EMANAÇÕES

Nas tradições espirituais de todo o mundo, há difundida a crença de que existe uma energia evolucionária que guia o homem de volta à sua origem divina. Os índios Hopi, do sudoeste dos Estados Unidos, entendiam que “o corpo vivo do homem e o corpo vivo da terra eram formados da mesma maneira. Em cada um deles corria um eixo, e o eixo do homem era a espinha dorsal, a coluna vertebral, que controlava o equilíbrio de seus movimentos e funções. Ao longo desse eixo existiam vários centros vibratórios que ecoavam o som primordial da vida através do universo ou soavam como um aviso se algo estivesse errado”. Em ordem descendente, os Hopi descrevem sua localização no topo da cabeça (“a porta aberta” pela qual o homem recebeu sua vida e comunicou-se com seu Criador), no cérebro, na garganta, no coração e abaixo do umbigo.

Segundo os Hopi, “O homem é criado perfeito, à imagem do seu Criador. Então, após fechar a porta (no topo da cabeça) e descer do estado de graça para a manifestação da vontade humana, ele começa sua lenta escalada de retorno para o alto… Com essa volta, o homem se eleva, fazendo funcionar de maneira predominante cada um dos centros superiores. Então, a porta no topo da cabeça se abre e ele mergulha na totalidade da Criação, de onde ele surgiu”.

Chakras e nadis

Essa energia é conhecida na Índia como Kundalini, e os centros (portas) correspondem aos chakras, descritos na Yoga. Os dois chakras inferiores citados na literatura yogui – o centro na base do órgão reprodutor e o centro na base da coluna – não são mencionados na tradição Hopi.

A natureza da Kundalini

De um modo ou de outro, quase todas as tradições falam dessa energia, descrevendo-a cada qual à sua maneira. Em japonês, chama-se Ki; em chinês, Chi; as escrituras cristãs a chamam de Espírito Santo. Na Índia é conhecida por Kundalini, que é o poder do Ser, o poder da Consciência.

A Kundalini é Shakti, a energia suprema, a quem os sábios da Índia adoram como a Mãe do universo. Shakti é a consorte (esposa) de Shiva (também conhecida como Parvati). Os que seguem a tradição da felicidade suprema a chamam de Ananda (Bem-Aventurança). Os yoguis a consideram a meta de sua Yoga. Os sábios iluminados a percebem em todas as formas e objetos do universo e, vendo a unidade de todas as coisas com Isso, a Isso se fundem.

Qual é a natureza desta Shakti? Ela é o poder criador supremo do Ser absoluto. Ela é Brahman na forma de som, a vibração sonora do Absoluto que manifestou o Universo (aqui podemos fazer um paralelo com o I-Ching). Nos mantras, toma a forma das letras, e nas palavras toma a forma do conhecimento. Todas as letras são compostas por Ela; é Ela que dá existência ao som, à linguagem e ao alfabeto. É o início e o fim. É a criação, a sustentação e a dissolução deste mundo.

Outro nome para a Kundalini é Chiti, a Consciência Universal. O Pratyabhijnãhridayam, uma das principais escrituras do Shivaísmo, a descreve dizendo: “A Consciência universal cria o universo por Seu livre arbítrio. Ela manifesta o universo sobre Sua própria tela”. Ou seja, cada átomo do mundo está preenchido por Chiti. Tudo que conhecemos é Chiti. Um agricultor semeia diferentes plantas na terra – pimenta, cana-de-açúcar, limoeiros – e, ao regá-las, faz com que a mesma água seja absorvida por estas planta. Quando a água penetra no limoeiro, adquire a qualidade do limão e torna-se ácida, e quando penetra na pimenta, torna-se picante. Porém, mesmo manifestando-se sob várias formas, o solo é o mesmo, a água é a mesma e o agricultor é o mesmo. De maneira idêntica, Chiti, a energia cósmica, converte-se neste universo multiforme. Ela não o cria do mesmo modo que um homem constrói uma casa, usando vários tipos de materiais e permanecendo diferente deles. Ela cria o universo a partir de seu próprio ser, e é Ela mesma que se torna o universo, penetrando as diferentes formas que vemos ao nosso redor.

Ela se torna o Sol, a Lua, as estrelas e o fogo. Torna-se o Prana (a força vital), para manter vivas todas as criaturas. O que vemos e o que não vemos; o que existe, da terra ao céu, nada mais é do que Chiti, nada além de Kundalini. É esta energia suprema que move e anima todas as criaturas, do elefante à formiga mais diminuta. Ela permeia todas as criaturas e coisas que cria; mesmo assim, nunca perde sua identidade e sua pureza imaculada.

Inimaginável a luz nos olhos!
Indescritível o tilintar no ouvido!
Incomparável o sabor na língua!
Imensurável a paz do inconcebível sushumna nadi!
Em toda parte você O encontrará:
Nas menores partículas de pó, Na madeira dura, ou num talo de grama macia.
Ele está em toda parte! O sutil, o imperecível, o imutável Senhor!

Allama Prabhu

O que diz a ciência

A própria ciência já chegou a conclusão de que “alguma coisa” que não podemos ainda identificar existe e dá sustentação energética a toda a matéria do universo. No começo do séc. XX, o Dr. Hal Puthoff provou que, mesmo no vácuo absoluto e protegido contra toda radiação eletromagnética – e numa temperatura onde toda a matéria deveria em teoria parar de vibrar (produzir energia) – foi encontrada uma tremenda produção de energia. De onde ela vem? Umas teorias falam na “matéria escura“, Energia do vácuo e Energia de ponto zero. O cientista russo Nikolai A. Kozyrev (1908-83) e o físico Nikola Tesla acreditavam que a energia se originava do Éter (um tipo de Chiti, por assim dizer). Segundo Tesla, o Éter “se comporta como um fluido quando em corpos sólidos, e como um sólido quando no calor e na luz“, e que debaixo de “voltagem e frequência suficientemente alta” ele poderia ser acessado.

Declaração quase esotérica, não?

A energia no Hermetismo

Então vamos voltar ao esoterismo “tradicional”, desta vez do ponto de vista do Hermetismo. Segundo estudos de José Laércio do Egito, no Cosmos somente existe uma “essência” susceptível de vibrar e que é inerente ao Ser Supremo. Aquela “essência” vibratória constitui tudo o que existe, embora ela não revele diretamente a sua própria natureza.

Tomemos como exemplo um “Pin” (instrumento de som usado por esotéricos pra iniciar ou terminar uma meditação), que consiste de um metal suspenso por um suporte, e apliquemos nele uma força, através de um martelinho. O metal começará a oscilar (vibrar), e conforme o número de oscilações por segundo, haverá a produção de um determinado efeito sonoro. Se fosse possível ir aumentando indefinidamente as oscilações do metal, depois de som iriam aparecendo outras das manifestações existentes no Universo; desde as radiações até a própria matéria. Um elétron é algo que vibra 10²³ (10 seguidos de 23 zeros). Quando o metal estivesse vibrando nesse imenso número de vezes por segundo ele emitiria tão somente elétrons (Evidentemente que o metal não se prestaria a uma experiência dessa natureza por não suportar tal nível de oscilação. A vibração separa a estrutura rígida que liga os átomos entre si e o material tornaria-se líquido).

Então temos:
A – Um agente ativo (uma força) capaz de iniciar ou de alterar a frequência;
B – Um agente passivo que oscila, que vibra (No exemplo, é o metal);
C – Um som resultante da interação desses dois elementos.

Isso é o que podemos perceber no mundo fenomênico. Mas, QUEM ou o QUE segurou no martelinho e bateu no metal para produzir o som? Antes do início das coisas criadas só existia o “NADA” – Inefável – que, na simbologia numérica, é o absoluto, o “zero”. Assim, podemos dizer que no “zero” existem em potencial três atributos: Um ativo, outro passivo, e mais um terceiro, que promove a interação dos dois outros. O terceiro princípio – que faz com que os dois outros princípios interajam entre si – é considerado como o Querer Cósmico (Vontade). Por isto se pode dizer que é da interação desses três “Atributos Primordiais” que resulta o Universo Imanente – Mundo Criado.

Talvez vocês já tenham matado a charada, mas só pra deixar claro, esses três princípios estão espalhados nas mais diversas culturas, de formas tão diversas que nem sempre percebemos a relação:

Taoísmo – Um, Dois e Três (I, Hi e We);
Hinduísmo – Brahman, Maya e Aum, ou Brahma, Vishnu e Shiva;
Egípcios – Osíris, Ísis e Hórus;
Zoroatrismo – Ahura-Mazdâ, Mithra (ou Asha) e Ahriman (ou Vohumano);
Budismo Mahayana – Amitabha, Avalokiteshvara e Mahasthamaprapta (ou Manjushri);
Xintoísmo – Amaterasu, Tsukiyomi e Susanoo;
Nórdicos – Odin, Vili e Ve;
Celtas – Rhianon (Virgem), Brigit (Mãe) e Ceridwen (Anciã);
Irlandeses – Morrigan, Badb e Macha;
Bálticos – Patollo, Perkuno e Potrimpo;
Sumérios – Sin, Shamash e Ishtar;
Druidas – Taulac, Fan e Mollac;
Romanos – Júpiter, Juno (ou Marte) e Minerva (ou Quirino);
Espíritas – Deus, matéria e espírito;
Platônicos – Ser, devir e receptáculo;
Igreja Ortodoxa Grega – O Pai, a Santa Sabedoria (Hágia Sophia) e o Cristo Cósmico;

E, por fim, o Pai, Filho e Espírito Santo do cristianismo. Onde o Pai seria a Vontade, o Espírito Santo seria o martelo (Yin, masculino) e o Filho seria o metal (Yang, feminino), que receberia o martelo e daí produziria a vibração (manifestação).

A energia no Oriente

Uma filosofia semelhante (não igual) está reproduzida no Tao Te Ching:

“O Tao gera o Um.
O Um gera o Dois.
O Dois gera o Três.
O Três gera dez mil coisas“.

Tao Te Ching, verso XLII

Segundo o verso 4, o Tao “parece ser anterior a Deus”, então dele surge a Vontade, representado pelo caractere Te (que significa lançar semente na água, ou seja, o poder latente, simbolizado pelo Fogo), que faz surgir o aspecto masculino, Yin (simbolizado pela terra) que interage com o três, Yang (simbolizado pelo ar), surgindo assim todas as coisas (Wang, simbolizado pela água), que também é Tao.

A harmonia é criada entre o Yin e o Yang, entre a obscuridade e luz, entre o atrás e o adiante. Por isso mesmo, no Aikido treina-se tanto para manter-se no centro, equilibrado. Morihei Ueshiba, fundador do Aikido, dizia para “manter-se sempre em Ame-no-Ukihashi” (a ponte que liga o céu e terra). Assim, quando ele fazia o kata Misogi-no-Jo, com movimentos espirais de baixo para cima e de cima para baixo, que ele descrevia como Ame-no-kagura (Dança Divina do Céu), ele se visualizava em pé na “Ponte Flutuante do Céu”, simbolizando o elo entre os reinos espiritual e material da existência.

O Mestre Ueshiba faz aqui seu Misogi com um Yari (lança), e não um Bo (bastão). Maître Ueshiba, exercices au Jo

O Universo é música

Há uma harmonia e equilíbrio que é natural ao Universo. Por volta de 520 a.C., o filósofo grego Pitágoras descobriu uma relação matemática entre som e harmonia. Ele mostrou que os sons que chamamos de harmônicos, prazerosos, obedecem a uma relação matemática simples. Pitágoras descobriu a base aritmética dos intervalos musicais, ou seja, a relação entre a frequência das vibrações e a altura dos sons.

Pitágoras construiu uma escala musical baseada em razões simples entre os números inteiros. Como essa escala era de caráter tonal, os pitagóricos associaram o que é harmônico com o que obedece a relações simples entre os números inteiros. E foi aqui que eles deram o grande pulo: não só a música que ouvimos, mas todas as harmonias e proporções geométricas (triângulos, quadrados, etc) podem ser descritas por relações simples entre números inteiros. Portanto, do mesmo modo que uma corda de um instrumento gera música harmônica para determinadas razões de seu comprimento, os padrões geométricos do mundo também geram as suas melodias: a música se torna expressão da harmonia da natureza, e a matemática a linguagem com que essa harmonia é expressa. Som, forma e número são unificados no conceito de harmonia. Assim, ele dividiu as múltiplas partes da Criação em um número vasto de planos ou esferas, cada qual com um tom, um intervalo harmônico, um número, um nome, uma cor e uma forma. Aplicando esse conhecimento ao movimento dos astros e relacionando as distâncias entre as esferas celestes com os intervalos musicais, os gregos atribuíam notas musicais aos astros, tentando identificar a melodia associada à musica mundana.

Como o som não se propaga no espaço, a idéia da “música dos astros” não encontra respaldo científico (o mesmo se dá com a distância entre os planetas, que na prática não obedece às escalas musicais) mas, do ponto de vista metafísico, ainda é válido analisá-la, pois guarda semelhança com os outros modelos:

Pitágoras concebeu o Universo como um imenso Monocórdio (instrumento de uma corda só), com seu único fio conectado no topo ao Espírito absoluto, e na base, à matéria absoluta (em outras palavras, uma ponte entre o céu e a terra). Pitágoras dividiu o universo em nove partes (12, para alguns). A primeira divisão era o lugar da habitação do imortais. Da segunda à décima-segunda habitam os planetas do sistema solar, a Lua, o fogo, o ar, a água e terra. O arranjo dos sete planetas conhecidos na época (o Sol e Lua eram considerados planetas) é idêntico ao castiçal dos judeus – o Sol no centro como o talo principal e três planetas de cada lado.

Divino Monocórdio

Acima vemos o Divino Monocórdio, de Robert Fludd. Aqui, todo o Universo é um instrumento musical de uma só corda; o próprio Deus é músico. Os astros estão dispostos segundo as regras da harmonia musical, e as distâncias que os separam respeitam as proporções dos intervalos. O som associado a cada planeta é tanto mais agudo quanto maior for a distância do planeta à Terra.

Conforme se pode ver na figura, em torno do instrumento há inúmeros semicírculos onde estão inscritas as várias forças da natureza, quer como formas materiais, quer como forças naturais. De uma nuvem sai uma mão que aperta a cravelha do instrumento. À medida que se aperta a cravelha de um instrumento, a corda vai se tornando mais tensa e, consequentemente, vão sendo emitidos sons cada vez mais agudos. O apertar da cravelha equivale a emitir vibrações de frequências mais elevadas. Se fosse possível a existência de tal “monocórdio cósmico”, capaz de gerar todas as vibrações possíveis, na medida em que fosse sendo aumentada a tensão da corda iria surgindo seguidamente: sensações táteis, som, luz, ondas radiofônicas, ondas de televisão, micro-ondas, radar, prótons, elétrons, matéria, e todos os mais níveis de emanações cósmicas. Em suma, todas as coisas que existem no universo iriam surgindo na medida em que a frequência fosse progressivamente aumentando.

Seguindo o exemplo de outros modelos de Criação, teríamos aqui o Imanente (Tao) se manifestando (Yin) na forma da mão que aperta a cravelha. A corda ressoa (Yang), e o resultado disto corresponde a todas as coisas criadas (Wang).

Emanações na Teosofia

Para a Teosofia, e de acordo com o livro Os Chakras, de C. W. Leadbeater, existem três Logos (Inteligências) atuando na Criação de todas as coisas: O primeiro Logos, o Pai, é representado pelo Espaço; o segundo Logos é o Filho, o Sol e o Cinturão Zodiacal; e o terceiro Logos é a Natureza. A Kundalini (conhecida na Teosofia por Fogo serpentino) provém do terceiro Logos, o “laboratório do Espírito Santo, oculto nas entranhas da terra”. É, digamos, a energia Divina em sua forma mais “grosseira” (adaptada, pois, ao nosso mundo material); é a manifestação da “Primeira Onda de Vida” no seu sentido ascendente.

Os Logos também são identificados por suas qualidades:

Primeiro Aspecto – Vontade, poder, propósito.
Segundo Aspecto – Amor, sabedoria, magnetismo.
Terceiro Aspecto – Atividade, inteligência, criação.

Assim, absorvemos a potente energia de Deus tanto por baixo, da terra, como por cima, do céu. Somos filhos da terra e também do Sol. Não podemos possuir uma energia sem a outra, e há muito risco no excessivo predomínio de uma delas (Daí o perigo de avivar as camadas inferiores da Kundalini antes de purificar e refinar a conduta).

Conhecemos tudo o que se possa saber a respeito de Deus? Se assim é, Deus é muito limitado. Não será possível que nossas idéias atuais sobre Deus, que consideramos como Mente Universal, Amor e Vontade, sejam enriquecidas por alguma nova idéia ou qualidade, para as quais ainda não temos nome, nem palavras nem a mais remota noção? Cada um dos três conceitos atuais de divindade, a Trindade, era completamente novo quando tais conceitos foram expostos, pela primeira vez, à mente ou à consciência do homem.

Alice Bailey; O reaparecimento do Cristo

Notem que estamos falando de coisas muito além da nossa compreensão REAL. Então precisamos de analogias e modelos pra poder começar a se acostumar com essa faceta mais dinâmica de Deus. Um modelo mostrado no livro Os Chakras ilustra bem (em tese, e de forma simplificada) a manifestação dos aspectos Divinos, de acordo com planos de existência, representados didaticamente por cores e nomes:

A dinâmica de tal modelo possui uma grande semelhança com o seguinte movimento do Tai Chi, em que “os céus se abrem e a terra se fecha” (Up Sky, Down Earth):

Tai Chi | Upward and Downward Movement | www.drweil.com

Como vimos no modelo teosófico, só entramos em contato direto com o primeiro aspecto do Logos (o Pai) quando nos manifestamos (espiritualmente) no plano mental. Os animais (ditos “irracionais”) ainda não adquiriram todas as características de inteligência (livre arbítrio, digamos assim) pra se manifestar nesse plano, existindo apenas no plano físico e astral (talvez alguns se manifestem no plano mental inferior), enquanto nós (humanos) nos manifestamos nesses dois e no mental, simultaneamente. Nisso está em concordância com o Espiritismo, que diz:

“O Espírito não chega a receber a iluminação divina, que lhe dá, simultaneamente com o livre-arbítrio e a consciência, a noção de seus altos destinos, sem haver passado pela série divinamente fatal dos seres inferiores, entre os quais se elabora lentamente a obra da sua individualização”.

Allan Kardec; A Gênese, VI–19

Quando este influxo Divino, misturado à energia terrena, “ascende“, essa ascensão é bem mais difícil (pra baixo todo santo ajuda, né?) por causa da “massa” (carga energética mais densa) que carrega consigo. É preciso então se desligar das coisas terrenas, como um avião que joga a carga fora pra poder continuar voando. Só que essa Energia Divina chega a um ponto onde ela adquire consciência de si mesmo (o plano mental) e se recusa a deixar de ser ela mesma, pois o instinto de sobrevivência, adquirido mais “lá embaixo” (plano físico), ainda está bem latente. É o estágio humano.

Nós estamos na Terra em uma manifestação grosseira do que de fato nós somos. As pessoas mais materialistas vão se identificar plenamente com esse corpo que podemos tocar. Os espiritualistas estarão mais familiarizados com o plano espiritual /astral – que ainda possui forma, individualidade –, enquanto os budistas anseiam buscar o plano búdico (do ser-e-não-ser ao mesmo tempo) e o nirvânico (quando deixam de “ser” um “eu” para ser um “EU superior”). Já no plano monádico não existe nem “EU”. Imagino que seríamos como uma gota de luz, no meio de um mar de luz. Já o plano Divino não poderia ser representado nem em pensamento.

Pois você é tudo isso junto. Todos esses corpos (e não-corpos) compõem o que é você, mas aqui na Terra o corpo físico tem a predominância. Sim, os corpos possuem suas necessidades e desejos. O corpo físico tem as necessidades materiais, sensoriais, enquanto o corpo astral sempre busca emoções. O corpo mental é dividido em dois, para efeitos didáticos. O mental inferior (que busca conhecimento, mais ligado ao físico), e o superior, que detém o conhecimento. Ele está como o timoneiro de um barco, guiando-o. Mas o corpo búdico é que é o capitão. É quem possui o “mapa” e sabe exatamente pra onde está indo. Se você conseguir sintonizar o plano búdico, vai poder pegar sempre o menor caminho para os seus objetivos evolutivos. Mas, graças a essa bagunça que é a Vida, nos ligamos apenas nos planos materiais e emocionais e esquecemos todo o resto. Não damos atenção à nossa intuição (que pode ser o seu EU superior ou seus guias espirituais) e pouco paramos pra pensar nas consequências espirituais de nossas ações. Assim, a pessoa que deveria aprender uma lição aqui neste planeta de expiações que é a Terra, vai ficando, ficando, se endividando, se enrolando em situações que poderiam ser resolvidas facilmente se ele parasse pra meditar.

O Eu no hinduísmo

No Bhagavad Gita, cap. 13, Arjuna quer saber de Krishna (que representa, na história, o Criador de todas as coisas) sobre a natureza das coisas. Krishna responde metaforicamente que o corpo é o Campo (Kshetra), e quem conhece este corpo chama-se o Conhecedor do Campo (Kshetrajña, que poderíamos chamar de Consciência, ou Corpo mental). E compreender este corpo e seu Conhecedor chama-se Conhecimento.

“Você acredita que ser mais forte, ou mais rápido, tem algo a ver com os meus músculos neste lugar? Você acha que está respirando ar?”

Deve-se entender que a natureza material e as entidades vivas não têm começo. As transformações por que elas passam e os modos da matéria são produtos da natureza material. Está dito que a Natureza produz todas as causas e efeitos materiais, ao passo que a Entidade Viva é a causa dos vários sofrimentos e prazeres deste mundo. Dessa forma, a Entidade Viva dentro da Natureza material segue os caminhos da vida, desfrutando os três modos da natureza, e daí decorre sua associação com essa natureza material. Assim, ela se encontra com o bem e o mal entre as várias espécies de Vida.

Contudo, neste corpo há outrem, um desfrutador transcendental, que é o Senhor, o Proprietário Supremo, que age como o supervisor e permissor e que é conhecido como Paramatma (Superalma, equivalente ao Corpo búdico). Aquele que compreende esta filosofia que trata da natureza material, da entidade viva e da interação dos modos da natureza com certeza alcançará a liberação. Ele não voltará a nascer aqui, não importa qual seja sua posição atual. Alguns percebem a Superalma dentro de si através da meditação; outros, através do cultivo de conhecimento, e outros através do trabalho desinteressado. E há também aqueles que, embora não sejam versados em conhecimento espiritual, passam a adorar a Pessoa Suprema após ouvirem outros falarem a respeito d’Ele. Por causa de sua tendência de ouvir as autoridades, eles também transcendem o caminho de nascimentos e mortes.

Tudo o que existe, seja móvel ou inerte, é apenas uma combinação do campo das atividades e do Conhecedor do Campo. Aquele que vê que a Superalma acompanha a alma individual em todos os corpos, e que compreende que a alma e a Superalma dentro do corpo destrutível jamais são destruídos, vê de verdade. Aquele que vê a Superalma igualmente presente em toda a parte e em cada ser vivo não se degrada por sua mente. Assim, ele se aproxima do destino transcendental. Quem pode ver que todas as atividades são executadas pelo corpo – que é uma criação da natureza material – e vê que o eu nada faz, vê de verdade. Quando um homem sensato deixa de ver diferentes identidades referentes a diferentes corpos materiais e vê como os seres se expandem por toda a parte, ele alcança a concepção Brahman. Apesar do contato com o corpo material, a alma sozinha nada faz nem se enreda. O céu, devido a sua natureza sutil, não se mistura com nada, embora seja onipenetrante. De modo semelhante, a alma situada na visão Brahman não se identifica com o corpo, embora esteja nesse mesmo corpo. Assim como o Sol ilumina sozinho todo este Universo, do mesmo modo a Entidade Viva, sozinha dentro do corpo, ilumina o corpo inteiro através da Consciência. Aqueles que com os olhos do conhecimento vêem a diferença entre o corpo e o Conhecedor do Corpo, e podem também compreender o processo que consiste em libertar-se do cativeiro da natureza material, alcançam a meta suprema.

Assim sendo, esses que possuem disciplina mental possuem mais poderes de realização (Siddhis), mas também as consequências serão mais imediatas e rigorosas, pelo mesmo motivo (um vento que sopra aqui e ali pode causar uma leve brisa, mas um vento que sopra numa certa direção move moinhos).

O Eu no cristianismo

É como o capitão de um navio querer ir para casa, mas no caminho o timoneiro querer conhecer a América Central, outro faz questão de parar em Cuba, etc. O capitão tenta impor sua vontade, mas aí acabam servindo um banquete pra toda a tripulação, onde muitos comem e bebem até cair e acabam esquecendo que têm um navio para cuidar. Todos os lugares em que o navio parar vão servir de experiência e conhecimento pra tripulação, e um dia eles chegarão em casa. Uns querem ir logo, outros acham melhor a vida no mar, com toda a liberdade e prazeres (que terminam por compensar as adversidades), e é por isso que gosto de dizer que não há “caminhos errados”, apenas caminhos que, de uma forma ou de outra, levam até a “casa” (leiam a parábola do filho pródigo).

A mente é força poderosa que atua em todos esses planos. Nós somos o que pensamos. Nosso corpo (veículo de manifestação) é em essência perfeito, uma máquina feita sob medida para cada pessoa, a fim de que possa responder à sua mente. Ele é tão mais maleável quanto mais sutil for o plano do corpo. Portanto, os nossos pensamentos e sentimentos aqui na Terra estão influenciando nossos corpos mais sutis, pra melhor ou pra pior. Esse é o segredo da parábola de Mateus 6:22-23, “A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo teu corpo terá luz; Se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes são tais trevas!”. Aqui ele não estava se referindo ao corpo físico, e sim ao astral, que mais brilhará quanto mais estiver nas frequências mais elevadas, próximas dos outros corpos (búdico, monádico, etc).

O pensamento se reflete no envoltório perispíritico (corpo astral) como num espelho, toma nele corpo e aí, de certo modo, se “fotografa”.

Allan Kardec; A gênese

É exatamente por esse processo que uma alma pode “ler” a outra como num livro, porque no perispírito, para quem sabe “ler”, se exteriorizam a preocupação habitual do indivíduo, seus desejos, seus projetos, seus desígnios bons ou maus.

É por isso que, no Espiritismo, chama-se os espíritos imersos na ignorância de espíritos trevosos (das trevas) porque, de fato, não possuem luz própria, funcionando mais como um “buraco negro”. Tais espíritos detestam a verdadeira LUZ (não exatamente a luz de lâmpadas) porque o amor é incompatível com o ódio, e acaba desagregando seus corpos densos (provocando até mesmo dor, que pra eles é como dor física) e é por isso que, por respeito, humildade e caridade, os verdadeiros espíritos de luz procuram baixar seu padrão vibracional para pode atender aos espíritos necessitados (assim, aparecem a eles como “pessoas normais”).

Conclusão

Aqui uma comparação com o corpo humano é válida. Temos células autônomas, que formam anticorpos, mitocôndrias, etc. que sabem qual o seu papel e o fazem muito bem. Temos os órgãos, que são conjuntos de células trabalhando em harmonia. Só que tudo isso está dentro de nós, governado por nossa consciência, mas de forma inconsciente (você não diz pra seu coração bater, mas uma pessoa treinada – como um Yogue – pode fazê-lo parar de bater). Você controla seu corpo em níveis inconscientes, e a medicina atual sabe muito bem disso (efeitos da depressão e somatização são bem conhecidos).

Muito bem, vocês devem ter visto o final do filme Homens de Preto. E se nós fôssemos as células de uma Super Consciência? E a tal “Superalma”, o capitão do barco, Krishna, Cristo? E se esse grupo responsável por pensar “Vou fazer isso” utilizasse DEUS (YHVH, Brahman, a Essência, o Incriado) para manifestar, Criar? Pois tudo o que tem um começo (é criado) tem fim, e a manifestação que nos criou é resultante de algo que já existia em alguma forma como matéria-prima, e se o que podemos vislumbrar forem apenas manifestações, ORGANIZAÇÕES e manipulações desta matéria-prima? O Inconsciente Coletivo seria então a atuação (indireta) dessa força externa em cima de nós, assim como a depressão ou a alegria causa uma alteração (indireta, e por vezes indesejada) no funcionamento do corpo.

Só nos restaria fazer nosso trabalho da melhor forma, e buscar a EVOLUÇÃO, que seria galgar postos dentro desta “máquina”, até um dia poder virar um órgão, que deixa de ser uma célula e, quem sabe, até virar uma Super Consciência (como Blavatsky pregava que um dia nos tornaríamos “Deus” e governaríamos nossos próprios mundos).

Mas, o que a NOSSA consciência em relação ao nosso corpo? Somos um emaranhado de células governados por uma consciência que NÃO DEVE (embora possa) se fragmentar, pois isso seria prejudicial para a sobrevivência do organismo. Você sente seu pé, mas sabe que não é seu pé (embora seja “seu”). Entenderam? Já nós, seres humanos, somos células que acham que são o organismo inteiro! Apenas recentemente estamos dando ALGUMA atenção ao nosso planeta, que É (e isso fisicamente falando) de certa forma nosso organismo. Pois bem… atingimos um ponto onde passamos a questionar nosso papel no mundo (mais por medo do que por sabedoria). Estamos num ponto de mutação, de uma troca de papéis. Não conheço os planos do Criador, mas quem sabe nós estamos caminhando para nos tornar órgãos? Mas, para isso, seria preciso antes deixar de brigar com as outras células, como ainda fazemos.

Desde a lenda da rebelião de Lúcifer, passando pela Gnose e sua idéia do Demiurgo (reforçada no filme The Matrix: Reloaded) surgiu a paranóia: E se o Criador for “mau”? Vou me rebelar! É como se seu pulmão dissesse “Fulano está me explorando, eu não ganho nada com isso. Já que eu não sou nada pra ele, então vou parar de trabalhar!

Quando alguém diz “eu (como espírito) não existo e por isso você não existe também” isso é uma declaração infantil (e perigosa) do EGO, nada mais. Seria bem melhor que dissesse “eu não existo, e em não existindo eu me torno uma pessoa melhor“, como Buda fez. E, através do EXEMPLO, pavimentaria o caminho para que outras pessoas aprendam com suas idéias. Forçar as pessoas a acreditar nelas não adianta nada. Ninguém vai deixar de existir porque seu EGO quer assim. É preciso sentir, com todas as forças, que é possível sair desta ilusão. E isso requer uma transformação interna, que demanda esforço e tempo. Alguns conseguem isso indo pro topo do Himalaia, outros varrendo as folhas de um templo e outros ainda (estes são meus preferidos) trabalhando anonimamente em prol da evolução do seu semelhante (seja dando comida, ensinando nas escolas, ajudando uma velhinha a atravessar a rua…). E essas pessoas iluminadas dão apenas o que as pessoas precisam naquele momento, da melhor forma que possam entender / absorver. Não vão contra a crença interna da cada pessoa. Jesus não fez uma REVOLUÇÃO de desobediência civil no sentido de não respeitar o sábado. Ele esclarecia seu ponto a quem perguntasse. Seus discípulos o seguiam. Ele não obrigou o jovem rico a segui-lo, apesar de tê-lo convidado. No filme The Matrix Morpheus fala que muitos não estão preparados para sair da Matrix e vão lutar para defendê-la, e é verdade. Outros acham que estão, mas se arrependem, como Cypher. Outros saem e ainda assim não querem deixar de ser o que eram (Ego), como o Smith (“eu, eu, eu… e eu”). Uma vez em Zion, só Neo parou pra pensar no seu papel dentro daquele novo sistema, e daí deixou de ficar lutando inutilmente contra as máquinas pra chegar num acordo com ela. Ele cumpriu o que sentia que devia fazer, o que, no caso dele, era voltar à Fonte.

Sou imortal. Sim. Não sou esse corpo carnal. Isso eu não só SEI (cognição) como SINTO (e meu sentimento não posso exportar pra ninguém, nem pretendo). Mas ainda me SINTO como espírito, como personalidade, embora SAIBA que não sou, que meu futuro como espírito / personalidade não me pertence, que esta energia que anima meu corpo não me pertence: me foi dada, não sei por quem, não sei quando, mas com certeza não foi gerada por mim, e sim DESENVOLVIDA por mim. Como um circo de pulgas. As pulgas não pertencem ao domador, e sim à natureza. Mas o apego, o afeto de conviver com essas pulgas durante anos fez o treinador considerá-las SUAS. ISSO é uma ilusão. “EU (o EGO e até mesmo o EU superior) sou o treinador, e vou treinar este circo até não ser mais preciso”. E depois? Depois vou ser demitido, mas tenho certeza de que o treinador aqui não vai ser desperdiçado, porque na natureza nada se perde, tudo se transforma.

Referência:
Kundalini, o segredo da vida; por Swami Muktananda;
José Laércio Do Egito;
Aikido e o Tao;
A cruz e a trindade;
The Pythagorean Theory of Music and Color;
A música das esferas; por Marcelo Gleiser

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