MATRIX REVOLUTIONS

This is the end
Beautiful friend
This is the end
My only friend, the end…

Of our elaborate plans, the end
Of everything that stands, the end
No safety or surprise, the end
I’ll never look into your eyes… again
(The Doors)

Ao terminar o filme, me senti como que órfão. As perguntas do filme 2 (Reloaded) ficaram ainda no ar; não havia respostas fáceis. Saí sem saber se tinha gostado ou não. Mergulhei num mutismo por 2 dias, até digerir algumas passagens do filme, ouvir outros comentários, tirar da mente os efeitos visuais e me concentrar no que quiseram passar com a história. Aliás, assim como no 2, a história peca pela falta de estrutura. As cenas são isoladas, fora de um contexto amplo, lembrando um RPG de videogame de 8-bit (vá até a Oráculo pra pegar uma informação, depois vá até Merovingeo pra poder chegar até Neo, e depois…). Em compensação as partes de ação em Zion são de arrasar. Possuem um objetivo, um propósito dentro do filme, fazem a platéia torcer junto com os personagens. Por falar nisso, os personagens principais estavam lacônicos, contidos, diria até maquinais. O mais humano era o Smith. Teria sido proposital?

Hoje de madrugada, resolvi fuçar a internet atrás de comentários, e aí então entrei na “mágica” do filme. Sim, que outro filme geraria tantos e tão profundos comentários apaixonados pelo mundo? Cada pessoa coloca um pouco do seu conhecimento na tentativa de ajudar os outros a entenderem trechos do filme, e formam um grande mosaico, que é um filme construído fora do filme.

Segundo o pessoal da Lista Voadores, pra compreender o Matrix Revolutions será preciso estudar Carl Jung, Casamento Alquímico, Individualização, Dissolução do Ego, Anima (Trinity), Sombra (Smith), Integração; e o que de mais avançado e complexo há SIMULTANEAMENTE no simbolismo da Alquimia e Gnose. Confesso que não sei nada disso, mas cheguei às mesmas conclusões que eles por outras fontes (o que prova a teoria do bolsão de Egrégora, em que o pensamento coletivo vai se somando, agrupando informações em um “lugar”, e quem estiver na mesma frequência vai captar o resultante. Matrix 3 é o “lugar”. O filme em si é uma “máscara”, um roteiro sem pé nem cabeça, mas a mensagem subliminar que está começando a ser decifrada é que vai fazer com que a humanidade evolua, num nível inconsciente).

QUEM É NEO?

Deus Ex-Machina

Neo é um “Jesus 2.0”. Um humano, mas com o Cristo dentro de si. Cristo para nós é a ordem Divina, é Vishnu, o que mantém a ordem das coisas. No filme, Cristo é o código de Deus Ex machina de alguma forma (provavelmente genética) inserido num humano. Uma manipulação das máquinas para atingir os seus objetivos. Mas, por que Neo foi o escolhido? Porque Neo ESCOLHEU SER O ESCOLHIDO. Ele estava preparado para ser, tinha o dom, como Oráculo diz no primeiro filme. O poder de manipular a Matrix estava latente nele, como estava no menino que entorta a colher, e em Sati. Mas se ele não acreditasse em si mesmo ele falharia, e ficaria pra outra pessoa ser o escolhido (já existiram cinco antes dele). O segredo para SE TORNAR o escolhido é, além de fazer as escolhas certas, acreditar no próprio potencial.

Vamos revisitar o diálogo de Neo com Oráculo, no primeiro filme:
– Acha que é o Escolhido?
– Sinceramente, não sei.
– Sabe o que isso diz? (apontando pra placa acima da porta) É latim. Diz: “Conhece a ti mesmo”. Vou te contar um segredinho. Ser o Escolhido é como estar apaixonado. Ninguém pode te dizer se você está. Você simplesmente sabe, e não tem dúvida. Nenhuma.
Depois:
– Desculpe, garoto. Você tem o dom, mas parece que você está esperando por algo.
– O quê?
– Sua próxima vida, talvez. Quem sabe? Essas coisas são assim.

QUEM É ORÁCULO?

Oráculo fazia parte do esquema. Estava ali para orientá-lo, pra que ele desenvolvesse o potencial. Pra isso, ela precisava ser “amiga” dos humanos. E ela era. Afinal, foi programada pra isso, pra ser uma interface amigável.

Neo pergunta a Oráculo, no Reloaded:
– Mas, por que nos ajudar?
– Todos nós estamos aqui para fazer o que temos que fazer.

Ela tinha um plano, que era não só preparar o Escolhido para o objetivo das máquinas, mas também fazer com que ele tenha a capacidade de salvar Zion. Ela via essa possibilidade, pois foi programada pra isso, entretanto o Arquiteto só via os resultados das equações que estavam em jogo (e não as possibilidades). É por isso que no diálogo final do Revolutions o Arquiteto diz pra ela “Você arriscou muito”. Por isso, no primeiro filme ela ensina o livre-arbítrio, o não-determinismo, que foi fundamental para que Neo ganhasse confiança de que PODIA mudar as coisas quando encontrasse com o Arquiteto. Já no terceiro filme ela ensina o “deixe fluir”, o “não lute” (“Deslize”, como diz o pinguim em Clube da Luta). É o tipo de coisa desconcertante pra quem, como eu, “comprou” a mensagem do primeiro e esperava mais da mesma pegada. Mas o destino de Neo era esse, não adiantava espernear.

MOBIL AVE

Na estação de trem onde Neo está preso vê-se em letras garrafais a palavra MOBIL AVE. MOBIL é um anagrama para LIMBO, que fica nas bordas do inferno. AVE é abreviação de Avenue (Avenida). LIMBO, no dicionário, também é usado para expressar “esquecimento” e “incerteza, indecisão”. Bem adequado, não?

Neo não consegue sair do lugar, pois aquele pedaço da Matrix está em looping, ou seja, no fim do programa há um comando que aponta para o começo.

O Train Man seria o equivalente a Caronte, o barqueiro que, na mitologia grega, levava as almas através do Rio Styx até o reino do submundo de Hades. Esta abordagem Grega tem mais a ver com a definição do espiritismo, que chama este local de Umbral, que fica num plano vibracional entre o “mundo dos vivos” e o “mundo dos mortos” (A teosofia chama-o de Plano Etérico). O fato é que, após o desencarne, a energia vital e o nosso corpo etérico funcionam como uma âncora vibracional. É preciso que essa energia seja dispersada, e por isso os espíritos ficam por pelo menos 3 dias trafegando pelas frequências mais densificadas, que as pessoas generalizam chamando tudo de “umbral”. É uma Lei, que teve de ser cumprida até mesmo por Jesus, que desceu ao Hades (e não ao “inferno” católico, que seria o Geena no Grego, um lugar de punição) e retornou ao terceiro dia (Atos 2:27-31; Efésios 4:8).

O LIVRE-ARBÍTRIO

No momento em que Neo está no Limbo reina a confusão entre sua parte humana e a sua missão (parte máquina). O Ego diz “sobreviva”, enquanto seu Dharma (sua missão de vida) aponta para a fusão com o Todo, a aniquilação da personalidade Neo. Essa é a hora em que o Livre-Arbítrio é testado. O mais interessante é que, um dia (muuuuuuuito longe ainda) todos nós iremos passar por esse dilema. É o mesmo que Jesus viveu no Getsêmane, quando sabia que tinha uma missão a cumprir, que dependia da entrega total da sua parte humana para ser assimilada pelo Pai, mas sua parte humana fraquejou. Por fim, Jesus diz: “Pai, se queres, passa de mim este cálice; todavia não se faça a minha vontade, mas a tua” (Lucas 22:42). Neo, após ficar a sós, em meditação, concorda em ir para a cidade das máquinas… Esse é o momento em que a Sombra (o Agente Smith, encarnado em Bane) cega Neo (ou seja, ele fica simbolicamente cercado pela escuridão) e é guiado (literalmente pela mão) por Trinity, que pilota a nave até seu objetivo (a cidade das máquinas). Antes, porém ela guia Neo até a luz do Sol (símbolo pra uma nova iluminação, uma nova compreensão):

Leia mais sobre a simbologia disso no post Carl Jung Reloaded

Neo usa o seu Livre-arbítrio em diversas situações que surpreendem as máquinas. Por isso Oráculo não podia saber se ele se tornaria mesmo o Escolhido, nem se salvaria Zion. Neo escolheu usar a necessidade que as máquinas tinham dele como moeda de troca para alcançar a paz.

Quando Smith pergunta a Neo por que ele continua lutando, Neo responde: “Por que escolhi”. É contraditório com a idéia “geral” que o filme passa de que não há livre arbítrio? Não. Ele escolheu ser o ESCOLHIDO. Ele escolheu salvar Zion. E arcou com as consequências. Há a idéia geral, aventada pelo leitor Kaslu, de que somos todos brinquedos, manipulados por entidades (físicas ou não), então digo: “se somos brinquedos, vamos fazer nosso papel dignamente! Até mesmo brinquedos têm sua função e seu mérito”. Ao que Fernando responde: “A escolha de um brinquedo enquanto brinquedo é ser útil ou não. Portanto estamos novamente, Acid, diante de uma escolha… ou da tarefa de entender a escolha feita.”

ACEITAÇÃO

Aí então acontece o momento crucial do filme: Smith começa a falar como Oráculo. É a chave para que Neo perceba que Oráculo não deixou de ser ela só porque foi assimilada pelo Smith. Na verdade ela ACRESCENTOU ao Smith. Neo vê que a morte não existe, e que como ele é a força oposta ao Smith, somente se unindo a ele seria atingido o equilíbrio, o vazio (o balanço positivo = negativo). Então Neo deixa de ser reativo, para que seu destino se cumpra.

Na página do site Omelete tem alguns comentários de leitores que forneceram mais luz:
“A Matrix usa a fé e confiança, muitas vezes até inspiradas em misticismos, para direcionar as atitudes das pessoas. Isso poderia explicar porque Neo é sempre esperado nos lugares em que aparece. Ele já passou por lá várias vezes e a Matrix sabe que os novos escolhidos inevitavelmente passarão pelos mesmos caminhos. É por isso que Smith soube do local da praça (Burly Brawl), pois ele se lembrava de ter estado lá antes, como vemos no diálogo com sua cópia:
Smith 1: – Tudo está acontecendo exatamente como antes?
Smith 2: – Não, não EXATAMENTE…”

Ao final, a Matrix é resetada e máquinas e humanos voltam a viver em paz. Sati pergunta se vamos ver Neo novamente. A Oraculo diz, “eu tenho suspeitas que sim“.

NOVOS PERSONAGENS

Sati

Um programa criado sem propósito, apenas o resultado do amor de dois outros programas: Rama-Kandra e Kamala. Oráculo acreditava que ela desempenharia um grande papel no futuro dos humanos com as máquinas.
Sati significa na língua Pali (a língua usada nas escrituras budistas) Atenção plena (em inglês Mindfulness), um termo que no Budismo serve como ferramenta pra perceber como nossa mente cria sofrimento a cada momento. Sati também é o nome da Deusa Parvati, a esposa de Rudra (Que é a encarnação do Deus Shiva, o transformador / destruidor).

Rama-Kandra

Rama-Kandra, o pai da menina Sati, possui o mesmo nome da 7ª representação (Avatar, alguém como Jesus) do Deus Vishnu (O Cristo, dos hindus), que encarnou como Rama Chandra. O nome da esposa do Rama do filme é Kamala, que é um dos nomes do Lótus (a flor, não o carro de F-1) em sânscrito. Assim como Rama é uma encarnação de Vishnu, Kamala é a de Lakshmi, que é a personificação do lado Crístico feminino, a mulher perfeita; Vishnu e Lakshmi são inseparáveis. Quando Vishnu veio à Terra como Vamana, ela apareceu como sua esposa Kamala (também conhecida por Padma, outro nome pro Lótus. Isso me lembra Star Wars Episódio I…).

Rama é visto primeiramente no filme Matrix Reloaded, quando Neo, Morpheus e Trinity vão ver o Merovingian pela primeira vez no restaurante. Rama aparece indo embora, e toca aquele sonzinho característico da Matrix. Graças ao jogo Enter the Matrix ficamos sabendo que ele estava ali para vender o código de destruição da Shell da Oráculo ao Merovingian:

No jogo o personagem Ghost encontra a “nova” Oráculo, que esclarece:
Ghost: – Pode me dizer o que aconteceu com você?
Oráculo: – Dois programas em quem eu confiava venderam o código de destruição da minha shell original para o Merovingian.
Ghost: – Por que eles fizeram isso?
Oráculo: – Por amor. Pela vida da criancinha deles (Sati).
Ghost: – Você sabia disso, e ainda deixou acontecer?
Oráculo: – Eu tinha de deixar.
Ghost: – Por que?
Oráculo: – Porque a criança é importante. Não posso dizer porque, mas acredite, um dia a criança irá mudar tanto o nosso como o seu mundo para sempre.

Vejam a história completa do game Enter the Matrix, pra entender um pouco mais Matrix Revolutions.

DIVAGAÇÕES SOBRE MATRIX REVOLUTIONS

Os humanos na verdade são máquinas?

Há essa Teoria Galvatron, que sugere que todos os humanos são na verdade máquinas, mas ela falha quando diz que o EPM (pulso eletromagnético) afeta os habitantes de Zion. Fosse assim, Neo e Trinity teriam morrido logo no fim do primeiro filme, quando soltaram um EPM com o casco da Nabucodonossor aberto.

O que eu acho é que, assim como o código de Neo entrou no corpo de Smith, também há um pouco de Smith no Neo. E talvez por isso ele tenha tido o poder de sentir e destruir as máquinas, simulando um Pulso Eletromagnético (gerado pela energia do próprio corpo) que atingiu não só as máquinas como a ele mesmo (se ele fosse totalmente máquina, teria morrido, mas só entrou em coma). Outra dica disso é que, quando ele expandiu a consciência (ao ficar cego), ele só via máquinas (e por isso ele via Smith com óculos, mas não via a Trinity).

Zion é uma Matrix?

Se Zion fosse uma Matrix, por que tanto trabalho das máquinas pra descobrir o local de Zion e depois pra entrar? Eles deveriam ter algum controle sobre a aniquilação daquele lugar, já que fazem isso com certa regularidade. Tanto trabalho pra conseguir cumprir uma tarefa seria ilógico, e as máquinas não são ilógicas.

Por outro lado, temos o seguinte diálogo com o Arquiteto:
Arquiteto: – Como eu dizia, ela se deparou por acaso com uma solução por meio da qual 99,9% de todas as cobaias aceitavam o programa, contanto que lhes fosse dada uma escolha, mesmo que só estivessem cientes dela em um nível quase inconsciente. Embora esta resposta funcionasse, ela era óbvia e fundamentalmente defeituosa, criando, assim, a anomalia sistêmica contraditória, a qual, sem vigilância, poderia ameaçar o próprio sistema. Por conseguinte, aqueles que recusavam o programa, ainda que uma minoria, se não vigiados, constituiriam uma probabilidade crescente de catástrofe.
Neo: – Isso tem a ver com Zion.

Zion? Em momento algum do diálogo o Arquiteto diz que essa minoria de humanos que não aceita a Matrix se tornou independente ou se desplugou do sistema! Apenas confirma que eles foram para Zion! Os humanos de Zion e da rebelião não estão libertos? Entao eles continuam sendo enganados, incluindo Neo? Por que não?

Smith é o Escolhido?

Existe até mesmo uma teoria – que faz muito sentido, aliás – dizendo que SMITH, e não Neo, é o verdadeiro “Escolhido”!

Referência:
Saindo da Matrix – Matrix Reloaded;
Saindo da Matrix – Matrix Reloaded; Uma análise (Um artigo muito interessante sobre os aspectos espiritualistas de Matrix Reloaded);
Saindo da Matrix – A verdade sobre Matrix (Um texto que pretendia contar o final do terceiro filme. Pena que não revelou ser verdadeiro, pois o final aqui descrito é muito mais coerente com o estilo do Matrix 1, mais sombrio do que acabou sendo de fato);
Carl Jung Reloaded (Análise da trilogia de filmes The Matrix a partir dos estudos psicológicos de Carl Jung);

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