MAD MAX: FURY ROAD

Este é o melhor filme de ação dos últimos 15 anos. Está quase empatado com Gravidade e Avatar como uma das mais fantásticas experiências que um IMAX pode proporcionar. George Miller, 66 anos, não fez um filme pra telas pequenas. Ele é grandioso, maior e mais bizarro que a vida, maior que seus icônicos personagens e, talvez por isso mesmo, tenha desagradado alguns que queriam ver um show do Mad Max. Pra esses eu posso dizer que o diretor/escritor não os enganou: desde o segundo filme da trilogia original Mad Max se estabeleceu como um personagem secundário, um fio condutor para os acontecimentos e personagens desfilarem, e no fim ele saía da aventura da mesma forma que entrou, nem maior nem menor.

A verdadeira estrela do filme é Imperator Furiosa, interpretada por Charlize Theron. Uma mulher forjada da mesma fibra de uma Sarah Connor ou da tenente Ripley. O encontro de Furiosa com Max é como o confronto de duas cobras, onde ambos se estudam durante muito tempo antes de dar um bote. E nisso a atuação de Tom Hardy é perfeita, pois ele é um ator que fala muito com os olhos e com o rosto. Charlize é também boa o suficiente pra equiparar-se nos silêncios e atuação corporal, mas brilha ainda mais nos (poucos) diálogos que tem no meio do filme.

Muito se falou da polêmica de feminismo no filme, com a associação de homens héteros (?) “Men’s Rights Activists” querendo boicotar o filme porque Max é submisso à Furiosa. Grande besteira, mas o filme é assumidamente feminista, confirmado pelo diretor. Mas e daí? Avatar e Aliens também o são e não vimos reclamação alguma sobre issso (ao contrário, não conseguimos sequer imaginar os filmes sem elas). Mercenários 2 é um filme assumidamente de macho e é uma porcaria, e não por causa disso (o primeiro também exala testosterona e é muito melhor).

George Miller dá uma aula de como fazer um filme de ação, humilhando a meninada de Hollywood e mesmo gente da sua geração. Seria preciso uns 3 Spielbergs na direção só pra fazer aquelas cenas finais! A quantidade de cenas é impressionante, cobrindo toda a ação, mas nada disso iria funcionar se não existisse uma edição no mesmo nível de genialidade. E a quem o diretor confiou esse trabalho desgraçadamente épico? À sua própria esposa. E quem pensa que ele usou a figura da esposa pra poder editar ele mesmo está muito enganado. Ela trabalhou dia e noite enquanto ele filmava no deserto da África do Sul. George filmou 480 horas e deu tudo isso pra ela editar. E quando ela perguntou: “por que eu?” ele respondeu “porque se eu der isso a um cara ele vai fazer um filme de ação qualquer”.

Isso nos leva à próxima crítica feita ao filme: Alguns pensam que ele não tem história, que é só ação, mas o diretor George Miller é um perito em contar uma história através da ação, e isso é o domínio perfeito da linguagem cinematográfica, não menos. Ele confessa que foi muito influenciado pelo cinema mudo, daí sua técnica apurada. Nesta análise de Mad Max 2 vemos o quanto o diretor é genial em passar as mensagens através do visual, sem uma linha sequer de diálogo. E no vídeo abaixo vemos como ele usa uma técnica de manter tudo centralizado pra que a ação seja rápida sem ser confusa pro espectador:

É o tipo de coisa que tem de ser ensinado na escola! É gênio puro, coisa que Michael Bay não consegue fazer nem em 10 filmes!

Em Fury Road George Miller está não só mostrando e aprofundando o mundo que vimos em Mad Max 2 (uma elaborada crítica a nossa própria sociedade), como está pela primeira vez nos inserindo nele, tamanha a insanidade da direção / edição / som, que nos coloca não como TESTEMUNHAS confortáveis, mas como PARTICIPANTES da ação. E como participantes não precisamos de explicações, apenas vemos o que está ao nosso redor com a naturalidade que DEVE ser exigida por quem está inserido em um mundo onde a LOUCURA É A REGRA.

SPOILERS

Quem não viu o filme não leia além desse ponto.

Como o filme é explicado através do visual, ele carrega em si uma grande dose de simbolismo. A tribo dos War Boys, por exemplo, segue fanaticamente o líder Immortan Joe de forma religiosa. Essa religião é como um retorno às religiões primordiais: patriarcal, e como os antigos romanos ou vikings venera aquilo que lhe cerca ou ajuda a sobreviver (no caso, os carros); como é uma sociedade guerreira, crê em um paraíso para os melhores guerreiros (Valhalla) e reencarnação (“eu vivo, eu morro, eu vivo novamente”). As frases são repetidas mecanicamente, indicando o grau de lavagem cerebral daqueles garotos. O líder supremo controla um recurso natural precioso (água) e reparte um mínimo com o povo, através de um duto que derrama um pouco de água em cima das pedras (uma bela e sutil cena que mostra o desperdício, a esterilidade do lugar e a falta de uma vontade de doar realmente) e que ainda pode ser interpretado como uma ejaculação fora (Bukake anyone?). Essa última interpretação, embora pareça forçada, dentro DESTE filme faz sentido, pois ele faz esse paralelo de sociedade patriarcal versus matriarcado muito claramente. O leite materno, por exemplo, é negado aos bebês para benefício da elite do lugar, que usa as mulheres como vacas leiteiras ou parideiras.

Nesta sociedade uma mulher se destacou: Imperator Furiosa, que é imensamente respeitada por todos. O filme não conta sua história (a não ser que ela foi raptada quando criança pelo Immortan Joe), o que é interessante, pois ficamos curiosos a respeito da personagem e podemos assim imaginar qualquer coisa pra perda do braço, pra suas motivações, etc. Ao vermos essa mulher ter um lugar de destaque nessa sociedade imediatamente imaginamos que ela deva ser “badass”, e assim o filme segue maravilhosamente sem explicações desnecessárias e sem subestimar a inteligência da platéia.

Mad Max também aparece inicialmente como badass ao matar e comer o lagarto. Mas numa virada inesperada de eventos ele vira uma presa fácil para os War Boys. E assim se inicia uma perseguição de 20 minutos de tirar o fôlego, como se o diretor quisesse dizer “bom dia, bem-vindos ao meu mundo, isso foi só um aquecimento, agora vamos começar de fato”. Só vi isso duas vezes no cinema: Soldado Ryan e Gravidade, e ambos foram experiências inesquecíveis, então façam um favor a vocês mesmo(a)s e assistam Mad Max Fury Road na maior tela que puderem.

Depois temos a cena onde somos apresentados às mulheres de Immortan Joe se banhando: parece um comercial de Victoria Secret ou mesmo um soft porn. Não por acaso: essa é a forma como aquelas personagens eram usadas, e a forma como aquele mundo as via, idealizadas e sexualizadas. Max provavelmente as vê assim por alguns minutos, mas ele é um sobrevivente antes de tudo, tem moral pra não tirar proveito das pessoas e mais na frente vemos que ele sabe dos perigos e armadilhas de se deixar levar pela sexualidade irrefreada neste mundo. Imediatamente ele identifica o perigo em Furiosa e a desarma como pode. Num curto espaço de tempo vemos que ela é equivalente a Mad Max em força, agilidade, inteligência, perigo e – novamente sem muitos diálogos – eles percebem que é mais interessante se aliarem contra o inimigo em comum.

O personagem do War Boy Kami crazy (referência óbvia aos kamikazes) é quase um alívio cômico, mas sem ser idiota. Nas cenas de ação do começo, testemunhamos o sacrifício de um guerreiro de sua tribo e vemos que o nível de tolerância para com o fracasso é baixíssimo entre eles. Isso vai definir e embasar as ações desse personagem por todo o filme.

É com ele que constatamos uma outra forma de poder do feminino: o poder do acolhimento, da transformação do homem. Através do carinho, a ruiva consegue tornar o inimigo em aliado. Interessante notar também como o caminhão das mulheres é um caminhão de leite: esse grupo está não só negando o alimento aos homens como é quase um oásis móvel de leite, combustível e água no meio do deserto.

Ainda assim elas não sabem pra onde ir. Perseguem um sonho, uma esperança. Quando a realidade as alcança (através primeiro do contato com uma “súcubus”, que usa a sexualidade como arma pra conseguir sua presa, e depois com a sabedoria das mais velhas) elas se desesperam a ponto de seguirem para a morte no meio do nada. Aí que entra pela primeira vez a verdadeira força do Mad Max na trama, um aspecto “masculino” (que não deixa de estar nas mulheres, mas é tradicionalmente associado ao homem: Yang, ativo) que em vez de acolher ou contornar o problema diz “vamos voltar, vamos enfrentar o problema de frente ou morrer tentando” que, não por acaso, tem um quê da filosofia dos War Boys de ir pro tudo-ou-nada.

Não canso de frisar o quanto os personagens são memoráveis: as velhinhas motoqueiras, o cara com balas nos dentes, o anão com um fortão (uma referência ao – ou mesmo os próprios – Master Blaster do Mad Max 2), e uma senhora com sementes (mais uma referência ao feminino que carrega a vida com ela, além da mais óbvia, que é a mulher grávida carregando um filho saudável) que parece uma versão live-action da pirata do filme Laputa, de Hayao Miyazaki.

Destaque para o desenho de produção, onde cada roupa e máquina reflete um estilo e uma necessidade de vida: temos a tribo dos carros porco-espinho, os os motoqueiros vivendo nas montanhas, os carros dos War Boys com âncoras pra fazer outros carros pararem e pêndulos para invadi-los.

A fotografia fugiu da tendência de retratar um mundo pós-apocalíptico com cores desbotadas e resolveu fazer exatamente o contrário, com cores fora da realidade. Mas só isso não faz uma boa fotografia, e o testemunho de que ela é boa mesmo é que o diretor quer lançar uma versão do filme em blu-ray em preto e branco, apenas com a trilha sonora. Os enquadramentos realmente brilham em P&B, um testemunho da maestria do diretor e da técnica do fotógrafo John Seale (70 anos!):

Mad Max Fury Road é filme pra se ver e rever e ser comentado por muito tempo. Longa vida ao diretor George Miller e que ele possa nos brindar com mais filmes da série antes dele ir todo cromado e brilhante para o Valhalla.

Atualização:

Não deixem de ler o artigo do New York Times que conta toda a SAGA que foi fazer esse filme, uma produção extremamente conturbada onde a história só existia na cabeça do diretor, que ia filmando e filmando e os atores enlouquecendo, quase sem falas e sem acreditar que aquilo ia dar em alguma coisa coerente, especialmente a Charlize Theron, que se estranhou com Miller várias vezes.

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