MANDALAS

Mandala significa simplesmente Círculo. Simboliza o círculo cósmico, o eterno balé do espaço e do tempo. No Nepal, acredita-se que a Mandala tem literalmente poderes mágicos. É um sinônimo da palavra Chakravala, que deriva da raiz Kra. Essa palavra significa Criar. A Mandala é não só um poderoso instrumento de meditação, mas também de inspiração. O Nepal é um país muito pequeno, mas que deu uma grande contribuição ao mundo todo. Segundo a tradição, foi no Nepal que nasceu o príncipe Siddhartha Gautama, que abandonou seu reino em busca da iluminação e se tornou o Buda. Foi do Nepal que os ensinamentos do budismo se espalharam para o mundo, e foram os artistas nepalenses que, a pedido do Rei do Tibet, levaram sua arte (e a Mandala) para servirem de suporte ao ensinamento do Budismo, a tal ponto que as Mandalas Tibetanas se tornaram as mais conhecidas no mundo.

O psiquiatra suíço Carl Jung percebeu que padrões circulares apareciam com frequência em desenhos de seus pacientes, o que levou ele a associá-los ao Self. Ele percebeu que a necessidade de fazer essas Mandalas aumentava durante momentos de intenso crescimento pessoal. Elas indicam que um profundo processo de rebalanceamento está ocorrendo internamente na psiquê, e que o resultado desse processo é uma melhor e mais complexa integração da personalidade.

“A mandala tem um propósito conservador, ou seja, restaurar uma ordem existente anteriormente. Mas também serve ao propósito criativo de dar expressão e forma a algo que ainda não existe, algo novo e único… O processo é o de uma espiral ascendente, que cresce para cima enquanto simultaneamente retorna repetidas vezes ao mesmo ponto.”

Marie-Louise von Franz, analista junguiana; O Homem e seus símbolos

Pois bem, desde que vi Doutor Estranho que eu pensei em fazer um post sobre Mandalas, já que eles tiveram a sacada genial de usar as Mandalas tibetanas não só como forma de representação visual das magias, como também da própria concepção visual da “realidade” fora da nossa dimensão (ou realidade de múltiplos mundos), como se fosse um caledoscópio. E o sentido de integração da personalidade, trazendo o NOVO, está presente em toda a trajetória do personagem.

Doutor Estranho com Mandalas como escudo

Não sei se foi intencional mas foi uma bela “piscadela de olho” da Marvel utilizar as Mandalas de design Tibetano, já que nos quadrinhos é lá que o Doutor Estranho aprende sobre magia com um Mestre Tibetano. Para não irritar os chineses (que é um mercado de milhões de dólares no cinema) e evitar que o filme estreie lá, o local foi mudado para o Nepal, e o Mestre virou uma mulher Celta.

Como não ando muito prolífico de idéias nem de concentração pra estudar assuntos como antes eu fazia, fui deixando pra algum dia. Tirei o fim da tarde de hoje para ir à praia meditar, e enquanto caminhava vi uma garota a desenhar com um graveto uma Mandala na areia. Até aí nada demais, nem me lembrei de Doutor Estranho, nada. Após algum tempo caminhando, comecei a refletir sobre quantas vezes havia estado ali, vários anos atrás, com um pôr-do-Sol daqueles, a pensar na vida diante de impasses e indecisões. Nos últimos 2 dias, graças a algumas músicas, me detive a pensar sobre os efeitos físicos e mentais que os ecos sonoros provocam em mim. Uma espécie de deslocamento temporal e sensorial que me tira um pouco do corpo, e que me fez pensar se existe alguma relação entre o som e o modo como nos relacionamos com o tempo. Os ecos sonoros são pequenas ou grandes repetições que se mesclam na linha do tempo da música. Mas poderiam existir ecos fora da música? Na praia, com aquelas recordações, fiquei a observar os ecos do meu tempo: A cor do céu, as ondas do mar, o senhor a brincar com seu cachorro, os momentos de solidão vividos à beira da praia, e lembrei de um momento em que encontrei uma certa pessoa, ali naquele mesmo lugar, e pensei: “e se ele aparecesse agora? Não, sem chance! Ele não continuaria no mesmo canto”. E 10 minutos depois desse pensamento ele apareceu praticamente atrás de mim, a 15 metros de distância. Quais as chances?

Saí de onde estava justamente pra não ser reconhecido pela tal pessoa e na volta reencontrei na areia a Mandala, prontinha e abandonada. Grande e ornamentada com pétalas, era convidativa à meditação. Àquela altura já sabia que ela não estava ali por acaso. Me inspirando na meditação do Labirinto, comecei a andar em volta dela, primeiro em sentido anti-horário, mas senti uma certa resistência (minha? da energia da Mandala? Não sei) então parti pro horário, e os pensamentos fluíram quase que imediatamente. Tudo o que tinha pensado antes de forma solta foi se estruturando. Era gostoso andar em torno da Mandala. O próprio desenho formava um centro de gravidade, um ponto no qual você pode se deixar guiar sem se preocupar pra onde você está indo. Afinal, você não está indo pra canto algum, e ainda assim é possível alternar entre a familiaridade dos prédios e a paisagem sempre mutante do mar e nuvens ao pôr-do-Sol.

Não sei por quanto tempo fiquei girando lá, mas as idéias fragmentadas sobre ecos e lembranças foram tomando forma na minha mente. As pétalas da borda da Mandala, que ficavam no meu campo imediato de visão enquanto andava, eram sempre iguais, mas não as mesmas. Haviam várias, indistinguíveis a uma olhada superficial, e só com o tempo é que pode-se perceber alguns traços individualizados (imperfeições?) nela.

Mandalas não são exatamente fractais, mas formam o padrão caleidoscópico de um fractal, por vezes usando os mesmos elementos em escalas diferentes. Um eco em forma de desenho, um fractal é algo presente na formação da natureza, seja na ordem do floco de neve ou nas intempestivas formações de nuvens. Padrões que se repetem ao infinito, formando uma ordem cuja beleza só pode ser adequadamente apreciada de longe. Fiquei me perguntando se alguém pequenino, andando por dentro daquela Mandala, teria algum insight sobre os padrões que se repetem… Bom, tudo depende da escala.

Além do Sol que findava, outro sinal do tempo que gastei ali foram os meus passos. Com o tempo, foram se formando marcas, um caminho / trilho por onde passei. As marcas que deixamos em nosso caminho, e a qual vamos ajustando nossos passos até formar uma órbita. Foi aí que lembrei da dança dos planetas em torno do Sol. Ao contrário do que pensamos quando vemos os planetas na escola, o Sol não está parado enquanto nos movemos em torno dele. Ele se movimenta numa das “pás” da Via Láctea, que se movimenta em torno de si mesma. Não sei se a animação abaixo é cientificamente perfeita, mas nos dá uma idéia:

E, curiosamente, no meio dessa maluquice se destacam alguns padrões, como a Mandala resultante da dança de Vênus e do Sol, vista tomando o planeta Terra como ponto fixo:

Astronomy with MicroStation Orbit of Venus Dance of Planets

Se você procurar em vídeos relacionados no Youtube, vai ver bem mais Geometria Cósmica, mas cuidado que tem coisa que é inventada e passa longe do que está estabelecido cientificamente.

Isso foi só pra mostrar como a mudança de perspectiva pode influenciar na descoberta dos padrões / repetições. Muitas vezes nos repetimos achando que estamos em caminhos diferentes, mas por falta de escala não percebemos os padrões.

Na hora de ir embora, fiquei pensando: qual o objetivo da Mandala, além de ser um organizador? Deveríamos superá-la? Ficar em torno dela pra sempre? Destruí-la e assim libertar-se dos padrões e das repetições? Aí lembrei das nossas sondas espaciais, que usam a gravidade dos planetas pra pegar velocidade e atingir outros lugares mais longe. Uma vez que ela já tenha condições (velocidade) de partir, ela já não liga mais pra aquele planeta. Simplesmente faz uma pequena mudança de curso e salta fora daquela que até então era uma imensa (e importante pra jornada) força atratora. E agradece pelo impulso. 😉

Abaixo, Joseph Campbell – famoso pelo livro O poder do Mito – fala sobre Mandalas e Círculos:

Joseph Campbell fala sobre Mandalas e Círculos

Referência:
SDM – A Ignorância no budismo (Parte 1);
SDM – Suástica;
Livro de colorir “Mandalas do Nepal”

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