CAUSOS DO ALÉM-TÚMULO (parte 4)

Ouvindo as histórias da família, constato que eu descendo de uma longa linhagem de Fox Mulders. 🙂

Minha mãe conta que seu avô (meu bisavô), caboclo do interior da Paraíba, adorava lhe contar histórias, e certa vez ele contou a ela que nunca acreditava em sobrenatural (crença muito comum no interior).

Havia (ainda há, em alguns lugares) o costume de, antes de partir pra caçar (sim, naquele tempo não havia supermercado), os homens colocavam na “boca da mata” uma tigela com uma espécie de mingau, para o espírito protetor da floresta favorecer / autorizar a caça. Tal espírito era conhecido por Cumadre Florzinha (Curupira, em outros lugares), que, se contrariada, vingava-se fazendo tranças na crina e rabo do cavalo. Rezava a lenda de que ela não gostava de alho (por algum motivo os espíritos parecem não gostar de alho, mesmo), e assim meu bisavô resolveu testar essa lenda. Mandou fazer o mingau com BASTANTE alho e levou pra boca da mata. Resultado: não caçou nada, e quando voltou seu cavalo estava tão trançado, mas tão bem trançado que foi impossível desfazer as tranças, tendo de cortar tanto a crina como o rabo. Ele ainda pensou que pudesse ser uma peça dos seus amigos, mas ele disse que não dava TEMPO de fazer tranças como aquela. Passou a acreditar.

Décadas depois, vem a ser meu avô (filho desse bisavô), homem inculto do interior de Pernambuco, mas com mania de iluminista, que vai desafiar as crenças no sobrenatural. Corria a lenda de que uma escola da cidade era mal-assombrada pelo espírito de uma professora que morrera de tuberculose. Não havia um vigia sequer que permanecesse no local à noite. Meu avô sempre foi cético e crítico com essas coisas, e seus amigos o desafiaram a dormir nessa escola. Ele, juntamente com seu irmão, topou. Os amigos prometeram vigiar de fora, pra ver se eles iriam dormir mesmo (mas duvido que tivessem tido coragem). Desconfiado, meu avô trancou bem todas as portas e janelas, colocando escoras e cadeiras nelas pra evitar que os amigos entrassem pra fazer brincadeiras. Revistaram todas os cômodos, se certificaram de que estavam sozinhos. Resultado: ambos não conseguiram dormir a noite toda. Sons de campainha de professor enchiam a sala, vindos de lugar nenhum. Risos e barulho de crianças, sons de dezenas de livros caindo (e quando corriam pra olhar, todos os livros da estante estavam no lugar) e um sopro que apagava o candeeiro que eles usavam pra investigar. Enfim, um inferno, mas eles passaram a noite lá. Saíram no outro dia admitindo que havia “algo” ali, mas sem dar o braço a torcer. Aliás, meu avô, com quase 100 anos, ainda relutava muito em admitir a existência de espíritos, apesar dele ver algumas pessoas andando por dentro de casa.

Como ele era farmacêutico, tinha de atender pacientes às vezes de madrugada, no mais escuro da noite, no meio do sertão. Voltando de um atendimento desses, percebeu que seu cavalo se assustou. Começou a não querer avançar, pinotar, etc. Olhou pra frente e distinguiu, numa ponte, um homem de casaco longo. Já haviam falado pra meu avô que aquela ponte tinha assombração, mas ele (pra variar) nunca acreditou. Não sei se ele achava que era brincadeira ou não tinha outra opção, mas o fato é que ele continuou forçando o cavalo a avançar em direção ao misterioso homem de capote. O cavalo quase o derruba no chão, mas aí ele lembrou das superstições, que dizem que, pra “cortar” o medo do cavalo, basta deitar uma faca entre as orelhas do animal (queria saber como que descobrem isso!). Ele o fez, e funcionou. O cavalo seguia, tenso de medo, se contorcendo todo, mas seguia. Meu avô passou ao lado desse homem na ponte, sem nem olhar pra cara dele, e seguiu viagem…

Algum tempo depois foi a vez da minha avó ver seu fantasma. Quando minha mãe era um bebê, minha avó costumava acordar várias vezes durante a noite pra olhá-la. Numa dessas espiadas ela viu uma mulher entrar por uma porta fechada, olhar a criança (minha mãe) na rede, cobri-la e balançar a rede levemente. Depois sair pela porta aberta, bem do lado da minha avó, que ficou obviamente desconcertada.

Muitas décadas depois, foi a minha vez de ter minha própria história de fantasma!

Eu adoro essas coisas!

Leia mais:
Causos do além-túmulo (parte 1);
Causos do além-túmulo (parte 2);
Causos do além-túmulo (parte 3);
Tales from the crypt

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