CLOUD ATLAS (A VIAGEM)

PRÓLOGO

É com grande alegria que trago a vocês um novo marco neste site, que iniciou em 2002 como um blog chamado Acid blog pra falar despretensiosamente sobre filosofia, metafísica, filmes e ciência, inspirado pela vibe que foi criada na sociedade pelo filme The Matrix. Em 2003 saiu o filme Matrix Reloaded e o blog ganhou o nome Saindo da Matrix. Em 2004 ganhou domínio próprio e virou um “site”. Em 2010, ganhou 3º lugar no Top Blog. Agora, 10 anos após seu batismo, inicia-se uma nova fase que é o uso de vídeo pra analisar justamente um filme dos Irmãos (agora irmãs) Wachowski, os mesmos que começaram tudo isso lá atrás, com o filme The Matrix.

Atenção: o vídeo conta o filme todo. Se não assistiu Cloud Atlas ainda, não clique.

ANALISANDO CLOUD ATLAS (A VIAGEM)

Cloud Atlas (“A Viagem” no Brasil) é o mais novo filme dos irmãos Wachowski (os mesmos que fizeram a trilogia Matrix) e, ao contrário dos seus últimos filmes, não decepciona. Não é nenhum espetáculo visual com câmeras rodando, ou uma experiência em que você vai sair do cinema vendo códigos da Matrix no ar, mas vai mexer de alguma forma em você. Talvez não no nível mental consciente, mas em alguma parte indefinível da sua alma.

O slogan do pôster promocional de Cloud Atlas (“Tudo Está Conectado“) parece um marketing nova era, mas é na verdade a alma do filme, a chave para melhor apreciá-lo. Não à toa os irmãos Wachowski procuraram o diretor Tom Tykwer pra co-dirigir o filme com eles. O trabalho mais famoso desse cara é Corra, Lola, Corra, que trata de ESCOLHAS.

Para embasar meu comentário vou falar brevemente de uma pesquisa recente onde cientistas conseguiram provocar um entrelaçamento (entanglement) de três partículas, que é quando elas passam a compartilhar as mesmas propriedades quânticas (ou seja, quando a propriedade de uma partícula é alterada, a outra reage instantaneamente e tem seu estado quântico alterado também). E essa ligação independe de espaço (distância) ou tempo, pois a informação viaja mais rápido que a luz! A novidade é que conseguiram emparelhar 3 partículas de fóton (luz) a partir de UMA, quando antes só conseguiam emparelhar duas. No futuro espera-se conseguir fazer isso com centenas (milhares?) de partículas, e aí poderemos ter (um dia, quem sabe) dois “computadores quânticos” servidores de internet cujas partículas são “irmãs” e se comunicam sem cabos, Wi-fi, ondas, etc (não seria isso a base da comunicação pelo pensamento?). Mas o que isso tem a ver com o filme? Bem, se o ser humano já consegue antever o conceito de “ação fantasmagórica à distância” (frase de Einstein se referindo ao entrelaçamento) como algo utilizável, por que não considerarmos que, na metafísica, tal comunicação também ocorra entre almas? Casos não faltam, como o de mães que sentem o desespero (ou morte) dos filhos, e até mesmo animais que sabem quando o dono vai chegar. E mais ainda: será que nossas almas “emparelhadas” provém de uma “alma mãe”? O filme Cloud Atlas trata de um conjunto de almas ao longo do tempo cuja história e sentimentos parecem entrelaçados, e a forma como isso é contado (os acontecimentos ocorrem simultaneamente em cada época, graças à brilhante montagem do filme) sugere “ondas de desafio”, momentos-chave que vão refletir não só no futuro de cada um (se considerarmos a reencarnação como uma evolução puramente pessoal) mas no passado – sim! – e futuro de outras pessoas que, de alguma forma, estão nessa “rede” (e aí entra o conceito de entrelaçamento, que metafisicamente falando poderia englobar a idéia já exposta aqui no modelo de evolução da consciência e na evolução como espiral).

O "mapa" das reencarnações em Cloud Atlas
O “mapa” das reencarnações em Cloud Atlas (clique na imagem para ampliá-la)

Logo no começo do filme o personagem Timothy Cavendish fala: “Minha vasta experiência como editor permitiu-me desprezar as analepses das leituras e todos os seus truques estranhos. Acredito, caro leitor, que se puder ser um pouco mais paciente, encontrará o método desta história de loucura”. É como um conselho dos realizadores pra platéia: se sentir-se confuso (e todo mundo fica nos primeiros 30 minutos) ignore os truques de edição, os vários personagens e concentre-se no “grande quadro”, na história como um todo. E essa é uma história de rebelião, de lutar contra o sistema, como em “V de vingança”. Por exemplo, a questão do escravagismo e do papel da mulher na sociedade é colocada pelo personagem Adam Ewing (o advogado do navio) da seguinte forma: “Se Deus criou o mundo, como saberemos que coisas devem mudar e o que deve permanecer sagrado e inviolável?”

Mas como estamos aqui para destrinchar o filme, vamos analisar cada história e suas nuances, e ao lado colocarei a foto dos personagens com maior relevância pra história em cada linha do tempo, pra você não se perder:

PACÍFICO SUL, 1849

A primeira história é sobre Adam Ewing, um advogado americano que, em uma viagem de navio, ajuda Autua, um escravo clandestino. Mas sem ele saber, está sendo lentamente envenenado por um sinistro médico, interpretado por Tom Hanks, que quer roubar a chave do baú de Adam atrás de coisas de valor. Ele sobrevive graças ao escravo e por fim se torna abolicionista.

Os personagens de Tom Hanks são os casos mais representativos do filme. Em 1849 ele diz “Um tigre não pode mudar suas listras”, e de fato ele permanece com uma personalidade para o mal e à ambição desmedida pela maioria das vidas, ao ponto de se ater à mesma pedrinha azul em duas delas. Essa pedra representa seu demônio (o “Georgie”, interpretado por Hugo Weaving). É interessante rever o filme e notar como o Tom Hanks de 2321 diz do demônio: “E contarei a história da primeira vez que nos conhecemos cara a cara” e corta para o Tom Hanks de 1849 olhando pela primeira vez para o advogado (que, como veremos à frente, usa as tais pedrinhas azuis como botões do colete).

Os personagens de Hugh Grant são uma figura de autoridade (detentor de poder) e de negócios em todas as vidas. Isso acarreta que, por causa desse modelo de vida, ele não evolui espiritualmente em nada. Em 1849, é clérigo e dono de terras, se beneficiando do trabalho escravo. Gerente de hotel de luxo em 1936. Dono de usina nuclear em 1973. Ricaço dono de asilo em 2012. Dono do restaurante e explorador de clones em 2144. E finalmente líder de um grupo de canibais em 2321.

Se Hugh Grant é a mente e o beneficiário por trás das maldades, os personagens de Hugo Weaving (o agente Smith de Matrix) são a mão que executa o mal. Traficante de escravos em 1849, Nazista em 1936, assassino em 1973, uma enfermeira sádica em 2012 e um interrogador da “Unanimidade” em 2144. Já em 2321 ele se torna a própria projeção do mal, na mente de Tom Hanks.

ESCÓCIA, 1936

O consagrado músico Vyvyan Ayrs andava meio sem imaginação e acaba se beneficiando (e muito) da ajuda de um talentoso jovem chamado Robert Frobisher que, vitimado pelo drama da sua bissexualidade, é forçado a deixar seu amante, Rufus Sixsmith. Robert quis ajudar Ayrs a compor para estabelecer seu nome na música como parceiro de Ayrs. Só que Ayrs resolve tomar para si todo o crédito da sinfonia de Robert, o sexteto Cloud Atlas (que dá nome ao filme), e aprisiona Robert em sua casa – através de coação e chantagem moral – para que trabalhe pra ele. Ayrs diz “às vezes você derrota o dragão e às vezes é derrotado por ele”. A frase é emblemática quando percebemos que, nesta encarnação, ele sucumbe ao “dragão” interior da ganância mas, na sua próxima, ele sofre as consequências.

SAN FRANCISCO, 1973

A história de uma jornalista chamada Luisa Rey (Halle Berry) que, ajudada por Rufus Sixsmith e Isaac Sachs (Tom Hanks), tenta desmascarar os planos que os líderes petrolíferos têm de destruir a credibilidade da energia nuclear, pondo em risco até mesmo a segurança da população. Hugh Grant interpreta o industrial de petróleo Lloyd Hooks. Lloyd contrata Bill Smoke (Hugo Weaving) pra matar todos que sabem do esquema. Enquanto isso, Luisa encontra e lê as cartas de amor de Robert Frobisher para Rufus, resultando na busca pela composição “Sexteto Cloud Atlas“.

LONDRES, 2012

A vida de Timothy Cavendish, um velho editor de livros que vê a sua vida complicar-se depois do ser chantageado pelo seu principal cliente e após o seu próprio irmão o trancafiar num lar para idosos na Escócia que mais parece uma prisão. Interessante notar que esse asilo é a mesma casa dele na vida de 1936, como Vyvyan Ayrs. E, como ele chantageou e prendeu em sua casa Robert Frobisher em 1936, nessa encarnação ele sofreu chantagem e foi preso, no mesmo lugar, por uma enfermeira durona interpretada por Hugo Weaving. E tudo porque o irmão (Hugh Grant, claro) resolveu se vingar de um chifre que levou de Timothy, que dormiu com sua mulher, que é a reencarnação de… Robert Frobisher.

Oi!

Mesmo com tudo isso, desta vez Vyvyan Ayrs (como Timothy Cavendish) consegue derrotar o dragão, e aprende a ter humildade e dignidade.

Interessante notar que a personagem de Hale Berry em 1973 diz pra seu namorado “Durante a última hora, tudo o que eu pensei foi em atirá-lo do terraço” e em 2012, logo após seu olhar se cruzar com Dermot Hoggins (Tom Hanks), ele (Dermot) resolve atirar um crítico literário de um terraço. Pensamentos que reverberam no éter pelo tempo, até encontrar um receptor adequado.

NEO SEUL, 2114

Nossas vidas não são propriamente nossas. Do útero ao túmulo, estamos ligados à outros. Passado e presente. E por cada crime, e cada bondade, renasce nosso futuro.

Isso é algo que Chico Xavier poderia ter dito, mas vem de Sonmi-451, a clone do filme que, por algum motivo não explicado, se torna a líder espiritual de um grupo de revoltosos de Neo Seul, e depois praticamente uma deusa no futuro pós-queda.

Este segmento é o que mais lembra Matrix, não só pelo visual, como pela idéia em si. O galã chega pra “fabricada” garçonete Sonmi-451 e diz: “Pode continuar aqui e correr o risco de ser descoberta, ou pode vir comigo”. Praticamente a mesma frase de Morpheus pra Neo. Seres que se alimentam do cadáver deles mesmos é outra coisa de Matrix que os irmãos Wachowski repetem aqui, talvez pra nos lembrar que nosso sistema “capitalista” (na verdade “consumista” seria mais correto) de sobrevivência está alicerçado na exploração (e morte) de outros de nós (crianças e adultos de países mais pobres, sem falar dos abismos sociais que cultivamos aqui mesmo no Brasil). De uma forma quase literal nós nos alimentamos da desgraça alheia, e vemos isso durante todo o filme, seja na exploração do escravo negro, dos tralhadores mexicanos, dos clones, chegando à literalidade no canibalismo do futuro pós-apocalíptico.

Sonmi aprende com o “Neo Coreano” política e filosofia, e cita o escritor russo Alexander Solzhenitsyn: “Vocês detêm poder sobre as pessoas desde que lhes dê algo em troca. Tire tudo o que essa pessoa tem, e ela não mais estará em seu poder”. Fica clara a crítica dos Wachowski contra as ditaduras, sejam elas de direita (filme V de Vingança) ou de esquerda (Solzhenitsyn foi preso e escravizado por fazer críticas a Stalin). No filme é dito que Solzhenitsyn “foi banido da unanimidade”. É uma característica das ditaduras ditar unanimidades, impor suas verdades, e tanto neste filme como em V de Vingança as pessoas são perseguidas apenas por deter conhecimento: “Conhecimento é um espelho, e pela primeira vez na minha vida fui permitida a ver quem eu era e quem eu poderia me tornar” – diz Sonmi. O conhecimento transforma, liberta, e se um governo deliberadamente não investe em educação de qualidade, pode ter certeza de que é pra manter um rebanho dócil e alienado, a fim de estabelecer um controle social.

HAWAII, 2321

Os mares subiram e engoliram todas as cidades do mundo. Nesta ilha, o que restou da civilização humana regrediu a um estado pré-medieval. Boa parte da humanidade fugiu para outros planetas, e restou um pequeno grupo detentor da tecnologia de outrora, os “Prescientes”, que estão tentando restabelecer a comunicação com o pessoal que foi embora, na esperança de serem resgatados antes que a radiação os mate. Esses Prescientes são vistos como semi-deuses pelos primitivos, que baseiam sua religião em torno da “Deusa Sonmi” e seus ensinamentos.

No filme é usada a palavra “Queda” para designar o período entre Neo Seul e agora, ou seja, a involução tecnológica do homem. A Queda é um termo usado no gnosticismo, na Bíblia e na Cabala para designar o afastamento do homem de seu real potencial espiritual. Ou, em outras palavras, de Deus. Na Grande Fraternidade Branca diz-se que “Antes da queda do homem, os filhos de Deus estavam nas Escolas de Mistérios, caminhavam lado a lado com os Mestres, arcanjos e anjos. E, lá do alto da montanha, eles ouviram a música dos caídos, perceberam seu charme e glamour, quiseram conhecer e desceram, misturando-se a eles. Quando viram o engano cometido, desejaram voltar, porém encontraram fechados os portões da Escola de Mistérios. Eles haviam criado o ‘karma negativo’ e teriam de purificar-se, consumindo toda a energia mal qualificada e em todas as doze qualidades da mente (raios) de nosso Pai. Para realizar isto, é necessário dar toda uma volta na roda de encarnações até elevar novamente sua consciência aos níveis de Deus.”

Os diretores de Matrix obviamente não ignoram toda essa tradição esotérica, e inserem símbolos para ilustrar isso. Os tecnologicamente avançados e puros (roupa branca), os Prescientes precisam subir uma montanha íngreme (em outras palavras, ascender) para poder comunicar-se com as pessoas de outros planetas (seres do alto) através de um radiotelescópio (em forma de flor de Lótus, que é o formato do chakra do topo da cabeça), mas para chegar lá precisam do conhecimento do terreno, experiência e força do nativo “ignorante” que, por sua vez, precisa vencer seus medos (a montanha pra eles é amaldiçoada) e seu demônio interno (o Georgie). Chegando lá, abre-se e a mensagem é enviada.

O parágrafo acima resume o filme todo, pois cada personagem em cada época passa por um desafio simbolicamente semelhante. O advogado do navio precisa da ajuda de um escravo, o “Neo” puro-sangue de Seul precisa da “fabricada” Sonmi, o arrogante compositor Ayrs precisa da ajuda de um homossexual, a repórter é ajudada por uma mexicana, e assim por diante. A marca de nascimento que aparece em um personagem por período de tempo parece indicar que, naquela encarnação, aquela pessoa irá dar um salto na sua evolução, irá quebrar um paradigma e ir contra a corrente (seja isso corporações, ditaduras ou os próprios medos), tudo isso influenciada (direta ou indiretamente) pela pessoa com a marca que veio antes.

“Ser é ser percebido. E assim, conhecer a si mesmo só é possível através dos olhos do outro. A natureza de nossa vida imortal depende das consequências de nossas palavras e atos, e isso vai nos empurrando por toda parte o tempo todo.”

Sonmi

Referência:
Tudo é humano, demasiado humano em Cloud Atlas;
Your Guide to the Characters and Connections of Cloud Atlas;
Cloud Atlas fandom;
Fluxo energético;
O DNA e as emoções;

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