MINHA NOSSA SENHORA!

Recentemente estava andando pelo centro do Recife (mais especificamente Rua da Concórdia) quando fui acometido de uma fraqueza que, de primeiro, associei à fome (mesmo tenho comido há menos de 2 horas). Comi um cachorro quente e continue minha caminhada, já saindo dali. 10 minutos depois a mesma tontura e fraqueza, como se eu não tivesse comido nada. “Eita lugar pesadinho“, pensei. Apressei o passo pra sair dali, e fui andando pela Rua Nova, sem melhorar. Aí passei defronte a Igreja de Nossa Senhora da Conceição dos Militares (construída em 1723), onde estava sendo celebrada uma missa. Geralmente eu gosto de olhar igrejas vazias pra apreciar sua decoração, mas a música tipo Marcelo Rossi (altíssima) me espantou. Fiquei parado no meio da rua, encantado com o altar, mas sem coragem de entrar. Mas aí pensei: “caramba, estou aqui passando mal, talvez nem consiga sair do bairro sem ter que parar em algum lugar, e aqui não há nenhum outro lugar melhor do que esse pra se limpar de encosto”.

Então entrei. E não me arrependi. O altar é um dos mais lindos que já vi (incluindo aí o altar da Igreja de São Bento), pois, além de ser concebido no estilo rococó, ele usa um efeito de profundidade – tipo o primeiro estágio de Sonic 1 – com várias camadas uma atrás da outra que dão um efeito 3D lindo de se ver em movimento.

Altar da Igreja de Nossa Senhora da Conceição dos Militares
Altar da Igreja de Nossa Senhora da Conceição dos Militares

Quem gosta de rococó extreme vai amar o telhado, que eu particularmente achei muito “over” (pra mim a virtude está no equilíbrio). Mas o que me chocou foi ver a pintura de teto logo na entrada, que de bíblica só tem o tema: matança com suposta proteção divina.

Detalhe da pintura de teto da Igreja de Nossa Senhora da Conceição dos Militares
Detalhe da pintura de teto da Igreja de Nossa Senhora da Conceição dos Militares (Clique para ampliar)
Nossa Senhora da Conceição após a Batalha dos Guararapes: “O que eu fiz?”

A pintura gigante no forro em talha de madeira representa a Batalha dos Guararapes, onde os (então) exploradores de Portugal expulsaram os Holandeses (os únicos que trataram o Brasil com alguma decência) com a ajuda de negros e índios (PQP, que burros! Dá zero pra eles, professor!). Essa “insurreição pernambucana” é também chamada de “Guerra da Luz Divina“, e o fato de uma força 50% inferior vencer os holandeses foi considerado um milagre, onde Maria, mãe de Jesus, estava a proteger os militares portugueses. Isso justifica a pintura, colocada na Igreja pelo Governador de Pernambuco, em miloitocentosealgumacoisa. A batalha retratada é de um horror que só vi em O Resgate do Soldado Ryan. Sério. Sangue e tripas espalhadas pelo chão (que mal se vê, pelo número de corpos amontoados). Uma certa cena me deixou mais perturbado, que foi a de um soldado português com a espada, pronto pra desferir o golpe fatal num outro soldado holandês que estava no chão rendido, entre os cadáveres e com a mão espalmada (em súplica) e boca aberta. Estivesse esse quadro num museu eu não ligaria muito (afinal toda guerra é feia e cruel), mas… na entrada de uma Igreja? Ao lado do calvário de Jesus?

Passei boa parte do tempo pensando em como o pároco foi constrangido a botar aquela pintura ali; talvez até tentado com uma boa quantia pra reforma da Igreja… e fiquei matutando no quanto o sagrado está imiscuído (macomunado?) com o profano. Nesse meio tempo as músicas terminaram e o Padre começou uma pequena oração, que dizia algo como “Senhor, nos lembra sempre do quanto somos insignificantes e dependentes de sua misericórdia”, o que fez meu sangue ferver, pois um dia antes eu havia escrito aqui nos comentários do blog sobre o uso de Jesus como eterna muleta pra manter o povo servil, e assim preparar terreno pra justificar uma suposta hierarquia espiritual (padre, bispo, papa) que convenientemente emula a hierarquia social (prefeito, governador, presidente)… e logo Jesus, que criticava (veladamente ou não) o uso do sagrado como controle social… que irônico. Ainda bem que ele ressuscitou, ou suas cinzas estariam rolando pelo sepulcro e logo virariam atração turística.

Mas nem tudo é indignação. A bem da verdade até gostei do sermão do padre. Ele começou lendo o trecho da Bíblia:

“Logo depois disso, andava Jesus de cidade em cidade, e de aldeia em aldeia, pregando e anunciando o evangelho do reino de Deus; e iam com ele os doze, bem como algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios. Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, Susana, e muitas outras que os serviam com os seus bens.”

Lucas 8:1-3

Nunca havia reparado nisso. Afora a mênção aos 12 apóstolos, o evangelista só cita MULHERES acompanhando Jesus. O padre lembrou como elas eram muito discriminadas naquela época, e ainda assim Jesus andava cercado delas, tratando-as como iguais. E foi justificar no Gênesis, onde está escrito:

“Então o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre o homem, e este adormeceu; tomou-lhe, então, uma das costelas, e fechou a carne em seu lugar; e da costela que o senhor Deus lhe tomara, formou a mulher e a trouxe ao homem.”

Gênesis 2:21-22

O padre falou que aquilo era obviamente uma metáfora, uma figura de linguagem (graças a Deus!), que simbolizava que a mulher foi criada de uma parte ao LADO do homem. Nem da cabeça nem dos pés dele, e sim do meio. Falou dos preconceitos que ainda existem contra a mulher, e citou que, em nossa sociedade, a consagração do sucesso de uma mulher na mídia é ela posar nua numa revista; não precisa nem ser bonita: se ela faz sucesso, logo é convidada pra posar como um objeto de desejo (o que minimiza – às vezes apaga – todo o esforço que ela fez como ser humano pra chegar ao reconhecimento nacional). O padre falou ainda que muitas vezes o preconceito é alimentado pelas próprias mulheres, ao criarem seus filhos de maneira machista e perpetuando o preconceito dos avós, ou ao aceitarem passivamente os desmandos do marido.

Achei muito bonito esse sermão, numa Igreja consagrada a Nossa Senhora, e com o padre cercado de mulheres – senhoras, suas assistentes, que estavam inclusive com ele no altar, e a platéia, composta de 90% de mulheres. Enfim, uma Igreja de contrastes, onde o Divino convive com o vulgar, e onde o padre prega a igualdade feminina dentro de uma doutrina famosa pelo machismo e preconceito histórico para com a mulher. Saí de lá revigorado, sem a fraqueza de outrora. Obrigado, Nossa Senhora (e perdoe a brincadeira acima). 😛

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