MTV DEBATE

Participei, na última terça (23) do programa MTV Debate, mediado por Lobão, e cujo tema foi Daime: droga ou religião?. Vou usar este post pra ir atualizando com minhas impressões, informações e coisas que gostaria de ter dito, se tivesse tempo.

Tempo foi uma questão crucial, já que a produção primeiramente entrou em contato com os participantes e nos instruiu que o programa é dinâmico, com cortes (interrupções) por parte dos participantes e que, na prática, não daria pra falar por mais de 1 minuto. O lado direito – que era o grupo a favor de restrições ao uso da Ayahuasca – composto por Lázaro Freire (Psicanalista transpessoal e criador da Lista Voadores), eu e Anthony Wong (Toxicologista), procurou cumprir à risca as determinações, sendo objetivo e procurando a alternância de opiniões (especialmente o Lázaro), mas o lado esquerdo – que supostamente deveria esclarecer o que é o Daime em seu contexto -, composto por Carlos Maltz (astrólogo e ex-baterista do Engenheiros do Hawaii), Sérgio Seibel (psiquiatra) e Sandra Goulart (antropóloga da USP) parece não ter entendido o formato televisivo da MTV e monopolizou (não-intencionalmente) o debate, criticando as tentativas de interrupção. Uma pena (não por mim, mas pelo público, que poderia ter se beneficiado mais da dinâmica de opiniões).

Pra ilustrar tecnicamente como ficou desequilibrado, segue o tempo de fala de cada participante, por bloco, em minutos:

BLOCO 1

Lázaro: 2:10
Maltz: 1:56
Sandra: 2:22
Acid: 1:04
Wong: 2:48
Sergio:

BLOCO 2

Lázaro: 1:34
Maltz:
Sandra: 16 seg
Acid:
Wong: 10 seg
Sergio: 06:52

BLOCO 3

Lázaro:
Maltz: 03:02
Sandra: 2:20
Acid: 05 seg
Wong: 1:47
Sergio: 1:56

BLOCO 4

Maltz: 01:18
Lázaro: 47 seg
Sandra: 51 seg
Acid: 1:01
Wong:
Sergio:

TOTAL

Sergio: 08:48
Maltz: 06:46
Sandra: 05:49
Wong: 04:45
Lázaro: 04:31
Acid: 02:10

Particularmente eu não gostei da minha participação inicial. Em condições ideais eu poderia ter aproveitado melhor o primeiro minuto. Eu achava que a primeira pergunta seria o tema, se Daime era ou não droga, e quando passaram pra mim após a entrevista da menina eu fiquei meio perdido. Minha vontade era simplesmente detonar a menina pelo descaso com que ela foi tomar o Daime, dizer “isso que é o perigo com o Daime”, que ela só queria curtir um barato (como o Maltz sugeriu, depois) e que a “religião Daime” não tem nada a ver com o contexto supostamente “católico” dela, mas fiquei me policiando pra não ser grosso na TV falando algo que só falaria aqui, na informalidade. Daí eu me repeti nas frases “contexto religioso” (era minha cabeça tentando retomar o assunto) e depois fui interrompido. Melhor, porque senão iria ficar uma fala arrastada, sem nexo.

Lázaro e Wong se saíram muito melhor de cara, afinal o primeiro tem toda uma bagagem de cursos Brasil afora, e Wong já participou de outros programas, inclusive outros “MTV Debate”. O psiquiatra Sérgio Seibel foi uma boa surpresa: procurou ser claro, com linguagem acessível, e não se deixou contaminar pelo relativismo: falou o certo, que a bebida é sim uma droga alucinógena e que foi liberada dentro de um contexto, apoiou as restrições, enfim, ele poderia estar do “nosso lado”, mas estava sim do lado do esclarecimento. Quando ele começou a detalhar as experiências foi que ele se perdeu, e consumiu um tempo danado. A antropóloga devia ter muita coisa interessante a dizer, se lhe dessem 1 hora pra exposição (e eu adoraria ouvir sobre os “outros contextos” que ela falava), mas não era o caso. A impressão que ficou foi de que ela falou, falou e não disse nada. O Maltz… bem, o Maltz se sentiu ofendido por todos (a começar pelo Lobão) e ficou numa defensiva que o impedia de ver que o esclarecimento era BOM para as instituições sérias, como parece ser o caso da UDV. Durante o intervalo eu falei “cara, estamos do lado da sua religião” e ele respondeu (ou melhor, resmungou): “ela não precisa disso”.

No final do 3º bloco eu me desesperei no intervalo, porque vi o quanto estavam desperdiçando tempo falando de UDV, Barquinha, Xamã, coisas que não dizem nada ao público jovem, que quer saber que danado é aquela bebida e, afinal, se era ou não era droga, e falei isso pro pessoal. Ficou meio que acordado que eu falaria isso no bloco final. Olhando o vídeo, percebi que só consegui falar porque o Lázaro cedeu boa parte de sua fala a mim, inclusive apontando pro meu lado, como se lembrasse ao pessoal do que falei no intervalo. Fiquei feliz com essa minha participação final, porque, embora eu tivesse muito mais pra contribuir, eu queria deixar CLARO, sem dúvidas ou retóricas, que o negócio é droga e só foi liberado porque por trás existe uma religião estabelecida há 70 anos. Eu ia falar que os jovens estavam cada vez mais usando a Ayahuasca SEM ter no meio os rituais ou a orientação religiosa, e ia dizer pras autoridades e entidades colocarem no Orkut “Ayahuasca” e verem a comunidade “Ayahuasca sem dogmas”, com desprezo pela doutrina e acesso à bebida indiscriminadamente.

Acho que no final das contas valeu, sim, o debate. Ironicamente duas pessoas entre as três que mais falaram saíram do debate dizendo que não serviu pra nada, mas oportunidade pra esclarecimento não faltou (pra eles, pelo menos). Gostaria de agradecer a produção do MTV debate pelo profissionalismo, pelo investimento em mim e pelo espírito jovem com que guiam o programa. A performance dos convidados é que é, por natureza, imprevisível.

Referência:
O Santo Daime (Ayahuasca);
O contexto da Ayahuasca;
Ayahuasca: o “contexto xamânico”;
Ibogaína: A planta contra o vício

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