JAMES CAMERON

James Cameron tinha 22 anos e não sabia o que fazer da vida. Canadense, mas morando na Califórnia, dirigia caminhões e fazia bicos pra sobreviver. Estudou Física, mas se formou mesmo em Filosofia. Gostava de cinema (especialmente estudar sobre os efeitos ópticos), mas não tinha nada de concreto em mente. Até ver Guerra nas Estrelas (Star Wars). Foi esse filme, em 1977, que mudou sua vida. Assim como Elvis antes dele, largou o emprego de caminhoneiro e entrou para a história ao fazer o que gostava.

James Cameron no computador

Muito se falou sobre Star Wars. Mas um dos melhores comentários (que infelizmente não recordo a fonte) diz que Star Wars tem uma das melhores aberturas da história do cinema, pois nos coloca imediatamente dentro da história de forma quase que inteiramente visual. Tudo bem que tem aqueles textos flutuando na tela pra dentro do espaço, mas se você não ler aquilo, ainda assim vai entender a posição de vulnerabilidade dos Rebeldes diante da máquina do Império apenas ao ver a minúscula nave rebelde fugindo desesperadamente da gigantesca nave do Império, que toma todo o topo da tela, de forma lenta e inexorável. É algo tão visualmente impactante e genial que hoje em dia se duvida que foi mesmo idéia de George Lucas, o cara que criou Jar Jar Brinks e a nova trilogia (a que arruinou a própria franquia Star Wars).

Cena de abertura de Star Wars

Pois bem. Essa é uma daquelas cenas que resume a história, que impacta e fica na memória de toda uma geração.

James Cameron, o cara do começo do texto que teve a vida mudada por Star Wars, acabou criando sua própria revolução cinematográfica: O filme que vai influenciar os “James Camerons” do porvir: Avatar. Não por conta da história. Se você for ver, o primeiro Star Wars também não tem uma grande história, é uma miscelânea de mitologias costuradas com personagens memoráveis. Avatar também é uma reciclagem de histórias (mais especificamente Pocahontas), mas não tem personagens tão memoráveis, então ele apela ao visual, utilizando uma nova tecnologia pra época (o 3D) e fazendo uso disso para possibilitar a exploração de um novo planeta. Essa é a grande força de Avatar.

Mas a cena mais emblemática e genial, a que ficou impressa em minha memória da primeira (e segunda) vez que vi, foi uma que nada tem a ver com o visual exuberante de Pandora. É uma cena que situa a história visualmente e metaforicamente, usando escalas de grandeza e tecnologia. Quando Jake chega em Pandora, ele é obrigado a parar em seu caminho na cadeira de rodas por conta de uma gigantesca carreta que cruza seu caminho; e vemos ela de baixo pra cima, com suas rodas enormes, enlameadas, e com algumas flechas fincadas nas rodas. Essas flechas não parecem atrapalhar em nada o funcionamento da máquina, que segue imponente. Nesta hora Cameron estabelece o mocinho (Jake, vulnerável e pequeno diante daquilo tudo), o vilão (a corporação, representando “o progresso” imparável, invulnerável e sem sentimentos) e os aborígenes (embora valentes, mostram-se pequenos e incapazes de deter aquela ameaça). Tudo em uma tomada, sem uma linha de explicação.

Cena do filme Avatar
Avatar

Cameron é o herdeiro espiritual daquele George Lucas que impressionava platéias em 1976. Um diretor que fez sua própria sorte, através do próprio trabalho. E muito trabalho.

James Cameron fazendo uma tela de cinema com os dedos

A história de Cameron no cinema começa com Mercenários das Galáxias, filme de 1980 produzido por Roger Corman, em que Cameron trabalhou como Assistente de Arte. Roger Corman é conhecido no mundo do cinema por fazer filmes que custam pouco mas são criativos. Todo mundo trabalha muito ganhando pouco, fazendo de tudo um pouco. Cameron era a pessoa ideal pra isso. Ele começou fazendo desenhos para as naves do filme, e a primeira que ele fez foi a nave com peitos do personagem principal. Roger Corman ficou impressionado: “Eu gostei!”, disse ele. E logo Cameron foi cuidando de tudo um pouco. Dirigiu cenas espaciais, cuidou de toda a arte, etc. Foi nesse filme que ele conheceu Gale Anne Hurd, que era assistente de Corman e tinha uma pequena produtora. Ambos ficaram amigos (se casariam de 1985 a 1989).

No proximo filme de Corman, Galaxy of Terror, Cameron também trabalhou como Diretor de Unidade (e faz-tudo). Lá ele conheceu (e empregou) Bill Paxton. Paxton entrou no set do filme, Cameron perguntou se ele tinha disponibilidade pra começar trabalhando, Paxton respondeu que sim e Cameron: “então vai pintar esse muro”. Paxton viria a se tornar um grande amigo de Cameron e atuou nos filmes Terminator (o Punk que morre no começo), Aliens (“Game over, man!”) e Titanic (O caçador de diamantes).

Em Galaxy of Terror Cameron chamou a atenção dos produtores com sua engenhosidade em resolver problemas: uma vez ele estava filmando a cena de um braço (falso) com vermes (reais) por cima. Mas os vermes não se mexiam. Então Cameron pegou um cabo de eletricidade descascado e colocou embaixo do braço. Quando ele gritava “Ação” a corrente era ligada e os vermes começavam a se mexer. Quando gritava “corta” a corrente era desligada e os vermes paravam. Os produtores viram aquilo e pensaram “Se esse cara consegue dirigir vermes, o que ele não vai conseguir com atores reais?”

Após isso, ele ainda trabalhou nas pinturas e efeitos visuais do filme Fuga de Nova York. Então finalmente foi dado a ele o emprego de diretor em Piranha II, mais um filme de baixíssimo orçamento. Cameron viu aí a oportunidade de despontar, mas seu estilo meticuloso o fazia gastar tempo demais na direção e exceder e muito o orçamento do filme. Assim, ele foi despedido. Uma batalha de nervos começou porque, por contrato, Cameron não podia tirar seu nome do filme e nem podia terminá-lo (porque estava despedido). Uns desconhecidos filmaram as cenas que faltavam, e o nome de Cameron ficou. Mas ele conseguiu um acordo pra ir na Itália ver o resultado antes de exibirem. O filme estava um lixo, então Cameron aproveitou que não tinham mudado o código da sala de edição e entrava lá à noite, sem ser visto, pra editar o filme sem ninguém saber (ele acha que o editor nunca desconfiou disso).

Sem dinheiro, sem prestígio e sem falar uma palavra em italiano, esse era o ponto mais baixo da vida de James Cameron. Pra não passar fome, roubava pão. Pra piorar, ele pegou febre. E foi aí, numa pensão barata na Itália, em 1982, no meio de uma febre que fazia seu corpo suar e tremer como se estivesse levando choques elétricos, que ele teve uma visão num sonho: Um robô metálico, com um sorriso de caveira e olhos vermelhos, surgia de dentro das chamas.

Desenho do Exterminador feito por Cameron
Desenho do Exterminador feito por Cameron

Era uma imagem horrível, assustadora, e pra exorcizá-la de sua mente ele desenhava variações desse robô, uma delas ele partido ao meio, se arrastando com a ajuda de uma faca, perseguindo uma mulher. O roteiro de O Exterminador do Futuro (Terminator) nascia aí.

Em um movimento arriscado, James Cameron contactou a amiga Gale Anne Hurd e vendeu os direitos do roteiro de Terminator pra produtora dela por 1 dólar, com a condição de que somente ele pudesse dirigir o filme (até hoje ele não ganha 1 centavo com os lucros do Exterminador do Futuro; mas os direitos voltarão pra ele em 2019). A aposta valeu: após Piranhas II, ninguém mais na indústria queria saber de Cameron como diretor, mas o roteiro de Terminator era muito bom pra ser ignorado. Gale Anne Hurd foi dura com os executivos e evitou de todas as formas que o acordo fosse quebrado. Até que um estúdio independente, Hemdale Pictures, se mostrou receptivo. No dia da reunião, Cameron mandou o ator Lance Henriksen – o futuro andróide Bishop do filme Aliens: O Resgate, que James havia (até aquele momento) escolhido pra interpretar o exterminador – na frente. Henriksen, usando uma jaqueta de couro, entrou chutando a porta e perguntando “James Cameron está aqui?”. Antes que chamassem a polícia, o futuro diretor apareceu e acalmou todo mundo. O estúdio acabou aceitando fazer o filme, mas ficou desconfiadíssimo de ter Cameron na direção, e secretamente chamaram um outro nome para substituí-lo na primeira escorregada que Cameron desse.

Os executivos não quiseram Henriksen pro papel do Exterminador, então ele acabou ficando com o papel de um dos policiais. Pro exterminator eles tentaram contratar O.J. Simpson (o ator / jogador que, tempos depois, exterminou de verdade sua namorada), mas não deu certo. Já para o papel de Kyle Reese eles estavam tentando um nome de sucesso: Mel Gibson, Matt Dillon, Kurt Russell, Christopher Reese, Tommy Lee Jones e até mesmo Bruce Springsteen e Sting foram chamados!! Os estúdios estavam pensando apenas no potencial do mocinho que salva a garota, como era até então em quase todos os filmes (menos Alien). Então consideraram chamar um jovem austríaco que estava despontando com o filme Conan, o Bárbaro. Seu nome? Arnold Schwarzenegger. Ele se encontrou com Cameron pra uma entrevista pro papel de Kyle, mas Arnold falava com mais empolgação do papel do Exterminador, e dava sugestões: de que o robô não devia piscar quando atirasse, como ele devia se mover, falar, etc. Cameron, que a princípio pensava no robô como alguém mais magro, alguém pra se INFILTRAR entre os humanos (uma idéia que ele utilisaria no segundo filme) começou a desenhar num guardanapo a metade do rosto do robô com a metade do rosto do Arnold, e viu que daria muito mais certo escalá-lo pro papel do robô, o que Arnold adorou, mas quando ele contou pro agente ouviu um “você está louco?! Fazer um vilão que mata dezenas de policiais numa delegacia? Isso vai acabar com sua carreira!”. Mesmo assim ele foi em frente. Michael Biehn, que ficou com o papel de Kyle Reese, brinca: “se Arnold Schwarzenegger fosse o Kyle Reese, quem teria de ser o exterminador? O King Kong?”.

A personagem Sarah Connor é inspirada em duas pessoas próximas a Cameron: Sua esposa na época era garçonete, e a mãe de Cameron trabalhava no exército canadense, e nos fins-de-semana treinava montar e desmontar fuzis de olhos vendados, na chuva. Então a Sarah Connor começa o filme como sua esposa e termina como sua mãe. Mais Freudiano que isso só se fosse o contrário.

O orçamento de Terminator era de 4 milhões de dólares, e tanto Cameron quanto a produtora Gale Anne Hurd estavam decididos a manter o custo baixo pra poderem se dar ao luxo de utilizar efeitos especiais no final. A maioria das filmagens foi à noite, pra esconder imperfeições e se aproveitar das lâmpadas de vapor de mercúrio já instaladas nas ruas, que dispensam o uso de equipamento extra de iluminação. A fotografia do filme (Adam Greenberg) foi pensada para ser em tons metálicos, então foi utilizado muito um tom de azul (que acabou sendo conhecido no mundo do cinema como “azul Cameron”). Foi um dos primeiros filmes a adotar esse tipo de fotografia para representar a luz da noite. A edição e o ritmo foram todos inspirados nos filmes Mad Max 1 e 2, do qual Cameron é fã.

James “Jim” Cameron é um diretor incansável, que dá sangue pra fazer um filme e gosta de se meter em todos os aspectos da filmagem: mecânicos, luz, decoração, até mesmo esguichar o sangue nas roupas dos personagens. Como ele começou trabalhando com de tudo um pouco no cinema, ele SABE que o que pede é possível, e se não fizerem do jeito que ele quer, ele mesmo vai lá e faz. Isso faz Cameron ser odiado por grande parte dos que trabalham com ele, mas ao mesmo tempo respeitado por quem tem o mesmo grau de comprometimento com o cinema. E Schwarzenegger é um desses. Os dois são amigos graças ao sucesso desse filme, mas mesmo o profissionalismo de Schwarza não o salva de levar uns gritos de Cameron, que tem essa mania de ser rude com todo mundo no set (esse lado negro da personalidade de James até ganhou um apelido, Mij – Jim ao contrário). Linda Hamilton aceitou que sua irmã gêmea participasse de Terminator 2 com uma condição: se ele desse um só grito nela, as duas sairiam do filme.

Os executivos do estúdio pediram pra ver uma versão preliminar de O Exterminador do futuro para avaliação. Era o primeiro filme que Jim terminava, não tinha muita experiência, então entregou uma montagem do filme sem que as partes ainda não-filmadas (todo o final do filme, onde o robô caça a Sarah na fábrica, ainda não estava pronto por conta dos efeitos especiais que estavam sendo feitos) aparecessem em storyboard. Os executivos viram o filme até a parte em que o caminhão explode e o casal se abraça, e decidiram que aquele era o final ideal, ou seja, não precisava filmar mais nada! Cameron ficou putíssimo da vida, mandou os executivos se fuderem e bateu a porta atrás deles, jurando que terminaria o filme de qualquer jeito. Cameron achou que seria demitido ali mesmo, mas por algum motivo não foi. Mas também não conseguiu mais dinheiro pra terminar o filme. Obcecado, Jim adotou o estilo de guerrilha pra terminá-lo: com uma equipe pequena ele filmou as cenas que faltavam na fábrica, e depois foi pro deserto com mais alguns amigos filmar as cenas finais com Sarah Connor. Tudo sem apoio financeiro do estúdio. Até o cachorro que está na traseira do jipe da Sarah é o cachorro de Cameron. No meio do deserto, um policial apareceu e perguntou se eles tinham permissão pra filmar. Não tinham. Um dos colegas, um rapaz de 18 anos, disse ao policial que estavam fazendo filmando um trabalho pra faculdade. A cena em que o jipe de Sarah parte em rumo ao desconhecido é realmente a última cena filmada para O Exterminador do Futuro.

O filme foi um estrondoso sucesso de público e crítica. Catapultou a carreira de Cameron do nada para a glória.

James Cameron pensando

Eu me lembro perfeitamente bem do dia em que vi Exterminador pela primeira vez. Eu devia ter uns 12, 13 anos, e fui na casa de um amigo de um amigo, que era rico e tinha um videocassete (novidade das novidades na época). O filme era diferente de tudo o que eu já tinha visto até então. Era a coisa mais sádica e assustadora que já havia passado diante dos meus olhos. Um novo mundo se abriu pra mim ali. Por falar em olhos, lembro vivamente de quando fechei os meus, na cena em que o Terminator faz uma “operação” arrancando seu olho machucado com um canivete (uma homenagem ao Cão Andaluz, filme de Buñuel). Eu ainda não havia visto Blade Runner, nem Alien, eu não conhecia ainda a ficção científica “séria” por conta de não ter idade pra ir ao cinema ver os filmes “pra maiores de 14 anos”. Nem mesmo O Retorno de Jedi eu pude ver no cinema, então O Exterminador do Futuro foi o meu primeiro contato com o VHS e meu primeiro contato com esse mundo. Outro motivo pra lembrar desse filme pra sempre é que na saída eu peguei uma tempestade, e estava tão alegre de ter visto o filme que vim dirigindo com tudo minha bicicleta por dentro da lama, curtindo a chuva na cara e a força da natureza. Acontece que havia um bueiro coberto de água na estrada e minha bicicleta capotou, quase quebrando minha perna e deixando uma cicatriz enorme nela. Fiquei estendido na rua, à noite, numa chuva com raios e trovões, sem poder me levantar, sangrando, até que um carro parou e me levou (com bicicleta e tudo) pra casa.

Foi o meu batismo de água e sangue. Um novo mundo nascia ali.

Referência:
Livro Terminator: Anatomie d’un mythe;
Análise esotérica de Exterminador do Futuro, onde analiso os personagens pelas cartas do Tarô

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