MATRIX RESURRECTIONS

Matrix Resurrections: o maior “F#ck you” da história do cinema à industria dos blockbusters (contém spoilers).

MATRIX RESURRECTIONS

Imagine-se numa sala com um grupo de mentes criativas contratada pelo estúdio pra fazer um brainstorm de idéias pra uma sequência:

– O pacote diante de vocês contém nossa pesquisa de grupo de foco. Dentro, encontrarão o detalhamento, incluindo a associação de palavra-chave com a marca, sendo as duas primeiras “originalidade” e “frescor”, que acho serem grandes pontos para se ter em mente quando começarem a trabalhar no Matrix 4.
– O que tornou Matrix diferente? Ele f*deu com nossa cabeça!
– As pessoas nos querem dentro de suas massas cinzentas, ligando a luz sináptica do “que diabo está acontecendo aqui?”.
– Não amei o primeiro, como alguns de vocês, e francamente, tenho tolerância zero para qualquer coisa que exija um dicionário e um marcador de texto.
– Obviamente, Matrix é sobre Trans-política, Cripto-fascismo!
– É uma metáfora da exploração capitalista!
– Não pode ser outro reboot, repetição, regurgitação…
– Por que não? Reboots vendem.

matrix resurrections caos
– Precisamos de armas, muitas armas!

Esses diálogos, que CERTAMENTE fizeram parte da vida dos (então) Irmãos Wachowski enquanto eles faziam as sequências do seu primeiro filme de sucesso (The Matrix), devem ter retornado como “sugestões” pra (agora) Lana Wachowski, que desta vez assumiu sozinha a função de ressuscitar a franquia. Até porque o estúdio falou que continuaria a franquia com ou sem eles.

Por incrível que pareça, todos esses diálogos estão DENTRO do filme, meticulosamente feito pra ser uma paródia cínica e um soft reboot da franquia, mas (também) meticulosa e propositalmente feito sem alma alguma, como que ansiando que o filme não faça sucesso e caminhe a passos largos para a própria morte.

Eu procurei não ler nada sobre o filme antes de vê-lo pra não ser influenciado, mas logo ficou claro (pela reação do Twitter) que muitos acharam o filme ruim, enquanto alguns poucos acharam genial. Eu consegui evitar análises e spoilers, então eu realmente estranhei o tom do filme, que o tempo todo mostrava com cinismo o que o público médio ESPERAVA que o filme fosse, e o que eu naturalmente esperaria seria a subversão dessas regras, mas o filme entregava EXATAMENTE o que criticava. Depois de um tempo eu pensei: isso não é um acidente, nem uma concessão, nem uma meta linguagem inteligente; ela está tentando passar uma mensagem que não tem nada a ver com a história do Neo, Trinity ou com a Matrix da primeira trilogia. A mensagem, que ficou clara no final, é “deixem a franquia em paz. Ela terminou no Revolutions, e se vocês tentarem exumá-la eu estarei aqui pra fazer o que eu quiser com ela e destruir todas as suas deturpações conspiratórias”. E pra quem foi essa mensagem?

The Matrix é um filme que surgiu DO NADA em 1999 trazendo uma mensagem sobre pessoas desconfortáveis em “seus mundos” que desconfiavam que a realidade era mais do que se apresentava a elas. Nessa jornada, eles descobrem que a Realidade / Verdade é PIOR do que a vida que eles viviam, por conta da estupidez humana que acabou por destruir o mundo e nos tornar escravos das máquinas. Tudo isso baseado em filosofia das mais diversas culturas, misturando religião, niilismo, fé, vontade, determinação e aceitação. Um caldeirão de influências, onde a Verdade não pode ser vista por um único ângulo, assim como o filme não podia ser visto por um único ângulo. Ele revolucionou a ação no cinema e o seu maior legado foi a idéia de que é possível ter um blockbuster cerebral, o que influenciou (e financiou) dezenas de filmes feitos para o grande público, mas com conteúdo de alto nível (como Inception). Os questionamentos que foram postos em ação naquele filme culminaram em mais duas continuações, onde se vê mais ação, mais explosões, cenas grandiosas, videogames, mais filosofia, mais momentos WTF, mais e mais… e isso teve seu ápice em The Matrix Reloaded, onde a história se expandia pra todos os lados, mas não ia efetivamente pra canto algum. Somente nos 30 minutos finais de The Matrix Revolutions é que a história vai pra algum canto, e finalmente vemos a solução filosófica para o dilema do “eu x eles“. Uma solução elegante, CORAJOSA pra um blockbuster que, àquela altura, já tinha status de franquia multimídia, e onde os criadores matam seus personagens principais e dão um desfecho satisfatório tanto pra quem foi ver pela Filosofia quanto pra quem foi ver pela porrada ou pelos tiros.

Mas eis que 20 anos se passaram e a mensagem meio que se perdeu no meio da enxurrada de informações inúteis que a Internet nos proporciona, e é muito, MUITO irônico que a mitologia The Matrix tenha sido sequestrada por um grupo que é exatamente o oposto do que o filme pregava: Os Qanons, que são teóricos da conspiração de extrema-direita, conservadores “cristãos” que espalham uma versão muito particular de seu próprio mundo / Matrix pra seus seguidores usando a Internet. São COMPLETAMENTE descolados de QUALQUER NOÇÃO de realidade, são um rebanho de gados sendo alimentados diariamente com teorias e mais teorias e questionamentos mil, para que não tenham tempo de processar a informação que receberam nem confrontá-la com os fatos ou com a realidade. O cérebro dessas pessoas derreteu mas eles se autodenominam red-pills, uma alusão à pílula vermelha pra sair da Matrix. Vivemos num tempo em que os que dormem mais profundamente se consideram os “despertos”.

É mais irônico ainda quando você percebe que todos esses questionamentos que pululavam na cabeça dos Irmãos Wachowski e que viraram The Matrix vinham de uma inquietação interna que acabou os levando a trocarem de sexo, e um forte símbolo que adentrou a mística do filme (a pílula vermelha) tem origem justamente numa pílula de estrógeno (usada pra ajudar na mudança de sexo), que nos anos 90 tinha a cor vermelha. E o agente Smith, que era parte do sistema de controle da Matrix, deixa isso ainda mais evidente na insistência de repetir “SENHOR Anderson” toda vez que se dirigia a Neo. Outra coisa que estava planejada (mas não saiu do papel) era a mudança de gênero da personagem Switch (a única que usava branco na Matrix). Ela seria homem no mundo real e mulher na Matrix.

Então, quando grupos de dementes se apossaram do filme pra mostrar que estão “despertos para um mundo controlado pelo feminismo” isso meio que mexeu na cabeça das Irmãs Wachowski, a ponto de surgir esse delicioso “diálogo” no Twitter:

Elon Musk fala "tomem a pílula vermelha", Ivanka Trump responde "tomei" e Lily Wachowski responde: F*dam-se vocês dois" .
Elon Musk fala: “tomem a pílula vermelha“, Ivanka Trump responde: “tomei” e Lilly Wachowski responde: “F*dam-se vocês dois” .

Eu sei exatamente como as diretoras se sentem, pois ver sua criação ser roubada e distorcida a ponto de se voltar contra você é algo pelo qual passei em 2020. Um site negacionista de extrema-direita Português estava aceitando sugestões de “sites similares” ao deles, e um leitor de lá resolveu sugerir o meu (provavelmente por causa do nome). Por sorte, eu acompanho os links que desembocam na minha homepage e descobri tudo. Primeiro eu pensei que não daria em nada, afinal era só um link no canto do site, no meio de outras páginas, mas eis que começa um tráfego de pessoas vindo de lá. Eu, que já vinha sistematicamente deletando os posts sobre política que eram só raiva e decepção com o cenário da época e que hoje não contribuíam com nada, me senti enojado com a associação e daí pedi, via Twitter, pra retirar meu site da página deles. Fui ignorado. Então eu fiz o post Aos de Direita, já completamente esgotado e sem esperança de um futuro melhor com tanto lixo humano no mundo. Pedi de novo. Ignorado. E enquanto isso iam pipocando comentários idiotas em posts meus. Até que eu fiz O Direito social e a obrigatoriedade da vacina, e pedi novamente. SÓ AÍ eles se tocaram que talvez não fosse legal ter um link pra minha página, e removeram. Ironicamente, eu não teria feito nada disso se não fosse por eles, então, de certa forma, obrigado por ter me propiciado a oportunidade de me posicionar de forma tão óbvia e incisiva sobre um assunto que nem precisaria ser abordado se tivéssemos uma sociedade mais inteligente.

Mas o que tem isso a ver com o novo Matrix? Tudo, porque provavelmente esse NÃO seria o filme que Lana faria se não fossem os Qanons e o rebanho. The Matrix Resurrections não é um filme, é um PROTESTO. E um protesto de uma pessoa mentalmente esgotada, porque não tem nem muita criatividade ou subjetividade envolvida. É direto. Tristemente direto.

“Agora, meu antecessor amava a precisão. A Matrix dele era cheia de fatos e equações complicadas. Ele odiava a mente humana. Ele nunca se incomodou que vocês não ligam para fatos. É tudo só ficção. O único mundo que importa é esse que está aqui (apontando pra cabeça). E vocês acreditam nas merdas mais malucas.
Por quê? O que valida e torna suas ficções reais?
Sentimentos.”

O novo “Criador” da Matrix, agora um Analista, falando praticamente a definição de pós-verdade

O filme começa cena por cena igual ao primeiro, com diálogos só um pouco diferentes, com uma Trinity só um pouco diferente (e com uma roupa que parece um cosplay de baixo orçamento) e duas pessoas “de fora” acompanhando. Era uma Matrix dentro da Matrix, um joguinho. Outros corpos reencenando os mesmos personagens de uma forma piorada, quase como FARSA (Se antes tínhamos Simulacro e Simulação, hoje temos a pós-verdade, se antes tínhamos tragédia, hoje temos farsa). Isso fica bem claro quando o personagem Smith se descobre – fora do jogo – como Morpheus e reencena sua apresentação ao Neo saindo de um banheiro (e FALANDO ISSO) enquanto repete as mesmas frases do filme anterior sarcasticamente. Não há sutilezas nesse filme.

“Sei que você disse que a história acabou para você, mas esse é o problema das histórias. Elas nunca acabam de verdade, não é? Continuamos contando as mesmas histórias de sempre, apenas com nomes
e rostos diferentes.”

o “novo” Agente Smith, agora dono de uma empresa de videogames, pedindo a Neo um novo Matrix

Neo é a pobre da Lana, forçada a continuar o filme ou alguém vai pegar o “bebê” dela e fazer sabe-se lá o que.

O “novo” Morpheus resolve reencenar a entrega das pílulas a Neo diante da exibição primeiro “jogo” (filme) numa tela rasgada, porque:

Nada conforta a ansiedade como um pouco de nostalgia.

Morpheus

Acontece que Neo detesta o gato do seu Analista, o Déjà-Vu. E ainda assim o filme é cheio de Déjà-Vu, com cenas filmadas exatamente iguais às do primeiro filme, além de flashbacks inseridos aqui e ali.

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Os verdadeiros fãs de Matrix podem ficar decepcionados, talvez até traídos, mas esse filme não foi feito pra vocês. Foi uma imposição. Os verdadeiros fãs de Matrix precisam entender que a trilogia acabou na trilogia. Tudo o que a Lana odiaria fazer e deixou claro no filme o quanto é mesquinho e barato fazer ELA FEZ, conscientemente. Se ela mostra com destaque que a saga The Matrix virou bonequinho na sala do Neo, por outro lado ela bota POKEMONS no filme, além de um pequeno Transformer (com direito a high-five!) que só estão ali pra tirar onda da nossa cara (o Estúdio deve ter adorado, aguardem os bonecos).

matrix resurrections frase realidade sonhos
“É tão mais simples enterrar a realidade do que se desfazer dos sonhos”. Neo está soltando um barro enquanto lê essa frase na porta do banheiro.

Trinity:
– Mas você criou A Matrix. Até eu já ouvi falar disso.
Neo:
– Sim. Mantivemos algumas crianças entretidas.
Trinity:
– E valeu a pena?
Neo:
(Riso nervoso)

Vi alguém criticar justamente o fato do filme ser tão auto-consciente e ainda assim repetir tudo o que critica da forma mais cínica possível. Eu me questionei isso enquanto assistia, mas percebi um padrão perturbador na história: o do suicídio. O pular do prédio. Temos isso no início (pular pela janela do prédio foi a forma como os heróis voltaram da Matrix dentro da Matrix), depois o episódio em que Neo quase se jogou do topo do prédio numa festa, depois o Neo quase saltando do prédio achando que podia voar, depois pessoas sendo usadas como projéteis humanos saltando dos prédios pra atingir Neo e Trinity, e por fim o salto de fé do prédio, só pra perceber que ele não voava (e quem voava agora era a Trinity!). O que passou pra mim foi um desejo das criadoras de suicidar essa série, de suicidar o Neo, uma figura do passado DELAS e deixar pra trás. Aparece até o Merovíngeo como o nerd desesperado dizendo que o Neo arruinou a vida dele. Lana sabia que essa seria a reação dos Qanons e fanboys ao filme. Não à toa surge a Trinity como a nova “The One“.

Fiquei pensando no quão irresponsável é associar a saída da Matrix a pular de prédios e janelas, haja visto que as pessoas são tão influenciáveis e “acreditam nas merdas mais malucas”. Mas algo que me diz que Lana, assim como sua irmã Lilly, já sabe disso:

Elon Musk fala "tomem a pílula vermelha", Ivanka Trump responde "tomei" e Lily Wachowski responde: F*dam-se vocês dois" .

A cena final da Trinity com o novo “Criador” é reveladora de toda a raiva e rancor com que foi feito esse filme, quando ela bate de todas as formas possíveis numa caricatura machista escrota que parece saída dos fóruns do Reddit:

matrix resurrections trinity
Posso culpá-la por isso? Não, não posso.

Depois da surra, o “Criador / Analista ” assume o papel do crítico Qanon / Conservador ao assistir a esse filme (que é um grande “f*da-se” a eles):

Analista:
– Agora sentem-se bem pelo que fizeram. Deveriam, foi uma vitória. Bravo!
Creem que têm todas as cartas, porque podem fazer tudo que quiserem neste mundo. Por mim, sigam em frente. Refaçam-o. Fiquem à vontade. Pintem o céu com as cores do arco-íris.
Mas é o seguinte: O gado não irá a parte alguma. Eles gostam do meu mundo. Não querem este sentimentalismo. Não querem Liberdade nem poder. Eles querem ser controlados. Querem a comodidade da segurança.
E isso significa vocês dois, de volta a suas cápsulas, inconscientes e sós como os demais.
Trinity:
– Não estamos aqui para negociar nada. Nós estamos a caminho de recriar o seu mundo.
Neo:
– Mudando algumas coisas.
Trinity:
– Gosto da ideia de “pintar o céu com as cores do arco-íris”.
Neo:
– Lembra o que uma mente livre pode fazer.
Trinity:
– Tinha esquecido. É fácil esquecer.
Neo:
– Ele torna isso fácil.
Trinity:
– É certo que sim.
Neo:
– Algo a se pensar.
Trinity:
– Antes de começarmos, decidimos passar para te agradecer. Você nos deu algo que jamais pensaríamos ter.
Analista:
– E o que é?
Trinity:
– Outra oportunidade.

E começa a tocar Wake up, música do final do primeiro filme, desta vez numa voz feminina.

Bom, Eu só espero que a Lana tenha feito um contrato bem amarradinho com a Warner, em que eles só possam fazer uma continuação de Matrix com outros diretores se nenhuma das irmãs originais estiver interessada. Assim, Lana sempre poderá “sabotar” os filmes.

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