OUVIR EM CORES

Hoje li uma entrevista com Geoff Emerick (o engenheiro de som dos Beatles) onde ele fala que “ouve em cores”:

– Ouvi dizer que você “ouve em cores”?
– Oh, sim, eu ouço. O modo como uso isso é usar o que o estúdio me oferece como uma paleta de pintura. É muito difícil explicar, mas eu ouço visualmente. Eu ouço certos sons em cores diferentes.

E eu que morria de medo de contar isso pra alguém… pelo menos agora tenho um louco famoso pra me fazer companhia (hehehe). Mais do que cores, vejo o som em formas, lampejos de luz, também. Mas isso obviamente não ocorre toda hora, exige um certo envolvimento emocional com a música. O nome disso é sinestesia: uma condição neurológica que faz com que um estímulo em um sentido provoque reações em outro, numa espécie de mistura entre visão, audição, olfato, paladar e tato. No meu caso a música acaba formando uma espécie de “pintura” na minha tela mental (sobreposta à visão). E as “pinturas” mais bonitas são as das músicas de Jean Michel Jarre e Yuzo Koshiro.

Um exemplo de minha visualização da música Lightforce 2000

Como eu consigo associar algumas músicas a cores ou padrões que aparecem em minha mente, então tenho meus compositores favoritos dependendo da beleza que eles conseguem criar visual / musicalmente em meu cérebro, o que em certas músicas pode causar sinestesia tal que chega a ser sentida como um mini-orgasmo.

Não é raro me identificar com o sentimento da música, mesmo sem entender a letra. Algumas músicas dor-de-cotovelo de Elvis me deixam com os olhos marejados, outras, como o Shanti Mantra, de Ravi Shankar, me levam a estados vibracionais que só conseguiria após muita meditação, enquanto algumas músicas “pesadas” atacam direto no peito, sem dó…

Então, apreciar a música tem algo a ver com apreciar a arte, e por isso mesmo posso traçar um perfil de como soam os mais famosos compositores de games japoneses:

Koji Kondo é o criador da trilhas de Mario e Zelda. Seu estilo de música é cativante, com uma estrutura melódica bem definida, pode-se reconhecê-lo só de ouvir. Pela vivacidade, assemelha-se a um desenho de video-game, mesmo, com cores fortes e vivas.

Yasunori Mitsuda fez a trilha de Chrono Trigger e Xenogears. Seu estilo é impressionista, usa os sons etéreos, não calcados na realidade, mas que passam a idéia de forma muito efetiva (a imagem “explosiva” não condiz muito com seu estilo de música, mas está aí por conta da forma de pintar)

Nobuo Uematsu é o compositor de todos os jogos de Final Fantasy. Talvez por ele ter uma banda, seu estilo sonoro é mais calcado na realidade, ou seja, com detalhes e instrumentos que reconhecemos como “reais”, do tipo que ouvimos nas músicas do dia-a-dia.

Yuzo Koshiro, pra mim, é a elegância musical/visual em pessoa. Suas melodias têm a vitalidade de um Koji Kondo, com a “realidade” de Uematsu e com uma pitada de impressionismo de Mitsuda, tudo num “desenho” extremamente bem concebido e equilibrado, com um colorido fascinante que se entrelaça numa melodia que pode ser ouvida tanto como um todo, como em sons separados.

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