MAGIA NO CINEMA 2: O EXTERMINADOR E O TAROT

Parte 1 de 2
Parte 2 de 2

Transcrição e desenvolvimento:

O magista é aquele que, com auto-mestria, com o avanço espiritual e o conhecimento de como utilizar as Leis deste universo consegue alterar as coisas em sua vida para criar o destino que ele vê condizente em seu caminho.

Prophecy; Veritas society

Essa frase me lembra o filme O Exterminador do Futuro, que trata justamente de mexer no passado pra alterar o futuro. O filme conta a história de Sarah Connor, uma garçonete de vida simples e com um campo de visão bem limitado. Só que um robô assassino vindo do futuro quer mudar seu destino. É irônico que justamente a interferência dessa máquina é que causa o destino que ela – a máquina – veio evitar. Um soldado humano, chamado Kyle Reese, também veio do futuro pra protegê-la e conta toda a história pra Sarah, e de repente ela se vê como a única esperança da humanidade, pois vai ser no futuro a mãe do líder da luta dos humanos contra as máquinas.

Torna-te quem tu és!” – É o chamado da filosofia de Nietzsche pra humanidade, mas é também o chamado de Kyle pra Sarah. Ele acredita que Sarah é a guerreira que vai ensinar tudo pro filho, mesmo vendo diante de si uma mulher frágil e assustada. Quando Buda atingiu a iluminação ele percebeu que todas as pessoas eram Budas, mas não se davam conta disso! Quando Nietzsche olhava pra humanidade ele via o potencial dos Super-Homens, o estágio para além dos humanos, mas o que tinha diante de si eram pessoas adormecidas, que ele chamou de “mortos” na obra Assim falou Zaratustra. Nós somos condicionados a sermos limitados, às vezes por nossas próprias idéias e conceitos. É daí que surge o desprezo que ele tinha pelos “fracos”, pelo “humano, demasiado humano” e que foi distorcido pelo nazismo como uma eugenia. A força ou fraqueza não é externa: é interna.

A diferença de Nietzsche pro budismo é que pra o primeiro o Super-Homem deve ser uma alma totalmente livre, liberta até das amarras morais, e que deve ser capaz de fazer de tudo pra realizar sua Vontade de Poder (ou Vontade de Potência). Essa Vontade é quase sempre associada a alguém sendo um filho da mãe dominador e arrogante, mas o próprio Nietzsche deixa claro que não é o caso (ao menos não obrigatoriamente):

Eu achei força onde as pessoas normalmente não a procuram: na pessoa simples e agradável, sem o menor desejo de dominar, e inversamente, o desejo de dominar tem aparecido quase sempre pra mim como um sinal de fraqueza: eles temem sua própria alma escrava e a cobrem com um manto real, mas acabam sempre escravos dos seus seguidores, de sua fama, etc. A natureza verdadeiramente poderosa sempre domina, pois é uma necessidade, não é preciso levantar um dedo pra isso.

Nietzsche; Nachlass

É sim um poder interior, uma autoridade que se impõe naturalmente, uma busca pela auto-perfeição. A grande diferença da filosofia de Nietzsche pro budismo é que, enquanto o budismo tem seu lastro moral, ele também busca se desvencilhar das coisas mundanas, em busca do Nirvana, a cessação do sofrimento, enquanto Nietzsche criticava duramente isso e colocava o seu Super-Homem como alguém voltado para as coisas da Terra, não buscando nada fora. Só que a filosofia budista TAMBÉM pode ser interpretada como um auto-aperfeiçoamento terreno, sem buscar nada “fora”. Isso se dá porque o conceito de Nirvana é a “cessação de movimento”, ou seja, inclusive o movimento (desejo) de “buscar o Nirvana” ou “se tornar Buda” ou buscar algo fora do mundo. Então o budismo pode ser visto também como uma filosofia próxima do niilismo de Nietzsche, que não era de todo niilista (Nietzsche era um troll, que destroçava as esperanças metafísicas das pessoas e jogava na cara delas uma versão cruel do mundo, numa mistura de crítica / constatação).

Então temos o Super-Homem, que está acima do bem e do mal e cujas atitudes estão livres das amarras da sociedade, e a Sarah Connor é exatamente assim, alguém que vai até o fim em busca de seus objetivos, e não à toa ela acaba se encaixando no perfil de uma louca, tanto que ela foi internada num manicômio no segundo filme.

“Cada pessoa tem que escolher quanta verdade consegue suportar”, dizia Nietzsche, e a gente vê o quanto isso pode ser duro pra ela no primeiro filme, quando a gente acompanha todo o drama psicológico de Sarah Connor e como ela vai passando pelas cinco fases que se seguem à constatação de uma tragédia: Negação, Fúria, Negociação, Depressão e Aceitação. Isso com a ajuda de sua metade masculina, o Animus, que no filme é Kyle Reese, que tem a função psicológica de ajudá-la a tornar-se quem ela é (ou deve vir a ser).

O desespero é o preço pago pela autoconsciência.

Friedrich Nietzsche

Interessante notar que, quanto mais aumenta a aceitação de Sarah, ou seja, a tomada de responsabilidade por parte dela, menos influência tem o Animus (Kyle), e mais ele vai ficando em segundo plano. Surge então o confronto final, direto, cara a cara com a sombra (o Exterminador), e ela vence. No fim do filme já temos uma nova Sarah Connor, dona de si, transformada. Alguém que é capaz de encarar os desafios de frente.

O diálogo final é fantástico pois sintetiza exatamente isso: “Está vindo uma tormenta”, diz o garoto. E ela responte, laconicamente: “Eu sei”. E parte com o carro em direção à tempestade, sem medo, uma pessoa livre das amarras da sociedade e dos próprios medos. A continuação O Exterminador do Futuro 2: Dia do Julgamento traz a consequência disso, e vemos uma Sarah completamente modificada, agora como um soldado, em grande forma física, disciplinada, uma guerreira. O arco da jornada do herói dela se completou no primeiro, mas sempre há mais desafios em outros níveis.

O segundo filme mostra que é possível ter forças pra mudar o que parece inevitável. Toda a tônica dos filmes é que ocorreu uma explosão nuclear que desencadeou uma guerra entre homens e máquina, e a volta no tempo pelos humanos foi pra MANTER aquele status de guerrilha, e não evitar que as máquinas assumissem o controle, porque aquilo era “inevitável” que acontecesse. Mas Sarah medita numa frase que foi dita pelo seu lado masculino (o animus do primeiro filme): “There’s no fate” (não há destino), e com isso ela resolve interromper o processo que leva à tomada das máquinas.

Não há destino

Há uma oração que diz:

Concede-me, Senhor, a serenidade necessária
para aceitar as coisas que não posso modificar,
coragem para modificar as que eu posso
e sabedoria para distinguir uma da outra.

Nós temos que incorporar essas qualidades em nossas vidas e saber como dosá-las, até porque o limite entre a coragem e a estupidez é tênue, como muitos vídeos no Youtube podem provar.

O Exterminador do Futuro 2 é incrível porque o que vemos na resolução dos conflitos é uma troca, uma parceria entre força bruta (a relação Exterminador e Sarah), negociação (a relação de Sarah com o filho), espontaneidade (o garoto com o Exterminador) e planejamento (Dyson com o resto do pessoal). E se formos mais longe ainda, poderíamos supor que tudo isso que acontece no segundo filme ocorre apenas dentro da cabeça dela, e que ela nunca saiu do manicômio, e que o que vemos é o “diálogo” das diversas partes de sua psique, ou seja, os personagens seriam apenas os aspectos psicológicos da própria Sarah. Mas isso é coisa pra estudantes de psicologia se debruçarem.

O que gostaria de trazer agora é uma breve análise de alguns aspectos dos personagens pelo ponto de vista do Tarot:

O Tarot como conhecemos tem suas origens traçadas até a Itália, por volta do século XV, mas estudiosos dizem que sua origem remonta ao Egito. A maior característica do Tarot em relação aos jogos de cartas são seus Arcanos maiores, 22 figuras que simbolizam idéias, situações, estados de espírito, e por isso são usadas no aspecto divinatório. Elas são importantes pois fazem contato com as imagens e símbolos que trazemos no nosso inconsciente, que o psiquiatra suíço Carl Jung chamou de Arquétipos. O símbolo é um dos elementos mais importantes na magia porque é justamente o contato com o nosso poder interno. Quando uma pessoa lê o Tarot pra alguém, ela está expondo um mapa simbólico do inconsciente dessa pessoa em determinado momento.

No Tarot uma pessoa não pode ser representada por um único Arcano, por isso o símbolo daquela carta indica o tipo de energia daquela pessoa dentro de determinado contexto, não na vida como um todo. Alguém pode deter o poder de um Arcano em uma situação, mas não em outra, como por exemplo ele pode estar atuando na vida mais emocionalmente e estar representado no Tarot como um Rei de Taças, ou mais racionalmente e aparecer como um Rei de Espada.

Rei de paus: É a face masculina do Poder Divino, o gerador de todas as coisas. É a presença do Espírito, irradiando o ideal superior e exercendo seu efeito sobre tudo e todos. Sua presença inspira segurança, fé, confiança, respeito. No filme O Senhor dos Anéis o Rei de Paus é Gandalf, o mago (e no terceiro filme acaba sendo Aragorn). No filme O Exterminador do Futuro ele é o John Connor adulto, o cara que todos se sentem confiantes ao redor, e por isso que a idéia das máquinas é eliminá-lo.

Rainha de Ouros: É a Sarah Connor no primeiro filme. Está ligada à sustentação material, à segurança tanto afetiva como material. É mãezona por natureza, alguém superprotetora. A gente vê todas essas características logo que aparece a personagem. Ela tem um namorado cuja única característica é ter um carro bom, se preocupa demais com a amiga e mata a carência de dar afeto com um bichinho de estimação.

Aparece então o Kyle Reese, o soldado do futuro, que tem na primeira metade do filme o perfil do Cavaleiro de Paus (aquele que atua indo de encontro ao que está pré-estabelecido, com a faca no dente, rumo ao desconhecido, protetor), mas na verdade sua energia mesmo – quando se conhece sua personalidade – é a do Rei de Copas.

O Rei de Copas é o mais sensível de todos. É amoroso, sabe encantar uma mulher com seu jeito meigo de ser. Pode ser carente, e se sentir como um peixe fora d’água no meio dos outros homens, já que está longe de ser alguém machista que vive apenas no universo masculino. E ele fica sozinho lá no futuro, não se vê ele com os outros soldados. O Rei de Copas é um cara que idealiza demais (e Kyle idealiza Sarah Connor como nunca), mas tem serenidade e calma em tempos de conflito.

A energia do Rei no Tarot simboliza o poder fecundador. A rainha é o receptáculo a ser fecundado, e o caráter de tudo que se realiza da interação dos dois é moldado pela natureza do Rei, que é como o DNA, enquanto a Rainha é o óvulo. No caso do filme, o Rei Kyle Reese não só fecunda a Rainha com seus ideais (caráter, coragem e determinação, transformando-a na Rainha de Copas) como literalmente fecunda ela, gerando o John Connor.

No segundo filme, Sarah se torna então a Rainha de Paus. Na cartomancia indica uma mulher forte, cuja vida pode estar mais ligada às realizações, que podem ser profissionais, ao serviço de ideais, da fé. Costuma descrever uma personalidade honesta, feminina, mas ativa, de caráter enérgico, firme, determinada.

Ás de espadas: É o Exterminador do Futuro. A junção da vontade ferrenha com a presença da ação (Vontade ferrenha define o exterminador, pois ninguém pode pará-lo a não ser destruindo-o completamente). No nível Mental, esta carta denota esclarecimento intelectual, precisão e clareza (Características de andróides). No emocional, ausência de sentimentalismo.
No físico representa a saúde, a recuperação do potencial nervoso. (A cena mais marcante do primeiro filme é quando o robô se “opera”. Ele é auto-suficiente ao extremo, e no segundo ele muda a rota de suprimento de energia pra voltar à ativa).

O Louco: John Connor pequeno, no segundo filme. Essa carta significa a busca, a Impulsividade, o Filho Pródigo. A experiência de ultrapassar os limites. (Ele foi adotado por tutores e nunca se deu bem com eles, sempre foi revoltado e nunca aceitou imposições da madrasta. Hackeou um caixa eletrônico pra tirar dinheiro, ou seja, ele sempre buscava ir além dos limites impostos).

Mental – Indeterminação. Conselhos incertos. (A gente vê bem isso com ele tentando orientar o Exterminador).
Emocional – Revezes sentimentais, incerteza com os compromissos. (É o que mais acontece com ele durante todo o filme).
Físico – Transtornos nervosos. (Ele fica bem inseguro depois que encontra a mãe, chora e se aflige com tudo o que está acontecendo).

O Mundo: Dyson, o desenvolvedor da Skynet. Significa integridade absoluta. Alegria, riqueza. (Dyson é rico e íntegro).

Mental – Grande poder da mente. Desejo de aperfeiçoar tudo que se faz. (É a definição de Dyson, que trabalha até tarde pra aperfeiçoar seu projeto).
Emocional – Elevação do espírito, sentimentos altruístas, sem egoísmo nem sensualidade. Amor à humanidade, às tarefas sociais a cumprir. (Ele sacrifica seu trabalho, sua segurança e por fim SE sacrifica em nome do que é certo)
Físico – Atividades sólidas e brilhantes. Êxito em níveis mundanos. (Ele não é um intelectual, um filósofo, mas é um gênio no campo da computação).

É impressionante notar como esses personagens se encaixam tão bem nas cartas do Tarot. Parece até que o diretor e escritor James Cameron se baseou nelas pra compor os personagens. Quem sabe?

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