta à Terra contra a nossa vontade, e sim por necessidade. Somente se formos espiritualmente cônscios (ou seja, se já alimentamos nossas baterias no plano espiritual com plena consciência) não precisaremos retornar. Algumas boas almas retornam puramente pela vontade de libertar outras almas desse ciclo inconsciente (alguém falou Jesus?).

O que eu achei esquisito na teoria é que, se o ego espiritual encarna uma personalidade, o que é feito das memórias e experiencias dessa personalidade? É retida?? Se sim, então é o mesmo que dizer que a personalidade está retida no ego. Se é compartilhada com os outros egos, então como o ego pode sentir necessidade de “descer” pra “se alimentar” se ele compartilha da experiência de vida dos outros egos que estão “subindo”??

Aliás, esta última alternativa é a idéia que Carl Gustav Jung fazia da existência consciente depois da morte: uma consciência da humanidade. Quando alguém morre, “transmite” sua experiência para a consciência coletiva (que nunca excede o limite do que o homem encarnado pode alcançar, ou seja, nunca “aprende” nada do “lado de lá”), e é por isso mesmo que a vida aqui na Terra teria tanta importância, pois só aqui, na vida terrena, onde os extremos se tocam, poderíamos elevar a consciência geral.

Uma imagem interessante do Ego espiritual de Wilber é a do mergulhador que vai buscar uma pérola em altas profundidades. O espírito busca a pérola da experiência / vivência na Terra, mas não pode permanecer muito tempo ali. De quando em quando precisa retornar ao seu mundo original para “respirar”.

É um conceito similar em parte a concepção órfica da imortalidade: a alma está enterrada no corpo como se fosse um túmulo (soma-sema, que significa em grego corpo-túmulo). Como consequência, a existência encarnada se assemelha mais a uma morte e o falecimento constitui o começo da verdadeira vida. Esta verdadeira “vida” não é obtida automaticamente; a alma será julgada segundo as suas faltas e os seus méritos. Após um certo período, ela reencarna. A influência egípcia – julgamento de Osíris e reencarnação – é insofismável no Orfismo. Nessa via crucis de reencarnação em reencarnação, até mesmo em corpo de animais, a alma vai se purificando. Nesses intervalos reencarnacionistas a alma chega a demorar uns 1.000 anos no castigo do inferno, onde sofre um ciclo de pesadas penas. Quando completamente purificada, sai desse ciclo de gerações para reinar entre os heróis. O destino, obviamente, não será o mesmo para os iniciados órficos e os profanos. O mortal comum profano deverá percorrer dez vezes o ciclo antes de escapar.

O NÃO-EU (ANATTA)

Há um conceito difundido na Igreja Messiânica (e também na Igreja budista Risho Kossei-kai) de que somos a soma de milhares de antepassados. É a Doutrina Anatta (do “não-eu”), onde o que permanece após a morte não é a alma individual, mas sim o karma (ação) que se fez em vida. Segundo o ensinamento de Buda, a existência, a continuidade da vida e sua cessação são explicadas em uma fórmula detalhada – chamada de Patika Samuppada (produção condicionada), constituída de doze fatores:

  1. Pela ignorância são condicionadas as ações volitivas ou formações kármicas.
  2. Pelas formações kármicas é condicionada a consciência.
  3. Pela consciência são condicionados os fenômenos mentais e físicos.
  4. Pelos fenômenos mentais e físicos são condicionadas as seis faculdades (quer dizer, os cinco órgãos dos sentidos e a mente)
  5. Pelas seis faculdades é condicionado o contato. (sensorial e mental)
  6. Pelo contato é condicionada a sensação.
  7. Pela sensação é condicionado o desejo.
  8. Pelo desejo é condicionada a posse.
  9. Pela posse é condicionado o processo do vir-a-ser.
  10. Pelo processo do vir-a-ser é condicionado o nascimento.
  11. Pelo nascimento são condicionados:
  12. A decrepitude, a morte, as lamentações, as penas, etc.

Notem que é pela ignorância que todo o processo começou, gerando uma ação que gerou uma consciência. Há semelhanças aqui com o Velho Testamento (Gênesis) e a ignorância de Adão e Eva de se deixarem enganar pela serpente (uma leitura atenta mostra que no fundo eles desejavam ter o mesmo conhecimento / discernimento de Deus). Após isso, temos uma ação (a mordida do fruto da Árvore da Ciência do Bem e do Mal) e, finalmente, o lampejo de consciência (eu ≠ você) que os fez perceber que estavam “nus”. Fábula semelhante está representada pela queda de Lúcifer: A “queda” em si é tão justificada pela consciência recém-adquirida que não a percebemos como um ganho.

Quem cai pelo coração o sofrimento é tanto que redime. Quem cai pela inteligência – vejamos o exemplo da entidade demoníaca do texto bíblico, que não é tão simbólico quanto parece – não se sente caído…

Emmanuel

O CICLO DA VIDA

Nascer, morrer, renascer de novo e progredir sempre, tal é a Lei.

Frase desconhecida, inscrita no túmulo de Allan Kardec

É assim que a vida aparece, existe e continua, em forma circular (a tal roda de Samsara). Entretanto, se tomarmos esta fórmula em sentido contrário, chegamos a cessação do processo, um religamento ao Todo.

O que Buda nega é a idéia da existência de uma alma imortal individualizada. Afinal, se a alma foi “criada” em algum ponto, ela estará sujeita a cessar. E o budismo é enfático em dizer que tudo é impermanente. Então sua individualidade também é uma ilusão que precisa ser superada para evitar o sofrimento, assim como sua idéia de “meu corpo”, “minha família”, etc.

Talvez estejamos apegados demais à nossa personalidade para analisarmos a reencarnação não só como flores individuais desabrochando e morrendo, e sim como um jardim, onde cuidamos das flores individual e coletivamente, buscando um efeito que só pode ser apreciado à distância.

O Prof. Alberto Cabral, do CEFLE, costuma dizer que aqui na Terra há “reencarnações por arquétipos“. Na visão dele, diferente do que o espiritismo prega, as pessoas não vêm reencarnar com seus parentes e situações de outrora, pois seria impossível em termos práticos. Os espíritos apenas vestem encarnações similares, situações parecidas onde der pra encaixar, as quais somadas fecham o cenário para que a pessoa encontre – ou supere – os complexos que precisaria, karmicamente, encontrar. Ex: Você tem a impressão que tava encarnado na vida passada com um amigo desta. Mas na verdade teu amigo da vida passada “evoluiu” mais rápido que você, que continua, por exemplo, brigão. Então teu amigo atual é outro espírito brigão apenas parecido com o que o teu primeiro amigo era na vida passada. A fila andou. Não faria sentido teu primeiro amigo continuar do teu lado vivendo as mesmas coisas se ele já aprendeu o que você ainda não conseguiu. A gente reencarnaria por sintonia – lugares e pessoas necessárias ou compatíveis pra vivência dos karmas, algo assim. Tal conceito guarda grande semelhança com o Anatta budista.

Krishnamurti nos fala que a gente morre e não sobra nada individual, existindo tão-somente um tipo de “padrão coletivo de emoções”, um campo que seria “personalizado” a cada nascimento. Acho que, para ele, só sai dessa roda de Samsara quem desperta, sai do rio da vida, saindo do padrão ego / pensamento / emoção; só que daí também não sobraria nada individual, porque esse “desperto” aí se fundiria no grande e incompreensível Todo que existe além do rio.

Para a Gnose, a alma individualizada tem ao seu dispor 108 vidas para alcançar a auto-realização. Caso não consigam, deverão involuir no reino mineral até que passem pela “Segunda Morte”. Após isso, a Essência, a Alma ou princípio imortal, escapa e volta para a superfície, para a luz do sol, a fim de recomeçar a jornada, a fim de iniciar uma nova evolução, desde o estado mineral, passando pelo vegetal, animal, e chegando, novamente, no estado humano ou humanóide que outrora perdeu. Aí novamente serão consignadas mais 108 vidas. Se nos auto-realizamos no novo ciclo, ótimo; se falhamos, repetiremos todo o processo.

Para os Rosacruzes, cada ser humano renasce no plano terreno a cada 144 anos, em média. Se, por exemplo, uma pessoa vive 80 anos neste plano terrestre e morre, a alma e a personalidade da referida pessoa permanecem no plano cósmico psíquico cerca de 64 anos antes de se reencarnar, a fim de completar o ciclo de 144 anos. Seguindo o mesmo raciocínio, a criança que desencarna aos quatro anos de idade teria de permanecer 140 anos aguardando a reencarnação.

No Bhagavad-gita, a mais famosa escritura do hinduísmo e a base principal o movimento Hare Krishna, lê-se: “Assim como a alma corporificada continuamente passa nesse corpo da infância à juventude e à velhice, do mesmo modo, a alma passa a outro corpo após a morte. A alma auto-realizada não se confunde com tal mudança”. Os Vedas também explicam que, no mundo material, a alma transmigra dentro de um ciclo de nascimentos e mortes materiais através de 8.400.000 formas de vida. A forma de vida humana, entretanto, é a única em que a pessoa pode se auto-realizar. As espécies de vida inferiores às humanas não são dotadas com inteligência suficiente para compreender a diferença entre o eu e o corpo.

Para a ciência, existe ainda a possibilidade de multiversos. Então, como fica a individualidade em cada universo paralelo? O resultado dessa salada toda parece apontar pra o aperfeiçoamento de uma individualidade duramente conquistada, reformada e aprimorada pra voltar outra vez pro Todo de onde só aparentemente “saiu”. Por que tudo isso começou? Será que é o Criador / Todo querendo se reconhecer (In Lake’ ch)? O Deus em mim saudando o Deus em você (Namastê)? Será que esse processo todo foi um engano? Ou será que gera algum tipo de energia que mantém nosso universo?

bandeira da espanha Ler em espanhol (por Teresa)

Referência:
Reencarnação e corpo físico;
Reencarnação no judaísmo;
Reencarnação no cristianismo;
Reencarnação no Zen;
Dívidas e reencarnação;
Reencarnação para os egípcios;
Reencarnação para os gregos;
Considerações sobre a Idéia da Reencarnação Ontem e Hoje: Uma Abordagem Científica, Histórica e Psicológica;
O mito de orfeu;
Análise da alma, por James Hillman (discípulo de Jung)

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