TITANIC 3D: DEVO VOLTAR A ESSE NAVIO?

Enquanto me preparo pra entrar no cinema, o twitter do Titanic em tempo real me avisa que há exatos 100 anos e 25 minutos o mais luxuoso e conhecido navio do mundo atingiu um iceberg. Esse pensamento me acompanha por toda a sessão, pois estou assistindo novamente a um dos filmes da minha vida, desta vez em 3D e praticamente em sincronia de um século com o naufrágio dele.

Cartaz de Titanic com Rose e Jack

Titanic é um dos filmes da minha vida não (só) porque me apaixonei pela história de romance ou pelas magníficas cenas da metade final, mas sim porque sou fascinado pela história do navio desde os 11 anos, vendo e lendo tudo o que podia sobre a descoberta dos destroços em 1985. Isso tudo gerou um frenesi na época, que se prolongou por alguns anos. Então cresci apaixonado pelo navio e sua mística. Só pra situar vocês, o OUTRO filme da minha vida é O Exterminador do Futuro II, de James Cameron, o qual eu assisti umas 8 vezes no cinema e trocentas outras em vídeo, TV e DVD. Imagine então quando descobri que James Cameron iria filmar Titanic? Acompanhei apreensivo todas as (poucas) notícias que saíam nas revistas e jornais, e que indicavam que o filme seria o mais caro já feito e destinado a afundar nas bilheterias (nenhum jornalista queria perder a piada). Pois bem, não só ele se tornou a maior bilheteria de todos os tempos (superado apenas em 2010 por Avatar, do mesmo diretor) como ficou em cartaz por quase um ano, com pessoas fazendo fila pra ver e rever esse que se tornou o último “épico” de Hollywood. Cameron soube dosar humor, fascínio, pieguismo, romance, terror e aventura como pouquíssimas pessoas já fizeram (eu mesmo só consigo pensar em Spielberg no seu auge e a trilogia Star Wars) e criou um filme que não envelhece. A prova está aí, 12 anos depois, com Titanic sendo relançado em 3D.

Você pode pensar que Cameron está só atrás de mais algum dinheiro, mas definitivamente não é o caso. Os produtores e distribuidores sim, CERTAMENTE, estavam salivando pra que ele o fizesse, mas Cameron ficou podre de rico com Titanic e, como se não bastasse, ainda encheu os bolsos com MAIS DINHEIRO AINDA com Avatar. Ele podia se aposentar e nunca mais tocar numa câmera e ainda assim ele arriscou a vida por mais 3 vezes pra filmar os destroços do Titanic pra o documentário Fantasmas do Abismo (Ghosts of the Abyss). Ele é um apaixonado pelo navio, como eu. E isso se reflete nos detalhes do filme. TUDO ali é uma recriação meticulosa do navio em 1912, desde o talher até o tapete (feito pela empresa que fez o original do Titanic), a recriação e posição de cada personagem no momento do naufrágio, os acontecimentos, tudo ali é real, menos os personagens principais e a família de Rose. Por isso pode apostar que esse filme é a menina dos olhos de Cameron. Quando soube que ele iria fazer uma conversão para 3D eu segurei a respiração. Todos já devem ter visto um filme 3D convertido, essa coisa horrível em que os personagens parecem cartões de papelão animados contracenando. Mas nesse filme eles gastaram o triplo do tempo e dinheiro normalmente investidos na conversão e conseguiram realizar uma coisa que eu imaginava ser possível na teoria, mas nunca tinha visto nas telas: usar geometria 3D pra distorcer uma imagem 2D. Por exemplo, quando a câmera dá um close na cara da Rose velhinha, você vê que há uma profundidade entre o nariz e as bochechas. E não pararam nisso: na cena da escadaria da 1ª classe, se vc olhar com atenção vai ver que há profundidade no ENTALHE DA MADEIRA DO RELÓGIO DO FUNDO. Isso é preciosismo, e isso é BOM! Em vez dos objetos saltarem na sua cara, o que Cameron fez foi criar PROFUNDIDADE, então você tem diante de si praticamente uma máquina do tempo com uma janela para 1912, e você vai se sentir por vezes caminhando dentro do Titanic! Qual o preço disso pra vc? Pra mim – que sou fascinado pela navio – foi até barato, porque foi uma experiência de QUALIDADE, e por isso irei ver novamente (tenho esperanças de ver isso na tela IMAX).

Foi bonito ver a fila gigante que se formou (novamente!) pra esse filme. Bonito também ver gente jovem, umas que nem eram nascidas quando o filme passou! Mas o que me surpreendeu mesmo foi notar pelos comentários e reações que muita gente ao meu redor, gente com mais de 40 anos, também não tinham visto o filme!! E foi delicioso acompanhar as reações, com gente que gemeu de verdade quando a Rose leva um tapa na cara, ou o momento em que, diante do silêncio sepulcral no cinema ao ver todos os corpos boiando, uma garota solitária começa a chorar e soluçar bem alto, o que fez o cinema inteiro cair numa gargalhada nervosa (já que a maioria a essa hora estava fungando e chorando calados). É exatamente ISSO que torna a experiência de ir ao cinema gostosa (além, é claro, de uma boa tela e bom som, indispensáveis num filme desse).

Cena do filme Titanic com Rose e Jack no ginásio de esportes do navio.
Chorei sem querer ao ver essa cena em 3D. Sempre a achei a mais bela de todo o filme, não pela interpretação, mas pela composição de cores e luz. Vê-la em 3D me fez ir às lágrimas de emoção.

Uma coisa que quero frisar novamente: este é o último épico hollywoodiano. Foi feito com um navio construído quase em escala real, com centenas de figurantes e o dinheiro foi aplicado no que está DE VERDADE na tela, e não em gente fazendo arte digitais no computador. Até mesmo o navio quebrando ao meio é uma maquete gigantesca, e não um modelo em computador. Um filme dessa escala MERECE ser visto no cinema, seja em 2D ou 3D. Mas posso lhe garantir que o 3D não está lá gratuitamente: ele ajuda a contar a história e me faz pensar se Cameron não previa, já naquele tempo, que um dia seu filme teria a dimensão da profundidade. As cenas em que Jack e Rose afundam junto com o Titanic ganharam finalmente um sentido de EXPERIÊNCIA cinematográfica, pois em 2D uma cena subaquática é sempre muito prejudicada pela pouca visibilidade e contraste, enquanto em 3D ela finalmente ganha – literalmente – CORPO e profundidade. Se existia alguma dúvida em sua mente sobre se o 3D convertido poderia ficar bom, pode ter certeza de que fica. No fim do ano fui a Curitiba visitar a exposição internacional sobre o Titanic, com peças resgatadas do navio. Eles montaram aquele corredor branco da 3ª classe em tamanho real, com camas, grades e tudo, e ao ver no filme em 3D eu me senti transportado de volta àquele lugar, era uma reprodução VISCERAL de se estar no local físico: o clima de claustrofobia daquele corredor é REAL. Por isso, se você gostou da experiência de ver o filme em 2D no cinema, re-assistir Titanic em 3D vale cada minuto, porque desta vez você estará “literalmente” – ou o mais próximo possível disso – dentro do navio!

Roger Ebert, um dos críticos mais respeitados do mundo, falou que os efeitos 3D do filme eram inócuos e que em certas cenas nem efeito 3D tinha, e que ele tirava os óculos e não via diferença. Ora, embora respeite o currículo do cara, só tenho o que discordar: meus olhos estão muito bons, e tem 3D (e ótimo 3D) em CADA FRAME desse filme. E quando tirei o óculos pra ver ficou tudo meio embaçado (como deve realmente ficar) e sem contraste (como deve ficar, já que o brilho é aumentado pra compensar o escuro do óculos 3D). A imagem estava perfeita, cores brilhantes, tela com resolução 4k (do cinema Kinoplex do Plaza Forte, em Pernambuco), óculos com tecnologia RealD e som razoável. Eu recomendo que procurem o melhor cinema da sua cidade pra ver esse filme, porque ele foi todo remasterizado pra se beneficiar dos últimos avanços tecnológicos (inclusive foi remasterizado pra IMAX). A imagem está mais vívida e definida: vi detalhes que NUNCA tinha percebido antes – e o 3D ajuda muito a fazer seus olhos saltarem pra objetos e pessoas no fundo da cena – e, embora Cameron não tenha admitido, eu percebi que ele melhorou sim os efeitos visuais datados. Ao contrário de George Lucas, as mudanças foram apenas no matte, ou seja, o “recorte” da imagem sobreposta a outra. Todo filme dos anos 90, quando passa em alta definição, você vê que, nas cenas de efeito o personagem está usando chroma-key (o famoso efeito Chapolin Colorado). Com a tecnologia atual, nos filmes de hoje (como em Transformers 3) isso se tornou impossível de distinguir, e como em Titanic 3D cada personagem teve de ser manualmente “recortado” da tela pra poder criar a camada 3D, Cameron ficou com a faca e o queijo na mão pra consertar esse problema. Quem mais se beneficiou disso foi a cena em que Rose está pendurada do lado de fora do navio (no original dava pra ver até a luz verde do chroma key refletindo no corpo dela). A ÚNICA coisa ruim dessa conversão não foi culpa de James Cameron: a legenda em português. Ela ficou num nível de profundidade que não é nem na frente nem atrás dos objetos da tela. Isso obriga o olho a “entronchar” pra dentro (ficar vesgo) pra poder focar na legenda quando a cena tem muitos planos de profundidade. Isso pode causar dor de cabeça em alguns, então no meu caso eu procurei não olhar muito pra legenda, já que eu sabia de cor vários diálogos e queria mesmo é curtir o visual. Ver dublado talvez seja uma boa pedida pra quem se cansa fácil em filmes 3D, já que ele tem 3 horas.

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Crítica de Pablo Villaça

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