ACORRENTADOS AO RITMO

Eu já escrevi antes sobre as pop stars que repetem um padrão de, ao mesmo tempo em que nos alienam e nos afundam no sistema desenhado pra nos controlar e nos fazer consumir, dão sutis alertas sobre o mesmo sistema. Apelidei-as de “Falsas-Marias”, referência à robô/humana do filme Metropolis; enquanto uma manipula, a outra (idêntica) alerta para o perigo.
A Lady Gaga era meu caso de estudo para as “Falsas-Marias”. De lá pra cá minha admiração por Lady Gaga cresceu, pois ela se tornou mais e mais livre visual e musicalmente de suas amarras pop, enquanto tem investido em AÇÕES interessantes, visando conscientizar e proteger o nicho dos “monstros”, como ela chama carinhosamente seus fãs mais, digamos, deslocados da sociedade.

Katy Perry eu curtia pelo visual sempre impecável, mas esse ano não tinha visto nada dela, até que recentemente minha namorada me mostrou praticamente todos os seus clipes dos últimos anos, e o que mais grudou na minha cabeça foi o Chained to the Rhythm, ironicamente por conta do ritmo cativante. Após ficar ouvindo a música em looping por 30 vezes foi que eu comecei a prestar atenção na letra e vi que havia uma mensagem interessante ali. Olhando a letra e depois o clipe percebi que essa é a crítica mais explícita já feita por uma “Maria” sobre o sistema (uma das co-escritoras da música é Sia, outra das “Marias”). Assim como na política, chegamos num ponto em que a verdade é jogada na nossa cara e continuamos passivos. Acho que no futuro essa época será conhecida como a “Década do desânimo coletivo”.

Acorrentados ao Ritmo

Estamos loucos?
Vivendo nossas vidas através de uma lente
Presos em nossa cerca branca de madeira
Como ornamentos
Tão confortáveis, estamos vivendo em uma bolha, bolha
Tão confortáveis, não conseguimos enxergar o problema, problema

Você não está solitário?
Aí em cima na utopia
Onde nada jamais será suficiente
Alegremente entorpecido
Tão confortáveis, estamos vivendo em uma bolha, bolha
Tão confortáveis, não conseguimos enxergar o problema, problema

Então coloque seus óculos cor-de-rosa
E festeje

Aumente o som, é a sua música favorita
Dance, dance, dance com a distorção
Aumente o som, coloque para repetir
Tropeçando por aí como um zumbi bêbado

Sim, pensamos que somos livres
Beba! Essa é por minha conta
Estamos todos acorrentados ao ritmo
Ao ritmo, ao ritmo, ao ritmo

Estamos surdos?
Continuamos varrendo tudo pra debaixo do tapete
Achei que podíamos fazer melhor que isso
Espero que possamos
Tão confortáveis, estamos vivendo em uma bolha, bolha
Tão confortáveis, não conseguimos enxergar o problema, problema

Este é o meu desejo
Romper as barreiras para conectar, inspirar
Ei, aí em cima, no seu lugar alto, mentirosos
O tempo está contado para o Império
A verdade que eles alimentam é fraca
Como muitas outras vezes antes
Eles são gananciosos sobre o povo
Eles estão tropeçando e sendo descuidados
E nós estamos prestes a nos revoltar
Eles acordaram, eles acordaram os leões

(Aumente o som) e tudo continua, e continua, e continua
(Aumente o som) e tudo continua, e continua, e continua
Porque estamos todos acorrentados ao ritmo

No clipe, a grande “atração” do parque Oblivia (Algo como “Lugar de esquecimento” em inglês) é a roda dos Hamster. E a fila pra ela dura 1984 horas.

A montanha-russa deveria ser uma diversão para casais, mas na verdade eles passam por um caminho de “likes” e “amei” em que, no final, são submetidos a uma “estação de validação” onde está literalmente escrito “ME AME!”. Muito sintomático de nossa época.

O clipe tem várias mensagenzinhas escondidas que podem ser vistas aqui. Mas, ao mesmo tempo em que vejo isso como o sistema exposto, ele está bem seguro em seu posto de controle, pois o sistema se reinventa pra poder continuar, mesmo que critique e derrube as velhas fórmulas. Katy Perry tem associado a música a uma crítica ao governo Trump, e ela é extremamente vocal em defesa da Hillary Clinton, então visto dessa forma o clipe é um pedido pro povo acordar pra derrubar um “governo golpista”. Ainda mais com a participação do neto de Bob Marley (Skip Marley) com seus versos “O tempo está contado para o império” e “nós estamos prestes a nos revoltar“. Sim, essa é a leitura mais fácil, provavelmente a que todos os seus fãs vão fazer. Mas considerando o histórico de “Marias” e especialmente o final do clipe, com ela olhando fixamente pra nós, isso me pareceu mais como um pedido de socorro interno do que um olhar de desafio contra algo externo.

Por falar em olhos e “Marias”, a capa do álbum desse ano traz ela loira (como Maria), cabelo curto e com UM olho aparecendo, dessa vez na boca (pelo menos foram criativos dessa vez).

Num outro videoclipe de 2012, Katy Perry já tinha mostrado que estava “desperta” (Wide Awake). Com Chained to the Rhythm ela reforça isso no final do clipe, onde as pessoas estão hipnotizadas pelo “ritmo”, com seus óculos 3D de papel (a referência aos anos 50 que permeia o clipe é porque era a época da inocência e otimismo do país, enquanto nos bastidores havia uma corrida armamentista nuclear de perigosas consequências), e ela é a única a ficar desconfortável e ciente da situação ao seu redor. No final da versão ao vivo dessa música, enquanto o coro canta “Porque estamos todos acorrentados ao ritmo” ela balança a cabeça em negação, como se dissesse “Eu não”.

Uma coisinha escondida que achei genial na música é que, no fim do refrão, quando ela fala “acorrentados ao ritmo, ao ritmo, ao ritmo“, no terceiro “ritmo” toca por trás um som que lembra um celular vibrando. Tanto pode significar que estamos acorrentados a nossos smartphones/mundo digital, como ainda funciona como um som inconsciente pra nos deixar alerta e nos fazer prestar atenção na música. Juro que fiquei olhando desconfiado várias vezes pro celular até descobrir que o som vinha da música.

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