SIMULACRO E SIMULAÇÃO

No livro A Troca Simbólica e a Morte (Symbolic Exchange and Death) Jean Baudrillard argumenta que as sociedades ocidentais foram submetidas a uma “precessão dos simulacros”, onde temos o original e as três ordens de simulacros:

Simulacro e simulação (filme The Matrix)

A imitação;
A produção, a cópia mecânica;
E, por fim, a terceira fase do simulacro: a simulação, onde interagimos com representações / símbolos / imagens / ícones, achando que é o original.

Esses pensadores franceses são um saco. Deixam qualquer um deprimido. Mas, no fim do dia, tenho de dar razão a gente como Baudrillard ou Foucault: eles têm uma visão de mundo que é válida, não sendo a única, mas tristemente válida. Aí me dá vontade de cortar os pulsos com minha Prestobarba, como fazem os Emos. Aliás, esse post só começou por causa dos Emos.

Me explico: estava a contemplar o mega-confronto entre Emos e Punks no México, que só não chegaram às vias de fato pois os Hare Krishnas estragaram tudo com sua alegria e música festiva, botando as duas facções pra correr. A vida às vezes consegue ser mais bizarra que o final de Banzé no Oeste.

Vejamos os Emos: Eles são desajustados, ninguém os entende por serem tão sensíveis; “esse mundo não é pra mim, por isso vou viver à margem da sociedade, isolado. Mas ei, aqueles caras que cantam são legais! Pensam como eu! E no shopping, há dezenas como eu! O mesmo cabelo com chapinha, o mesmo olhar de tristeza! Puxa, não estou sozinho! Na internet há centenas, milhares! Gente que me entende!!! Então por que raios continuo alimentando a idéia de que estou triste e só?”

Assisti nesse fim-de-semana à peça teatral de Pinóquio. O que mais me chamou a atenção foram os movimento do ator principal. Para representar os movimentos do boneco, ele usou todo um gestual que, de tão estranho e inumano, era gracioso, como um balé. Pensei no quão difícil deve ter sido para o ator fazer todos aqueles movimentos nas pontas dos pés, para fingir um desequilíbrio que, para sua execução, exige um equilíbrio ímpar.

Atores… gente que finge ser outra pessoa, ou, no caso de Pinóquio, um símbolo. Ao menos ELES estão cientes disso.

Vejamos agora os punks: Eram pessoas que se vestiam como queriam, lá por Londres. Eles não pretendiam criar moda, apenas serem eles mesmos. Não existia um padrão punk, um estereótipo. Mas aí surge o furacão Sex Pistols, com um Sid Vicious que JÁ se vestia daquele jeito normalmente (não foi produção), e as pessoas pensaram: Ei, esse é meu ideal! E a partir daí o “movimento punk” (símbolo) nasceu, quando o Punk (original) em si morreu, ou desapareceu. E as pessoas preferiram o símbolo ao original, e o perpetuaram através de rituais (moda, gíria, relações sociais, etc) como qualquer outra cultura de massa. O Dado Dolabella falou que o João Gordo “traiu o movimento“, mas o movimento não pára; ele está, como o nome diz, em movimento. O João Gordo é praticamente a Ana Maria Braga da MTV, e está sendo mais punk agora – se vendendo desbragadamente em programas ridículos – do que no Ratos de Porão. O que ele faz agora é PUNK, no sentido mais grotesco da palavra (eu mesmo não tenho estômago nem pra assistir aquilo, que dirá fazer).

Punks e Emos são aberrações da Matrix que foram rapidamente assimiladas pelo sistema. Eles não estão à margem da sociedade: são entretenimento da sociedade. São o chantilly do bolo, o “algo a mais”. Eu não vejo nenhum problema nisso, afinal gosto de diversidade, mas esses movimentos insistem em se dizer “outsiders”, e aí entra a incongruência, o reforço do simulacro, a “mão que balança o berço”.

Vejamos os Rappers: Não duvido que Eminem seja uma autêntico motherfucker e que tenha tido uma vida difícil e quebre minha cara só por eu olhar atravessado pra ele, mas o fato é que ele foi o instrumento principal nas mãos da mídia (ou Matrix) pra assimilar (e diluir) o “movimento rapper”. O resultado (símbolo) vemos todo dia nas rádios e MTV (pimp my ride, gostosas rebolando na frente de caras com “attitude“, e o exemplo mais grotesco de todos de distorção do original: Vanilla Ice).

O sistema fez isso com os Hippies: os caras estavam criando uma revolução de idéias, de sentimentos, que viria (em uma geração) a demolir o poder estabelecido de forma natural. O que fizeram? Incentivo ao ódio, incentivo às drogas, e aí, nesse terreno, o poder estabelecido sabe como lidar com você. Foi isso que John Lennon percebeu antes de qualquer um e criticou na sua própria geração (vide a letra de Revolution). Esse é o “Segredo” de quem controla a Matrix: distorcer o original até ele perder as origens. Pra isso vale tudo, até mesmo potencializar as características que eles pretendem, no futuro, combater. Estereotiparam o Hippie com aquelas roupas e imagens de gente suja e drogada (isso era só uma faceta dos hippies de San Francisco, mas ficou representando todo o movimento até hoje), que só quer saber de música e arte (afastando-os da imagem política, que era o começo de tudo), com a idéia “essa é a liberdade que queríamos”, e o que aconteceu? A próxima geração foi de Yuppies, ex-Hippies (ou filhos de Hippies) que se tornaram cínicos para com seus ideais porque se renderam ao sistema em troca de dinheiro e prestígio, mas que continuaram presos às drogas, o que os faz ter a falsa sensação de poder (e não perceber quem de fato segura os fios do “boneco”). Ou seja: domados. Sistema 1 x 0 Liberdade.

Só pra não perder o gancho, o mesmo sistema de controle foi e está sendo aplicado nas religiões: O Islamismo está sendo caricaturado através dos ícones, e os islâmicos mais radicais estão caindo como um patinho (pela falta de um líder espiritual, a grande nação islâmica que – quero crer – é pacifista faz um silêncio vergonhoso perante a mídia), o budismo está sendo caricaturado, mas o Dalai Lama habilmente está conseguindo se desvencilhar. Quanto a Jesus… bem, nós perdemos há muito o Jesus original, e ganhamos um símbolo dele na cruz. Tivemos algumas belas imitações (1ª fase do simulacro), acabamos por consumir a reprodução em massa (e indiscriminada) desse símbolo (2ª fase), e agora já tomamos o símbolo / ícone pelo original (3ª fase do simulacro). Um “case” de sucesso. E, como diria Constantino, “In hoc signo vinces” (sob este símbolo vencerás).

Atualização (24/04/2021):

O mais novo simulacro que tomamos por Realidade é o Big Brother. Esse vídeo aqui explica bem como funciona:

Karol Conká, BBB e Os Limites entre Ficção e Realidade

Referência:
BBC – Estereótipo influi no sucesso e no fracasso, diz estudo

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