PINTURAS MEDIÚNICAS

São realmente os espíritos de pintores famosos que assinam os quadros com pinturas mediúnicas que são vendidos por R$ 200 em palestras e convenções espíritas?

Lembro-me que no começo da Internet (1996) todo mundo dizia: com ela eu posso entrar no Louvre, visitar o mundo das artes, bibliotecas, tudo sem sair de casa. Até hoje esse argumento é usado pra convencer as mães a comprar um computador, mas no final das contas a pessoa só navega por sites de sacanagem ou humor (isso quando navega, porque a maioria fica só orkutando ou no MSN). Já tive minha fase de pesquisar o mundo das artes, já vi muitos quadros de artistas famosos, mas não dava muita bola, primeiro porque o impressionismo não me impressionava muito numa foto pequena, com baixa resolução e que demorava minutos pra ser baixada sofregamente num modem 56k. Nem o meu olhar estava treinado o suficiente para apreciar o mundo das artes (minha recente paixão pela fotografia me ajudou muito nisso). Mas hoje, graças à banda-larga, ao meu curso de Design e novos sites com obras em tamanho grande, finalmente eu “redescobri” o mundo das artes e confesso que estou apaixonado pelo Monet. O uso das cores dele é excepcional, algo que eu nunca havia visto e que provavelmente nunca verei (e por isso ele é Monet, e seus quadros valem fortunas).

Junção minha de quadro de Claude Monet com o de Pál Szinyei Merse (clique para ampliar)

Curiosamente, me detive dia desses vendo uma pintura mediúnica com a assinatura (em letras garrafais, quase no centro do quadro) justamente de Monet. Fiquei pensando: esse quadro está na parede mais pelo valor da (suposta) assinatura do que pela beleza artística (que, ao meu ver, não existia e muito menos caracterizava a genialidade de um Monet). Achei altamente compensador esse método para um provável artista frustrado (seja ele encarnado ou não) exibir seus “dotes artísticos” nas paredes dos outros…

O espiritismo não usa dogmas e nem usa fé cega para justificar seus pontos. Ao menos essa era a idéia de Kardec, que cunhou a frase “fé raciocinada” (ou fé fundamentada). Raciocinemos, então, sobre a validade, do ponto de vista espiritual, de artistas famosos se manifestarem em pinturas mediúnicas espalhadas pelo Brasil e pelo mundo:

A pintura mediúnica é muito famosa em palestras espíritas. Em praticamente todos os estados do Brasil tem alguém que diz incorporar algum pintor famoso (de preferência algum Impressionista, como Renoir ou Monet). A execução em si é que impressiona: em questão de minutos surge um quadro completo, feito com os dedos das mãos (ou mesmo dos pés). Seria isso sobre-humano? Não, não é. Com muito treino e algum talento, consegue-se fazer isso. Ok, então usa-se da boa fé para acreditar que aquilo foi mesmo um espírito incorporado, em casos onde não se conhece o passado do(a) médium. Em outros, pode-se até mesmo atestar (num círculo pessoal) que aquela pessoa realmente entrou em transe mediúnico, pois nunca na vida pintou e mal possui coordenação motora pra desenhar um boneco, quando em estado de vigília. Casos como esses poderiam se enquadrar como um acesso ao subconsciente, ou inconsciente coletivo, mas de qualquer forma é algo sobrenatural que merece ser estudado com carinho. Só que, na imensa maioria das vezes, não conhecemos o(a) médium e nunca saberemos de fato se aquilo é um animismo – uma válvula de escape para uma frustração artística (que pode até ter vindo de outras vidas) – ou uma incorporação autêntica.

Mas, devemos sempre manter a mente aberta, certo? Então vamos dar um voto de confiança e crer por um minuto que sim, é possível que um espírito tenha feito aquilo (afinal, muitos de nós aqui já passamos da fase de questionar a existência de vida após a morte). O que nos leva à questão mais importante: São realmente os espíritos de pintores famosos que assinam os quadros mediúnicos que são vendidos por R$ 200, 300 reais em palestras e convenções espíritas?

Analisemos a logística de trabalho de um espírito como Monet (um dos preferidos dos pintores mediúnicos): se ele realmente se manifesta em todos os médiuns que dizem manifestá-lo, então sua agenda é ocupadíssima. Só em SP devem existir uns 100 pintores, fora nos outros estados e até mesmo no exterior. Ele precisa devotar toda a sua atenção a incorporar por uns minutos em médiuns, fazer uns garranchos e ir embora correndo pra atender outro pintor! É essa a rotina além-túmulo de um pintor consagrado?

A maioria das pessoas acha que eu pinto rápido. Eu pinto muito devagar.

Claude Monet, em vida

Deve ser no mínimo frustrante dispor de tão pouco tempo e recursos (pintura a dedo, quem diria!) pra expressar sua arte, pra alguém que levava meses pra compor suas obras com obsessão pela perfeição. E a qualidade artística? Pelo visto, basta morrer pra perder todo o seu talento!! A desculpa que dão é que o artista não pôde externar suas obras com a qualidade de outrora por conta das limitações do médium… Ora, se eles se preocupam com o resultado (e quando vivos se preocupavam) que peguem UM pintor de qualidade pra treiná-lo, horas a fio, e não passar 3 minutos com 100 outros médiuns ao redor do mundo! Você não via Emmanuel psicografando pra mais ninguém além de Chico Xavier, e isso tomou muito treino dele por anos, e todo mundo que trabalha com incorporação sabe o quão é difícil um espírito ter afinidade vibracional e energética com UM médium pra poder se expressar corretamente. Que dirá 100…

Outra: em vez de gastar no máximo 5 minutos com um quadro, por que raios não levam dias, quiçá meses, compondo e retocando (aos poucos, em várias incorporações) uma obra definitiva e acabada? Por que a pressa? Já não estão mortos, mesmo?

Um pensamento comum no meio dos espíritas mais racionais (mas nunca expressado pelos pintores) é o de que a assinatura no quadro representa não que o espírito do artista famoso pintou AQUELE quadro, mas sim que um membro de uma EQUIPE de pintores espirituais, relacionadas ao artista, fez uma cópia de um trabalho espiritual (e inédito) dele. Essa explicação me agrada mais, só que em todos os lugares onde tinha tais pinturas essa possibilidade nunca era explicitada pelo médium (o que devia ser uma obrigação, já que, ao não fazê-lo estaria vendendo gato por lebre).

Mas essa ainda não é a questão principal. O mais importante aqui é sempre ignorado: Será que nos últimos 100 ou 200 anos o espírito desses artistas não teve outra ocupação além da pintura? Será que não se desenvolveram em nada, não quiseram alçar novos vôos em outras áreas, como a música ou a literatura? Será que estão presos ao karma de pintarem sempre os mesmos motivos, no mesmo estilo, para serem reconhecidos pela platéia tupiniquim? Em vida, Picasso teve várias “fases”: Cubista, azul, rosa, trabalhou com cerâmica, etc. Depois de morto será que se contentou em fazer meros simulacros de seus trabalhos em vida?
E a reencarnação? Esse povo não reencarna, não? Será que já atingiram um nível que permite a eles ficar de bobeira lá por cima, fazendo participações especiais em congressos espíritas? Se sim, a dica pra saldar seus karmas é ser pintor, galera!! E a compulsão desses caras pela pintura? Será que não tem psicólogos lá em cima, não? Na literatura espírita, os espíritos que têm fixação por alguma coisa são justamente espíritos atrasados, transitando por faixas umbralinas, próximas à crosta da Terra. Isso explicaria as constantes aparições deles em incorporações, sempre ávidos pela pintura… Mas não é um pensamento muito bonito imaginar Van Gogh como um umbralino, viciado no cheiro da tinta, assim como um espírito viciado em bebida incorpora (sem que o hospedeiro perceba) no cachaceiro para inalar os vapores do álcool e se sentir novamente “vivo”, não é?

Talvez não seja exatamente um Van Gogh…

Referência:
Mistificação analisada pelo Espiritismo;
Pinturas de Monet em alta resolução;
National Gallery of Art

0 0 vote
Avaliação
Subscribe
Notify of
guest
50 Comentários
Newest
Oldest Most Voted
Inline Feedbacks
Veja todos os comentários

Posts Relacionados

Comece a digitar sua pesquisa acima e pressione Enter para pesquisar. Pressione ESC para cancelar.