A VERDADEIRA VONTADE DE POTÊNCIA

Por Franco Atirador

Palavras são animais traiçoeiros, que arrastam consigo toda a história de sua utilização pregressa. Ao escolhermos uma palavra corrente para designar um conceito novo, seus sentidos coloquiais permanecem na sombra, à espreita, e acabam engolindo o novo com a bocarra insaciável do familiar. Foi esse o risco em que Friedrich Nietzsche incorreu ao definir o conceito central de seu sistema – porque Nietzsche era um pensador sistemático, embora a forma de apresentação de suas idéias fosse assistemática – como Vontade de Potência (Wille zur Macht). Foi esse também o equívoco de Aleister Crowley quando, inspirado por Nietzsche, definiu o que há de mais fundamental no universo como Verdadeira Vontade (True Will).

Thelema

Tanto um quanto o outro queriam fugir do preconceito substancialista que consiste em definir o Ser em estado puro, a realidade-em-si, como um sujeito sobrenatural, isto é, como uma entidade dotada de qualidades antropomórficas (como quando pensamos no Espírito impessoal como um espírito personalizado, uma cópia etérica de nós mesmos, geralmente com o requinte de dotá-lo de braços, pernas e cabeça). Em uma palavra, Nietzsche e Crowley (que provavelmente se inspirou em Nietzsche, embora o filósofo não apareça na bibliografia que ele indica em Magick in Theory and Practice) pretendiam combater a noção de que nossa essência espiritual fosse um ego semelhante ao que imaginamos carregar dentro de nossas cabeças, só que livre das limitações materiais deste último. A prova disso é que uma parte significativa dos aforismas de Nietzsche é uma análise dos processos por meio dos quais os preconceitos psicológicos e hábitos linguísticos produzem a falsa crença em um ego, assim como Crowley definiu a Travessia do Abismo como o ponto em que o sujeito é estripado de si mesmo e as ilusões do ego lhe são arrancadas pela pressão exercida pelas forças impessoais das Sephiroth superiores, Binah e Hockmah.

Mas palavras são animais traiçoeiros, etc. Se a escolha da Vontade como metáfora básica para o substrato último da realidade, por um lado, permite escapar da idéia ingênua de que esse substrato seja uma substância e, mais ainda, uma substância pessoal (isto é, um sujeito), por outro, ao se tratar de um vocábulo derivado da linguagem psicológica, empurra o leitor inevitavelmente para a tentação de interpretar essa Vontade como a minha vontade, dessa forma reintroduzindo o ego através do ato mesmo pelo qual se pensava tê-lo exorcizado. Deus sabe o que os nazistas fizeram ao se apoderar da Vontade de Potência (com a cumplicidade canalha da irmã e do cunhado de Nietzsche, que não tiveram escrúpulos em torcer, mutilar e adulterar os escritos do filósofo para fazê-lo caber na perspectiva estúpida e canhestra do pintor de paredes austríaco). Deus sabe também quantas barbaridades egocêntricas e atitudes prepotentes já não invocaram em vão o santo nome de Thelema, a palavra grega para “vontade” que está no coração do sistema de Crowley. Deus sabe – mas afinal, Deus está morto, esse Deus pensado de forma igualmente prepotente e egocêntrica, e não por acaso, uma vez que ele é ao mesmo tempo a matriz e a hipóstase desse sacrossanto eu pessoal, a quem atribuímos uma vontade também ela personalística.

Por outro lado, esse Deus pessoal é, em última análise, uma personificação, uma representação grosseiramente antropomórfica daquilo mesmo que Nietzsche chamava de Vontade de Potência, bem como da True Will de Crowley, e que, para ser bem compreendido, deve ser pensado em termos análogos aos do Brahman hindu, do Dharma budista ou do Tao chinês. Poderíamos dizer que se trata uma força, mas isso também seria uma metáfora que, se tem a vantagem inegável de ser impessoal, do outro já anda em franco processo de deterioração sob o efeito implacável da entropia semântica. Quantas vezes já não ouvimos uma riponga deslumbrada ou um newagista descolado exclamarem que, “ah, Deus pra mim é uma energia”, quando na verdade continuam a pensá-lo como um Papai do Céu tranquilamente sentado sobre as nuvens – se duvidar, cofiando sua portentosa barba branca enquanto aspira o delicado perfume dos incensos queimados em Sua honra? E como se pode fazer alguma coisa em honra de Alguém se, precisamente, esse alguém não for imaginado como alguém?

Nietzsche, porém, é bastante claro ao dizer que a Vontade de Potência não se confunde em momento algum com a vontade psicológica, não é um impulso para a ação que emanaria de um sujeito determinado, com desejos e necessidades específicos. Muito pelo contrário, é a Vontade de Potência que cria o sujeito, o qual não passa de um efeito de perspectiva ilusório. Mais ainda, a Vontade de Potência não só precede o sujeito, mas o próprio ser humano. De fato, à medida que Nietzsche aprofunda o conceito, o caráter originário da Vontade de Potência vai se tornando cada vez mais evidente, até que, no final, ele a coloca como anterior até mesmo à vida, à matéria e a própria realidade, que nascem todas de sua ação, assim como, no pensamento taoísta, a pluralidade das coisas provém do Tao primordial.

Encontraríamos afirmações semelhantes em Crowley, se eu não estivesse com preguiça de procurar as passagens pertinentes. 😉

Como explica a prof.ª Scarlett Marton: “A vontade de potência é o impulso de toda força a efetivar-se e, com isso, criar novas configurações em sua relação com as demais.” É por esse motivo que a tradução habitual de Wille zur Macht como “vontade de poder”, se não está errada do ponto de vista linguístico, é inteiramente inadequada filosoficamente falando. As primeiras formulações nietzscheanas do que depois viria a se tornar a Vontade de Potência surgiram de suas reflexões sobre os gregos, e é no sentido grego que ela deve ser compreendida. Não se trata de potência como poder, mas como potencial (em grego, dynamis). A Vontade de Potência é o impulso para realizar todos os potenciais do ser, todas as suas possibilidades. Manifesta-se concretamente sob a forma de duas forças opostas que estão presentes na filosofia de Nietzsche desde seu primeiro livro, O Nascimento da Tragédia: Apolo e Dionísio. Apolo é o impulso para criar formas, estruturas e configurações, e Dionísio é o impulso para dissolver essas formas a fim de dar espaço para novas configurações.

Ok, aqui é o ponto em que o yin transforma-se em yang, e eu não estou falando de Apolo e Dionísio como personificações do par yin / yang, mas do movimento interno da própria filosofia de Nietzsche. Em princípio, poderíamos supor que nada poderia estar mais distante de um pensamento tão anti-essencialista e anti-substancialista do que o conceito de arquétipos, pelo menos tal como estes são vulgarmente entendidos, isto é, como objetos eternos ou entidades universais. Mas, mencionei isso há poucos dias, a compreensão vulgar da idéia de arquétipos não poderia estar mais distante da verdade. Vimos que, para Jung, é impossível determinar o que os arquétipos são em si mesmos, uma vez que eles são incognoscíveis, inacessíveis à observação direta. Da mesma forma, em vários momentos, Nietzsche fala sobre a impossibilidade de definir a Vontade de Poder, que só pode ser observada indiretamente, através do movimento pelo qual ela cria e dissolve configurações e estruturas. E como é que, de acordo com Jung, tomamos conhecimento da existência dos arquétipos? Através das estruturas e configurações que eles criam em nossa psique e, na verdade, na própria realidade que percebemos (afinal, o que é a sincronicidade, senão a criação de um padrão arquetípico no que nos aparece como sendo o mundo exterior?). Se isso não for o bastante para estabelecer, senão a identidade, pelo menos a afinidade entre a Vontade de Potência e o arquétipo junguiano, lembremos que este último descende, por meio de um vasto percurso que não é o momento de acompanhar (e que vai das idéias platônicas à Coisa-em-siDing-an-sich – de Kant) da noção pré-socrática de arché como princípio fundamental da realidade. E o que nos diz a profª Scarlett Marton sobre a Vontade de Potência? “Mais próximo da arché dos pré-socráticos que da entelechéia de Aristóteles, o conceito nietzscheano constitui um dos principais pontos de ruptura em relação à tradição filosófica.”

Mas alto lá! Quem acompanha meus delirantes posts desde os tempos do http://atirador.zip.net deve se lembrar que já tropeçamos com a arché pré-socrática quando estávamos falando sobre Dionísio e a superposição coerente da mecânica quântica (em um post que espero futuramente incorporar ao Franco-Atirador Replay). E aqui, o círculo se fecha, porque para o pré-socrático Anaximandro, o arché era uma unidade indiferenciada (que ele chamava de apeiron, “ilimitado“), o qual contém em si o potencial (dynamis) de todas as coisas, que vêm à existência através do mesmo conflito universal que Nietzsche via como a principal forma de manifestação da Vontade de Potência. Não é de admirar que Nietzsche só tivesse palavras elogiosas para Anaximandro, ainda que criticando a tendência deste último a interpretar o vir-a-ser como um fardo a ser expiado. Apesar de o texto de Nietzsche sobre Anaximandro (contido no § 4 de A Filosofia Trágica na Época dos Gregos) ser anterior à formulação final da Vontade de Potência pelo pensador alemão, não é difícil reconhecer esta última na paráfrase que Nietzsche faz das idéias do grego sobre o apeiron: “O ser originário assim denominado está acima do vir-a-ser e, justamente por isso, garante a eternidade e o curso ininterrupto do vir-a-ser. Essa unidade última naquele ‘indeterminado‘, matriz de todas as coisas, por certo só pode ser designada negativamente pelo homem, como algo a que não pode ser dado nenhum predicado do mundo do vir-a-ser que aí está, e poderia, por isso, ser tomada como equivalente à ‘coisa-em-si‘ kantiana.”

É quase nos mesmos termos que Jung descreve o arquétipo psicóide em A Natureza da Psique, estabelecendo até mesmo a correlação entre ele e a Ding-an-sich de Kant. Pois bem, nessa mesma época, como vimos, Carl Jung estava trabalhando com o físico Wolfgang Pauli na possível identidade entre os arquétipos e a condição indiferenciada da matéria que a mecânica quântica chama de superposição coerente. E o que é a superposição coerente? O entrelaçamento de todos os estados potenciais de cada objeto (isto é, Dionísio como a dissolução de todas as formas determinadas) que buscam se atualizar em uma situação concreta (ou seja, Apolo como a configuração determinada de um conjunto desses potenciais). Para resumir a equação: Vontade de Potência = apeiron = arquétipo = superposição coerente = Vontade de Potência.

Como se vê, estamos muito longe da simplória leitura nazista da Vontade de Potência como o direito da raça superior de dominar e até destruir as raças inferiores.

Para terminar, resta apenas mostrar onde é que a Verdadeira Vontade de Crowley se encaixaria nessa equação. Para isso, basta lembrar que a principal personificação da True Will nos escritos de Crowley é o deus egípcio Ra-Hoor-Khuit, um dos epítetos de Hórus, a respeito de quem ele escreve logo no capítulo 0 de Magick in Theory and Practice:

“O Espaço infinito é chamado a Deusa NUIT, e o ponto infinitamente pequeno e atômico, no entanto, Onipresente, é chamado de HADIT. Estes são imanifestos. Uma conjunção destes dois infinitos é chamada RA-HOOR-KHUIT, uma Unidade que inclui e dirige todas as coisas.”

Aleister Crowley
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