YUZO KOSHIRO (parte 1): O DEUS DA GAME MUSIC

Yuzo Koshiro é um dos grandes nomes da música de videogames. Considero-o praticamente um Deus da música pelo conjunto e pioneirismo da sua obra. Ele consegue extrair lindas melodias de qualquer tipo de videogame, em qualquer estilo musical. Foi o primeiro compositor japonês videogame a receber reconhecimento internacional, tanto por seu talento incomum como por ter sido o primeiro compositor a ter o privilégio de exibir seu nome na tela-título dos jogos.

Um resumo da carreira de Yuzo Koshiro

Nascido em Tóquio, em 12/12/1967, filho de uma professora de piano e um pai artista, desde os três anos de idade começou a aprender piano. Aos 5 já tocava violino, aos 8 compôs sua primeira música e aos 12 aprendeu violoncelo. Estudou por 3 anos com o renomado compositor Joe Hisaishi. Por causa de sua mãe, suas maiores influências musicais foram Bach, Mozart e Beethoven.

OS PRIMEIROS ANOS

yuzo koshiro studio

Na adolescência, matava aula para jogar Space Invaders, e ficava fascinado pelas músicas de Gradius e The Tower of Druaga. Costumava ir para os Arcades (fliperamas) para gravar a música direto do alto-falante das máquinas. Com 16 anos, conseguiu reproduzir uma dessas músicas no computador de um amigo (já que o seu não tinha placa de som). Começou a enviar artigos e músicas para a revista de PC Micom Basic Magazine, sob o pseudônimo de YK-2. Suas músicas foram se tornando tão populares na revista que acabou sendo aclamado como o “Deus do PSG” (Sigla para o formato de som daquele computador, equivalente ao nosso MIDI).

Nestes dois vídeos abaixo o próprio Yuzo conta (em inglês) sua história na adolescência, primeiro sobre os jogos que o influenciaram, e depois como começou a aprender programação e a escrever para a revista Basic Magazine:

Yuzo Koshiro vlog: What led me to game music?
Yuzo Koshiro vlog: Talk About Micom Basic Magazine

Ao terminar o ginásio, em 1985 Yuzo começou a trabalhar oficialmente para a mesma revista, até que viu um anúncio de recrutamento de compositores para a empresa de videogames Nihon Falcom. Ele, que queria ser programador, levou até a empresa (a pé, já que a Falcom ficava perto da casa dele, parando apenas para tomar um sorvete) uma fita demo com suas primeiras composições caseiras, feitas no seu PC-88.

Entre as músicas que ele mandou provavelmente estavam essas duas:

About Dungeon
About Fusion

O pessoal da Falcom ficou tão entusiasmado que colocou imediatamente 10 das músicas que ele mostrou no jogo Xanadu Scenario II, que vendeu mais de 400.000 cópias e virou a base para todos os jogos vindouros de RPG. Sua irmã, Ayano Koshiro, também foi contratada pela mesma empresa como designer de personagens. Ele tinha apenas 20 anos.

NA FALCOM

O jovem Yuzo, no estúdio improvisado em sua casa

Quatro meses depois de Xanadu Scenario II Yuzo Koshiro faz seus primeiros trabalhos profissionais na Falcom, em parceria com os compositores Mieko Ishikawa, Reiko Takebayasi, Hideya Nagata e Takahito Abe, nos jogos Romancia, Dragon Slayer 4 e Sorcerian. Mas foi em 1987, com o jogo Ys I: Ancient Ys Vanished que ele pôde mostrar todo o seu talento: é simplesmente uma das trilhas mais vendidas de games (até hoje) e a que mais se faz versões e arranjos. O estilo é único, combinando clássico, rock e medieval, e definiu o gênero de música pra RPG. Não há fã de música de games que não conheça as músicas de Ys, embora a maioria nunca tenha jogado ou visto esse jogo (embora seja um sucesso igual a Zelda no Japãosaiu no Brasil pro Master System, em 1989). Pouquíssima gente sabe, mas ele compôs mais de 90% das músicas sozinho, embora nunca tenha levado crédito.

“A trilha sonora de Ys foi o primeiro trabalho que me deixou completamente satisfeito”

Yuzo Koshiro

Yuzo fez apenas as versões originais para o computador PC-88 (em FM e PSG) de Ys I e II, não participando dos arranjos que fizeram pro computador X68000 nem pro console Turbografx 16 (em CD, a versão mais conhecida fora do Japão). Sobre os arranjos que fizeram com sua música, ele mencionou que a música original foi feita daquela forma tendo em mente as limitações do aparelho e que, se fosse compô-las para CD, elas teriam sido totalmente diferentes, por isso ele não gosta muito dos arranjos. Mas é interessante notar como a elaborada orquestração atual já estava presente nos sons metálicos da versão original. Por isso, coloquei “lado a lado” a versão original e a arranjada, para ouvirem a beleza da estrutura musical e aproveitar pra treinar os ouvidos e perceber que aquele sonzinho metálico pode muito bem ser um violino ou um violoncelo:

Ys – The morning grow (original x arranged)

Ou uma guitarra no último volume:

Ys II – To make the end of battle (original x arranged)

Agora que já “pegaram o jeito”, tentem imaginar uma orquestra completa tocando a música abaixo, que maravilha! Não fica devendo nada a um John Williams!

Dragon Slayer IV – Opening theme

Abaixo temos as minhas músicas preferidas de Ys. A ironia é que ela nunca foi usada. É uma composição no melhor estilo Bach, utilizando-se do mais belo instrumento sonoro medieval depois do órgão de canos: o cravo. A música é belíssima, muito bem trabalhada, e quase não se percebe que é eletrônica. A original, feita pelo Yuzo, é curtinha e só tem a primeira parte da melodia. Abaixo ouviremos a versão extendida (arranjada por Atsushi Fukai), que dá a ela toda a roupagem clássica que ela merece:

Ys – Church (extended)

A história da música abaixo é engraçada. Quando a ouvi pela primeira vez, no jogo Ys para Master System, pensei: “é de Yuzo Koshiro!” (e isso foi muito tempo atrás, sem eu ter a menor idéia de que ele pudesse ter participado desse jogo!). Fiquei firme com esse pensamento, e tive até a oportunidade de perguntar ao próprio Yuzo se ele tinha feito, mas infelizmente ele não lembrava pelo nome. Não desanimei: tinha de ser dele! Anos se passaram, e através de uma página japonesa obtive a confirmação. É incrível como Yuzo tem uma construção musical tão rica, tão elaborada, que se sobressai das dos outros compositores. O jeito como ele usa o PSG, com limitações de canais e interpola os sons para parecer algo orgânico, com eco (como um instrumento acústico) é simplesmente único. Já passei mais de uma hora ouvindo essa música em looping!

Ys – Syonin

Uma amostra da genialidade de Yuzo usando PSG (que é o sonzinho mais básico dos videogames antigos) está em Sorcerian (1987), na versão para o computador X1, da Sharp. Eu desafio alguém a encontrar alguma outra música contemporânea pra videogame com tamanha complexidade e camadas de som se sobrepondo como essa:

Sorcerian – Dungeon (Sharp X1) PSG Sound

Essa música em especial é boa pra ilustrar a rápida evolução pela qual a música de videogame estava passando no Japão. O Nintendinho havia sido lançado em julho de 1983, mas desde 82 os fanáticos por games usavam mesmo eram os computadores pra jogar, como o Sharp X1, o X68000 e o NEC PC88, e em 87 haviam várias versões desses computadores, alguns ainda com som PSG e outros (mais caros) com placas de som elaboradas, misturando PSG com som FM, com muito mais canais e que traziam um som muito mais encorpado, o que possibilitava uma bateria mais realista e efeito de distorção pra guitarra. Então os compositores precisavam programar várias versões de suas músicas pra cada computador. Abaixo vemos o exemplo do mesmo computador Sharp X1 com som FM, e essa versão foi feita por Yuzo Koshiro:

Sorcerian – Dungeon (Sharp X1 Turbo) PSG + FM Sound

A essa altura Yuzo não fazia apenas a música, resolvendo cuidar de toda a parte sonora do jogo, ou seja, os efeitos de som e a programação sonora. Ele desenvolveu seu próprio software pra compor no seu computador PC-88, o MUCOM88 (que recentemente Yuzo disponibilizou gratuitamente para a comunidade gamer), onde ele compôs seus maiores sucessos. Assim, ele tinha absoluto controle do resultado final.

Em 2020 o próprio Yuzo revisitou o tema de abertura de Sorcerian, no piano:

Floppy disks com as músicas de Sorcerian e The Revenge of Shinobi no formato MUCOM88
yuzo koshiro studio decepção

Mas, após ter feito mais de 100 músicas para a Falcom, o casamento com a empresa terminou em decepção. A Falcom tinha a triste política (também adotada por outras empresas, como a Capcom) de esconder seus talentos atrás de pseudônimos pra que outras empresas não tentem “roubá-los”. Com os compositores foi pior ainda: eles só aparecem nos jogos e nos CDs lançados como “Falcom Sound team jdk“, e até hoje há jogos onde não sabemos exatamente bem quem compôs o que. Por conta disso, durante muito tempo pouca gente sabia que Yuzo Koshiro tinha feito a maior parte do jogo Ys. E como a Falcom fica com todos os direitos da música para a empresa, Yuzo não ganhou nem um tostão a mais com o imenso sucesso que a trilha sonora fez e faz até hoje em incontáveis versões. Como essa abaixo, que a Falcom lançou em 1996:

Sorcerian – Dungeon (Arranged) CD Sorcerian Forever I

Por isso mesmo Yuzo Koshiro toma uma importante decisão que no futuro vai fazer toda a diferença na indústria da gamemusic: Ele resolve largar a Falcom para trabalhar como freelancer, e com isso ter direitos sobre a própria música.

Referência:
Entrevista com todo o time de Ys, e uma entrevista exclusiva sobre a trilha sonora

Continuação:

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