SHIVA

“Eu só poderia crer num Deus que soubesse dançar”

Friedrich Nietzsche; Assim Falou Zaratustra

Antes de começar a falar deste deus é preciso saber que os hindus são, em essência, monoteístas. Acreditam em um Deus indefinível e infinito, a quem chamam de Brahman. É equivalente ao Tao chinês. Brahman se manifesta através de seus três aspectos, que são: Brahma (O criador) Vishnu (o mantenedor) e Shiva (que é o destruidor /transformador). Então, como podem três deuses ser UM Deus? Vamos usar o filme “The Matrix” como uma comparação grosseira: Brahman seria o Deus eterno, imutável, infinito e impessoal que está fora da Matrix (assim como o software das máquinas, que não possuem uma representação física). O universo que conhecemos (Matrix e tudo o que encontrarmos para além da Matrix, como Zion) é a manifestação dele. Em Maya (Matrix), Brahman se manifesta diretamente como Ishvara, que é o Deus personalizado (equivalente a representação do “Arquiteto”). Ishvara e Brahman são a mesma “pessoa”, sendo que um está fora e o outro dentro de Matrix. Ishvara é aquele que domina o universo, ele é a alma do universo, e possui três formas (Trimurti), a saber: Brahma, Vishnu e Shiva. Eles não são seres distintos entre si. São como o vapor, a água e o gelo: a mesma coisa em estados diferentes (mais ou menos como as réplicas do “Agente Smith”). Quando está criando, Deus é Brahma, quando está mantendo a criação ele é Vishnu, e ao destruir ele é Shiva.

Shiva, Parvati e Ganesha. O menino não é uma gracinha? É a cara do pai!

É por uma questão de respeito que os Hindus cultuam tantos deuses que são intermediários entre o Divino (Brahman) e os homens, pois sabem que o Divino não toma partido nas decisões humanas. O Trimurti é mais respeitado por ser a criação mais próxima do Divino, daí que são cultuados com reserva e o respeito de quem se dirige a uma “autoridade”. Então o povo hindu prefere se dirigir a outros deuses de “escalões mais próximos” aos homens, como Ganesha (filho de Shiva) e outros, para pedir coisas mais mundanas.

O nome original de Shiva nos Vedas é Rudra “o Deus terrível”, sendo depois lhe dado o eufemístico nome de Shiva, “o auspicioso” (assim como fizeram com as Fúrias gregas ou Erinyes, apelidadas de “as graciosas”) Shiva (Em sânscrito शिव) significa Aquele em que tudo repousa, possuindo também o sentido de bondoso, gracioso, amigo, felicidade e variantes. Um nome tão bonito pra um deus tão terrível? Mas, se você conhecê-lo, verá que ele não é tão mau assim. Um dos seus nomes é Neelkantha (que significa o de garganta azul). Sabem por que? Porque tomou um veneno para salvar a humanidade, e então sua esposa Parvati apertou a garganta dele com força, para que o veneno ficasse concentrado ali e não se espalhasse. Sua pele é representada na cor azul, como a de Krishna, pois significa iluminação ou santidade.

Muitos confundem Shiva com mulher, mas o nome é masculino (Na Índia os nomes masculinos terminam em A, enquanto o das mulheres terminam em I) e ele, na verdade, TAMBÉM é ela. A representação Ardha-nari (acima) – que significa meio mulher – é uma das mais conhecidas. A outra metade é homem, para simbolizar a unidade do princípio gerador. Essa figura tem três olhos, sendo um no centro da testa. A criação desse olho se deveu a uma brincadeira da sua esposa Parvati, que fechou os olhos de Shiva/Ardha com as mãos, envolvendo assim o universo na escuridão e no caos. Para restaurar a ordem, Shiva/Ardha imediatamente fez um terceiro olho. Representa suas três visões de tempo: passado, presente e futuro.
Uma lua crescente, acima do terceiro olho, marca a passagem do tempo em meses, enquanto uma serpente, enrolada no pescoço, marca a medida em anos (também representa o controle sobre os poderes da natureza, do ego, e da vida e morte) e vários colares de crânios espalhados pelo corpo representam a eterna passagem das eras, e a sucessiva extinção e geração de raças da humanidade.
Ele segura um tri-sula (tridente) numa mão e um tambor (em formato de relógio de areia) chamado Damaru. O som desse tambor foi a primeira coisa que se ouviu no universo, marcando a sua criação (qualquer semelhança com o Big Bang não é mera coincidência).
Do alto da sua cabeça jorra o Rio Ganges. Seus olhos ficam semi-abertos (ou um aberto e o outro fechado), sendo isto chamado de Samabhavee mudrá. Significa que sua mente está absorta no seu Eu interior, enquanto o corpo está envolvido no mundo exterior.
Na frente das pernas vemos o símbolo de Shiva cultuado pelos hindus como o Shiva Lingam (falo de Shiva), que geralmente é esculpida em madeira ou pedra. Shiva está em posição de Yoga pois ele também é considerado o criador do ascetismo e do yoga.

Shiva em sua versão feminina (e linda!) no game Final Fantasy X

Foi designado a ele o papel de transformador, seja através da reprodução ou da destruição/dissolução. No papel de destruidor ele é chamado de Kala (Preto), e é identificado com o Tempo. Mas, na maioria das vezes, a função de destruição é realizada por sua esposa, Kali (aquela figura famosa, cheia de braços, que fica com a língua pra fora). Kali (que na representação Ardha-Nari de Shiva está associada a Durga ou Parvati) é na verdade a contraparte feminina de Shiva.

Parvati queria muito se casar com Shiva, mas ele estava devastado por ter perdido sua companheira Sati, e não saía da sua meditação. Então Parvati foi ao Deva do amor (Kama Deva) e pediu para que, com seus poderes, conseguisse fazer Shiva se apaixonar por ela. Kama Deva então jogou uma flecha do desejo em Shiva enquanto ele meditava (tipo cupido). Shiva levantou-se, irritado, e com um simples olhar do 3º olho reduziu Kama Deva a cinzas. Mas a flecha funcionou e ele se apaixonou por Parvati.

Com esse mesmo olhar Shiva cumpre a tarefa de destruidor universal. Reza a lenda que ele queimou todo o universo, inclusive Brahma e Vishnu, e passou as cinzas pelo corpo. Daí que os yogues seguidores de Shiva também costumam espalhar cinzas pelo corpo para meditar.

Além do Deus da meditação, Shiva também o Deus da dança. O Mahasivaratri (A grande Noite de Shiva) é um festival realizado em honra a ele. Diz-se que nesse dia Shiva fez a Tandava (dança primordial da criação, preservação e destruição). A Tandava é repleta de significados herméticos, a saber:

A dança representa o movimento do universo. O primeiro braço, com a palma à frente, é um mudrá que quer dizer: “Não vos atemorizeis com a mensagem terrível que vos trago“, e logo abaixo o outro braço traz a mensagem: “Sempre há uma saída“. Ao apontar para o pé levantado, quer dizer: “O homem não deve atender às solicitações das suas más inclinações, de suas más paixões, dos instintos bestiais, oriundos da sua natureza animal, inferior, e sim seguir sua natureza superior, espiritual: deve abster-se do ódio, dos vícios, dos excessos, obter o autocontrole“. Esta é a saída.

O braço esquerdo segura um pequeno tambor que marca o ritmo da dança, e que significa: “Tudo no universo segue um ritmo, e está sujeito a uma ordem temporal“.

Com o outro braço, o que segura um círculo de fogo, Shiva diz: “Aproxima-se o tempo de destruir o que se construiu, para se completar o ciclo da criação. Assim como no passado o mundo antigo acabou-se pelas águas de um dilúvio, agora ele será destruído pelo fogo“. Ele é o destruidor de Maya, a ilusão. Maya representa tudo o que é visível, material, mas que por isso mesmo é impermanente.

O círculo de fogo por trás da figura indica o Samsara (o ciclo de reencarnações). A vida surge do calor da paixão, e termina com o fogo da destruição. Um pé está esmagando uma figura animalesca, que representa a natureza inferior e animal do homem (Ego, ignorância). Seu pé esquerdo erguido mostra-nos que podemos elevar-nos e atingir salvação.

A dança de Shiva no estilo Bharatanatyam

Segundo a contagem de tempo Hindu, nós estamos vivendo na Kali Yuga (a Era Negra, ou “das Trevas“). Como ela é a faceta destruidora de Shiva, vivemos então uma era marcada por destruições, sofrimentos e transformações. A duração dessas eras (Yugas) se estende por milhares de anos.

Periodicamente Shiva queima todo o universo com seu olho da testa, inclusive os outros Deuses da trindade, Brahma e Vishnu. Poderia se pensar daí que Shiva é o mais poderosos entre os Deuses. Seria, se fôssemos tomar as alegorias hindus como uma historinha mitológica, tipo Cavaleiros do Zodíaco. Mas Criar e manter exigem tanto ou mais poder do que destruir. O que existe é um equilíbrio entre a Trindade, que não escolhe favoritos. O que o Mito da Cosmogonia hindu – descrito nos Vedas – representa são os estágios de manifestação da matéria, desde da Criação (Com o ato da expiração de Brahman) da matéria primordial (e consequente antimatéria e matéria escura), construção de tudo o que percebemos (com Brahma) desenvolvimento e manutenção das formas (com Vishnu) e destruição (com Shiva). Vemos esse ciclo o tempo todo em todo o universo, e após muitos bilhões de anos, os cientistas prevêem uma contração (Big Crunch) do Universo, até o ponto em que toda a matéria existente se reúna em um ponto, dando origem a uma nova explosão (Big Bang), exatamente como na mitologia hindu.

Shiva não é o tipo de Deus que possa ser bajulado. Ele não toma lados. Onde quer que haja dissolução, destruição ou transformação, ele estará incentivando ou fornecendo as ferramentas. Por isso, só pode ser inteiramente compreendido como um aspecto (e não uma personalidade) de Deus (Brahman), nem bom, nem mau. Essa também é a chave para uma melhor compreensão do Velho Testamento, onde Deus (Jeová) manda passar à espada cidades inteiras e até mesmo animais. Ali não era o “Deus barbudo” dando ordens, muito menos o Deus Pai de Jesus, mas sim aspectos Divinos manifestados nas paixões e ignorâncias humanas.

Tais propostas não devem ser tomadas ao pé da letra (senão você acaba virando um Charles Manson, ou um Torquemada da vida) e sim vistas com a mesma simbologia com que analisamos a carta da Morte no Tarô: renovação, transformação interior, deixar para trás uma fase, um ciclo, renascer; e aqui poderemos compreender melhor uma frase de Jesus em João 3:3: “Aquele que não renascer não verá o Reino dos Céus“.

Infelizmente as pessoas preferem cultuar apenas o aspecto Shiva e fazem disso um modo de vida, principalmente entre os jovens. Querem destruir o sistema, mas vão criar o que no lugar? E como manterão o novo? Assim como os políticos, eles sabem criticar, apontar falhas, mas não sabem criar, propor, e quando o fazem é como fogo de palha, não dura nada. Então é preciso não só criar a idéia, mas prosseguir no esforço de mantê-la, de fazer esta idéia permanecer. Gandhi teve a idéia da libertação da Inglaterra pela não-violência, mas se tivesse desistido na primeira porrada que levou (ou na prisão) não teria inscrito seu nome na história. A harmonia vem do equilíbrio e uso racional dos mais diversos aspectos, como a energia Brahma, a energia Vishnu, Shiva, Lakshmi, entre outras que, para o público leigo, são apenas Divindades hindus, objetos de adoração.

Referência:
Hinduminds: Shiva The Destroyer;
Shiva em Final Fantasy;
WILLIAMS Monier Dicionário de Sânscrito-Inglês. Oxford Univ. Press, London 1951;
Meu obrigado a Line-chan, José Roldão e a Roberto pela colaboração

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