WAKING LIFE: O DESPERTAR DA VIDA

Quem gosta dos assuntos desse blog DEVE assistir ao filme Waking Life (O despertar da vida). Dirigido por Richard Linklater, ele foi baseado em idéias de Platão, Aristóteles, Nietzsche, Jean Paul Sartre, e é todo construído em diálogos (como Sócrates gostava de filosofar) e perguntas jogadas ao vento.

Dizer sim a um instante é dizer sim a toda a existência.

Waking Life

Ele tem um forte apelo estético – foi filmado com atores reais e cada cena foi desenhada por cima com o auxílio do computador, dando um aspecto vetorizado a umas cenas e mão-livre em outras – mas não se deixem enganar pelo aspecto “muderno”: o maior avanço deste filme é realmente o espiritual. Ele não tem um roteiro linear. Trata-se de encontros do personagem principal com outras pessoas, cada uma delas com uma contribuição filosófica e espiritual a dar. Recomendo pausar o filme no fim de cada encontro pra poder “digerir” a quantidade de informações.

O começo é meio chato, se acharem também podem pular pra os 9 minutos, que é onde as conversas realmente começam.

O que me surpreendeu foi descobrir que um filme norte-americano pode ser tão profundo e sutil. As idéias não são jogadas “na cara”, e sim sutilmente veladas. Quem conhece projeciologia vai se divertir vendo o personagem dizer que está preso num sonho, vai reconhecer um walk-in (seres de outros planetas que eventualmente encarnam aqui) e perceber quem ainda está encarnado (mas projetado) e os usos que eles fazem desta “outra vida”, enquanto dormem. FANTÁSTICO.

Vou colocar aqui justamente o diálogo final do filme, do cara que joga fliperama (e que, por acaso, é o diretor do filme) sobre o sentido da vida:

– Deixe eu lhe contar um sonho que tive. Li um ensaio de Philip K. Dick…
– No seu sonho?
– Não, eu o li antes do sonho. Esse é o preâmbulo. Era sobre aquele livro, Flow My Tears, the Policeman Said, você o conhece?
– Ele ganhou um prêmio por esse livro.
– É um que ele escreveu muito rápido. Simplesmente fluiu. Ele sentiu como se o estivesse psicografando, ou algo. Quatro anos antes de vir a ser publicado o livro, ele estava em uma festa, e conheceu uma mulher com o mesmo nome que a mulher do livro. E o namorado dela tinha o mesmo nome que o namorado da mulher do livro. E ela estava tendo um caso com um delegado de polícia, que tinha o mesmo nome que o delegado de seu livro. Tudo o que ela dizia sobre a vida dela parecia ter saído de seu livro.
Isso tudo o deixou muito assustado, mas o que ele podia fazer?

Anos depois, ele foi pôr uma carta no correio e viu um sujeito meio estranho em pé, ao lado de seu carro. Mas, ao invés de evitá-lo, como normalmente teria feito, ele disse: “Posso ajudá-lo?” E o sujeito disse: “Sim, eu fiquei sem gasolina”. Ele lhe deu algum dinheiro, coisa que jamais teria feito.

Ele chega em casa e pensa: “Ele não conseguirá chegar ao posto. Ele está sem gasolina!

Então, ele volta, acha o sujeito e o leva ao posto de gasolina. Enquanto estaciona, ele pensa: “Isto também está no meu livro! Este mesmo posto. Este mesmo sujeito. Tudo!

Bem, este ocorrido é um tanto assustador, certo? Então ele resolve contar a um padre que ele escreveu um livro e que, quatro anos depois, tudo isso aconteceu.

E o padre diz: “Este é o Livro de Atos dos Apóstolos“.
Ele responde: “Mas eu nunca o li!“.
Então ele lê o Livro de Atos e lhe é estranhamente familiar. Até os nomes dos personagens são iguais aos da Bíblia!

O Livro dos Atos se passa em 50 d.C. Então, Dick criou uma teoria segundo a qual o tempo é uma ilusão e estaríamos todos em 50 d.C! E que a razão pra ele ter escrito esse livro era que ele, de algum modo atravessou essa ilusão, esse véu do tempo, e o que ele viu ali foi o que acontecera no Livro dos Atos.

Ele se interessava pelo gnosticismo e pela idéia de que um Demiurgo, ou demônio, teria criado essa ilusão do tempo para nos fazer esquecer que Cristo retornaria e que o Reino dos Céus estava pra chegar. E que estamos todos em 50 d.C e há alguém tentando nos fazer esquecer que Deus é iminente. Isso define o tempo e a História. É só um tipo de devaneio ou distração contínuos.

Então eu li isso e pensei: “Que estranho“. E, naquela noite, eu tive um sonho. E nele havia um homem que, supostamente, era um paranormal. Mas eu pensava: “Ele não é realmente um vidente“. Então, de repente, começo a flutuar, levitando até atingir o teto. Eu estava quase atravessando o telhado, quando digo: “Ok, Sr. paranormal, tudo bem, eu acredito em você“. E flutuo de volta. Quando meus pés tocam o chão o vidente vira uma mulher usando um vestido verde, e esta mulher é Lady Gregory. Ela era a patrona de Yeats, uma irlandesa. Mesmo nunca tendo visto a sua imagem eu tinha certeza de que esse era o rosto de Lady Gregory.

Então, enquanto andávamos, Lady Gregory vira-se para mim e diz “Deixe-me explicar-lhe a natureza do universo. Philip Dick está certo quanto ao tempo, mas errado quanto a ser 50 d.C. Na verdade, só existe um instante, que é agora. E é a Eternidade. É um instante no qual Deus está apresentando um pergunta, que é basicamente: “Você quer fundir-se com a eternidade? Você quer estar no céu?” E estamos todos dizendo: “Nããão, obrigado. Ainda não“. Logo, o tempo é apenas o constante “não” que dizemos ao convite de Deus. Isso é o tempo. Não estamos em 50 d.C., como não estamos em 2001. Só existe um instante. E é nele que estamos sempre”.

Então ela me disse que esta é a narrativa da vida de todo mundo. Por detrás da enorme diferença, há apenas uma única história, a de se ir do “não” ao “sim“.
Toda a vida é: “Não, obrigado. Não, obrigado“. E, em última instância é: “Sim, eu me rendo. Sim, eu aceito. Sim, eu compreendo“. Essa é a jornada. Todos chegam ao “sim” no final, certo?

Então, continuamos a andar e meu cachorro corre em minha direção. Fico tão feliz. Ele morreu anos atrás. Estou fazendo carinho nele e percebo um troço nojento saindo de seu estômago. Olho para Lady Gregory e ela tosse, se desculpando. E há vômito escorrendo por seu queixo, e o cheiro é horrível. E eu penso: “Peraí, isto não é só cheiro de vômito. É cheiro de vômito de gente morta!“. Isso é duplamente horripilante. Então percebo que estou no Mundo dos Mortos. Todos à minha volta estão mortos. Meu cachorro morrera há 10 anos, Lady Gregory há muito mais tempo.

Quando acordei, pensei: “Aquilo não foi um sonho. Foi uma visita a um lugar real, o Mundo dos Mortos!“.
– O que aconteceu? Como você conseguiu sair de lá?
– Cara, isso foi uma daquelas experiências que transformam a vida. Eu nunca mais voltei a ver o mundo do mesmo jeito.
– Mas como é que você finalmente saiu do sonho? Esse é o meu problema. Eu estou aprisionado! Fico achando que estou acordando, mas ainda estou num sonho. Quero acordar de verdade. Como se acorda de verdade?
– Eu não sei… Não sou mais tão bom nisso. Mas, se é o que está pensando, você deve fazê-lo, se puder. Porque, um dia, não será mais capaz… então – é fácil – simplesmente acorde.

bandeira da espanha Ler em espanhol (por Teresa)

Referência:
Crítica do Omelete;
Roteiro do filme (inglês);
Guia com figuras e comentários de cada cena (inglês)
IJRS – A experiência de estar perdido

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