JESUS E A TORAH

Estava eu pensando na relação de Jesus com o Velho Testamento, e cheguei à conclusão que, se por um lado Jesus veio dar continuidade à aliança entre Deus e o povo judeu (“Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel“) por outro lado ele solapou a rigidez da Torah (conjunto de Leis e tradição do povo de Israel, que estão inseridas no nosso Velho Testamento juntamente com outros livros).

Enquanto doutrina da Torah é nitidamente baseada numa sociedade patriarcal, hierárquica, rígida, agressiva / afirmativa, normativa e com grande preocupação com a FORMA, Jesus veio trazendo uma doutrina feminina, intuitiva, integrativa, flexível, doce, quase taoísta, que valoriza o CONTEÚDO. Os confrontos verbais que vemos dele com os Fariseus é simplesmente o choque cultural e religioso com os observadores da Torah. A parábola do Samaritano é a grande síntese disso. Ele não diz que seguir a Torah é errado, apenas que o ESPÍRITO dela se perdeu no meio de tantas proibições e rituais, e foi esse espírito que ele procurou resgatar. O tempo de Jesus (2.000 anos atrás) já não era adequado a que se continuasse reproduzindo condutas de uma sociedade que já tinha no mínimo 1.000 anos NAQUELA ÉPOCA. Era tempo de uma nova aliança, uma nova conduta.

Os fariseus, quando souberam que ele fizera emudecer os saduceus, reuniram-se todos; e um deles, doutor da lei, para o experimentar, interrogou– o, dizendo: Mestre, qual é o grande mandamento na lei? Respondeu-lhe Jesus: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas.

Mateus 22:34-40
Jesus legal

Tem uma passagem que é muito citada pra justificar que o Velho Testamento foi ratificado por Jesus. Mas uma leitura atenta vai perceber como este homem, sutilmente, sem agredir as crenças de sua época, invoca o SENSO DE JUSTIÇA, assim como Platão o fez anteriormente, pra reescrever os mandamentos para uma nova Era, não de medo e imposição, mas de COMPREENSÃO:

“Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da Lei um só i ou um só til, até que tudo seja cumprido. Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no Reino dos Céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no Reino dos Céus. Pois eu vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus.”

Mateus 5:17-20

E aí, logo em seguida, ele começa a releitura dos mandamentos, com “Já diziam os antigos: Não matarás” aí ele abre o leque de compreensão, ao dizer que, se você tem raiva de alguém, isso é tão ruim (pro Reino dos Céus) quanto matar. A mesma coisa com o adultério. O problema não é o ato do adultério, mas o que vai na cabeça da pessoa mesmo que ela nunca toque na outra! Ele tira o foco do físico e traz pro psicológico!

O REINO

Uma coisa preocupante na mitologia judaica daquela época era a noção do Messias, o ungido. O que os judeus esperavam era uma mistura de guerreiro, sacerdote e Rei, que viesse trazer o “Reino de Deus”, que nada mais é do que o reinado de Israel sobre a Terra e a aniquilação de todos os pagãos. Nada muito espiritualizado. Isso explica porque Judas e Pedro esperavam uma atitude mais agressiva da parte de Jesus contra os romanos. E que Jesus não tenha ganho nem uma nota de rodapé na história dos judeus daquela época. Não deixa de ser interessante que Jesus tenha se “apropriado” dessa imagem messiânica (através do cumprimento das profecias que falavam da vinda do Messias) e a subvertido completamente! E isso depois de já ter subvertido a imagem do Reino de Deus pra algo metafísico, sutil, como um estado de espírito (imagem esta que já é aceita pelos judeus de hoje e provavelmente pelos Cabalistas no passado). Como se ele dissesse “o caminho pro povo de Israel é por aqui, pessoal. Se continuarem por ali, vão continuar a sofrer, e sofrer…” e foi o que aconteceu.

Creio que os judeus sejam um povo especial, de certa forma escolhidos de Deus, mesmo. São inteligentíssimos, desenrolados e com grande tino pra ganhar dinheiro. Que outro povo nos daria Jesus, Super-homem, Freud, Einstein, o Spielberg e o Borat? Mas a relação dos judeus para com sua terra e seus símbolos só têm lhe trazido dor e sofrimento, com um derramamento de sangue generalizado, por MILÊNIOS! É cíclico! E é interessante notar que tudo começa com a promessa de Deus de que existe um lugar pra eles (a terra prometida) e daí começa toda a confusão que chega aos dias de hoje com toda a carga emocional, religiosa e política praticamente intactas! O apego à terra reflete a ânsia de um povo que viveu sem ela por milhares de anos. A arrogância para com o vizinhos reflete um povo que foi o mais longamente atacado e humilhado na face da Terra. E assim o pêndulo kármico se detém longamente nos extremos…

Jesus, mais uma vez, deu a receita para seu povo exemplificada nele mesmo:

As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça.

Mateus 8:20

bandeira da espanha Ler em espanhol (por Monica Aliss)

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