MENOS CRUCIFICAÇÃO E MAIS DIÁLOGO

Vou aproveitar um texto que vi no Facebook pra elaborar um pouco meus pensamentos a respeito da última polêmica envolvendo a 19ª Parada Gay:

MENOS CRUCIFICAÇÃO E MAIS DIÁLOGO

“Essa é a Viviany, uma mulher trans. Uma mulher que faz parte de uma categoria em que apenas 5% tem um emprego formal (leia-se: cerca de 95% é obrigada a se prostituir por não ter nenhuma oportunidade melhor). Viviany é hostilizada ao entrar em um banheiro feminino e humilhada no masculino. Viviany nasceu no corpo de um homem e sofreu por isso todos os dias da sua vida. Viviany só quer respeito.

Jesus Cristo pregava o amor. Jesus salvou uma prostituta de ser apedrejada, Jesus, o mortal mais próximo de Deus, disse que todo ser humano peca e é moralmente condenável atirar pedras – literalmente ou não – no outro sem olhar pro próprio umbigo. Jesus só pedia respeito.

Viviany se vestiu de Cristo na última parada gay; Viviany e Cristo, ambos seres humanos com um mesmo propósito, ambos pedindo o respeito ao próximo, ambos crucificados por serem quem são.

Isso não é “cristofobia”. Isso não é blasfêmia. Não é ofensa.

Ofensa é que a cada 28h um homossexual seja assassinato no Brasil. Ofensa é que 1 a cada 3 mulheres já tenha sofrido algum tipo de abuso sexual. Ofensa é que o Brasil seja o local de 39% do total de assassinatos de transexuais no mundo.

Cristãos, nós não queremos destruir a família brasileira. Não queremos diminuir sua fé. Não queremos provocar vocês. Nós só queremos que vocês sigam o que o seu Cristo ensinou. Nós só queremos que vocês olhem pra Viviany e sintam sua dor, sintam a dor de ser vista como errada pela sociedade o tempo inteiro. Viviany, seminua, exposta, sangrando, não é um ataque a vocês, é um pedido de socorro.”

Camilla Ribeiro

Pra ganhar algum dinheiro eu conserto computadores para os brasileiros morando na França, e boa parte da minha clientela é composta de homossexuais (trans, travestis, cabelereiros) e como todo bom brasileiro no exterior eles já vão logo contando suas histórias de vida, e vejo que todos eles têm vinculos familiares no Brasil, amam seu país mas não falam ou não ficam alegres com a perspectiva de voltar, mesmo tendo uma vida difícil na Europa por conta da língua, da ilegalidade, do preconceito. Porque eles são sobreviventes. Sobreviventes de uma violência tão grande no Brasil que os forçam a buscar a Europa, que não é lá o paraíso (pelo menos em Paris há muita tensão velada entre árabes, franceses e africanos que fazem o preconceito contra o homossexual parecer menor, mas não é), mas comparada a selvageria do Brasil pode ser considerado uma evolução. Andando na rua com o cabelereiro, que é negro e com traços levemente efeminados – nada chamativo, entretanto – uma mulher que cruzou nosso caminho gritou, do nada, plenos pulmões, sem nem levantar os olhos: “cachorro!” e seguiu. Parei chocado. Arregalei os olhos, comecei a rir de nervoso com a situação ridícula, aí olhei pra ele e ele não parecia surpreso. Aí percebi que, pelo visto, era comum. “Nem ligo”, falou. Mas pelo seu rosto vi que ele ligava, sim.

Assim como eles, eu saí do Brasil em busca de qualidade de vida, fugindo da violência, da falta de respeito, da idéia de sair de casa e não saber se voltava vivo. Ao contrário deles, eu não sei o que é ser ameaçado de morte, humilhado, escorraçado por uma escolha(???) sexual, por estar preso num corpo com o qual não se identifica. Não sei o que é ser negro num país de maioria negra que sente um desprezo incomum pela sua própria cor. Mas essa experiência de imigrante num país onde todos olham pra você com reprovação por QUALQUER COISA diferente do que a sociedade considera como “normal” (experimente andar com roupas muito coloridas por aqui, por exemplo), de ver suas casas, saber de suas vidas e seus problemas nos aproximou um pouco.

Espero que eu ou vocês que me lêem nunca precisem saber o que é sair do país sem um tostão, ir virar escravo de um cafetão que lhe diz que, se você não pagar as dívidas da viagem e da hospedagem (com juros), você e sua família no Brasil morrem. E que isso tudo seja contado de uma forma que parece mais fácil e melhor do que ficar no Brasil.

Espero também que a comunidade LGBT tenha amadurecido em utilizar a religião como forma de chamar a atenção para a causa. Masturbar-se com um crucifixo causa repulsa, críticas justificadas e perda de simpatizantes. Não é sensato fomentar o ódio onde já existe tanto ódio, da mesma forma que não se apaga um fogo jogando gasolina. Num mundo onde fanáticos travestidos de religiosos urinam em cima e quebram imagens de católicos em busca de se afirmarem e onde uma pseudocelebridade busca publicidade barata espalhando fotos seminua na frente de uma Igreja parece se inverter a lógica de quem é minoria e quem é o algoz. E a história de Jesus é tão forte justamente porque ele era a minoria. Ele era o diferente. O que sofreu preconceito, críticas, escárnio, não só por pensar diferente de sua própria cultura (e da cultura dominante da época) mas por permanecer fiel a ela até sua morte. E nisso o protesto de Viviany foi perfeito. Onde uns vêem blasfêmia, deveriam estar vendo reflexão, palavrinha tão em desuso nestes tempos de Internet com informação demais e conteúdo de menos.

Homossexualidade e religião podem e DEVEM dialogar. Da mesma forma que há verdadeiros monstros travestidos de religiosos (e que recebem os holofotes justamente por suas posições controversas), há verdadeiros cristãos que ouvem as palavras de Jesus e sabem que não devem atirar pedras, que devem perdoar não sete, “mas até setenta vezes sete” vezes e que devemos ter cuidado com os falsos profetas, “pois eles vêm até vós vestidos de ovelha, mas por dentro são lobos ferozes”. Os sepulcros caiados. Da mesma forma, há grupos ou elementos no mundo LGBT que parecem sentir prazer em atacar ou ridicularizar as religiões que eles vêem como inimigas, indiscriminadamente.

Portanto, sejamos sábios e vamos focar nas semelhanças, e não nas diferenças.

Veja também:
Amai o diferente como a ti mesmo

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