2001: UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO

Uma análise e explicação sobre o filme que marcou a história da ficção científica.

O filme 2001: Uma Odisséia no Espaço é um marco do cinema em muitos aspectos: visual, artístico, filosófico, cinematográfico, publicitário, sociológico, etc. Para muitos críticos é considerado um dos melhores filmes de ficção científica de todos os tempos. E sua fama não é à toa. Escrito, dirigido e produzido durante 5 anos por Stanley Kubrick, 2001 foi lançado em abril de 1968, a tempo de predatar em mais de um 1 ano a ida do Homem à Lua com o máximo de fidelidade possível (não há som das naves, já que o som não se propaga no espaço). A produção de fato começou em 1965; as cenas do espaço foram as primeiras a serem filmadas, e as dos macacos as últimas. Então muita coisa de efeitos visuais mostrando detalhes da Lua foram refeitas, já que NÃO SE CONHECIA AINDA detalhes do solo lunar, e a cada mês iam surgindo cada vez mais imagens de alta resolução da NASA. Pra terem uma ideia, a equipe de efeitos teve de imaginar como seria a cor da Terra vista de longe, já que só em 1967 surgiu a primeira foto da Terra inteira colorida. Os primeiros astronautas a chegarem perto da Lua foram os tripulantes da Apollo 8, na noite de Natal de 1968, ou seja, depois do filme. E o Homem só pisou na Lua em julho de 1969.

O filme foi baseado nas obras do famoso escritor de ficção científica Arthur C. Clarke The Sentinel e 2001: A Space Odyssey, esta última escrita em simultâneo às filmagens: Enquanto Kubrick trabalhava em cima do roteiro, Clarke escrevia o livro, com ambos trocando idéias e opiniões durante o trabalho.

Kubrick foi uma influência para os mais famosos diretores de cinema, entre eles Martin Scorsese, Steven Spielberg e Ridley Scott. Diz-se que Spielberg passou muitas horas assistindo 2001 enquanto filmava “Contatos Imediatos do 3º grau”. James Cameron chama 2001 de “um filme que não deveria funcionar, mas funciona”. Star Wars tem elementos chupados diretamente de 2001, como a plataforma de chegada da Estrela da Morte, as naves meio sujas (como se tivessem sido usadas realmente), a cápsula de fuga dos andróides, a respiração amplificada de Darth Vader e a abertura com o cruzador imperial enchendo a tela, que nos remete diretamente à primeira aparição da nave espacial Discovery.

2001 Uma Odisséia no espaço x StarWars
2001 Uma Odisséia no espaço x StarWars
2001 Uma Odisséia no espaço x StarWars

Efeitos especiais

Numa era onde não existia computadores pra fazer efeitos visuais, os cineastas tinham de suar a camisa fazendo efeitos ópticos com truques de múltipla exposição no negativo. Kubrick se envolveu diretamente nesses efeitos, como por exemplo nas cenas de formas coloridas em mutação (na “grande viagem” final), que foi feita com ele pingando tinta numa placa de vidro. Mas o gênio por trás de todas as cenas de naves espaciais foi Douglas Trumbull, que depois veio a trabalhar em praticamente todos os grandes filmes com efeitos visuais, como Star Wars e Jurassic Park. Como a Academia exigia que apenas uma pessoa fosse indicada como realizador de efeitos especiais, essa pessoa ficou sendo Kubrick, e foi ele quem levou o Oscar de Melhores Efeitos Especiais de 1969. Foi o único Oscar que o filme 2001 ganhou (concorria também a Melhor Direção de Arte, Melhor Roteiro Original e Melhor Diretor) e o único da carreira de Stanley Kubrick.

Com tempo e dinheiro ao seu dispor, Kubrick sempre foi perfeccionista na busca da melhor imagem possível, e no caso dos efeitos ópticos ele foi ao extremo de fazer as exposições no negativo ORIGINAL, tendo alguns negativos levado mais de um ano na geladeira pra ser exposto novamente, o que significa que um errinho e lá se vai 1 ano perdido. O resultado é uma imagem nítida e brilhante, inclusive para os padrões de hoje.

Música

2001 Uma Odisséia no espaço macaco com headphone

2001 foi inovador também no uso de músicas clássicas conhecidas do público. De início, o filme teria uma trilha especialmente escrita por Alex North (que fez com Kubrick o filme “Spartacus”), mas enquanto editava o filme Kubrick usou música clássica para relaxar e principalmente dar uma ambientação enquanto assistia aos efeitos visuais finalizados, e gostou tanto do resultado que manteve as músicas no produto final. Só esqueceu de avisar ao pobre Alex, que só soube que não tinha a música dele ao ver o filme NO DIA DA ESTRÉIA (bad karma, Kubrick!). Graças a Deus Kubrick optou por usar os grandes mestres, pois imagine a abertura do filme sem o “Assim falou Zaratustra“, de Richard Strauss. Imaginou? Não? Então aqui vai uma ajudinha: a abertura do filme com a trilha do Alex. Parece música de filme bíblico, extremamente datado, com a maior cara de “made in Hollywood”.

No livro de Clarke vemos que as estações orbitais carregam ogivas nucleares, e (coincidentemente ou não) a música que embala as cenas na estação espacial é a valsa “Danúbio Azul”, que ironicamente é o nome da primeira bomba atômica inglesa. São pequenos detalhes que tornam assistir a este filme mais prazeroso.

Creio que muitos aqui devem conhecer a estranha sincronicidade que há entre o álbum de Pink Floyd “The dark side of the Moon” e o filme “O mágico de Oz” (algo pra ser visto tomando Fanta Uva, no less). Essa coincidência é totalmente inexplicável e creio que todos concordam que não dava pra fazer naquela época (eis o mistério da fé). Mas há outro mistério envolvendo músicas de Pink Floyd e filmes, desta vez com 2001. Kubrick de fato escutou tudo quanto é música contemporânea pra buscar inspiração pra trilha sonora, e de fato ele usou duas músicas do compositor avant-garde György Ligeti. Corre uma lenda que Kubrick queria que Floyd (o grupo, não o personagem homônimo do filme) fizesse parte da trilha sonora. Por algum motivo, o grupo não aceitou. Três anos depois surge o álbum “Meddle”, com a música “Echoes“, que traz uma estrutura que é impressionantemente ajustada às cenas do capítulo “Júpiter e Além”, inclusive na duração! Curtam a viagem que é ouvir Pink Floyd aliado às imagens psicodélicas do segmento final de 2001:

A banda nega que tenha feito isso propositalmente, mas na biografia “Saucerful of Secrets: A Pink Floyd Odyssey“, de Nicholas Schaffner, Roger Waters é citado dizendo que seu maior arrependimento foi não ter feito a trilha sonora de 2001. Que eu saiba só se arrepende de algo quem teve a oportunidade, senão seria seu “maior sonho” ou algo assim.

Análise do filme

Como o filme é cult, muita gente que assiste fica sem coragem de dizer que não gostou, não entendeu e que achou tudo chato e lento demais. Mas não se preocupe: você não está só. 2001 não é um filme pra ser apreendido de uma vez só. Sir Arthur Clarke confirma: “Se alguém entender 2001 de primeira, nós teremos falhado. Quisemos levantar muito mais questões do que respondê-las”. Sem dúvida é um filme autoral, que não procura agradar a platéia e sim expressar uma idéia de forma nunca antes vista no cinema:

Eu tentei criar uma experiência visual, que se desviasse do campo das palavras e penetrasse diretamente no subconsciente com um teor emocional e filosófico… Projetei o filme para ser uma experiência subjetiva intensa, que atinja o espectador num nível profundo de consciência, exatamente como a música faz… Você está livre para especular como quiser sobre o sentido filosófico e alegórico do filme.

Stanley Kubrick

Pra ajudar na compreensão do filme (lembrando que não dá pra dizer “o filme É sobre determinado assunto”) e fazê-lo apreciar um pouco mais esta obra (recomendo MUITO ver – e rever – em alta definição, disponível em Blu-ray) segue abaixo um resumo, baseado em vários pontos-de-vista sobre o filme, que fui descobrindo na internet. Se você ainda não viu o filme e pretende vê-lo, não recomendo ficar com essa concepção na cabeça (o ideal é ver primeiramente o filme “desarmado” de idéias).

ABERTURA

Vemos logo de cara um belo alinhamento do Sol, Lua e Terra. Tal alinhamento de planetas se repete nas outras vezes em que o monolito aparece. O Sol tem um destaque especial durante todo o filme, pois ele simboliza a idéia de “renascimento” (que é um tema recorrente no filme) nas mais diversas culturas, e por conta disso não é forçoso dizer que há oculto (de cabeça-pra-baixo) na imagem-título do filme uma insinuação a um ícone pagão, o símbolo do Deus Cornífero da Wicca que, não por acaso, simboliza a morte e renascimento, e que em seu aspecto celeste é representado pelo Sol.

2001 Uma Odisséia no espaço título

A AURORA DO HOMEM

O nome em inglês é THE DAWN OF MAN, que tanto pode ser traduzido como “o surgimento do homem” ou como “o amanhecer da humanidade” (numa linguagem mais poética). E logo nas primeiras cenas vemos o nascimento e ascensão do Sol na pré-história. O futuro ser humano nada mais é que um macaco, herbívoro e vulnerável aos perigos do habitat selvagem. Há uma “briga” entre dois grupos de macacos por um poço d’água, onde um dos grupos ganha literalmente no grito. O grupo perdedor se refugia num buraco pra passar a noite. Ao amanhecer eles vêem um monolito negro bem na frente deles, e o grupo se junta para tocá-lo/admirá-lo. Vê-se a imagem do alinhamento do monolito com o Sol e a Lua (que poderia nos remeter novamente ao símbolo Wicca, mas com o Sol pela metade e ainda distante da Lua).

2001 Uma Odisséia no espaço

Numa das cenas mais marcantes do cinema o macaco descobre (num lampejo de consciência que é claramente associado ao monolito) o poder da ferramenta (o osso).

2001 Uma Odisséia no espaço macaco

Ele usa a ferramenta pra matar. Primeiro para se alimentar, e depois pra posse dos recursos naturais. Durante o confronto com o grupo rival o macaco inimigo é morto com toques de sadismo. Ao usar o osso como ferramenta para matar, vemos o macaco sentir a consciência de poder, de força, de domínio que, combinados com a intimidação, caracterizam o macho-alfa até hoje (praticamente com o falo na mão, como o macaco lá agarrado ao osso). Está aí o protótipo do ser humano. Entretanto, não fosse por ele não existiríamos enquanto espécie. O que nos leva ao maior corte da história do cinema, onde a história avança milhões de anos em 1 segundo com a câmera indo do osso rodopiando do céu para uma nave flutuando no espaço, resumindo brilhante e cinicamente a história da humanidade.

A ESTAÇÃO ESPACIAL

Sobre a Terra passa uma nave que, sabemos pelo livro de Arthur Clarke, está carregada com ogivas nucleares apontadas para o planeta, como a indicar a continuação da Guerra Fria. Apesar disso vemos aqui os países integrados na exploração espacial, com naves de várias nacionalidades (vê-se as bandeiras alemã e chinesa em duas delas). A caneta flutuando na gravidade zero nos remete inconscientemente ao osso flutuando no ar, e nos lembra que agora “a caneta é mais forte que a espada”. A força bruta não é mais necessária, dando lugar à diplomacia, que se traduz na aparentemente amistosa conversa com os russos (inimigos mortais dos EUA durante a década em que 2001 foi filmado) dentro da estação. Mas logo percebemos que o cientista Heywood Floyd esconde um segredo, do qual os russos desconfiam e mal conseguem esconder sua curio/animosidade. Críticos de cinema chegam a apontar essa cena como uma reprise “versão guerra fria” da briga pré-histórica dos macacos pelo poço d’água (coincidência ou não, os participantes conversam ao redor de uma mesa circular com copos d’água).

Esta estação espacial é completamente funcional e é baseada nos desenhos de Werner Von Braun (criador do míssil V2 e do foguete Saturn V, que levou o homem à Lua), ainda nos anos 50. Ela giraria lentamente, criando uma mini-gravidade artificial, e a NASA quase tentou fazê-la em 1975, mas o custo seria altíssimo.

NA LUA

Descobrimos que um objeto foi enterrado deliberadamente na Lua há 4 milhões de anos. Por quem, nunca saberemos. É o monolito negro, o mesmo que apareceu para os macacos na pré-história. Em outra cena brilhante, Floyd toca o monolito com a mesma admiração que seu antepassado. Através do livro de Arthur Clarke temos uma explicação mais detalhada para o que acontece em seguida: A luz do Sol toca o monolito pela primeira vez (ele foi escavado durante os 14 dias de noite lunar), e então ele emite um poderoso sinal de rádio, que interfere com os comunicadores dos astronautas, provocando um zumbido intermitente. Verifica-se também o mesmo alinhamento da pré-história, agora com a meia-lua (desta vez representada pela Terra) mais próxima do Sol.

2001 Uma Odisséia no espaço Sol

MISSÃO JÚPITER: 18 MESES DEPOIS

2001 Uma Odisséia no espaço discovery

Estamos agora na nave Discovery 1 rumo a Júpiter, em busca do destino do sinal de rádio. Vemos o astronauta Frank Poole correndo em círculos, no que parece uma versão gigante e futurista de uma roda para ratos. De fato, os humanos na nave são meros passageiros/prisioneiros, pois quem controla tudo na verdade é o computador HAL 9000. A sigla HAL é uma “homenagem” (na verdade uma crítica) à empresa de computadores IBM (mova cada letra uma posição no alfabeto pra trás e você terá HAL). Na época em que o filme foi feito a IBM era mais poderosa e influente do que a Microsoft e a Google seriam hoje JUNTAS.

2001 Uma Odisséia no espaço HAL
HAL é um dos símbolos que remetem ao livro “A Odisséia”, de Homero (além, claro, do próprio título do filme). Mais especificamente, HAL é uma alusão ao ciclope, um dos adversários de Ulisses na saga.

É algo notável que o computador HAL demonstre no filme mais emoções do que os próprios tripulantes. Enquanto os astronautas ficam apáticos a maior parte do tempo, HAL traz em sua monótona fala um certo orgulho de ser infalível, e mais adiante medo e ansiedade por ser desligado. Isso aparenta ser uma crítica velada ao aprisionamento do homem às condições impostas pelas máquinas e a perda da humanidade decorrente disso. Poderíamos culpar os atores, ou mesmo o diretor por essa falta de emoção dos personagens, mas o fato é que essa aparente falta de vitalidade encaixa sutilmente no contexto de todo o filme. Vejam só, no início os atores vestidos de macaco são muito mais expressivos do que os atores “humanos”. Isto porque no futuro o ser humano está engessado pela tecnologia em um ambiente séptico, sem cor, sem arte. Isso é reforçado pelos diálogos bobos e aparentemente inúteis. Apenas numa examinada atenta (e posterior) pode-se extrair o que Kubrick queria passar com eles: No diálogo de Heywood Floyd com a filha vemos que a mãe não está em casa, e o pai se desculpa por não poder ir ao aniversário da menina. Na conversa com os russos mais uma vez vemos a separação familiar, com a russa no espaço e o marido na Terra, trabalhando no fundo do mar (ambos isolados do seu habitat original!). E, dentro da Discovery, o astronauta Frank Poole recebe pelo videofone os parabéns dos familiares sem esboçar a menor reação, numa transmissão pré-gravada, onde a comunicação está cada vez mais comprometida por conta das imensas distâncias. O aniversário é normalmente um tempo para celebrar o próprio nascimento, a alegria da vida. É também uma ocasião para introspecção e reavaliação, numa espécie de renascimento: Não importa como as coisas foram ontem ou no ano passado, nós sempre temos a capacidade de tentar de novo. Assim, a incapacidade de celebrar apropriadamente os aniversários pode refletir no filme a incapacidade do homem de se repensar (e se recriar) como dono da sua própria vida.

Durante a viagem o computador acusa uma falha na unidade de comunicação. Ao averiguar a falha, percebe-se que a unidade estava funcionando bem, o que significa que o computador HAL aparentemente está com alguma falha. Os tripulantes cogitam desativar HAL. Para se proteger (e, na lógica dele, proteger a missão) HAL mata a maioria dos tripulantes. Entretanto, o astronauta David Bowman (Dave) consegue desligá-lo. Bem, esse é um resumo rápido da história. Agora vamos à análise desta parte do filme:

Muitos interpretam o comportamento de HAL como uma falha (causada não se sabe porque, talvez pela influência do monolito?), mas há pistas que indicam que HAL poderia estar jogando com os astronautas da mesma forma que ele aparece jogando xadrez, e esta é uma cena reveladora. Kubrick era amante de xadrez, e colocou HAL jogando com o astronauta Poole uma partida que realmente aconteceu em 1910, entre Roesch e Willi Schlage. Acontece que HAL faz o movimento correto, mas diz de forma errada: “Rainha para bispo 3”, quando o correto seria “Rainha para bispo 6“. Um erro bobo de um computador pirado, um deslize de Kubrick ou um teste sutil de HAL pra ver se Poole perceberia?

A idéia do teste é importante porque é verbalizada e confirmada pelo HAL na próxima cena, onde ele pergunta (como quem não quer nada) a David sobre os rumores circundando a missão, e o que ele achava disso. Só que David desconfia e responde com outra pergunta: “isso faz parte do nosso teste psicológico, não é?”. Ao que HAL confirma, tira por menos (“é uma coisa boba”), dá uma “travadinha” e depois acusa o tal erro na unidade de comunicação. Erro, ou apenas outro teste? É importante lembrar que, após o desligamento de HAL, uma mensagem em vídeo pré-gravada diz que o computador só tomou conhecimento dos parâmetros da missão no meio da viagem, pra depois informá-la aos tripulantes quando estes chegassem a Júpiter. Então essa mudança de comportamento de HAL pode muito bem ter sido uma reação ao conhecimento da relevância da missão, e que os astronautas precisariam estar à altura dela.

2001 Uma Odisséia no espaço astronautas

Notem o modo como cada astronauta reage à notícia de que HAL pode ter cometido um erro. Poole fecha a cara e cruza os braços. David inicialmente fica sem expressão, mas depois faz cara de “tudo bem” pra HAL (com sorrisinho e tudo) e inventa uma mentira pra poder falar em privado com Poole. Pra um computador que lê lábios e reconhece desenhos é fácil perceber o descontentamento de Poole. Nunca saberemos, mas o modo como Poole se conforma com a derrota no xadrez sem perceber o erro de HAL pode ter feito do astronauta, na avaliação do computador, o elo fraco da missão. Nota-se o orgulho cego de HAL pela infalibilidade quando, confrontado com o relatório do seu “irmão gêmeo” na Terra de que não havia defeito na unidade, HAL responde: “Falha humana. Isso já ocorreu antes, e sempre foi devido a falha humana”. A superconfiança e o desdém de HAL para com os humanos fez da tripulação algo descartável em face da ameaça de desativação.

Uma cena em especial é particularmente desabonadora pra IBM: quando David está do lado de fora da Discovery, querendo entrar, HAL mostra sua verdadeira “face”, ao dizer: “não posso permitir que você ponha em risco a missão”. Uma dentre várias imagens dos mostradores da nave é refletida na cara de David:

2001 Uma Odisséia no espaço astronauta

Se você não conseguir ler aqui IBM, aposto que seu subconsciente o fez. Na verdade as letras são MEM, que aparecem no visor de vez em quando, mas no reflexo o primeiro M está tão distorcido que forma um I, e o E embaçado lembra um B. Considerando tudo o que falamos aqui, dificilmente isso seria uma mera coincidência. Pra quem não sabe a IBM é famosa por ter duas-caras: na ascensão de Hitler ao poder — e mesmo durante a guerra — a IBM forneceu seus serviços pra Alemanha nazista, e sua tecnologia e know-how foram usados pra catalogar e localizar os judeus que seriam exterminados e para a organização do trabalho escravo em campos de concentração. E Kubrick era judeu (não religioso, mas de nascimento).

Uma vez de volta à Discovery, a câmera de Kubrick (até então estável e com movimentos suaves) está “solta”, agitada. David agora já não esconde sua expressão e podemos considerar como representação visual deste momento de mudança de mentalidade a troca de cor do capacete de David:

2001 Uma Odisséia no espaço astronauta
Nesta tomada específica vemos o capacete vermelho sendo deixado pra trás.

Pra mim a desativação de HAL foi o momento mais marcante (traumatizante?) do filme, da primeira vez que vi. Isso graças à dublagem brasileira (a clássica da TV, não a do DVD) que, posso dizer com confiança, é melhor que as vozes originais. A voz brasileira do HAL, feita por Márcio Seixas, é inesquecível: grave, mas terna, suave, agradável e calma como uma canção de ninar. E quando ele pede por sua “vida” e começa a cantar dá uma inversão de sentimentos e valores que é perturbadora (afinal, ele é o “cara” mau!). HAL volta ao momento do nascimento (olha o tema “renascimento” aí!) e repete o que disse na sua primeira apresentação. Aliás, pra quem tinha dúvida de que a sigla não é apenas uma coincidência com a IBM, HAL diz nessa cena que foi construído em Urbana Illinois e instruído pelo Sr. Langley, e então canta a música “Daisy Bell”. Na vida real o primeiro computador a ter sintetizador de voz foi o IBM 704, construído em 1962 no centro de pesquisa Langley, em Urbana Illinois. E a primeira música que ele cantou numa demonstração foi… (adivinhem) Daisy Bell, e Arthur Clarke estava lá pra ver e ouvir isso.

Uma coisa que só se percebe no inglês é o uso recorrente por HAL do termo “I’m afraid” (literalmente “eu estou com medo“). Num uso ultra-polido, este termo é entendido como “Receio que”, pra negar alguma coisa a alguém polidamente (I’m afraid I can’t do that” – “Receio que não possa fazer isso“). Mas, ao ser desativado, HAL usa esse termo indicando MEDO, de fato. E Kubrick pareceu querer reforçar isso pelo uso sistemático desse termo, inclusive por David, quando cogitam desligar HAL. Foi por MEDO de comprometer a missão que HAL matou a tripulação? Teria sido por MEDO de admitir sua própria falha que HAL escondeu que errou ao informar o defeito? Não foi por MEDO que os astronautas quiseram desligar HAL? Enfim, esse é apenas mais um nível em que o filme pode ser analisado.

JÚPITER E ALÉM

Mais uma vez os planetas se alinham…
2001 Uma Odisséia no espaço
…e mais uma vez a lembrança do símbolo do Deus cornífero.

Essa é a parte mais maluca do filme, onde David deixa a Discovery numa cápsula e embarca numa viagem intergalática até a PQP. Interpretações aqui são altamente subjetivas — se me disserem que é um experimento dos EUA com hipnose em massa eu acredito — mas a teoria mais interessante é a de que as imagens surreais que inundam a tela fazem referência — num nível subconsciente — à criação da vida no útero. Se formos analisar num aspecto Freudiano, a nave Discovery (um grande falo) ejeta pela “cabeça” a cápsula de uma forma diferente das demais, como se tivesse cuspindo-a (ou ejaculando-a, como queira). Entramos então por uma fenda vertical (oh, yes!) e, dentre as várias imagens fluidas que também lembram galáxias sendo criadas, tem pelo menos duas que não precisam de muita imaginação pra serem interpretadas:

2001 Uma Odisséia no espaço feto
Que esse negócio lembra um feto, lembra
2001 Uma Odisséia no espaço espermatozoide
Preciso dizer alguma coisa?

Ao fim da sucessão de imagens aquosas e orgânicas aparecem sete objetos lapidados em forma de Octaedros (um dos sólidos platônicos, este relacionado ao ar). Essa forma foi inicialmente escolhida por Kubrick pra ser o monolito. Chegaram a fazer o modelo e colocá-la no cenário da Lua, mas depois mudaram pro retângulo pois não era imponente. Aqui, Kubrick as mantém. Seriam estas naves extraterrestres, escoltando David através de um portal? Seja como for, elas encerram a parte da viagem através das luzes.

2001 Uma Odisséia no espaço octaedros
Octaedros

A viagem continua por uma superfície rochosa, entrecortada por rios e mares, até que David chega (do nada) a uma sala totalmente decorada com mobília da era da renascença (olha a referência a renascimento aí de novo) e quadros com cenas bucólicas da natureza. Apenas o chão retroiluminado (igual ao teto da estação espacial) alude a uma época futurista. Acredita-se que isso poderia ser tipo um “zoológico alien”, e que os aliens escolheram uma ambientação que ELES achavam que seria acolhedora pra um humano, da mesma forma kitsch que fazemos com animais de outros habitats nos zoológicos.

2001 Uma Odisséia no espaço astronauta

Em cenas que alternam pontos de vista, David vê a si mesmo como uma outra pessoa, progressivamente mais velho. Poderíamos interpretar essa sequência no quarto como uma desintoxicação da dependência das máquinas, já que ele se desfaz da roupa de astronauta e poderíamos inclusive retomar a idéia do capacete verde, porque a mesa é verde e, na cena do leito de morte, aparece um largo espaldar verde circundando a área da cabeça de David:

2001 Uma Odisséia no espaço cama
A fase final antes do renascimento

Quando David quebra a taça de vinho é que ele atinge um nível de consciência mais elevado. Na tradição judaica quebra-se um cálice ao fim da cerimônia de casamento. Há vários significados, mas um deles é que isso simboliza uma nova vida, um mudança de forma para todo o sempre, ou seja, de dois indivíduos passam a ser um casal. É possível traçar um paralelo da cena de David olhando para a taça com o macaco olhando para os ossos:

2001 Uma Odisséia no espaço
Eureka!
2001 Uma Odisséia no espaço macaco

Da cama David vê o monolito, e faz um gesto de tocá-lo que lembra muito a pintura “A Criação de Adão”, que o mestre renascentista Michelangelo fez no teto da Capela Sistina:

2001 Uma Odisséia no espaço cama

David transforma-se então num feto, com um brilho no olhar (sinal de iluminação?). A câmera se aproxima do monolito, como se fôssemos transportados do local para a escuridão do espaço, de onde o feto – chamado no livro de “Starchild” (“Criança Estrelar“) – contempla o planeta Terra do alto, para depois mirar bem dentro de nossos olhos com um olhar perturbador que mescla sabedoria/velhice e inocência/infância.

2001 Uma Odisséia no espaço Starchild
Starchild

Comentários finais

Com a palavra, Kubrick:
“Alguém disse que o Homem atual é o elo perdido entre os macacos e o Homem civilizado. Pode-se dizer que essa é a história de 2001, também. Nós somos semi-civilizados, capazes de cooperação e afeição, mas precisando de alguma forma de transfiguração em uma forma de vida mais elevada. Agora que alcançamos o poder de exterminar toda a vida na Terra, será preciso mais do que cooperação e planejamento pra evitar alguma catástrofe. O problema existe enquanto o potencial existe; e o problema é essencialmente moral e espiritual.”

São sentimentos que evocam a mensagem que outro genial cineasta nos legou:

Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

Charles Chaplin

Lembro que vi 2001 pela segunda vez nas primeiras horas do ano 2001 (uma sacada de mestre da Rede Globo!). Foi uma experiência mágica, como se um portal tivesse se aberto naquele instante, e que aquele era o ano certo pra que esse filme fosse visto, como se só então uma mensagem oculta fosse ser revelada à humanidade. Eu não conseguia desgrudar os olhos da TV, e quando terminou foi como se minha vida tivesse sido mexida, novamente… muito já tinha acontecido até então, pois 1 ano antes eu tinha começado a vislumbrar coisas no céu que nunca havia cogitado ser possível, e nessa mudança de paradigma o filme caiu como uma luva… ELES estão nos guiando para a evolução… sabe-se lá para onde. Meio assustador isso. Mas, enfim, é apenas minha interpretação e, como vimos, há muito mais neste filme além disso.

Kubrick não quis limitar o escopo de seu filme. Ele disse: “Como poderíamos apreciar a Mona Lisa se Leonardo da Vinci tivesse escrito embaixo do quadro: ‘A mulher está sorrindo porque ela esconde um segredo do seu amado’. Isso iria acorrentar o espectador à realidade, e eu não quero que isso aconteça com 2001. Eu trabalhei de forma que nada importante é dito nos diálogos, e que qualquer coisa importante no filme seja traduzida em termos de ação. Um roteiro é a forma de escrita menos comunicativa já feita.”
Mas quem expressou melhor a relação com o filme foi o ator Keir Dullea, que interpretou o David Bowman: “Se você vê um quadro de Picasso, é importante saber o que Picasso queria ou é mais importante sua relação com ele, sua reação emocional a ele?”

A comparação de Kubrick com Leonardo ou Picasso não é pouco modesta. Embora ele não fosse genial em outras disciplinas, como Da Vinci, na arte de fazer filmes Kubrick deixou sua marca indelével. Por isso esta pequena homenagem – que ele certamente não aprovaria – ao filme mais conhecido e enigmático dele.

Rest in peace, you crazy diamond.

Referência (todas em inglês):
Documentário em 7 partes cobrindo TUDO sobre o filme (por CinemaTyler);
Mini-documentário “50th Anniversary | Standing on the Shoulders of Kubrick” com depoimentos de cineastas;
Análise aprofundada (e meio amalucada) de Rob Ager sobre o filme;
Revisiting Kubrick’s 2001: A Space Odyssey In Its Eponymous Year (partes do script comentado);
2001 Archive: The search for meaning in 2001;
Comentários sobre o filme;
Star Wars e 2001;

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