BBB21 E PRECONCEITOS

Parece óbvio, mas é preciso refletir sobre como o preconceito é exatamente o que o nome diz (um pré-conceito).

Eu nunca pensei que diria isso, mas o BBB, desde o ano passado, tem salvo minha vida mental em tempos de pandemia. Ele é o bálsamo de escapismo que precisamos em tempos difíceis, onde se você tem a tendência a se importar com o sofrimento alheio vai acabar pirando ou entrando numa espiral de depressão (e pior, não vai poder ajudar em nada). Dito isto, não pude escapar de analisar um pouco mais atentamente os fatos e as atitudes dentro da “casa mais vigiada do Brasil”, e perceber que o tema deste ano é Preconceito.

Mas o que é Preconceito?

substantivo masculino

  1. qualquer opinião ou sentimento concebido sem exame crítico.
  2. sentimento hostil, assumido em consequência da generalização apressada de uma experiência pessoal ou imposta pelo meio; intolerância.

Enfim, é um conceito adquirido previamente, sem embasamento, ou um conceito adquirido por uma experiência traumática e superficial, como ser maltratado por um francês em Paris ou ter sido assaltado por um representante de um grupo étnico e generalizar esse rótulo para todo o grupo.

Mas essa palavra está intrinsecamente ligada à questão racial em nosso país. O que é um erro, porque limita o escopo do QUANTO somos preconceituosos e favorece o discurso dos negacionistas com o famigerado “eu até tenho amigos (coloque aqui sua cor menos preferida)“. Durante décadas, talvez até um século, cultivamos a imagem de que o brasileiro não é preconceituoso por conta da forte miscigenação de raças, cultura, costumes e religião. Somos um país miscigenado, talvez ÚNICO no mundo com TANTA diversidade (refletindo a diversidade de nossa flora e fauna), mas essa máscara do “brasileiro não é preconceituoso” nos últimos anos caiu e caiu forte. Nos somos o suprassumo da intolerância, da opinião sem embasamento, da irresponsabilidade com o coletivo, do “é isso aí e f*da-se“. E isso independente de qualquer posição política, faço questão de frisar.

E o que isso tem a ver com BBB21?

Tudo começou quando o participante Lucas começou a fazer alianças pra tentar formar um grupo de homens contra mulheres. Não foi aceito, já que essa estratégia falhou completamente no BBB anterior. Então ele aproveitou que outro participante (Nego Di) fez um grupo VIP 90% composto de negros negros e isso ativou algum gatilho em Lucas que fez ele se comportar como o “vilão” Erik Killmonger (do filme Pantera Negra) que pregava uma superioridade dos negros sobre os “brancos”. Lucas não fez exatamente isso, mas em apenas uma noite ele conseguiu perturbar TODOS os participantes numa festa fazendo Mind Games (jogos mentais) com um discurso que alternava o tema “união dos pretos” com algumas frases que mais pareciam ameaças veladas a outros participantes.

— Eu nunca te vi como igual, porque somos Camarote, mas eu não vi esse espaço como Camarote, tenho meus rótulos — disparou ele, apontando para Pocah e Viih Tube.

“Rótulo” é outra palavra pra preconceito.

A partir daí foi um festival de intolerância, onde Lucas foi excluído da convivência com os outros participantes e onde os piores algozes dele foram a rapper Karol Conká e a psicóloga Lumena Aleluia. Lucas acabou sendo acolhido por Sarah, Juliette, Gil e Camilla, mostrando que limitar o preconceito a apenas cor, estudo ou orientação sexual é pobre e não corresponde à dinâmica social. Devido a aproximação com Gil, que é assumidamente homossexual, Lucas se permitiu dizer-se bissexual. Foi um escândalo dentro da casa, porque Karol e Lumena acharam que ele só fez isso pra buscar aceitação e/ou se vitimizar:

— Isso é uma pauta séria. Você está agenciando uma pauta coletiva em prol de uma demanda egoica — acusou Lumena, apontando o dedo para Lucas, que negou constantemente.

Lumena virou meme com esse tipo de atitude

Estamos vivendo uma Era do cancelamento onde uma militância autodeclarada minoritária DITA todas as regras de convivência que devem ser seguidas pelos outros RELIGIOSAMENTE, cancelando tudo e todos que não disserem Amém a tudo o que eles decidirem, mesmo que preencha vários dos requisitos que eles mesmos classificam como minoritários. Gil é nordestino, gay assumido mas cometeu o “erro” de se autodeclarar negro durante uma festa de temática africana do BBB:

“Ele [Gilberto] disse que alguém na ‘festa da África’ falou que ele é branco. Eu falei para ele, ô meu filho, para quem é branco, é preto, para quem é preto, é branco. Cada um tem seus achismos, mas saibam que vão te ver como branco”, disse Karol.
“Desde que eu me entendo por gente, eu me entendo como preta”, acrescenta Pocah. “Mas tem uma diferença da tua cor pra ele”, rebate Nego Di.
Karol diz então que Gil seria “igual ao Projota”. O humorista discorda novamente. “Não, ele é mais claro”.
A cantora opina que o doutorando em economia teria “arcada de negro”. “Não, pode dizer que é muçulmano, negro não. Ele tem cabelo liso. Teve alguém que disse pra esse cara que ele é preto e e ele acreditou”, opinou Di. “Ele pode ter alguém, um vô, uma vó [negros]. O racismo só sofre quem é da nossa cor, o policial não te para porque tua mãe é negra. Ele é um pouquinho sujinho. Se esfregar bem…”, continuou. Lumena entra na discussão: “Tem vários tons de branco. O cara acha que por não ser o branco branquíssimo…” e Nego Di interrompe: “É porque ele não é da cor do Fiuk, aí ele acha que é negrão”.

TV Fama

Gil conseguiu aceitação no grupo de Juliette e Sarah, e depois foi conquistando até mesmo a Lumena. Lucas não aguentou e saiu da casa por conta própria. Ironicamente, os algozes de Lucas foram julgados aqui fora pelo público e saíram da casa com altos índices de rejeição, um a um.

Ao sair da casa, Lumena falou que ao entrar tentou deixar pra trás a Lumena acadêmica, militante e ser mais leve, mas não conseguiu. A Sombra (aquilo que projetamos de nós nos outros) foi mais forte:

“Já na saída do Lucas, aquele choro foi uma catarse de reconhecer que tanto a saída dele quanto a minha postura transcendiam o que a gente viveu ali dentro. Eram matrizes que vêm da história dele e da minha história. A imagem dele me lembrava os meus primos, pessoas com quem eu me relacionei na vida, pessoas que eu acolhi, a quem eu me doei. Eu confundi muita coisa lá dentro. Ele projetou em mim um acolhimento que, em dado momento, eu desejei e me anulei no jogo para me doar. Quando ele me feriu, eu decidi ligar o modo contra-ataque, o que foi muito prejudicial para o meu jogo. Me senti atacada pelo que ele me causou, e eu não levo desaforo para casa de homem nenhum. Pensei: “se me atacar, vou atacar também”. Só que eu esqueci que eu estava num reality, não num campo de batalha.”

Lumena Aleluia

O mesmo disse Karol Conká, outra eliminada:

“Tenho que estar sempre forte, vi a minha mãe fazendo muito tempo isso ou porque a fraqueza está ligada à vulnerabilidade, mas não consigo me sentir forte vendo o que fiz na casa. Depois que a gente sai e vê as imagens, elas são muito fortes.”

Karol Conká

A fala de Karol foi menos elaborada, mas indica que essa imagem de mulher empoderada, desconstruída, confiante e que não se abala com nada é só uma imagem, uma construção social como, aliás, TODOS NÓS TEMOS e que o psiquiatra suíço Carl Jung chama de Persona (máscara). Essa máscara muitas vezes é criada como uma defesa contra as dificuldades do mundo, como diz (talvez sem perceber) a própria Karol:

“Eu era muito rejeitada não pela minha família, mas no colégio. Um menino no colégio falou: ‘mergulhe numa piscina de água sanitária para falar comigo.’ Eu fiquei pensando: mas por que?”, disse à repórter Ana Carolina Raimundi. “Foi tipo uma gincana. Cada um entrega alguma coisa e eu falei: deixa que eu escrevo um som. Desde aquele dia, os meninos pararam de me xingar. Aí não era só a neguinha boba. Eu era a Karol Conká, a menina que faz umas rimas, que entende de rap.”

Karol Conká

Tal máscara, quando se torna (por fama ou necessidade) a TOTALIDADE de sua personalidade, se torna uma maldição. E duas pessoas se tornaram muito famosas como exemplo trágico dessa maldição. Uma delas nasceu Norma Jeane Mortenson, mas o nome pelo qual ela se tornou conhecida foi Marilyn Monroe, e a maldição dela foi personificar com sua esplendorosa beleza a “loura burra”; uma imagem que ela nunca conseguiu desvincular de sua vida pessoal, e isso se traduziu em relacionamentos abusivos que reforçavam mais e mais seus traumas internos e que levaram ela a se matar (intencionalmente ou não) com uma overdose de remédios.

Uma pessoa em especial teve a sensibilidade de captar essa história (até porque ele por muito tempo também usava uma máscara / Persona para esconder seus sentimentos) e transformá-la em poesia:

Elton John – Candle in the wind (Homenagem Marilyn Monroe) (Legendado)

Não à toa o próprio Elton John, muitos anos depois, percebeu esse mesmo padrão ocorrendo com outra pessoa, Diana Frances Spencer, mais conhecida como Lady Di. Se na música para Marilyn ele diz que gostaria de tê-la conhecido, dessa vez Elton ficou amigo de Diana e provavelmente ajudou-a a superar o tormento de viver uma “vida de Princesa” que só existia da porta pra fora (recomendo a série The Crown). Essa é outra faceta do preconceito: achar que só pessoas feias, pobres ou negras sofrem preconceito. Pode ser tentador zombar da tristeza de uma loura linda rica e famosa porque “ela tem tudo”, mas não sabemos NADA da jornada interna daquela pessoa. Não temos um CONCEITO, um mapa mental embasado e estabelecido sobre ela, apenas um PRÉ CONCEITO baseado em reportagens e programas de TV (ou, mais recentemente, Instagram). E o preconceito é justamente tomar um pelo outro, arrotar nossa arrogância e dizer com toda a convicção que SABEMOS e DEFINIMOS quem é aquela pessoa e a JULGAMOS por isso. Não é exatamente o que a Ku Klux Kan faz? E no entanto nós fazemos isso diariamente nas redes sociais, com consequências menos dramáticas mas que vão se acumulando até chegarmos a coisas bizarras como ameaças à família de participantes eliminados do BBB21. O julgamento que ocorre DENTRO do BBB21 é o mesmo julgamento que ocorre AQUI FORA, não só em relação ao BBB como em relação a nós mesmos, diariamente:

Twitter

Enquanto isso o governo facilita para que essa mesma população adquira armas de fogo. O que pode dar errado?

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