O QUASE

Por que é tão difícil se livrar de um quase?

O que não aconteceu na realidade, mas aconteceu na fantasia aconteceu – em algum lugar. E seguirá acontecendo cada vez mais, quanto mais destituímos de importância aquilo que nos constitui.

Somos feitos de quases.

O que não aconteceu na realidade, mas aconteceu na fantasia não para de não acontecer em algum lugar, e não para de acontecer em nós.

Caberá a um milagre, a uma elaboração, a um outro quase que faça a coisa parar de acontecer em nós e, quiçá, acontecer em outro lugar.

Enquanto isso, a vida segue acontecendo um pouquinho e não acontecendo um montão. O que não acontece é muito maior do que aquilo que acontece.

Por isso, a realidade é um alívio.

(Ana Suy)

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Essa reflexão sobre o “quase” no amor é bastante interessante e carrega profundidade emocional e psicológica. O “quase” muitas vezes parece mais intenso porque ele reside no reino da fantasia, onde tudo é possível. Vamos explorar essa ideia com mais detalhe, com base na psicologia moderna:

O Fascínio do Possível (Fantasia vs. Realidade)

O “quase” no amor representa algo que não aconteceu completamente, mas que ficou pendente de realização. Ele carrega em si o potencial de ser algo maior, melhor, mais intenso do que aquilo que foi realmente vivido. A fantasia tem essa característica de nos seduzir porque não tem limitações — na nossa imaginação, as coisas são perfeitas ou tão intensas quanto queremos que sejam. A realidade, por outro lado, é imperfeita e limitada pelas circunstâncias, pelos erros e pelas contingências do dia a dia.

Na fantasia, a relação “quase” é idealizada; projetamos nela as nossas expectativas, desejos e esperanças. Como o “quase” nunca foi realmente colocado à prova no mundo real, ele continua existindo como algo perfeito e possível, mesmo que jamais se concretize. A mente humana muitas vezes valoriza mais o potencial de algo (o que poderia ter sido) do que o que realmente é, justamente porque a fantasia não nos impõe as mesmas frustrações que a realidade.

A Psicologia do “Incompleto”

Segundo o psicólogo Carl Jung, o inconsciente humano busca constantemente a completude. No entanto, quando algo fica “incompleto” (como uma história de amor que nunca se concretizou), isso cria um espaço psíquico de desejo não resolvido. Esse “incompleto” fica ressoando na mente, como uma peça que falta em um quebra-cabeça emocional, gerando uma sensação de anseio constante.

O “quase” carrega essa qualidade de algo não terminado, o que pode torná-lo ainda mais poderoso do que algo que foi completamente vivido. Esse “não terminado” mantém o mistério, a possibilidade, e mantém viva a sensação de expectativa e esperança. No amor, muitas vezes o que não foi vivido ou o que ficou inacabado parece mais atraente porque não teve a oportunidade de falhar ou de decepcionar.

A Diferença Entre Expectativa e Experiência

Na psicologia cognitiva, existe um conceito chamado viés de impacto. Ele sugere que as pessoas tendem a superestimar a intensidade e a duração emocional de eventos futuros em comparação com o que realmente sentem quando esses eventos acontecem. Em outras palavras, a nossa expectativa (ou fantasia) de um evento é geralmente muito mais intensa do que a experiência real.

Isso pode explicar porque o “quase” parece mais forte do que o amor que realmente aconteceu. O “quase” permanece na fase da expectativa, enquanto o que aconteceu de verdade está na fase da experiência, que é muitas vezes mais moderada e realista.

A Idealização do Amor Romântico

Culturalmente, tendemos a idealizar o amor romântico, vendo-o como algo grandioso e avassalador. Essa ideia é reforçada por livros, filmes e músicas que muitas vezes destacam o amor não correspondido ou o “quase” como a forma mais pura e intensa de afeto. Essa idealização do amor alimenta a sensação de que o “quase” é mais forte porque nunca foi corrompido pela rotina, pela frustração ou pelas imperfeições da convivência real.

No entanto, o amor vivido na realidade pode ser mais sutil, mais cotidiano — “a vida segue acontecendo um pouquinho”. O amor real, que envolve desafios diários, falhas e imperfeições, é muitas vezes menos glamoroso, mas é também onde o verdadeiro crescimento e a intimidade se encontram.

O Luto Pelo Amor Que Nunca Aconteceu

O “quase” no amor também pode trazer uma sensação de luto ambíguo — uma dor pelo que poderia ter sido, mas nunca foi. Ao contrário do luto por algo real e concreto, o luto pelo “quase” é mais difícil de resolver porque não há um encerramento claro. Ele é uma perda do potencial, não de uma realidade, o que pode deixá-lo reverberando na mente por mais tempo.

Conclusão

O “quase” parece ser mais forte no amor porque ele vive na fantasia, onde é perfeito, inacabado e cheio de possibilidades. Na mente, ele permanece como uma fonte inesgotável de desejo e expectativa, enquanto o que aconteceu de fato é limitado pelas imperfeições da realidade. O poder do “quase” está na sua falta de concretude, na sua eterna possibilidade, enquanto a vida real segue acontecendo “um pouquinho”, com suas frustrações e satisfações reais.

Essa tensão entre o que poderia ter sido e o que realmente é define muito da experiência humana no amor, e é por isso que o “quase” muitas vezes parece tão intenso e insuperável.

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Eu
28 maio de 2025 7:30 pm

Faz o L! Faz o M tb, Marina Silva é uma vergonha. Parece que quem é o Ministro do Meio Ambiente é o Tocha Humana.

Eugenio
Eugenio
23 março de 2025 10:03 pm

Lembrei-me do filme “Vidas Passadas”. Filmaço!

Joãozinho
15 dezembro de 2024 5:55 pm

Obs.: Jung não era psicólogo. A pulsão demanda satisfação, mas ela sempre será parcial, portanto, incompleta. O único que se entende por satisfeito é o sujeito perverso, pois não se vê como sujeito castrado, goza como se não fosse castrado. Constitui um objeto fixo como meta pulsional – objeto imaginário que o perverso atribui características e que irá tamponar a castração -; não se entende como um sujeito faltante. A insatisfação, nesse caso, é do campo da neurose (com o simbólico como anteparo para realidade).

Last edited 1 ano atrás by Joãozinho
Tiago
15 dezembro de 2024 10:05 am

Por andas, velhinho? Voltei pro X (twitter) e não te achei mais por lá, fui procurar algum comentário teu sobre os ovnis/drones em New Jersey…

Tiago
15 dezembro de 2024 10:06 am
Reply to  Tiago

Acabei de ver o link pro X aqui no teu site, uahuahuahha. Seguindo.

Lucas
14 dezembro de 2024 11:02 am

Lembrei dessa frase..

Carl Jung – “Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta.”

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