George Orwell, a Revolução dos Bichos e a eterna promessa de igualdade
Ontem, 25 de junho, foi aniversário de Eric Arthur Blair — o escritor que o mundo conhece como George Orwell. Seu nome já virou adjetivo: orwelliano. Um mundo onde a verdade é manipulada, a vigilância é constante e a liberdade é apenas uma palavra vazia.
Já escrevi um artigo sobre o livro 1984, que estava bastante atual na época. Mas antes dele, Orwell escreveu uma obra que, infelizmente, está ainda mais atual. Se 1984 é um alerta contra o totalitarismo escancarado, o livro A Revolução dos Bichos nos mostra algo mais sutil — e talvez mais próximo de nós: como o poder pode ser corrompido por dentro de um ideal justo.
Publicado em 1945, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, o livro é uma crítica direta ao stalinismo — mas sua força vai além do contexto histórico. Orwell não escreveu uma fábula apenas sobre a União Soviética. Ele escreveu sobre toda revolução traída por seus líderes; sobre qualquer sistema que começa com esperança e termina em opressão.
Aqui, os protagonistas são os animais de uma granja. Eles se rebelam contra a tirania do humano, o Sr. Jones, tomam o poder e tentam instaurar uma nova ordem, mais justa e igualitária. Nascem então os Sete Mandamentos do Animalismo, escritos na parede do celeiro:
- Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo.
- Qualquer coisa que ande sobre quatro patas, ou tenha asas, é amigo.
- Nenhum animal usará roupas.
- Nenhum animal dormirá em cama.
- Nenhum animal beberá álcool.
- Nenhum animal matará outro animal.
- Todos os animais são iguais.
Essa é a “Constituição” dos animais. Mas, com o tempo, os porcos — que lideram o movimento em nome da igualdade (por serem os mais inteligentes da granja) — começam a assumir os privilégios que antes criticavam. Especialmente Napoleão, a figura ditatorial da história. Eles tomam o controle e, lentamente, à noite, vão alterando os mandamentos — sem que ninguém perceba. Ou melhor: sem que ninguém consiga fazer algo a respeito.
Em pouco tempo, os outros animais mal conseguem perceber a diferença entre os novos líderes e os antigos opressores. No fim, sobra apenas uma regra na parede do celeiro: “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros.”
Essa máxima resume — com ironia e perfeição — a distorção de um ideal. A genialidade de Orwell está em mostrar como até os sonhos mais nobres podem ser manipulados por quem tem sede de poder.
Percebe a semelhança?
Ao ler o livro hoje é impossível não pensar no Brasil. Quantas vezes já vimos pessoas e grupos que, em nome da mudança, chegam ao poder prometendo um novo tempo — mais justo, mais limpo, mais transparente — e, quando nos damos conta, estão repetindo os mesmos vícios que juraram combater?
Será que estamos presos a um ciclo onde os porcos sempre acabam se erguendo sobre duas patas?
E não é difícil perceber as alterações e as injustiças. Nós percebemos, sim. Mas nos curvamos — dóceis — para os porcos da nossa preferência. E, diante da contradição, repetimos: “Ah, mas o outro porco também fazia…”
Quando o Brasil parecia caminhar para erradicar a corrupção sistêmica, votamos naquele que se dizia “contra o Centrão” e a favor da Lava Jato. Pois bem: eleito, ele acabou com a Lava Jato com uma canetada (de Bic), entregou o juiz-símbolo da operação aos leões e ainda declarou que “sempre foi Centrão”.
Enquanto isso, a Amazônia queimava, índios morriam e a floresta era entregue a madeireiras e garimpeiros. Seu governo usou de idiotas úteis para quebrar o Congresso e ele ainda fez questão de se alinhar com Putin, em plena invasão à Ucrânia. O fato de ainda haver quem pense em votar nele novamente já diz muito sobre o nosso país.
Logo em seguida, veio o “contraponto”: alguém que representava a união da centro-esquerda contra a opressão. Prometia respeito à democracia, valorização das mulheres, proteção à Amazônia, aos povos indígenas… Prometeu até, em debate na TV, acabar com os sigilos de 100 anos.
O resultado?
Governo pautando opressão e censura nas redes sociais. Cargos importantes concentrados numa turminha da extrema esquerda. Mulheres escanteadas. Amazônia queimando como nunca. Alinhamento com ditadores do Irã, Rússia e Venezuela. Yanomamis continuam morrendo — mas agora em sigilo. E por falar em sigilo… eles continuaram. Hoje não tem mais artistas protestando contra as queimadas na Amazônia, o genocídios dos índios, a misoginia nas falas do presidente, até porque o governo, cuja base tanto reclamava da Globo, resolveu dar 60% a MAIS de verba publicitária para a emissora que o presidente anterior.
Sabíamos que essa opção ao outro também era ruim — mas, pelo menos, não havia risco de um golpe militar. O que não esperávamos é que ela viesse acompanhada de uma aliança com outro grupo poderoso, capaz de nos empurrar rumo a uma escalada de censura.
O fato de ainda haver quem cogite votar novamente NOS DOIS diz muito sobre o Brasil.
Essa cegueira ideológica está representada no livro de Orwell em Boxer, o cavalo símbolo da fé cega. O trabalhador que repete: “trabalharei mais ainda” e “Napoleão tem sempre razão” como um mantra. Mesmo quando as coisas começam a dar errado, ele prefere acreditar do que questionar.
Boxer é o cidadão comum. Aquele que carrega o país nas costas, enquanto os que decidem seu destino vivem em outra realidade.
Hoje, tem gente nas redes sociais defendendo AUMENTO DE IMPOSTO! A pessoa QUER PAGAR MAIS IMPOSTOS!!!!
E quando Boxer já não serve mais… bom, o destino dele também é um alerta. O quanto vale, afinal, o cidadão para o sistema?
Essa semana mesmo, vimos o governo negar o uso de um avião da FAB para repatriar o corpo de uma brasileira morta na Indonésia, mesmo com toda a comoção do país. A mesma FAB que foi usada este ano para trazer uma política condenada por corrupção no Peru (com sigilo de gastos, claro).
O Itamaraty disse que a lei não permite. Mas e no caso dos jogadores de Chapecó? E pra levar ministro a jogo de futebol ou casamento, pode?
Há uma cena recorrente no livro: os porcos alteram os registros da revolução, os feitos de Snowball (um dos porcos líderes da rebelião original) são apagados, e o passado é constantemente reescrito para servir aos interesses do novo chefe, Napoleão. Isso está acontecendo AGORA, enquanto escrevo:
A negativa do translado da brasileira foi tão ruim para a imagem do governo que, menos de 24h depois da negativa oficial sobre o caso da brasileira, o presidente contradisse o Itamaraty e afirmou que o governo faria o translado.
E isso é só UM exemplo. Qual a versão que vai ficar disso?
Quando ano que vem alguém disser que o governo se recusou a pagar pelo translado até sofrer pressão das redes sociais, o defensor do governo vai dizer que isso é uma fake news. E talvez até algum órgão (o futuro “Ministério da Verdade” que estão aprovando agora) retire o post da internet.
Estamos caminhando pra isso.
Pense: quantas versões diferentes já ouvimos de um mesmo fato político?
Quantos desmentidos em horas? Quantos slogans que mudam de sentido conforme o vento?
A verdade se tornou uma mercadoria, um jogo de números, influência e narrativas.
No livro, as regras pintadas no celeiro vão sendo alteradas discretamente, à noite, para se adequar às vontades dos líderes. A distorção absurda do conceito de igualdade revela como os líderes manipulam a linguagem e os ideais para justificar privilégios e opressão, mantendo a aparência de Justiça.
Lembra algo?
No Brasil, princípios constitucionais são reinterpretados conforme o interesse do momento, leis criadas com intenções nobres que viram instrumentos de opressão e reformas que nascem com a promessa de “modernização” e terminam precarizando a vida de quem já carrega o país nas costas. E sempre com boa retórica, claro.
Afinal, os porcos também sabem discursar.
A pergunta que incomoda é:
Como manter uma sociedade livre se não conseguimos concordar nem sobre os FATOS?
Talvez o que Orwell nos ensine com A Revolução dos Bichos é que o problema não está apenas nas figuras no poder, mas na estrutura que permite que esse poder seja concentrado, na falta de vigilância dos governados e na facilidade com que esquecemos o passado.
Quando não há memória, não há responsabilidade.
E sem responsabilidade, a história se repete — com novos rostos e bandeiras.
O perigo não é o porco que sobe ao poder. É o aplauso resignado de quem já se acostumou ao cheiro da lama. Por isso, talvez a verdadeira pergunta deixada por Orwell em A Revolução dos Bichos não seja apenas “quem está no poder?”, mas:
Estamos atentos o suficiente para perceber quando os mandamentos estão sendo reescritos?
Estamos cobrando nossos líderes, ou apenas repetindo mantras como Boxer?
Estamos preservando a memória coletiva ou aceitando a versão mais conveniente da história?
Hoje, ao celebrarmos Orwell, não basta admirá-lo. É preciso escutá-lo.
O desejo de mudança (a tal “revolução”) continua vivo, mas soterrado por bobagens e picuinhas que nos distraem do que realmente importa.
A fazenda muda de nome, os animais mudam de forma, mas o ciclo insiste em se repetir.
A questão não é mais se haverá uma nova revolta. A questão é:
Será que dessa vez a gente vai lembrar o que esquecemos da última?



Bolsonaro não acabou com a lavajato, foi o proprio STF que fez isso quando ela chegou nele (amigo do amigo do meu pai). Foi o STF que tirou o Lula sa cadeia e foi ele que o colocou na presidência (nem estou falando da urna eletrônica, me refiro a censura descarada e o dedao na balança). Amazonia pegando fogo? Propaganda descarada impulsionada pela oposicao e comprada pelo agro internacional para diminuir o Brasil, bem como varias outras que nem convém citar aqui. Me surpreende uma pagina que se diz sair da Matrix confiar tao cegamente na midia tradicional
Vou até ficar calado, porque se eu falar não vai prestar
https://www.youtube.com/watch?v=YFmlQhi6kho
Parabéns pela analogia, que além de atual, é mais do que necessária.
O translado da brasileira Juliana Marins aconteceu sim. O texto diz que não ocorreu para falar sobre alteração nos registros da evolução, mas isso é falso. Fonte:
https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/07/01/entenda-por-que-demorou-tanto-para-o-corpo-de-juliana-marins-chegar-ao-brasil.ghtml
Entretanto, as demais críticas são excelentes. Espero que o brasil seja capaz de eleger politicos pela sua qualidade, em vez de seu carisma.
Interessante!
Acid, eu sou fa do saindo da matrix desde os primeiros posts, ainda volto aqui de vez em quando para me surpreender com posts excelentes como este! Voce deveria voltar a escrever mais aqui, como fazia antes 🙂 …
Oi Rob, obrigado pelo comentário. Quando dá realmente vontade eu escrevo, como escrevi agora. Mas na maioria das vezes eu só tenho comentários a fazer sobre algo, então escrevo no Twitter mesmo.
sempre enfiando mais impostos. mas diminuir o numero de ministérios eles nao diminuem.
dava pra enxugar pra dez .
meu pai diz que se quiser , da pra ser apenas 5
agricultura
transporte
educação
saude
e o quinto eh soma de todos os outros que nao couberem nos outros 4.
Mr Acid welcome back. We miss you.
Brilhante como sempre