O CONTEXTO DA AYAHUASCA

No último dia 12 o Brasil perdeu tragicamente um de seus maiores cartunistas, Glauco, assassinado juntamente com seu filho, Raoni, por um usuário de drogas ilícitas, “entusiasta” da Ayahuasca e, consequentemente, da Igreja que Glauco havia fundado, ligada ao Santo Daime e que ficava em sua casa.

Não poderia estar mais abalado com a notícia e, mesmo após alguns dias, ainda não me recuperei. Cresci lendo esse cara em revistas, tirinhas e charges de jornais. Ele, Angeli, Laerte e Aragonés são minha referência de humor inteligente nos quadrinhos. É pra evitar coisas assim que gostaria de partilhar meus pensamentos, no sentido de esclarecer (não combater, nem condenar, ou procurar culpados) pessoas no uso de certas substâncias para o auto-conhecimento.

Carlos Castañeda é bastante conhecido do público “alternativo”. Ele usou por bastante tempo o alucinógeno Peiote, guiado por seu Shaman, Don Juan. As pessoas descompromissadas com a espiritualidade lêem o que interessa e descartam o que não interessa, e assim justificam suas experiências “místicas” com drogas (lícitas ou não) como uma busca espiritual. E param na busca. Eterna busca, porque em algum ponto esquecem o que estão buscando (se é que algum dia souberam) e ficam apenas nas drogas. Mas, vejamos o que Castañeda (e Don Juan) pensam disso, nessa entrevista:

Sam Keen: Em seu livro mais recente, Viagem a Ixtlan, você revê a impressão dada nos primeiros livros de que o uso de plantas psicotrópicas era o método principal usado por Don Juan no intuito de ensiná-lo sobre a feitiçaria. Como você vê agora o lugar dos psicotrópicos em seus ensinamentos?

Carlos Castaneda: Don Juan usou plantas psicotrópicas no período intermediário do meu aprendizado porque eu era muito estúpido, sofisticado e arrogante. Eu me agarrava à minha descrição do mundo como se ela fosse a única verdade. Os psicotrópicos criaram um vácuo no meu sistema de interpretações. Eles destruíram minha certeza dogmática. Mas eu paguei um enorme preço. Quando a cola que segurava meu mundo unido foi dissolvida, meu corpo estava fraco e eu demorei meses para me recuperar. Eu fiquei ansioso e funcionava a um nível muito baixo.

SK: Don Juan usa drogas psicotrópicas regularmente para parar o mundo?

CC: Não. Ele pode agora mesmo pará-lo com a sua vontade. Ele me disse que para mim a tentativa de ver sem a ajuda das plantas seria inútil.
Mas se eu me comportasse como um guerreiro e assumisse a responsabilidade não precisaria delas; elas apenas enfraqueceriam meu corpo.

E completa, mais à frente:

CC: É este elemento de compromisso com o mundo que me mantém seguindo o caminho que Don Juan me mostrou. Não há necessidade de transcender o mundo. Tudo o que você precisa saber está aqui defronte nós, se prestarmos atenção. Se você entrar num estado de realidade extraordinária, como faz quando usa plantas psicotrópicas, está apenas usando a força que precisa para ver o caráter milagroso da realidade ordinária. Para mim o modo se viver o caminho com coração não é introspectivo ou de transcendência mística, mas a presença no mundo. Este mundo é o campo de caçada do guerreiro.

Sem mais, meritíssimo.

Tenho certeza de que qualquer droga, se ingerida num contexto SÉRIO espiritual, pode ser direcionada para o bem, para a evolução. Por exemplo, o café. Digamos que eu faça um ritual do café, com todo um suporte físico (cânticos, incensos, templos) e psicológico, e só o ingira neste dado contexto psíquico e social. Pronto: a cafeína irá atuar de forma a potencializar meu lado espiritual. Acontece que nós tomamos café no escritório, no trabalho, pra “relaxar” (muito embora seja um estimulante, eu tomo pra relaxar) ou pra ficar acordado pro estudar a noite toda. Temos uma cultura do café JÁ estabelecida. A diferença aqui é o CONTEXTO.

Qual o contexto do Daime, hoje?

Além das pessoas que se devotam à causa, e que são sérias, honradas, compromissadas com os rituais e com a doutrina (e que existem nas mais diversas religiões), temos os aventureiros de fim-de-semana, que são jovens, sem compromisso com NADA, sem bagagem espiritual e, muitas vezes, com larga experiência em drogas ilícitas.

Uma ida ao perfil da rede social Orkut do estudante assassino de Glauco nos mostra as comunidades que ele visitava. Vi várias comunidades de Daime e Ayahuasca, no meio de outras como “Joselitos do meu Brasil”, “Surtados”, “Laricas”, “Bob Marley”, “Fuck the police” e… “Mahatma Gandhi” (?). Uma das comunidades de Daime listadas chamava abertamente, logo em sua descrição, todos os irmãos pra uma “celebração”, como se fosse uma Rave (ah, o assassino também participava da comunidade “Raves”). Estariam o Gandhi, Bob Marley e as Raves condenadas por fazerem parte do mundo de um assassino surtado? Não. Muito menos o Daime. Mas a listagem de comunidades nos dá um vislumbre de por onde sua mente transita, seu consciente. Dar o diagnóstico de “bipolar” a esse indivíduo só por olhar as comunidades seria leviano, mas ao analisar os relatos de que ele pretendia levar Glauco (sob tortura) para a sua mãe – para que ele dissesse a ela que ele (o assassino) era Jesus Cristo (!), e logo depois disso atirar em Glauco e seu filho – começamos a ter um vislumbre maior do quadro, não acham?

Vamos pegar o perfil desse jovem. Qual a boa pra quem já “curtiu” todo tipo de coisa, e está a fim de experimentar algo diferente? Tem gente que procura até dolorosos ritos de iniciação indígenas, onde se injeta veneno de sapo no braço, só pra dar “uma limpada” (totalmente fora do contexto, como nas matas virgens de Copacabana). Por que não experimentar a Ayahuasca?

E isso não é culpa do Daime, nem da Ayahuasca, nem das tradições, que eram MUITO mais fechadas no seu início, não só pelo aspecto geográfico (nasceu nas florestas do Acre, próximo de onde eu morei por 2 anos, aliás), como pelo contexto. Você não saía do Shopping pra ir tomar Ayahuasca, e depois de 4 horas pegava o carro pra voltar pra dormir em casa, não. Ou enfrentava um dia de viagem de carro por dentro de estradas de barro e lama, ou ia de barco (na verdade uma frágil canoa com motor), no meio de rios cheios de jacaré (e não estou sendo dramático, eles simplesmente existem por lá até hoje). Acredito que só isso já separava o verdadeiro buscador dos aventureiros de fim-de-semana. O problema é o CONTEXTO. A Ayahuasca virou uma bebida urbana, tomada dentro de um contexto pseudo-xamânico! Como lidar com o inconsciente das pessoas quando o hino, totalmente deslocado da realidade social, não funciona com os “turistas”? Como assumir essa responsabilidade? Vamos dizer que a bebida seja DEUS, como diz a tradição. Será que YaVeH é pra TODOS? Allah é pra TODOS? O Deus cristão toca o budista da mesma forma que Buda? Então por que a Ayahuasca deve ser pra TODOS, indiscriminadamente?

Tem gente que morre se tomar Aspirina. Pra maioria, funciona. Cafeína pode causar dor-de-cabeça em muitos. Em outros, tira. Certas drogas (farmacêuticas ou não) são indicadas pra uns casos, e pra outros não. Durante a miração, os compostos presentes na Ayahuasca, como o DMT (que as pessoas se recusam – não sei porque – a chamar de droga) abrem as portas do inconsciente, e daí advêm a importância dos hinos, que são guias para manter a pessoa numa certa vibração, num certo pensamento, pra que ela não se perca (e se afogue) neste oceano que é o inconsciente. Infelizmente muita gente não consegue “nadar” adequadamente, e acaba sofrendo sequelas. O Psicanalista Transpessoal Lázaro Freire – que, como pesquisador, conhece os efeitos do Daime e de outros psicoativos – recebe vários casos de pacientes que sofreram de surto de pânico e bipolaridade após o uso da Ayahuasca. Por mais que digam que é “seguro”, e tenha sido recentemente liberado pelo governo, não há NADA que seja 100% seguro pra TODOS. Nem avião, nem açúcar, caramba!

Fica então o alerta de Lázaro, que já falava dos perigos de se administrar antidepressivos, inibidores da MAO e serotoninérgicos (tudo o que tem na Ayahuasca) a pacientes bipolares (transtorno que acomete cerca de 1,6% da população, hoje em dia) há muito, muito tempo:

Quem pode tomar, não precisa. Quem precisa tomar, não pode.

Lázaro Freire

E continua:

De hoje em diante, lembrem-se: está demonstrado que na inocente roda de “chá-manismo” pode haver algum psicótico com potencial assassino e passagem na polícia por drogas, que está se enchendo de alucinógenos na sua frente, e que pode a qualquer momento se declarar Jesus e começar a atirar… Se por um lado muita gente boa procura essa bebida na esperança de um “atalho” consciencial, ao mesmo tempo praticamente TODOS os atuais ou ex “doidões” e drogados do país também cultuam – por motivos óbvios – essa nova forma de religião “baseada” em cogumelos ou chás. Além de muitos psicóticos e borderlines que, claro, se sentem mais à vontade em um ambiente de fantasias e “mirações” – muitos suspendem medicamentos “trocando-os” pela “cura” do daime. Reparem o vocabulário dos tipos que frequentam algumas casas: no meio de gente inocente e com boa intenção, essa turma barra-pesada e/ou psicodélica provavelmente também estará lá, trocando seu alucinógeno por outro mais barato, legal, potente e pretensamente espiritual. Qual o “doidão” que nunca experimentou Daime nem ao menos uma vez? Tem certeza de que conhece o passado, histórico policial, psiquiátrico e de drogas de todos da roda em que você foi passar 8 horas alucinado e indefeso?

E o meu recado aos daimistas é: se preservem enquanto religião. Valorizem a doutrina, a transformação interna. Deixem o chá para pessoas um nível mais avançado de entendimento e COMPROMETIMENTO. A ICAR não dá seu néctar espiritual de mão beijada pra qualquer visitante de missa. O judaísmo também não. O islamismo, menos ainda. Me parece uma fórmula testada e aprovada ao longo de milênios, pra evitar a deturpação e banalização, e filtrar melhor seus integrantes. Fica a dicA.

Referência:
O que é o Santo Daime (Ayahuasca);
Ayahuasca: o “contexto xamânico”;
MTV Debate sobre Ayahuasca
Ibogaína: A planta contra o vício

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