NOSSO LAR (O Livro)

O livro Nosso Lar, de André Luiz e psicografado por Chico Xavier, foi o meu segundo contato com livros espíritas (o primeiro foi O abismo, de Ranieri), e descreve a vida numa cidade espiritual localizada no umbral, mais especificamente “acima” do Rio de Janeiro.

A idéia de moradas para além do nosso plano físico sempre existiu em nosso imaginário, primeiro com a noção de um “paraíso”, depois aperfeiçoada pelos Gregos (Olimpo, a morada dos deuses), Nórdicos (Valhala) e provavelmente em outras culturas (Os Egípcios e Tibetanos têm seu “mundo dos mortos”, mas não sei como é a descrição deles).

Com o advento do espiritismo, em 1857, não entraram nesse particular de cidades espirituais, mas há quase 100 anos, aqui no Brasil, foi “liberada” a informação sobre essas colônias justamente no livro Nosso Lar (e isso deixa até hoje alguns “espíritas” fervorosos irritados… como se Kardec tivesse contado TUDO o que há do lado de lá e não existisse mais nada de novo a ser relatado, mesmo 100 anos depois!).

Esse livro foi revolucionário para o entendimento do espiritismo no Brasil, pois nos trouxe uma concepção de uma cidade espiritual menos diáfana e mágica do que qualquer pessoa poderia imaginar, visto que ainda descreve a cidade com Governos, Ministérios, normas, revoltas, etc, tudo como aqui “embaixo”. Detalha também todo o modo de vida das pessoas recém-desencarnadas que vão pra essa cidade, que fica localizada “geograficamente” acima do Rio de Janeiro, mas obviamente em outra vibração. Lá essas pessoas podem se recuperar energeticamente e adaptar-se aos poucos à sua nova “condição” (Aprender a viver sem comer, sem tomar banho ou água depois de décadas de condicionamento aqui na Terra deve ser barra… por isso que ainda há comida “plasmada” por lá, banheiros e outras coisas daqui, pra ir desacostumando aos poucos. A natureza não dá saltos, nem ninguém fica livre de vícios só porque morreu. Acha isso muito viajado? Eu já acho bem lógico e pé no chão. Não acredito que alguém vá passar a vida tocando harpa em cima de uma nuvem… e pessoas como eu, que nem sequer sabem tocar harpas, como ficam?). Dos anos 50 (época em que o livro foi escrito) pra cá muita coisa mudou nos planos espirituais, assim como mudou aqui “embaixo” também, mas esse livro ainda ajuda a elucidar muitas das dúvidas do tipo “o que vou fazer depois que morrer?” (O resumo da resposta seria: vai trabalhar, vagabundo!).

Pra quem está por fora de termos como umbral, cidades espirituais e espíritos, vou resumir: quando a gente “morre”, na verdade apenas “descasca”, ficando numa faixa vibracional acima do que podemos perceber ou mensurar. Então, de acordo com a freqüência vibracional na qual você estiver após a morte, você vai habitar certos “planos” de existência que seriam, a grosso modo, como “dimensões paralelas“. A mais conhecida dos espíritas (por estar bastante detalhada nos livros) é o umbral, uma faixa vibracional bastante diversificada por acolher os recém-desencarnados – sejam eles quais forem – por conta do “peso” energético que carregam consigo no corpo etérico. É por isso que temos relatos diferentes do umbral, seja como um verdadeiro Inferno de Dante, seja como uma tranquila réplica da nossa cidade, ou como paradisíacas cidades espirituais, este último assim descrito em Nosso Lar.

Nosso Lar é o nome de apenas uma das diversas cidades espirituais que envolvem a crosta da Terra, estando ela situada “acima” do Rio de Janeiro e que, nos anos 50, mais parecia uma cidadezinha de interior, refúgio dos recém-desencarnados que possuem uma certa vibração / entendimento que não os arraste literalmente para os “infernos” da consciência atormentada (que, nos umbrais, ganha contornos externos e também comunitários). Lá em Nosso Lar eles descansam, aprendem, perdoam, criam novos vínculos e planejam a próxima encarnação. A maioria não chega a “subir” para outros planos, por estarem tão ligadas mentalmente às coisas / problemas / prazeres terrestres. Passam uma temporada nessa cidade até estarem prontos pra reencarnar. Aliás, pouco sabemos do que se encontra para além das faixas umbralinas…

Um dos capítulos mais fascinantes do livro é o nono, onde o autor nos mostra que, mesmo após a morte, carregamos conosco nossos hábitos e vícios, até mesmo o de comer! E que isso acarreta problemas como o que aconteceria em qualquer cidade física. Vejamos o trecho do livro:

PROBLEMA DE ALIMENTAÇÃO

– Quem presta atenção nesta imensa comunidade de serviço – argumentei – é levado a considerar vários aspectos. E o abastecimento? Nunca ouvi falar de um Ministério da Economia…

– Antigamente – explicou Lisias, pacientemente – os serviços desse tipo tinham mais destaque. No entanto, o atual Governador decidiu diminuir a atenção a tudo o que nos lembrasse as sensações puramente físicas. Assim, as atividades de abastecimento ficaram reduzidas a mero serviço de distribuição, sob a coordenação direta da Governadoria. Aliás, essa medida foi das mais positivas. Segundo consta nos arquivos, há um século a colônia tinha muita dificuldade para adaptar os habitantes a costumes mais simples. Muitos dos recém-chegados se desdobravam em exigências. Queriam mesas fartas e bebidas excitantes, dando continuidade a velhos vícios terrenos. Apenas o Ministério da União Divina ficou livre desses abusos, por suas próprias características. No entanto, os outros viviam sobrecarregados de pesados problemas desse tipo. Mesmo assim, o atual Governador não poupou esforços. Assim que assumiu o cargo, tomou providências adequadas. Antigos missionários daqui me puseram a par de acontecimentos interessantes. Disseram-me que, a pedido da Governadoria, 200 instrutores vieram de um plano muito elevado para divulgar novos conhecimentos a respeito da respiração e da absorção de princípios vitais da atmosfera. Foram feitas muitas reuniões.

Alguns técnicos de Nosso Lar colocaram-se contra a medida, alegando que a cidade é local de transição e que não seria justo, nem possível, querer desligar imediatamente os desencarnados, por meio de métodos drásticos, sem que se colocasse em risco sua integridade espiritual. No entanto, o Governador não desanimou. As reuniões, providências e atividades continuaram por 30 anos seguidos. Alguns espíritos de destaque chegaram a fazer protestos de caráter público, reclamando. Mais de dez vezes o Ministério do Auxílio esteve superlotado de espíritos que se diziam doentes, vítimas do novo sistema de alimentação insuficiente. Nesses períodos, os opositores da medida multiplicaram as acusações. O Governador, no entanto, nunca puniu ninguém. Convocava os adversários da medida para irem ao palácio e explicava-lhes, como um pai, os projetos e finalidades do novo regime. Chamava-lhes a atenção para a superioridade dos métodos de espiritualização, promovia excursões de estudo a planos mais elevados para os mais rebeldes opositores da medida, ganhando, assim, mais e mais simpatizantes.

Aproveitando a pausa mais longa, pedi interessado:
– Continue, por favor, Lísias. Como terminou a luta edificante?
– Depois de 21 anos de insistentes demonstrações do Governador, o Ministério da Elevação aderiu à medida, passando a se abastecer somente do indispensável. Já o Ministério do Esclarecimento demorou muito a se comprometer, tendo em vista os muitos especialistas em ciências exatas que trabalhavam ali. Esses eram os adversários mais teimosos.

Acostumados a pensar que o uso de proteínas e carboidratos era essencial para o corpo físico, não queriam mudar suas concepções aqui. Semanalmente enviavam longas observações e alertas ao Governador, cheias de análises e cálculos que beiravam a imprudência. O velho governante, entretanto, nunca agiu sozinho. Pediu sempre a ajuda de nobres mentores, que nos orientam através do Ministério da União Divina, e nunca deixou de examinar com cuidado cada informativo de esclarecimento. Enquanto os cientistas argumentavam e a Governadoria administrava os conflitos, perigosos distúrbios se formaram no antigo Departamento da Regeneração, hoje transformado em Ministério. Incentivados pela rebeldia dos colaboradores do Ministério do Esclarecimento, os espíritos menos elevados que ali se reuniam passaram a realizar lamentáveis manifestações. Tudo isso provocou enormes divisões nos órgãos coletivos de Nosso Lar, dando oportunidade ao ataque de multidões trevosas do Umbral, que tentaram invadir a cidade, aproveitando-se das brechas nos serviços da Regeneração, onde grande número de colaboradores mantinha um comércio paralelo, em virtude dos vícios alimentares.

O Governador não se perturbou com a situação. Mesmo com todos sob terríveis ameaças, ele pediu para ser atendido no Ministério da União Divina e, depois de ouvir as considerações do Conselho, mandou fechar temporariamente o Ministério da Comunicação, determinou que todas as prisões da Regeneração fossem postas em funcionamento para isolamento dos mais rebeldes, advertiu o Ministério do Esclarecimento, cujo atrevimento já vinha aturando por mais de 30 anos, proibiu temporariamente o auxílio às regiões inferiores e, pela primeira vez durante sua administração, mandou ligar as baterias elétricas das muralhas da cidade, para a defesa geral com a emissão de dardos magnéticos.

Não houve luta ou ataque na colônia, mas, sim, uma resistência decidida. Por mais de seis meses os serviços de alimentação de Nosso Lar foram reduzidos à inalação de princípios vitais da atmosfera, por meio da respiração, e água misturada a elementos solares, elétricos e magnéticos. Foi assim que a colônia ficou sabendo o que é a indignação de um espírito calmo e pacífico.

Passado o período mais delicado, a Governadoria saiu vitoriosa. O próprio Ministério do Esclarecimento reconheceu o erro e colaborou nos trabalhos de readaptação. Nesse meio tempo, houve satisfação geral e dizem que, em meio a alegria de todos, o Governador chorou emocionado, dizendo que a compreensão geral era o maior prêmio que poderia querer. A cidade voltou às atividades normais. O antigo Departamento da Regeneração foi transformado em Ministério. E desde essa época, só no Ministério da Regeneração e do Auxílio, onde é grande o número de necessitados, existem suprimentos que lembram mais de perto o que se consome na Terra. Nos outros há somente o indispensável, ou seja, o serviço de alimentação se mantém simples e equilibrado. Hoje, todos reconhecem que o suposto atrevimento do Governador foi de grande valor para nossa libertação espiritual, reduzindo as sensações físicas e fazendo surgir mais alto grau de espiritualização em todos.


Você pode baixar esse e outros livros de Chico Xavier aqui, em formato PDF.

Se você não gosta de livros espíritas por causa da linguagem antiquada e rebuscada, não tem mais desculpas pra não ler: É que Maísa Intelisano fez uma adaptação dos livros de André Luiz para o português atual (que é a versão que eu utilizei no texto acima). Até agora ela adaptou os livros Nosso Lar, Missionários da Luz e Os Mensageiros, que podem ser baixados gratuitamente nesses links.

PS: Há quase 150 anos Kardec perguntou aos Espíritos por que não ensinaram desde todos os tempos o que ensinam hoje. A resposta foi: “Não ensinai às crianças o que ensinai aos adultos e não dais ao recém-nascido um alimento que ele não possa digerir. Cada coisa tem o seu tempo. Eles ensinaram muitas coisas que os homens não compreenderam ou desfiguraram, mas que atualmente podem compreender. Pelo seu ensinamento, mesmo incompleto, prepararam o terreno para receber a semente que agora vai frutificar.

Ainda acho que nos tratam como crianças… e com razão.

Referência:
Conheça Nosso Lar (plano da cidade);
Desenhos de Nosso Lar, feitos por quem visitou;
Mais desenhos e informações sobre a cidade;
Nosso Lar (o filme);

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