SATORI (SAMADHI)

Satori significa literalmente entender, em japonês. É uma iluminação, uma expansão da Consciência equivalente aos termos sânscritos Nirvana e Samadhi, usados na Índia para indicar a mente calada nos seus 49 níveis. A consciência se projeta no plano mental, além do espiritual, se fundindo ao TODO, liberando-se do conceito de tempo, espaço e forma.

Satori em japonês

Nos dizeres de Suzuki: “O Satori é uma espécie de percepção interior – não naturalmente a percepção de um objeto específico, mas, por assim dizer, a faculdade de sentir a verdadeira realidade. É uma percepção de ordem mais elevada.”

Geralmente usa-se os termos Satori (“entender“) e Kensho (“despertar“) para definir a mesma experiência. O Kensho é uma breve expansão da consciência, onde temos um pequeno vislumbre da verdadeira natureza das coisas. Terminado o Kensho, retornamos ao adormecimento profundo na nossa mente, que em si forma o EGO. Já o Satori é usado para um estado de iluminação mais profundo e duradouro.

Vejam trechos selecionados do livro O caminho Zen, de Eugen Herrigel, a começar por este Koan, pode fazê-los entender melhor um Satori:

Hyakujo saiu um dia de casa acompanhando seu mestre Bashô e os dois deram com um bando de gansos selvagens. Bashô perguntou:

–  Que é isso?
–  São gansos selvagens, Senhor.
–  Pra onde voam?
–  Voaram, Senhor.
Repentinamente, Bashô segurou Hyakujo pelo nariz e fê-lo dar uma volta. Hyakujo, dominado pela dor, gritou: Oh! Oh!
–  Disseste que voaram – disse Bashô –  Mas, apesar disso, desde o princípio, eles todos estavam aqui.
Nisso, escorreu o suor das costas de Hyakujo. Era o Satori.

O caminho Zen; Eugen Herrigel

“Voaram” é uma declaração quase evidente para a compreensão humana normal. Já não são visíveis, desapareceram. Portanto, pra ele, não existem mais. Mas Bashô tem uma percepção totalmente diferente. Com o terceiro olho – que só se passa a possuir após o renascimento – vê-se precisamente a existência do que existe e de seus fundamentos. Eis porque a afirmação deve ser expressa da seguinte forma: “Sempre estiveram aqui” (naturalmente, não neste lugar do espaço, pois o espaço e tempo, nessa visão, não têm importância). O fato é que Bashô vê tão clara, distinta e vivamente como Hyakujo vê os gansos voarem. Nenhum desses fatos contradiz o outro, já que se situam em dimensões diferentes. Hyakujo, por meio de demorada reflexão e ponderação, jamais encontraria a solução. Só no momento da dor violenta que lhe estimulou a reflexão é que ele encontrou a solução, através do Satori.

Liga-se ao Satori uma transformação interior de caráter revolucionário. A princípio, o iluminado não a nota. Gradualmente, no convivio com outras pessoas, o discípulo nota que se tornou diferente. Ao reunir-se com os demais, não se entende com eles como antes. E não pode negar que os outros são unânimes nas opiniões sobre ele. Isto, no entanto, não o torna inseguro, já que a visão recebida é por demais convincente. Agora ele é apenas mais reservado com as outras pessoas. Cada vez mais, abandona-se às suas visões e sonhos, e procura e ama a solidão.

O que antes lhe parecia uma perda ter de ficar de lado – pois é jovem e gosta de misturar-se àqueles com que o destino o reuniu – torna-se pra ele um lucro: ele busca e encontra a solidão, não em lugares distantes e tranqüilos, mas criando-a a partir de si próprio; a solidão se espalha em torno dele, onde quer que se encontre, pois ele a ama. Neste silêncio, lentamente, ele amadurece. O silêncio é extraordinariamente importante para o desenvolvimento da evolução interior. O perigo consiste em falar nisso com os outros e, assim, destruir suas sementes. Ma o discípulo não se entrega a um prazer vaidoso. Quer apenas resolver o seu caso. Quer apenas expor a sua visão iluminada à visão iluminadora. Isso leva a potencialização e ao aperfeiçoamento da visão, pela sua própria força.

Pode-se perceber que o discípulo alcançou o Satori pelas maneiras e modos de ele levar aos lábios uma taça de chá, uma arte que só os Mestres Zen dominam. Como um oleiro que pega na tigela e sente como foi moldada – pois ela fala da mão modeladora de um artista – ele pega na tigela como se suas mãos fizessem parte dela, como se elas mesmas fossem a tigela, de tal modo que, quando ele as retira, elas parecem guardar-lhe a impressão. Eis porque ele bebe o chá de um modo diferente. Bebe-o como se já não soubesse se ele é quem bebe ou se ele é a bebida, totalmente esquecido de si. Uma perfeita integração. O Satori, neste caso, é apenas a confirmação de uma faculdade para a qual, como oriental, ele possui todas as condições: a faculdade de perceber os mais finos matizes de movimento e da manipulação. Uma espantosa agudeza de observação e capacidade para concentrar-se devotamente em tudo o que encontra. O que ele observa penetra dentro dele – ele absorve o que vê.

“Há pessoas silenciosas que são muito mais interessantes que os melhores oradores”

Benjamin Disraeli

Os Zen budistas conseguem o Satori através de uma rígida discilina. Desconstrução mental, facilitada pela dor e interpéries. Mas o amor desinteressado parece ser um grande facilitador no processo de comunhão com o TODO (ou, pelo menos, uma partezinha ridícula do TODO). No meu caso obtive algo parecido com um Satori (melhor chamar de Kensho) uma única vez, quando redirecionei o amor que sentia no momento para quem estivesse a meu redor. Algo diferente aconteceu e esse amor se potencializou até o ponto em que me senti UM com as pessoas, animais e até objetos. Os pensamentos (e sentimentos) das pessoas passavam velozes pela minha cabeça, como se eu fosse um rádio mudando de faixas. A experiência é antes de tudo pessoal, não é algo que se possa provar, é íntimo e indescritível, e eu só coloco aqui pra que vocês saibam que essas práticas não são uma coisa distante, digna de iniciados nem gente evoluída. Se um idiota como eu consegue, vocês também podem conseguir!

O completo entendimento
É que a Busca existe
Mas não há o buscador

Ramesh Balsekar

Era 2001, e eu estava no trabalho executando o Scandisk num computador. Como os da minha geração já sabem, não sobra mais nada pra se fazer nessa hora no PC, então eu ouvia música no MP3 player e olhava o movimento das pessoas no balcão. Estava vivendo um momento muito bom em relação ao amor, e me sentia leve, nas nuvens, como qualquer pessoa apaixonada. Deixei esse sentimento tomar conta de mim e, aliado à música, atingi um nível de amor que nunca tinha experimentado antes. Não era algo que eu pudesse guardar só pra mim; queria que todos partilhassem da minha alegria, daí “joguei” esse amor pro ambiente, exteriorizando a energia pelo chakra cardíaco. Qual não foi a minha surpresa quando comecei a não saber mais onde eu terminava e onde começavam os outros! Os pensamentos das pessoas passavam pela minha cabeça rapidamente (pegar meninos na escola, procurar o processo tal, tal…) e meu amor, em vez de rarear, potencializou-se. Meu corpo vibrava, me senti cheio de energia, e depos me tornei apenas energia. Já não via a sala com os olhos. Eu ERA a sala. Daí lembrei de um exercício Rosacruz que eu havia feito quando pequeno, ouvindo de uma fita cassete escondido do meu pai (hehehe). Então utilizei a visualização criativa para me expandir e abarcar todo o prédio onde trabalho. Senti MESMO o prédio como um ser vivo!! Senti todas aquelas pessoas lá dentro como se fossem formiguinhas, se movendo pra lá e pra cá, absortas em seus afazeres. Resolvi expandir mais e ir lá pra fora. Pude sentir mais pensamentos (medo de ser atropelado, gente atrasada, reclamando do calor no ponto do ônibus) e até mesmo curtir a liberdade dos pombos voando, o vento no rosto, a harmonia do mar. Quando expandi a energia pro bairro inteiro, pude vê-lo lá de cima, e comecei a notar a “barra pesando“. O conjunto de pensamentos já era demais pra mim, e estava começando a tomar consciência de meu corpo novamente. Ainda assim tentei expandir pra abarcar todo o centro da cidade, mas não consegui. Terminou o Satori/Kensho… Voltei tão feliz, mas tão feliz, que quis obviamente voltar para aquilo. Passei uns 2 meses tentando reproduzir a experiência, com a mesma música, irradiando amor, mas não consegui. Não é algo que se consiga em “laboratório”. Talvez tenha tido uma ajudinha espiritual pra conseguir isso, não sei.

A Busca terminará
O Buscador permanecerá?
Não. O Buscador se dissolverá
A Busca irá permanecer
A Busca é a Última e Eterna Realidade

Nisargadatta

O que ficou é a certeza de que somos e sentimos muito mais do que este corpo. Essa comunhão de pensamento não é algo difícil. Muitos têm a intuição de saber quando o seu amor vai ligar e segundos depois o telefone toca. De adivinhar o que um amigo(a) muito querido(a) está pensando. Mas muito poucos pensam em expandir isso pro gari que está trabalhando ao lado, pra velhinha que passa com dificuldades pela rua ou mesmo pro cara folgado que dirige fazendo barbeiragens na sua frente.

Não é o rio, mas a ponte que se move

Koan Zen

Referência:
Wikipedia – Satori (inglês)

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