JUNG: PERSONA COMO SEGMENTO DA PSIQUE COLETIVA

No post A mente dos profetas coloquei um trecho do psiquiatra suíço Carl Jung, onde ele nos fala que, através da anexação das camadas mais profundas do inconsciente (chamado por ele de “inconsciente coletivo”), se produz uma ampliação da personalidade que pode levar ao estado de “semelhança a Deus”. Vejamos agora a versão mais completa do capítulo do livro O eu e o inconsciente (do próprio Jung), onde estava inserido o referido texto, para compreendermos melhor o processo:

Tal estado ocorre mediante o mero prosseguimento do trabalho analítico, através do qual são devolvidas à consciência partes reprimidas da personalidade, somadas a certas qualidades básicas e impessoais da humanidade, fato este que provoca uma ampliação, que pode ser encarada como uma consequência desagradável da análise.

A personalidade consciente parece-nos um segmento mais ou menos arbitrário da Psique Coletiva. Ela resulta do desconhecimento a priori de fatores humanos fundamentais, da repressão mais ou menos involuntária de uma série de elementos psíquicos e característicos que poderiam ser conscientes, e cuja finalidade é estabelecer aquele segmento da Psique Coletiva a que demos o nome de Persona. A palavra Persona é realmente uma expressão muito apropriada, porquanto designava originalmente a máscara usada pelo ator, assinalando o papel que este ia desempenhar na peça. Se tentarmos estabelecer uma distinção exata entre o material psíquico consciente e inconsciente logo nos encontraremos diante do maior dilema: no fundo teremos de admitir que as afirmações acerca do inconsciente impessoal são coletivas. Acontece porém que a Persona, sendo um recorte mais ou menos arbitrário e acidental da Psique Coletiva, cometeríamos um erro se a considerássemos no todo como algo de individual. Como seu nome revela, ela é uma simples máscara da Psique Coletiva, máscara que aparenta uma individualidade, procurando convencer aos outros e a si mesma que é individual, quando na realidade não passa de um papel ou desempenho através do qual fala a Psique Coletiva.

Ao analisarmos a Persona, dissolvemos a máscara e descobrimos que, aparentando ser individual, ela é, no fundo, coletiva. Deste modo surpreendemos “a pequena divindade humana” em sua origem, o Deus geral personificado pela Psique Coletiva. Por fim, com espanto, percebemos que a Persona não é mais que a máscara da Psique Coletiva.

Seria porém incorreto encerrar o assunto sem reconhecer que há algo de individual na escolha e na definição da persona; embora a consciência do eu possa identificar-se com ela de modo exclusivo, o si mesmo inconsciente, a verdadeira individualidade, não deixa de estar sempre presente, fazendo-se sentir de forma indireta. Assim, apesar do eu consciente identificar-se com a Persona – essa figura de compromisso que aparentamos diante da coletividade –, o si mesmo inconsciente não pode ser reprimido a ponto de tornar-se imperceptível. Sua influência manifesta-se principalmente nas manifestações contrastantes e compensadoras do inconsciente.

Uma vez abolidas as repressões de ordem pessoal, a individualidade e a Psique Coletiva começam a emergir, fundidas uma na outra, liberando as fantasias pessoais até então reprimidas. Aparecem sonhos e fantasias, que se revestem de um aspecto diferente, mas que possuem uma característica infalível: seu caráter “cósmico”, tais como tempo e espaço infinitos, a enorme velocidade e a extensão dos movimentos, conexões “astrológicas”, analogias telúricas, lunares e solares, etc. O aparecimento evidente de elementos cósmicos indica a situação daquilo que chamamos “semelhança a Deus”. Esta circunstância é anunciada muitas vezes por sintomas peculiares: sonhos em que se voa através do espaço, a modo de um cometa, ou se tem a impressão de ser a terra, o sol ou uma estrela; ora se é extraordinariamente grande ou extraordinariamente pequeno, ou então, como um morto, chega-se a um lugar estranho, num estado de alheamento, confusão, loucura, etc. Pode-se também experimentar sentimentos de ordem corporal, por exemplo, que se é enorme, gordo demais; submersões ou ascensões infinitas, inflação corporal ou vertigem. Psicologicamente, esta situação é caracterizada por uma falta de critério acerca da própria personalidade ou sobre aquilo que realmente se é; ou então a pessoa se sente particularmente segura em relação àquilo que aparentemente se tornou.

“Quem é você?”, perguntou a Lagarta.
Não era uma maneira encorajadora de iniciar uma conversa. Alice retrucou, bastante timidamente:
“Eu – eu não sei muito bem, Senhora, no presente momento – pelo menos eu sei quem eu era quando levantei esta manhã, mas acho que tenho mudado muitas vezes desde então”.

Lewis Carroll – Alice no país das maravilhas

A influência, por parte do inconsciente, pode manifestar-se sob a forma de uma recaída na neurose, sob a forma de uma “semelhança a Deus” positiva ou negativa, como já foi dito; ou de outras formas que se caracterizam por uma desorientação relativa à posição da individualidade. É este um estado ao qual se deve pôr fim o mais depressa possível, pois é muito grande sua analogia com um desequilíbrio psíquico. A essência da maioria dos desequilíbrios psíquicos não-orgânicos se caracteriza pelo fato de que a função do consciente é reprimida e substituída em grande parte pelo inconsciente. A função da realidade é usurpada pelo inconsciente, que toma o valor de realidade. Os pensamentos inconscientes soam como vozes, tornam-se plásticos como visões, perceptíveis como alucinações corpóreas, ou então se transformam em idéias fixas de natureza demente, prevalecendo sobre a realidade.

De modo semelhante, mas não idêntico, o inconsciente é deslocado para o consciente, através da dissolução da Persona na Psique Coletiva. A diferença relativamente à perturbação psíquica reside no fato de se poder liberar o inconsciente por meio da análise consciente; pelo menos é assim no início da análise, quando as fortes resistências culturais contra o inconsciente ainda devem ser superadas. Mais tarde, depois da remoção de barreiras antiquíssimas, o inconsciente costuma manifestar-se com maior espontaneidade, até mesmo jorrando, às vezes, por assim dizer, no consciente. Nesse estágio é grande a analogia com uma perturbação do equilíbrio psíquico (como, por exemplo, os momentos de inspiração que, no gênio, têm uma semelhança pronunciada com estados patológicos). Só se pode falar numa verdadeira doença mental quando o conteúdo do inconsciente toma o lugar da realidade consciente.

Tentativas de libertar a Individualidade da Psique Coletiva

a) Restabelecimento regressivo da Persona

Sendo insustentável a identificação com a Psique Coletiva impõe-se, como já foi dito, uma solução radical.
Há dois caminhos que levam à dissolução do “estado de semelhança a Deus“: o primeiro é a possibilidade de tentar restabelecer regressivamente a Persona anterior, visando sujeitar o inconsciente através de uma teoria redutora; por exemplo, considerando-o “nada mais do que” uma manifestação da sexualidade infantil reprimida, ou repudiar o inconsciente como algo de inútil, infantil, carente de sentido, absurdo e obsoleto. Não há mais nada a fazer senão dar de ombros, negar-lhe o valor e resignar-se. Se o indivíduo quiser voltar a uma vida razoável deverá reconstituir, da melhor maneira possível, o segmento da Psique Coletiva a que chamamos Persona, silenciar os acontecimentos da análise, deixando-os de lado e se possível esquecer que possui um inconsciente. Poderá ater-se às palavras do poema Fausto, de Goethe:

“Conheço demasiadamente o círculo da terra,
O mais além é vedado ao nosso olhar;
Tolo! Quem para lá dirige os olhos ofuscados
Inventa seu duplo nos abismos do ar!
Decida-se aqui e não se perca além;
Para o homem bom o mundo tem finalidade
Sem que se perca em vão na eternidade!
O que distingue, bem pode dominar.
Deixá-lo seguir ao longo dos terrestres dias;
Que os fantasmas assombrem, segue sua via,
Ao caminhar encontra a dor e o contentamento,
Mas ai! para sempre o eterno descontente.”

Goethe; Fausto

Tal solução seria perfeita se o homem pudesse desembaraçar-se por completo do inconsciente, privando-o de sua libido, de forma a torná-lo inativo; mas como a experiência mostra não se pode privar o inconsciente de sua energia, ele continua atuante; não só contém a libido, mas é sua fonte mesma, a partir da qual fluem os elementos psíquicos originários, os pensamentos de tonalidade afetiva ou os sentimentos de tonalidade reflexiva e todos os germes indiferenciados das possibilidades formais e dos sentimentos. Seria, portanto, ilusório acreditar que através de alguma teoria ou método mágico poder-se-ia esgotar a libido do inconsciente, eliminando este último.

Não é fácil analisar o inconsciente e portanto situá-lo. Ninguém lhe arranca a força atuante por muito tempo. Tentar fazê-lo é iludir-se, é reeditar o habitual processo de repressão. Ainda em Fausto, Mefistófeles deixa uma possibilidade aberta, que não se deve negligenciar, pois ela corresponde a uma realidade. Ele diz a Fausto, a quem repugna “a loucura da magia” e que de bom grado renunciaria à cozinha das bruxas:

“Pois bem, eis o caminho mestre
Sem médico, dinheiro ou bruxaria:
Retorna à vida campestre,
Cava e lavra descuidado
Conserva-te e à tua mente
Num círculo bem limitado
Come da terra somente;
Animal entre animais, esterca
O campo que cultivares.”

Goethe; Fausto

Quem tiver verdadeiramente a possibilidade de viver tal vida, não correrá jamais o risco de naufragar em outras possibilidades, uma vez que sua natureza não o incita a um problema que ultrapassa sua capacidade de apreensão. Mas se ele deparar com o grande problema, não terá nem mesmo aquela saída.

b) A identificação com a Psique Coletiva

Este é o segundo caminho para libertar a individualidade. Ele equivale a aceitar o estado de “semelhança a Deus”, exaltado agora como um sistema. Em outras palavras, o indivíduo é o feliz possuidor da grande verdade, que ainda estava à espera de ser descoberta, o senhor do conhecimento escatológico para a salvação das nações. Tal atitude não implica a megalomania em sua forma direta, mas sim na forma atenuada e conhecida do profeta e mártir. As mentes fracas correm o risco de sucumbir a esta tentação, porque se caracterizam geralmente por uma boa dose de ambição, amor-próprio e ingenuidade descabida. Abrir a passagem da Psique Coletiva significa uma renovação de vida para o indivíduo, quer seja agradável ou desagradável. Todos querem agarrar-se a esta renovação: uns, porque assim aumentam sua sensação de vida, outros, porque vêem nisso a promessa de um conhecimento mais amplo. Por conseguinte ambos, se não quiserem renunciar aos grandes valores enterrados na Psique Coletiva, deverão lutar de um modo ou de outro, a fim de manter a ligação recém-descoberta com os fundamentos originários da vida. A identificação parece ser o caminho mais curto, pois a dissolução da Persona na Psique Coletiva é um convite formal para as bodas com este “mar da divindade”, apagando-se toda memória nesse abraço. Este traço de misticismo é característico dos melhores indivíduos e é tão inato em cada qual como a “nostalgia da mãe”, nostalgia da fonte da qual provimos.

Como já mostramos anteriormente, há na raiz da nostalgia regressiva, concebida por Freud como uma “fixação infantil” ou “desejo incestuoso”, um valor e uma necessidade especiais. Tal fato se revela com clareza nos mitos em que o herói é o melhor e o mais forte dentre os homens de seu povo; é ele que segue essa nostalgia regressiva, expondo-se deliberadamente ao perigo de ser devorado pelo monstro do abismo materno. Mas é herói, afinal de contas, justamente porque não é devorado, vencendo o monstro, não uma, porém muitas vezes. A vitória sobre a Psique Coletiva, e só ela, confere o verdadeiro valor, a captura do tesouro oculto, da arma invencível, do talismã mágico ou daquilo que o mito determina como o mais desejável. Assim, pois, o indivíduo que identificar-se com a Psique Coletiva ou, em termos do mito, que for devorado pelo monstro, nele desaparecendo, estará perto do tesouro guardado pelo dragão, mas involuntariamente e para seu próprio mal.

Esta opinião se afigura como a única válida para o homem contemporâneo, que sente e pensa dentro dos moldes científicos; isto não se verifica, porém, em relação aos assim chamados homens cultos, cujo número é extraordinariamente grande e que não concebem o cientificismo como um princípio da ética do pensar superior ao seu próprio espírito; a ciência, para eles, é apenas um meio que apóia os dados da experiência interior, proporcionando-lhes uma validez geral. Ninguém que se dedique à psicologia pode dissimular que ao lado de um número relativamente limitado dos que cultuam o cientificismo ou o tecnicismo, pululam na humanidade os representantes de um princípio inteiramente diverso. A astrologia floresce hoje como sempre. A Christian Science inunda a América e a Europa. Centenas de milhares de pessoas, deste e do outro lado do oceano, são adeptos ferrenhos da Teosofia e da Antroposofia. Quem pensar que os Rosacruzes são uma lenda do passado vê-los-ia ainda hoje vivos como outrora, se tivesse os olhos abertos. A magia popular e as ciências ocultas também não morreram. Não se acredite porém que só a ralé está ligada a essas superstições. Todo mundo sabe que é preciso subir muito para encontrar os representantes do outro princípio.

Quem se interessar pela verdadeira psicologia humana deve considerar tais fatos. Se uma porcentagem tão grande do povo sente a necessidade inextinguível desse pólo oposto ao espírito científico, então podemos estar certos de que a Psique Coletiva em todo indivíduo – por mais que se incline para a ciência – possui na mesma medida esta exigência psicológica. Um certo ceticismo e criticismo “científico” da nossa época não são mais do que compensações frustradas do impulso supersticioso, forte e profundamente enraizado na Psique Coletiva. Já presenciamos a sujeição total de cabeças excessivamente críticas a essa exigência da Psique Coletiva, seja direta, seja indiretamente, ao transformarem sua teoria científica particular num fetiche.

Assim sendo, o perigo da sujeição à Psique Coletiva, mediante o processo da identificação, não é pequeno. Quando ocorre a identificação, dá-se um retrocesso, cria-se um disparate a mais e, além de tudo, trai-se o princípio da individuação sob a máscara da ação individual, na névoa da presunção de que se descobriu o seu ser mais profundo. Na realidade, não se descobriu o seu ser mais profundo, mas sim as eternas verdades e erros da Psique Coletiva. Na Psique Coletiva perde-se justamente de vista o seu ser mais profundo.

Por isso, a identificação com a Psique Coletiva é um fracasso, que termina de forma tão lamentável como no primeiro caminho, que separa a Persona da Psique Coletiva.

Continua

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