GIRL POWER (O PODER DA MULHER)

GIRL POWER (O PODER DA MULHER)

Muito se fala hoje em dia sobre empoderamento da mulher e como as personagens femininas estão sendo retratadas de forma poderosa em todas as mídias (o tal Girl power, literalmente o Poder da garota). Mas pra mim Girl power não é colocar mulheres pra agir e falar como homens. Isso só responde a um anseio (compreensível) das mulheres em se verem no lugar que antes era reservado aos homens na cultura. Quando essa fase de deslumbramento passar e tivermos mais autoras – e autores que entendem o feminino – na mídia veremos de fato uma geração de mulheres contemplando desde cedo seu poder, e poderemos sonhar com um futuro brilhante para as mulheres e, consequentemente, pro mundo.

O poder masculino é imponente, espalhafatoso, ameaçador, pavonesco (lembrando que na natureza é o pavão macho, assim como em todas as outras aves, que tem toda aquela beleza pra impressionar a fêmea). O feminino simplesmente sabe intuitivamente que detém o poder, por isso não precisa (e talvez nem consiga) exibi-lo. Por isso a primeira coisa que a sociedade patriarcal fez foi abolir a intuição: “oi, você não precisa se conectar com nada interno, nós temos tudo pronto aqui, basta seguir esses mandamentos e confia.” Jesus, que mandava orar no quarto, em silêncio, e se recolhia na meditação acabou virando um símbolo na cruz, um novo ídolo pra ser seguido cegamente, e instituições foram criadas pra garantir que todas as regras estejam lá e alguém sempre pense por você. Enquanto isso, bruxas foram queimadas. Culturas indígenas foram suprimidas.

A polaridade feminina age sem parecer que está havendo esforço. Há nisso um grande poder transformador agindo através da intenção, mas nem sempre é muito eficaz diante da força bruta.

Ontem tivemos o que eu considero o pináculo da cultura humana: Paris, a mais bela cidade do mundo, abre “sua” festa para uma população multicultural, celebrando a diversidade musical e homenageando da música clássica ao pop, exibindo o estado da arte em termos de show de fogos com uma sutileza tamanha para combinar cores, formas e música visando encantar uma platéia que é incentivada a relaxar e sentar na grama do Champ de Mars com os amigos e beber, conversar, rir e congregar em paz.

Ironicamente, no mesmo dia tivemos uma demonstração da mais pura barbárie humana, cortesia de uma cultura machista e patriarcal, com a cena nada sutil de um caminhão passando por cima de dezenas de pessoas que estavam a celebrar a mesma festa em Nice.

Qual dessas cenas você acha que roubou o dia? Qual ficará marcada na mente da humanidade pro futuro? A demonstração de centenas de anos de genialidade humana nas mais diversas artes, ou um ato que poderia ser executado por qualquer demente?

Assim, o feminino (o sensível, o intuitivo, o circular e harmonioso, não necessariamente relacionado ao sexo biológico) foi sendo soterrado durante centenas de anos, e mesmo as mulheres esqueceram suas histórias, sua jornada: estamos sempre seguindo a Jornada do Herói, há centenas de anos, e nela a mulher ou é um prêmio ou uma motivadora de mudanças na vida do herói, pro bem (abridora de caminhos) ou pro mal (tentação e perdição), pois esse foi o papel delas em nossa sociedade (e nosso inconsciente) desde tempos imemoriais. Nos últimos tempos, estamos vivendo um momento de transição da mulher na sociedade, com ela ocupando mais espaços, mais papéis, buscando não só influenciar os caminhos dos outros (homem, filhos, países) mas fazer seu próprio caminho pessoal. Mas nossa mentalidade, lá no fundo, ainda não mudou, e no geral ainda há muitas historias com mulheres onde apenas se troca o herói homem por um personagem feminino (infelizmente a Rey do novo Star Wars: The Force Awakens cai um pouco nessa cilada). As coisas só vão mudar mesmo com mais mulheres dando sua contribuição intelectual sem tentar emular o modelo passado de histórias de sucesso. Felizmente hoje podemos encontrar casos de belos arcos de personagens femininas criadas por autores homens.

cersei
Cersei, com um olhar de quem está reconquistando o poder com todo o peso que ele traz e todo o sofrimento que a levou até ali.

Bons exemplos de Girl Power podem ser encontrados no livro / série Game of Thrones:

– Sansa, que de uma mulher abusada e limitada a um mundo de servir aos homens consegue encontrar a própria voz e manipular o maior manipulador dos 7 reinos (Mindinho) pra sua vantagem.
– Arya, uma menina que vai contra o sistema, vê seu mundo desabar e se torna uma sobrevivente, é uma personagem cheia de facetas e complexidade, que mesmo assustada e insegura vai conseguindo se tornar uma combatente e executar sua vingança silenciosamente.
– Melisandre, uma das personagens mais poderosas da série, mesmo tendo centenas de anos de experiência torna-se insegura e pensativa após seu sistema de crenças falhar, e nem mesmo ter revivido um homem com magia muda isso.
– Daenerys, a mãe dos dragões, quebradora de correntes, a lacradora não-queimada. Uma faceta mais agressiva da Grande Mãe, que acolhe os que sofrem e é implacável com quem a desafia.

A característica interessante no feminino é que, enquanto o masculino tende a agir como sonâmbulos que estão de olhos fechados mas juram que estão acordados e fazem as coisas com confiança (às vezes dá certo, às vezes se esborracham), elas são mais cuidadosas, e essa insegurança é vista muitas vezes por elas mesmas como fraqueza, porque elas se comparam aos homens que vão lá e fazem, e mal sabem que é porque a mente masculina é muito mais simples no funcionamento e por isso mesmo deixamos de levar em consideração muitas e muitas coisas que elas levariam. E é por isso que o diálogo e o equilíbrio entre masculino e feminino é recomendável. Sem querer sair do tópico, mas deixando uma informação interessante, quem tinha essa dualidade com grande força era Hitler, possuidor de grande intuição pra “ler” e farejar medo em seus inimigos e que quando decidia uma coisa usava de uma força de vontade que beirava a estupidez. Felizmente os Aliados souberam usar isso contra ele na segunda metade da guerra.

Mas voltando ao assunto, além de Game of Thrones temos na mídia os trabalhos de James Cameron, um dos poucos homens que conseguem criar personagens femininos fortes e não caricatos: Sarah Connor de Exterminador do Futuro, Neytiri de Avatar, Ripley de Aliens e Rose de Titanic. Outra fantástica personagem do cinema é Ryan, do filme Gravidade. Mas recentemente uma personagem tomou de assalto os cinemas, no que eu acho o melhor e mais bem acabado exemplo de heroína que nao tenta emular um homem: a Imperator Furiosa do novo Mad Max: Fury Road. Ela tem motivações femininas; não é uma paladina; tem um passado nebuloso onde foi tanto vítima quanto caçadora; é independente, mesmo precisando do personagem-título (que também precisa dela) e o mais importante pra uma valorização do feminino para além dos estereótipos: ela é careca, maneta, mal-vestida, passa graxa no rosto e ainda assim é linda, SEM precisar fazer caras e poses sensuais. O que nos leva a um outro problema: a Hiper-Sexualização da Personagem Feminina. O processo de criar um filme é muito similar ao de criar uma HQ. Quando você está escrevendo um roteiro, quando você está pensando em enquadramentos, trabalhando luz, cor e mesmo trilha sonora. Tanto nas HQs como no cinema os realizadores são em sua maioria homens e miram um público-alvo que são os adolescentes homens (em sua maioria). As poses e roupas que as personagens de quadrinhos são retratadas (especialmente em capas) são pensadas pra mexer com os hormônios dessa galera e vender, claro. Quando levam isso pro cinema, esse recurso fica ainda mais óbvio e esquisito: há pelo menos dois momentos em que a calcinha da Mulher-Maravilha aparece no filme Batman x Superman e um deles me causou constrangimento, pois a atriz tava claramente fazendo uma pose não natural de foto de revista light porn (ou animes hentai). Aconteceu a mesma coisa no trailer de Esquadrão Suicida com cenas nada sutis pra mostrar as curvas da Arlequina numa roupa que ficaria vulgar mesmo que ela fosse prostituta (caso estejam curiosos, ela é psiquiatra).

Mas o futuro é promissor para as personagens femininas, e para as meninas e meninos que se inspirarão nelas. Podemos ver isso claramente no encerramento do trailer de Star Wars: Rogue One, onde pela primeira vez um personagem, ao invés de dizer a clássica frase “Que a Força esteja com você” usa – com um olhar maroto e um meio sorriso de quem sabe que está levemente subvertendo uma tradição – “Que a Força esteja conosco“.

starwars rogueone force
Isso é feminino. É inclusivo. É exercer seu VERDADEIRO poder.

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