KUNDALINI

Por Enki

Antes de mais nada, é preciso esclarecer que a literatura da chamada Kundalini Yoga foi escrita pelos Siddhas, classe de seres que atingiram a perfeição e que eram adeptos do Siddha Yoga. Como exemplo de Siddhas yogues podemos citar Babaji, Milarepa, Boghanathar, Nagarjuna, dentre outros. Ao contrário do que muita gente fala, siddhis não são poderes e o Siddha não é “o poderoso”. A tradução mais correta é “perfeição” ou “perfeito“, remetendo a maestria completa de algo.

A literatura dos Siddhas era elaborada de tal forma que eles revestiam o mais sagrado no mais profano. Essa forma de escrita foi desenvolvida de maneira a proteger o conhecimento espiritual das mentes mais fracas e especuladoras. Toda a literatura escrita por um Siddha é, invariavelmente, relacionada aos aspectos mais sutis da manifestação da Consciência. Sendo assim, é preciso entender COMO um Siddha via a manifestação da Consciência e o que era Real para eles.

O sistema de pensamento filosófico hindu é dividido em três vertentes: o dualista, o monista qualificado e o monista puro. Cada uma dessas vertentes tem suas próprias subdivisões, que não é o caso explorar aqui:

Um dualista (como NÓS, sem exceção) vê o mundo como real, a si próprio como real, a Deus como real, mas tudo isso sendo diferentes entre si, ou seja, a cadeira é real, eu sou real, você é real, Deus é real, mas todos nossos somos diferentes.

O monista qualificado vê as coisas da seguinte maneira: a cadeira é real, eu sou real, você é real, Deus é real, mas tudo isso é a mesma coisa, pois em essência tudo é divino. Não há dualismo aqui.

O monista puro (como os Siddhas) vê a cadeira como irreal, eu como irreal, você como irreal, ou seja, tudo é ilusão ou Maya. A Única realidade é Brahman ou a Consciência Pura. Aqui precisamos ficar atentos para não aceitar Maya como ilusão simplesmente. Maya não é apenas uma palavra (ilusão) é um conjunto de “coisas”, um mecanismo.

Assim, para um Siddha todo o Universo é apenas uma modificação mental, um Vritti, uma “bolha que emerge no oceano de Brahman” por causa da ignorância, advinda do “encobrimento” da Consciência com os “Véus de Maya”.

Não se pode falar do funcionamento dos Chakras, Nadis ou Kundalini baseados numa visão dualista, pois estaremos falando de um aspecto muito limitado desses tópicos. Cada Chakra, antes de mais nada, é um portal consciencial, um aspecto de manifestação de nossa Consciência muito especial. Assim também é com os Nadis e com a Kundalini.

Quando falamos de Shakti estamos falando de TODAS as formas de energia conhecidas (e desconhecidas). Shakti é o poder criativo da Consciência. Quando está latente recebe o nome de Kundalini; quando ativa recebe o nome de Prana; quando luminosa a chamamos de Fohat; quando ela queima a chamamos de fogo (ígnea) e assim por diante. TUDO É SHAKTI e Shakti não é diferente da Consciência Pura (Parama Shiva). Shakti dá origem ao mundo objetivo e Shiva dá origem ao mundo subjetivo. O desdobramento de Shakti cria o mundo como o conhecemos, através da interação de três qualidades essenciais da Natureza: Rajas (atividade), Sattwa (equilíbrio ou pureza) e Tamas (ignorância ou inércia).

De maneira mais profunda, Kundalini é Rupa (forma) e Prana é Nama (nome), ou seja, a interação da mente com os sentidos e o EGO e as suas várias modificações em objetos internos e externos. A compreensão dessa interações e o aprofundamento consciente e lúcido das experiências advindas dessas interações nos leva a uma percepção mais clara de nossa Consciência. Quando aprofundamos a percepção da Consciência, atingimos o Samadhi.

Samadhi é mais comum do que se imagina e é muito provável que todos tenham tido ao menos um em sua vida. No seu sentido original, Samadhi NÃO É a expansão da consciência. A Consciência é plena, absoluta, o TODO. Se ele é o TODO, como é que se expande? Se ela se expande, já não é o TODO. Assim, o que se expande é a minha PERCEPÇÃO da Consciência. Samadhi é a expansão da percepção que eu tenho da Consciência. E a cada momento que me torno mais sábio, que “cai uma ficha”, eu aumento a percepção da Consciência e, tecnicamente, tenho um Samadhi.

A Kundalini não sobe ou desce, nem é despertada. O que chamamos de “subida” ou “despertar” é na verdade a percepção lúcida e consciente de nossa consciência, de nós mesmos. É importante dizer também que a Kundalini NÃO É a energia sexual. Kundalini é estritamente espiritual. Se for pra associar a energia sexual com algo, está mais para associá-la ao PRANA do que à Kundalini. Há certa confusão nesse sentido por causa da visão errônea que os ocidentais têm do Tantra, associando-o a sexualidade, o que é uma inverdade. Tantra não tem nada a ver com sexo. Aliás, Babaji, Ramakrishna, Boghanathar e Milarepa eram praticantes do Tantra… nunca vi Ramakrishna falar em sexo ou fazer apologia do “sexo ritualístico”. Engraçado… Babaji também não fala… por que será que insistimos em associar o Tantra ao sexo??

Os efeitos mais grosseiros dessa percepção são sentidos no corpo físico (que é o mais grosseiro dos “corpos”). Com nossa visão limitada e sem compreender os processos de manifestação da Consciência, temos a impressão de que algo sobe, mas na verdade isso não ocorre. Aliás, “subir” a Kundalini é fácil e isso ocorre naturalmente e por si só em TODOS os seres humanos. É o que chamamos de “espirro kundalínico” e isso deixa uma sensação de bem-estar por alguns dias. A tão falada “subida” na verdade é o restabelecimento do intercurso (Maithuna) da Consciência, ou seja, ao mesmo tempo que sobe, desce. Uma via de duas mãos. Só assim o processo de “despertar” é válido. De novo, Maithuna NÃO tem nada a ver com sexo.

Para quem é mais íntimo da leitura de textos tântricos, já deve ter percebido que há a existência de um determinado tipo de energia conhecida como Dákni. As dáknis são impulsos de sabedoria que nos levam à iluminação. É ela – e não a Kundalini – que deve ser estimulada, “despertada”.

Agora o mais importante: PRA QUE QUERO “DESPERTAR” MINHA KUNDALINI? Eu sei a resposta? Sou maduro o suficiente? Aliás, se os chakras são portais de manifestação da minha Consciência, por qual chakra eu estou me manifestando com mais intensidade???

Há perigos em trabalhar a kundalini?

Sim:
Se você não entende como sua mente funciona há perigo.
Se você não enxerga seu ego e suas imperfeições, sem isenção de auto culpa, há perigo.

Não:
Se você vive da melhor maneira possível, sem máscaras e sem hipocrisia, você já trabalha a Kundalini.
Se você aceita suas limitações sem auto corrupção, você já trabalha a Kundalini.
Se você olha pro lado e consegue sentir amor sincero você já trabalha a Kundalini, pois Kundalini é igual a Shakti e essa é igual a Consciência, que É VOCÊ.

Bom, é isso ai.
Vale lembrar que o que escrevi não é a verdade absoluta, ok?
Peguem o que tem de bom e joguem fora o resto.

Abraços fraternos, Enki.

Bônus: No anime “Avatar” há um episódio onde o personagem principal precisa despertar sua consciência através do desbloqueio dos chakras. Tudo acontece muito rápido e superficialmente, mas serve como uma ótima introdução ao processo:

Avatar chacras (Obrigado pelo vídeo, Amanda!)
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