NIETZSCHE E SCHOPENHAUER: IRMÃOS INIMIGOS

Um via a vida como um erro a ser corrigido pelo silêncio; o outro, como uma tragédia a ser amada com paixão. Explore o abismo que separa o pessimismo de Schopenhauer da vitalidade dionisíaca de Nietzsche e entenda por que o discípulo precisou matar o mestre para criar seus próprios valores.

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Schopenhauer

Arthur Schopenhauer foi um filósofo alemão de mil oitocentos e bolinha. O mundo tinha acabado de vir da euforia do Iluminismo (Revolução Francesa, razão, ciência) e estava em pleno Idealismo Alemão (uma metafísica otimista baseada na razão), cujo grande expoente era Immanuel Kant. Kant dividiu o mundo em dois:

Fenômeno: O mundo como ele aparece para nós (processado pelo cérebro).
Númeno (Coisa-em-si): A realidade verdadeira por trás da aparência, que é incognoscível.

Mas Kant deixou algo sem explicação: “Sabemos que a realidade existe, mas não sabemos o que ela é”. Se você achou essa idéia parecida com a de Sócrates (Caverna de Platão), é porque vem dele mesmo. A Solução dos “Idealistas Alemães” (Johann Fichte, Schelling e Hegel) era dizer “Não existe essa tal de Coisa-em-si incognoscível!”. Para eles, a realidade inteira é produto da Mente (ou do Espírito/Razão). A história humana é o desdobramento da Razão de Deus. Ou seja: Tudo tem sentido, e “o real é racional”.

É aí que Schopenhauer entra. Ele foi discípulo de Kant (tanto que se considerava o único herdeiro legítimo de Kant) e concorda com o Idealismo na superfície (“Sim, o mundo que vemos é uma ilusão”), mas chegou a outra conclusão: a realidade inteira é manifestação não de um Deus racional, mas de uma força cósmica cega e irracional, buscando realização incessante. Essa coisa-em-si é a VONTADE. E essa VONTADE é INCONSCIENTE (isso muito antes de Freud). Por que isso o tira do clube dos Idealistas? Porque o “Idealismo Alemão” virou sinônimo de Otimismo Racionalista. Eles acreditavam que o mundo estava evoluindo para algo melhor e lógico. Schopenhauer disse: “Não. A base do mundo é uma besta cega, faminta e sem lógica. O mundo não é um projeto racional, é um acidente violento”.

Schopenhauer desenvolveu um sistema metafísico e ético ateísta, bebendo de princípios da filosofia indiana, como o ascetismo, a negação do eu e a noção do mundo como aparência. Seu trabalho foi descrito como uma manifestação exemplar do pessimismo filosófico.

Nietzsche

Schopenhauer morreu em 1860. Nietzsche nasceu em 1844.

Quando Arthur Schopenhauer faleceu, Friedrich Nietzsche tinha apenas 16 anos e ainda era um estudante desconhecido na escola de Pforta. O “encontro” intelectual entre os dois aconteceu 5 anos após a morte de Schopenhauer, numa livraria (antiquário) em Leipzig. O jovem Nietzsche, então estudante de filologia, encontrou uma cópia de “O Mundo como Vontade e Representação“. Ele descreveu esse momento como se um demônio tivesse sussurrado em seu ouvido para comprar o livro. Ele o levou para casa e o leu vorazmente.

De “Pai” a “Rival”

A relação de Nietzsche com Schopenhauer passou por duas fases muito distintas. Inicialmente, Nietzsche viu em Schopenhauer o único filósofo honesto, um “pai” intelectual. Sua terceira Consideração Intempestiva chama-se justamente “Schopenhauer como Educador“. Ele admirava a honestidade do ateísmo de Schopenhauer e a visão da realidade sem máscaras. Mais tarde, Nietzsche rompeu violentamente com a filosofia do seu mestre. Por que? Porque Schopenhauer pregava a negação da Vontade (ascetismo, compaixão, silenciar os desejos) como forma de lidar com o sofrimento da vida. Já Nietzsche passou a pregar a afirmação da Vontade (o Amor Fati, ou a Vontade de Potência). Para o Nietzsche maduro, a atitude de Schopenhauer era um sinal de fraqueza e decadência (niilismo passivo).

“Mal corresponde ao mestre aquele que nunca passa de discípulo. E por que não quereis tomar minha Coroa?”
(Friedrich Nietzsche, em Assim falou Zaratustra)

Essa é uma das disputas intelectuais mais fascinantes da história. Podemos resumir a relação deles com uma analogia médica: ambos concordam com o diagnóstico da doença humana, mas receitam remédios totalmente opostos.

Ambos olham para o mundo e veem que a existência é fundamentalmente irracional, guiada por desejos cegos e repleta de sofrimento. A partir daí, seus caminhos se bifurcam radicalmente.

A Vida é Sofrimento

Esse é o diagnóstico, que vem dos ensinamentos Budistas do qual bebeu Schopenhauer. Tanto ele quanto Nietzsche concordam que o universo não é governado pela razão ou por um Deus benevolente, mas por uma força cega e incessante. Para Schopenhauer ela é chamada de “Vontade da Vida” (Wille zum Leben). É um impulso insaciável por viver, reproduzir-se e persistir, o que inevitavelmente gera sofrimento por que nos faz desejar coisas. Se não temos o que queremos, sofremos pela falta. Se conseguimos o que queremos, ficamos entediados, até desejar outra coisa. A vida é um pêndulo entre a dor e o tédio. Nietzsche aceita essa premissa inicial de que o caos e o sofrimento são fundamentais na existência.

“Mesmo no menor inseto, a Vontade está completa e totalmente presente, ele quer o que ele quer tão decisiva e completamente quanto o ser humano”.
(Arthur Schopenhauer, em O Mundo como Vontade e como Representação II)

A Solução de Schopenhauer é o “NÃO” (A Negação da Vontade). Ele olha para esse cenário de dor e conclui: A vida é um erro. O melhor é não participar. Não à toa Schopenhauer é considerado o filósofo do pessimismo. A solução é “matar” o desejo dentro de nós. Como? Pelo ascetismo. Viver como um santo ou um monge budista, renunciando aos desejos terrenos para alcançar uma espécie de “Nirvana” (o nada), parando a roda do sofrimento.

A Solução de Nietzsche é o “SIM” (A Afirmação). Nietzsche olha para o mesmo cenário de dor e conclui: A vida é terrível, e justamente por isso é trágica e bela. Devemos vivê-la perigosamente, objetivando a “A Vontade de Poder” (não o poder político, mas o poder de auto-superação, crescimento e criação). Um poder Dionisíaco, caótico e perigoso. Por isso a solução dele é o Amor Fati (Amor ao Destino): Não apenas suportar o sofrimento, mas amá-lo. O sofrimento é o que nos molda, é o fogo que forja o aço. Sem dor, não há crescimento. Em vez de negar o mundo, devemos criar novos valores e significados. Transformar a dor em arte e em força. E a pessoa que faz isso transcende o homem. É o Übermensch (Além-do-homem): Aquele que diz “Sim” à Vida, mesmo nos seus momentos mais cruéis.

“Cada homem leva consigo na claridade de seu rosto o contorno de seu próprio paraíso.”
(Rabi Nachman de Bratzlav)

O Eterno Retorno

A diferença entre os dois fica claríssima no conceito mental de Nietzsche chamado “Eterno Retorno”. Imagine que, esta noite, um demônio apareça no seu sonho e diga:

“Esta vida, assim como tu a vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inumeráveis vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro (…) tudo retornará na mesma ordem.”

A Pergunta de Nietzsche: Como você reagiria a esse demônio? Você se jogaria no chão rangendo os dentes e amaldiçoaria o demônio? Ou você viveria um momento tão grandioso que responderia: “Tu és um deus e nunca ouvi nada tão divino!“?

Schopenhauer veria isso como a definição absoluta de Inferno. Repetir o sofrimento sem sentido eternamente seria a pior condenação. Nietzsche propõe que o objetivo da vida é viver de tal forma que você desejasse esse ciclo. Que você pudesse dizer: “Foi assim a vida? Pois bem, que venha outra vez!

É fácil pregar isso quando se tem riquezas e saúde. Mas Nietzsche não tinha nada disso. De fato, a aplicação da filosofia de Nietzsche na sua própria vida é um dos exemplos mais comoventes e heróicos de coerência intelectual na história. Existe uma ironia suprema aqui: Enquanto Schopenhauer era saudável, rico, tocava flauta e jantava bem todas as noites (enquanto escrevia sobre como a vida era horrível), Nietzsche vivia no limite da dor física, escrevendo sobre como a vida deveria ser amada.

Para entender a coragem de Nietzsche, precisamos entender o tamanho do seu sofrimento. A partir dos 30 anos, a saúde dele colapsou. Seus sintomas incluíam:

Enxaquecas brutais que duravam dias, às vezes deixando-o prostrado na cama por uma semana inteira.
Vômitos constantes, associados às enxaquecas e problemas estomacais.
Miopia extrema: ler e escrever causava dores terríveis nos olhos.
Insônia crônica: Ele abusava de hidrato de cloral e outros sedativos apenas para conseguir algumas horas de sono.

Em uma carta, ele chegou a dizer que, em um ano, teve 118 dias de ataques severos de dor. A maioria das pessoas usaria essa dor como justificativa para o pessimismo de Schopenhauer. Nietzsche fez o oposto. Ele aplicou o conceito de Perspectivismo. Ele decidiu encarar a doença não como uma maldição, mas como uma ferramenta de conhecimento. Ele dizia que a dor o forçava a ver a realidade de ângulos que uma pessoa saudável jamais veria. A doença o obrigou a abandonar a carreira universitária (que ele achava sufocante) e se tornar um andarilho solitário, o que permitiu que sua filosofia florescesse.

Ele escreveu: “Eu devo à minha doença muito mais do que à minha saúde… devo a ela uma superior saúde do espírito.”

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O conceito de Amor Fati (Amar o destino) não foi uma teoria de poltrona; foi uma estratégia de sobrevivência. Nietzsche percebeu que, se ele lamentasse sua sorte ou desejasse ser outra pessoa, ele estaria se entregando ao niilismo e à fraqueza. Para sobreviver mentalmente, ele precisava abraçar sua dor. Por isso, Nietzsche criou o conceito de “Grande Saúde”. Para ele, saúde não é a ausência de doença (isso é impossível para ele). Saúde é a quantidade de doença que seu espírito consegue suportar e superar. Ele via a si mesmo como um campo de batalha. Cada vez que ele se recuperava de uma crise e voltava a escrever, ele sentia a euforia de um renascimento. Essa ciclicidade (ficar doente, recuperar-se, ficar doente novamente) reforçou sua ideia do Eterno Retorno. Ele vivia esse retorno na pele, constantemente morrendo e renascendo. Seus livros mais vibrantes e afirmativos, como A Gaia Ciência e Assim Falou Zaratustra, foram escritos nos intervalos entre crises de dor agonizante. Ele escrevia caminhando pelas montanhas (quando conseguia), usando a natureza para curar a mente.

Ponte com o Budismo

Nietzsche criou o “Eterno Retorno” para substituir o julgamento de Deus. Antigamente, você agia bem para ir para o céu (recompensa futura). Agora, você deve agir de forma que queira repetir essa ação infinitamente. Isso obriga você a amar esta vida aqui e agora. Isso é muito próximo de um ensinamento budista de “alto nível”, embora Nietzsche tenha tido uma relação de “irmãos inimigos” com a doutrina. Nietzsche elogiava o Budismo por ser “cem vezes mais realista que o Cristianismo”, concordava plenamente com a Primeira Nobre Verdade do Budismo: “A vida é Dukkha (sofrimento/insatisfação) e tudo é impermanente”, mas ao mesmo tempo rejeitava veementemente o Budismo por considerá-lo uma forma de niilismo passivo e negação da vida.

Acontece que Nietzsche não leu os textos budistas em páli ou sânscrito. Ele aprendeu lendo Schopenhauer e orientalistas europeus do século XIX. Schopenhauer interpretava o Nirvana como um “Nada” negativo, uma extinção triste. Hoje sabemos que o conceito budista de Vazio (Sunyata) é muito mais complexo e pode ser visto como plenitude, não apenas ausência. Nietzsche via o Budismo como uma religião para “civilizações velhas e cansadas”. Ele dizia que o Budismo era uma “higiene” para espíritos exaustos que só queriam parar de sofrer. Ele ignorou (ou desconhecia) a vertente do Bodhisattva (alguém que, por compaixão, escolhe continuar no ciclo para ajudar os outros), que é uma atitude muito ativa e forte.

Para o Budismo, o Samsara (ciclo de nascimentos e mortes) é uma “prisão”. Girar na roda da existência eternamente é o problema. O objetivo final (Nirvana) é quebrar a roda, extinguir o desejo e parar de renascer. É uma saída de emergência da existência. Já Nietzsche pega a ideia do Samsara e diz: “E se nós tirássemos a saída de emergência?”. O Eterno Retorno é a afirmação da roda. Nietzsche quer que você ame o ciclo tanto que deseje girar nele para sempre. Em resumo, o Buda quer apagar o incêndio da casa (a vida). Nietzsche quer aprender a dançar dentro do fogo.

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Mas por que considero isso Budismo nível avançado? Porque embutido no Nirvana há o DESEJO de ir pro Nirvana. E muitos budistas ocidentais param aí. Mas o próprio Buda já descarta essa ilusão, e falo isso nos posts Samsara e no Sutra do Diamante.

Talvez a maior diferença para o Budismo seja quanto ao “Eu”. No Budismo araiz do sofrimento é o apego ao “Eu” (Ego). Acreditamos que somos indivíduos separados, e isso gera dor. A iluminação vem quando percebemos que o “Eu” é uma ilusão, e o objetivo deve ser a dissolução do Ego. Já a solução para Nietzsche é a hipertrofia do Ego. Para se tornar um “deus para si mesmo”, o indivíduo deve criar seus próprios valores, impor sua vontade e moldar o seu destino. O Übermensch (Além-do-homem) é a afirmação máxima da individualidade e da diferença. Ironicamente, O homem que escreveu um livro chamado O Anticristo tinha, na verdade, um respeito profundo e singular pela figura de Jesus. Para Nietzsche, existe um abismo intransponível entre Jesus de Nazaré (o homem) e o Cristianismo (a religião). A frase mais famosa dele sobre isso resume tudo:

“No fundo, houve apenas um cristão, e ele morreu na cruz.”
(Friedrich Nietzsche, em O Anticristo)

Jesus

Nietzsche enxergava Jesus não como um Messias, nem como um profeta, nem como o “Filho de Deus” biológico. Ele vê Jesus como um tipo psicológico raro, quase uma anomalia. Para Nietzsche, Jesus não se importava com dogmas, rituais, leis judaicas, escrituras ou instituições. Ele vivia uma liberdade interior total. Nietzsche argumenta que Jesus não pedia que as pessoas “acreditassem” nele. Ele pedia que as pessoas vivessem como ele. O foco era o comportamento (não resistir ao mal, amar o inimigo, não julgar), e não a crença. Jesus tentou ensinar que o “Reino dos Céus” não era um lugar para onde você vai depois de morrer, nem algo que viria no fim dos tempos. Era um estado de espírito. Se você vive sem ódio e em amor total agora, você já está no paraíso. Para Nietzsche, Jesus era alguém com uma sensibilidade extrema ao sofrimento e à realidade grosseira do mundo.

Nietzsche interpreta a morte de Jesus de forma muito bonita: ele diz que Jesus não morreu para “salvar a humanidade”. Ele morreu para provar sua doutrina. Mesmo sendo pregado na cruz, sofrendo a maior das injustiças, ele não odiou, não resistiu e não amaldiçoou seus algozes. Ele manteve sua postura de amor e aceitação até o fim.

São Paulo

Se Nietzsche respeita Jesus, quem é o alvo do seu ódio em O Anticristo? A resposta é: Paulo de Tarso (São Paulo). Para Nietzsche, foi Paulo quem destruiu a mensagem de Jesus e criou a Igreja (“A Disangelho” ou a “Má Notícia”). Jesus ensinou a vida. Paulo focou na morte. Jesus morreu como consequência de sua maneira de viver (um rebelde político/espiritual). Paulo transformou essa morte em um “sacrifício pelos pecados”, criando a ideia de culpa, sangue e redenção mágica. Para Nietzsche, Paulo reintroduziu tudo o que Jesus ignorava: o julgamento, o ódio aos “pecadores”, a promessa do Inferno e a promessa de recompensas no além-mundo. Nietzsche diz que Paulo usou a figura de Jesus para criar uma religião de poder e controle massas (o “Cristianismo”), que era o oposto exato do que o Jesus histórico viveu.

“A Igreja é exatamente aquilo contra o que Jesus pregou e contra o que ele ensinou seus discípulos a lutar.”
(Friedrich Nietzsche, em O Anticristo)

Nietzsche não atacava Jesus porque, no fundo, ele via em Jesus um espírito livre, alguém que criou seus próprios valores — algo muito próximo do que ele desejava para o Übermensch, embora Jesus fosse “suave” demais e compassivo demais para o gosto de Nietzsche.

Mas aqui temos uma ironia final do destino para Nietzsche. Um episódio trágico que aconteceu na manhã de 3 de janeiro de 1889, na cidade de Turim, Itália. Este é um dos momentos mais tristes e simbólicos da história da filosofia.

Nietzsche e o cavalo de Turim

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Para Nietzsche, Turim era a cidade ideal: a arquitetura era nobre, a comida era boa e o ar era seco. Ele estava em um período de euforia criativa, escrevendo freneticamente. Mas sua mente estava prestes a se estilhaçar. A história conta que Nietzsche saiu de casa para caminhar, e na Piazza Carlo Alberto ele viu uma cena comum para a época, mas brutal: um cocheiro estava tendo dificuldades com um cavalo teimoso que se recusava a andar. O cocheiro, perdendo a paciência, começou a chicotear o animal com violência.

Nietzsche, o filósofo que pregava a dureza, a guerra e o desprezo pela piedade cristã, não suportou a cena. Ele rompeu a multidão e se lançou em direção à carroça. Em vez de atacar o cocheiro, ele jogou os braços ao redor do pescoço do cavalo e chorou incontrolavelmente, abraçado à cabeça do animal, protegendo-o das chicotadas com o próprio corpo. Dizem que suas últimas palavras conscientes foram sussurradas para o animal (algumas lendas dizem que ele pediu perdão ao cavalo em nome da humanidade). Logo depois, ele soltou o animal e desabou no chão, inconsciente.

Ele foi levado para casa, tocou piano freneticamente por um tempo e, em seguida, a escuridão mental tomou conta. Ele nunca mais recuperou a sanidade.

O simbolismo desse colapso é devastador quando olhamos para a filosofia dele:

Durante toda a sua obra, Nietzsche atacou a “piedade” ou “compaixão” como o grande vício do Cristianismo e de Schopenhauer. Ele dizia que sentir pena era algo que enfraquecia o homem forte e aumentava o sofrimento no mundo. No momento final de sua vida consciente, Nietzsche não agiu como o Übermensch indiferente. Ele agiu como um santo franciscano ou um budista. Ele foi dominado justamente por aquilo que combateu: uma compaixão avassaladora pelo sofrimento de um ser inocente.

Muitos estudiosos vêem nisso uma ironia trágica: no fim, o coração de Nietzsche talvez fosse “schopenhaueriano”, sensível demais à dor do mundo, e sua filosofia de “dureza” fosse apenas uma armadura que ele construiu para tentar se proteger dessa sensibilidade extrema. A armadura falhou naquela praça em Turim. O episódio do cavalo marca a fronteira exata entre o gênio e a loucura, e permanece como a imagem definitiva da vulnerabilidade humana escondida por trás da filosofia mais “poderosa” do século XIX.

Os “Bilhetes da Loucura” (Wahnbriefe)

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Nos dias seguintes ao colapso, antes de ser internado, Nietzsche enviou cartas desconexas para amigos e chefes de estado europeus. Elas mostram a fragmentação total do seu “Eu”. Ele não sabia mais quem era. Assinava as cartas alternando duas personas:

“Dionísio” (O deus da vida, do vinho e do caos).
“O Crucificado” (Jesus Cristo).

Em uma carta ao seu amigo Jacob Burckhardt, ele escreveu:

“No fim das contas, eu preferiria muito mais ser um professor na Basileia do que ser Deus; mas eu não ousei levar meu egoísmo ao ponto de, por causa dele, deixar de criar o mundo.”

Teria sido uma inflação da alma?

O ocaso e a deturpação de sua obra

O que se seguiu foi ainda mais triste. Nietzsche viveu mais 11 anos (morreu em 1900) como um inválido, em estado quase vegetativo, cuidado pela mãe e depois pela irmã (Elisabeth). O homem que escreveu com a maior eloquência da língua alemã ficou mudo. Ele não sabia que seus livros estavam começando a ficar famosos. Sua irmã, uma antissemita fervorosa (o oposto de Nietzsche), assumiu o controle de seus manuscritos e começou a editar e distorcer suas obras para agradar nacionalistas alemães (o que depois facilitou a apropriação pelo Nazismo), enquanto ele olhava para o vazio, incapaz de protestar. Ela pegou os rascunhos inéditos do irmão, cortou frases, colou trechos fora de contexto e publicou um livro que Nietzsche nunca escreveu, chamado A Vontade de Poder. Foi Elisabeth quem convidou Hitler (anos após a morte de Nietzsche) para visitar o arquivo Nietzsche. Hitler visitou o museu, tirou fotos ao lado do busto do filósofo e a propaganda nazista começou a funcionar.

Nietzsche não era antissemita nem nacionalista. Pelo contrário, ele desprezava o nacionalismo alemão e rompeu a amizade seu melhor amigo e ídolo, o compositor Richard Wagner, justamente porque Wagner se tornou nacionalista e antissemita. Em Ecce Homo, Nietzsche escreveu: “Eu expulso desta casa todos os antissemitas”. Ele chegou a escrever cartas dizendo que “todos os antissemitas deveriam ser fuzilados”. Ele zombava da ideia de “raça pura” alemã, dizendo que os alemães eram uma mistura confusa de povos e que a cultura alemã da época era estúpida.

É triste que o homem que pregava o pensamento individual e a liberdade de espírito teve sua obra sequestrada pelo regime mais coletivista e totalitário da história. O filósofo que queria criar indivíduos livres foi usado para criar soldados obedientes. Como Nietzsche mesmo disse, profeticamente:

“Tenho um medo pavoroso de que, um dia, me declarem santo.”
(Friedrich Nietzsche, em Ecce Homo)

Ele não foi declarado santo, mas foi transformado num profeta do horror contra a sua vontade.

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Odisseu
4 janeiro de 2026 10:51 pm

Vale destacar que Nietzsche via ainda no budismo uma transcendência que amortizava a potência do corpo e do espírito. Vale escrever sobre o famoso Espinosa de Haia, “o que pode um corpo”? A mente como a potência contra fantasmas da mente e o estado de perfeição menor (causado pelo padecer das paixões), Quanto ao budismo, é interessante essa relação, porque um dos mais nietzscheanos, Foucault, com toda a colocação no mundo desde a sua prática de existência, também se refugiu durante um tempo no budismo.

Odisseu
4 janeiro de 2026 10:41 pm

Impressionante como esse filósofo apresenta a saúde. Que bom pescar um texto aqui vez ou outra, acompanho o blog desde 2008.

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