1984: POR QUE ELE É TÃO ATUAL?

“Guerra é Paz; Liberdade é Escravidão; Ignorância é Força”

 

Vocês provavelmente já leram essa frase em algum lugar. Mas muito poucos sabem a conjuntura dela, ou mesmo leram o livro de onde ela veio. Basicamente porque vivemos imersos no mesmo lugar que esse livro procurava evitar.

O nome do livro é 1984, a obra máxima de George Orwell que agora em junho está fazendo 70 anos de sua publicação. O título vem da inversão do dois últimos dígitos do ano em que o livro foi escrito, 1948. Orwell, que também é o autor de “A revolução dos bichos” (Uma crítica ao Stalinismo pela perspectiva da esquerda), fez com 1984 a projeção de um futuro inspirado no que seria o mundo controlado pelo Stalinismo, embora isso não seja dito.

Seria George Orwell um conservador e 1984 um panfleto de Direita a ser ignorado? Longe disso. Liberal inglês, detestava o Imperialismo e lutou na Guerra Civil Espanhola ao lado de um mix de forças Anarquistas, republicanas e Socialistas contra o governo fascista do general Franco (aliado de Hitler). Sobreviveu a um tiro na nuca por este ideal. Mas começou a se distanciar do núcleo radical da esquerda ao perceber que Moscou estava minando toda a influência dos anarquistas, republicanos e trotkistas na Espanha para concentrar seu poder no Partido Comunista. Orwell e a esposa tiveram de fugir da Espanha após o partido dos trabalhadores, pelo qual ele lutou, ter sido banido pelo regime comunista. Na Inglaterra ele continuou defendendo o socialismo (“Eu pertenço à esquerda e devo trabalhar com ela“, escreveu em 1945), mas sempre crítico ao regime totalitário da URSS que ELE viu em primeira mão, mas o resto do mundo não (de fato, havia na Inglaterra daquela época uma admiração crescente pela figura do Stalin e toda a esquerda fazia olhos cegos para a tirania do regime). Então Orwell foi uma voz solitária e encontrou o melhor veículo para seus alertas nessas duas obras de “ficção”.

O fantástico da ficção científica é quando ela debate coisas do presente projetando-as no futuro sem que percebamos de início. E 1984 é uma das obras mais assustadoramente visionárias de todos os tempos, e não foi por acidente. Orwell escreveu: “Eu não acredito que o tipo de sociedade que eu descrevi necessariamente vai chegar, mas eu acredito (considerando que o livro é uma sátira) que algo parecido vai chegar“. E chegou. E certamente não tem a ver com o Comunismo, Esquerda ou Direita, e sim com a forma que o ser humano encontrou pra CONTROLAR o outro.

“Meu romance recente (1984) NÃO foi concebido como um ataque ao socialismo ou ao Partido Trabalhista Britânico (do qual sou um entusiasta), mas como uma mostra das perversões (…) que já foram parcialmente realizadas pelo comunismo e fascismo. O cenário do livro é definido na Grã-Bretanha a fim de enfatizar que as raças que falam inglês não são intrinsecamente melhores do que nenhuma outra e que o totalitarismo, se não for combatido, pode triunfar em qualquer lugar.”

George Orwell

Ambientação

O mundo está dividido em 3 grandes Impérios que vivem em uma perpétua guerra fria: Oceania, Eurasia e Lestásia.

“A guerra é travada, pelos grupos dominantes, contra seus próprios súditos, e o seu objetivo não é conquistar territórios nem impedir que outros o façam, porém manter intacta a estrutura da sociedade.”

Emmanuel Goldstein, personagem do livro

O livro se passa na “Pista de Pouso Um” (anteriormente conhecida como Grã-Bretanha), uma província do superestado da Oceania. Os habitantes são ditados por um regime político totalitário chamado de Ingsoc, uma abreviação pra “Socialismo Inglês“, e onde tudo é controlado pelo Grande Irmão (Big Brother, também traduzido como “Irmão mais velho“, em inglês), o líder do Partido que ninguém sabe se é real, mas que aparece em cartazes espalhados pela rua como um senhor de “45 anos, de bigodão preto e feições rudemente agradáveis”, acompanhado do slogan: “O Grande Irmão está de olho em você” (The Big Brother is watching you), como podemos ver abaixo:

Perdão. Esse mais abaixo:

Big Brother is watching you poster

E está mesmo, literalmente, graças às “teletelas“. Espalhadas nos lugares públicos e nos recantos mais íntimos dos lares, elas são uma espécie de televisor capaz de monitorar, gravar e espionar a população. Algo tecnologicamente impensável na época mas que é realidade hoje, nas câmeras que nos monitoram – e nos reconhecem – nas ruas (especialmente na China) e dentro de nossas casas, nas “teletelas” que são os celulares, notebooks e Smart TVs, todos com uma tela, microfone e uma câmera apontadas pra nós (e acessíveis para hackers e agências de espionagem de diversos países).

“A palavra fascismo agora não tem significado, exceto na medida em que significa ‘algo não desejável’… Já que você não sabe o que é fascismo, como você pode lutar contra o fascismo?”

George Orwell

O livro é uma aula sobre o que é Fascismo, mostrando claramente como o Partido/Estado está imiscuído em todos os aspectos da Sociedade, espalhado em vários Ministérios que, no papel, são uma maravilha:

  • Ministério do Amor
  • Ministério da Paz
  • Ministério da Verdade
  • Ministério da Fartura
  • O grande lema, espalhado nos cartazes e fotos de propaganda do Partido, significa duas coisas em inglês: Tanto “O Grande Irmão zela por ti” como “O Grande Irmão está de olho em você“. A frase existia para que as pessoas pensassem naquele sujeito, que provavelmente nunca viram e nem verão, como o grande protetor do povo, o que resolveria qualquer problema. Ao mesmo tempo, o Grande Irmão sempre estaria ali para cuidar de você, dos seus atos e PENSAMENTOS. Afinal, o irmão mais velho (substitua por “Pai” em alguns países) sabe mais que você.

    Este é um cenário quase idílico, quem sabe até saído de um conto de fadas. Contudo, as aparências enganam e as palavras podem ludibriar, escondendo a realidade. E o jogo de palavras e sentidos, como já havia alertado Umberto Eco, é a assinatura do Fascismo.

    Não é de admirar, portanto, que no mundo sombrio que Orwell delineou o Ministério do Amor tenha, afinal, a missão de espiar e manter sob controle a população, reprimir o desejo e torturar os rebeldes; que o Ministério da Paz esteja a zelar pela manutenção da guerra; que o Ministério da Fartura administre a fome, enquanto o Ministério da Verdade censura e manipula (altera) toda a informação e literatura que circula – bem ao jeito de “o que ontem era verdade, hoje é mentira”. E assim criando “a Verdade” de que o Estado está sempre certo naquilo que decide e faz.

    “Quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado.”

    Slogan do Partido

    Para manter a “Verdade” que o partido quer manter existe a “Polícia do pensamento” (Thinkpol) que criminaliza e reprime duramente o livre pensar.

    “Liberdade é a liberdade de escrever que dois e dois são quatro.”

    Winston; personagem do livro

    Essa frase acima tornou-se tristemente real ano passado quando um comentarista de TV disse, sem nenhuma maldade, que dois e dois são quatro e por isso foi execrado na internet e consequentemente perdeu seu emprego.

    O Duplipensar (doublethink) é talvez o aspecto mais conhecido do livro 1984, mesmo por gente que nunca ouviu falar do autor mas conhece o conceito: “o poder de manter duas crenças contraditórias na mente ao mesmo tempo, de contar mentiras deliberadas e ao mesmo tempo acreditar genuinamente nelas, e esquecer qualquer fato que tenha se tornado inconveniente; (…) usar a lógica contra a lógica, repudiar a moralidade e apropriar-se dela”. Assim, por meio do controle sobre a linguagem, o governo seria capaz de controlar o pensamento das pessoas, impedindo que ideias indesejáveis viessem a surgir.

    “Viveremos uma era em que a liberdade de pensamento será de início um pecado mortal e mais tarde uma abstração sem sentido”.

    George Orwell

    A frase que abre o post é o melhor exemplo de duplipensar do livro, mas infelizmente encontramos diariamente em textos escritos, jornalísticos inclusive, exemplos ainda piores. Há milhões de pessoas, apenas pra ficar no Brasil, vivendo neste estado de duplipensar DIARIAMENTE.

    Os regimes autoritários têm grande preocupação com a linguagem. Não basta apenas calar a divergência: também é preciso submeter a língua a uma torção que inverta o sentido das palavras. Para isso foi criada a Novilíngua, um novo conceito de linguagem dentro da própria linguagem.

    Assim, temos essa torção no significado de Negrobranco (Blackwhite): Aplicada a um inimigo, refere-se ao costume de afirmar descaradamente que o preto é branco (contradizendo a evidência), enquanto ao se referir a algo que o Partido assim disser significa afirmar de boa vontade que o preto é branco.

    Em 1947, o alemão Victor Klemperer publicou “A linguagem do Terceiro Reich“, livro que detalha a forma como a propaganda Nazi alterou a língua alemã, de modo a que os alemães assimilassem o Nationalsozialismus, tal como escreveu no seu livro:

    “[O] nazismo permeou a carne e o sangue das pessoas através de palavras, idiomas e sintaxes que lhes foram impostas num milhão de repetições, as quais foram interiorizadas de forma mecânica e inconsciente (…). A linguagem não é algo que simplesmente escreve e pensa por mim; também dita, de forma crescente, os meus sentimentos, ao mesmo tempo que governa todo o meu ser espiritual (…). As palavras podem ser como pequenas doses de arsênico: são engolidas sem se dar conta, aparentam não ter um efeito, mas eis então que, após algum tempo, a reação tóxica instala-se de uma vez por todas.”

    A linguagem do Terceiro Reich; Victor Klemperer

    Segundo ele, a linguagem pode ser usada “para fazer as mentiras soarem como verdadeiras, o assassínio ser respeitável ou para dar a aparência de solidez ao puro vento”.

    No caso de 1984, vários neologismos eram criados na intenção de não haver um significado pretérito para aquilo, e então essa palavra poder servir no sentido que o Partido disser que tem. Na relação de crimes que podiam ser cometidos no mundo de 1984 estão algumas dessas palavras:
    Facecrime: é o delito do rosto com uma expressão imprópria (como mostrar-se incrédulo ante o anúncio de uma vitória, por exemplo).
    Crimidéia: pensamento crítico contra o Partido.
    Proprivida: individualismo, excentricidade, fazer algo por conta própria. Atividades que não fossem coletivas eram sempre condenadas.

    “Se você quer uma imagem do futuro, imagine uma bota prensando um rosto humano para sempre.”

    O’Brien; personagem do livro

    Sociedade

    Orwell descreve a sociedade da Oceania dividida em três classes distintas: Partido Interno (alta), Partido Externo (média) e proles (baixa).

  • O Partido Interno representa a classe política oligárquica na Oceania. Geralmente é representado pelo Grande Irmão. Os membros do Partido interno gozam de uma qualidade de vida muito melhor do que a dos membros do Partido Exterior e da prole. Seus membros têm acesso a habitações espaçosas, funcionários pessoais, veículos motorizados privados e alimentos, bebidas e bens de consumo de alta qualidade em contraste com os de baixa qualidade consumidos pelas outras classes.

  • A Prole constitui 85% da população: eles recebem pouca educação, trabalham no trabalho manual, vivem na pobreza (embora tenham privacidade e anonimato, qualitativamente melhores que os membros do Partido Externo) e geralmente morrem aos 60 anos de idade. Os membros do Partido Interno e Externo estão sob constante vigilância das teletelas em particular e público; em contrapartida, os quartos da prole geralmente não possuem teletelas, pois o partido não se importa em observá-los. Suas funções são simples: trabalho e procriação. Proles se preocupam pouco sobre qualquer coisa, exceto casa e família, brigas vizinhas, filmes, futebol, cerveja, loteria e outras formas de pão e circo. Como diz o slogan do Partido: “Proles e animais são livres”.
    Não são obrigados a expressar apoio para o Partido além do fervor patriótico ocasional; O Partido cria entretenimento sem sentido, músicas, romances e até pornografia para a proles, todos escritos por máquinas. A Prole não usa uniformes, pode usar cosméticos, tem uma economia de mercado interna relativamente livre, e até mesmo é permitida a religião se tiver interesse nela. A prole também tem vidas sexuais liberais. Apesar dessas liberdades pessoais, a Polícia do Pensamento prepara agentes entre a prole para espalhar rumores falsos e eliminar os raros indivíduos considerados capazes de causar problemas.

  • O Partido Externo constitui 13% da população, representando a classe média na sociedade oceânica, burocratas que fazem a maior parte do trabalho real no governo do Partido e em seus quatro ministérios. Para eles as proles são geralmente objeto de pena ou aversão, mas de um certo ponto de vista os membros do Partido Externo – e não as proles – são vistos como o pior das três classes. Falta-lhes a relativa liberdade pessoal e os prazeres simples dos proletários, e também não têm o estilo de vida luxuoso e os privilégios mantidos pelo Partido Interno. Além disso, estão sob vigilância constante e ininterrupta, ao contrário das Proles (que são consideradas irrelevantes e mantidas sob controle por prazeres simples) e do Partido Interno (cujo estilo de vida rico e luxo mantém sua lealdade ao Estado). Usam uniforme azul e relações amorosas não-consentidas pelo Partido são proibidas.

  • Com a repressão e a falta de sexo livre, havia na camada social do Partido Externo uma grande tensão a ser liberada. E pra isso temos um estranho “ritual” que as pessoas eram obrigadas a participar diariamente: o chamado “Dois minutos do ódio“, onde a teletela exibia várias desgraças associadas ao inimigo da Eurásia, e logo depois aparecia a imagem e fala do líder oposicionista exilado pelo regime, Emanuel Goldstein. Todos os que assistiam gritavam de tudo e reagiam de forma quase animalesca ao que era exibido.

    Um dos aspectos mais impressionantes sobre este mecanismo de manipulação e de indução ao ódio é que não era o conteúdo do discurso de Goldstein que trazia tal reação, mas a associação prévia do Goldstein a tudo que é de ruim. Nos “Dois minutos do ódio” Goldstein aparecia na tela denunciando justamente a opressão imposta pelo Grande Irmão ao país, exigindo o imediato acordo de paz com as nações inimigas, liberdade de expressão, de pensamento, etc. e as pessoas simplesmente não o ouvem objetivamente, de tão cegas que estão de ódio, porque assim foram instruídas e cultivadas a jogar todos os seus problemas num inimigo externo, ou numa pessoa, ou num partido rival. E daí pensar que nada que venha do “inimigo” possa ter algum valor. A desumanização do indivíduo, assim como foi feita por Goebbels e Hitler em relação aos Judeus na Alemanha, é exemplificada aqui.

    Trecho do filme 1984, de 1984, dirigido por Michael Radford

    Nos dias de hoje esse mecanismo do ódio é utilizado a torto e a direito, pelos mais diversos grupos. Provoca engajamento, poder e manipulação fácil.

    O Twitter é a teletela dos “2 minutos de ódio”. Ou 30. Ou 180 minutos. Basta entrar em qualquer horário pra embarcar na polêmica do dia, que pode ser literalmente qualquer coisa em que temos de odiar, discordar, brigar entre grupos, e ser obrigado a ter uma posição bem radical e definida sobre qualquer assunto sob pena de ser atacado dos dois lados. O Facebook já teve sua parcela de “2 minutos de ódio” enquanto ainda tinha posts da imprensa e de grupos que descobriram que ódio atrai cliques, e cliques atraem engajamento, que atraem visualização de propagandas, que atrai dinheiro. Até que o ambiente ficou tão tóxico que o Zuckeberg (dono do Face) retirou a importância de todas as páginas de “notícias”, privilegiando a interação entre amigos, e o ambiente melhorou. Ligar a TV traz o mesmo efeito: programas policiais que pregam o medo e o ódio aos bandidos que fazem a propaganda contra a Eurásia/Goldstein parecer comedida. Por isso cada vez mais pessoas evitam assistir a TV. O meu Twitter mesmo era a sucursal do inferno, até que eu silenciei praticamente todos os canais de notícias (dos grandes aos pequenos) e estou vivendo melhor nessa “pseudo ignorância” (prefiro ir atrás delas do que elas pautarem meu dia e, dessa forma, meu estado mental. Até porque a maior parte essas “informações” não me trazem nenhuma sabedoria, ao contrário).

    Até que ele tinha alguma razão

    Partidos, governos e grupos políticos utilizam o ódio gratuito pelo “outro lado” como cortina de fumaça para todos os erros deles. Nem sequer é sutil, afinal a platéia – a essa altura – já é cativa.

    “O nacionalista não só não desaprova as atrocidades cometidas por seu próprio lado, mas também tem uma capacidade notável de não sequer ter ouvido falar delas”.

    George Orwell

    Como diz Aureliano Costa:

    “A internet nos dá uma imagem de qualquer problema, e é ele quem se torna nosso “Oposicionista”. A rede social se torna a nossa teletela, e o que ela reflete vira alvo de nossos maiores absurdos. Gritamos obscenidades e falamos de tudo para uma caixa de caracteres que transporta as exatas palavras a um mundo virtual. Depois nos sentimos aliviados, como se estivéssemos contribuindo para extirpar o mal, sem nos dar conta do vazio histórico que somos vítimas e ao mesmo tempo construtores. É preciso ter alguém para odiar, para que o sistema continue fluindo.”

    Personagens

    O protagonista do livro é Winston Smith. Funcionário do Departamento de Documentação do Ministério da Verdade, sua função é falsificar registros históricos, a fim de moldar o passado à luz dos interesses do presente tirânico. Winston detesta o sistema, porém evita desafiá-lo para além das páginas de seu diário. Isso muda quando se apaixona por Júlia, funcionária do Departamento de Ficção. O sentimento transgressor o faz acreditar que uma rebelião é possível.

    Um outro personagem que se destaca nessa trama é O’Brien, um membro do Núcleo do Partido que demonstra certa empatia com a revolta de Winston e Julia.

    O protagonista Winston espera um possível levante revolucionário da prole; O’Brien afirma que a prole nunca se rebelaria porque não tem necessidade de fazê-lo, desde que sejam mantidos bem alimentados e distraídos. O romance alude à falta de vontade ou incapacidade da prole de se organizar politicamente, observando que qualquer indivíduo da prole suspeito de pensamento independente é simplesmente marcado pela Polícia do Pensamento para ser morto, diminuindo ainda mais a possibilidade de revolução.

    Sobre isto escreve Erick Morais, fazendo um paralelo com o nosso tempo:

    É o que bem atenta Foucault, uma vez que os mecanismos de poder, na sociedade capitalista, se subdividem em micro-relações, de modo que ultrapassam o Estado e atingem a vida cotidiana. Sendo assim, a vigilância acontece em todas as esferas do convívio social, produzindo e impondo normas de comportamento e adequação.

    Há uma visibilidade total do indivíduo, fazendo com que a sua vida privada também se converta em pública, a fim de que seja controlada nos mínimos detalhes. Esse aspecto torna-se possível pelos aparelhos tecnológicos e pela internet. Estes são como a teletela de Orwell e exercem a mesma função do Big Brother, qual seja, vigiar a vida das pessoas, assim como punir os inadequados.

    A vigilância total das sociedades atuais deveria causar desconforto e falta de liberdade. Entretanto, as pessoas parecem estar à vontade e totalmente dispostas a contribuir para o controle. Imersos no conteúdo midiático, seguem as ordens do Big Brother que lhes indica o que deve ou não ser feito, o que em uma sociedade consumista pode ser resumido como o que deve ou não ser comprado. Após isso, correm para as redes sociais, para que possam postar suas selfies, demonstrando para o Big Brother que, como bons companheiros, seguiram à risca os seus comandos.

    Essa vigilância voluntária é o que Bauman chama de “vigilância líquida”, já que consentimos em não somente fazer parte, como também contribuir para o controle, desconsiderando todos os perigos de uma vida totalmente vigiada e controlada. Dentro de um modelo panóptico, isto é, de visibilidade total, a vigilância tornou-se liquefaz e, assim, é capaz de ocupar todos os espaços.

    Com uma vida vigiada, nos tornamos autômatos, sem vida e subjetividade, como os sujeitos do mundo de Orwell. Embora nos achemos diferentes e autênticos, nos comportamos da mesma forma, como se tivéssemos saído das páginas de 1984, vestindo os macacões azuis dos membros do Partido. Somos meros reprodutores do discurso do Big Brother, sem poder crítico e com a gama de pensamento reduzida. Insistimos em manter as teletelas ligadas o tempo inteiro e não hesitamos em demonstrar a nossa obediência a sua magnificência.

    Assim como no passado o sistema patriarcal utilizou as próprias mulheres pra repetir e ensinar o modelo machista de controle e como as mulheres devem se comportar, assim como a TV foi a “babá modelo” que nos dizia como deveríamos nos comportar como sociedade, hoje temos a figura do Influenciador Digital, praticamente um pastor de ovelhas e garoto-propaganda das marcas, alguém que fala o que você quer ouvir no começo e depois está lhe vendendo idéias e coisas. Algo muito próximo da figura do político, que está desgastada, e como foi bem representado no episódio “Waldo” da série Blackmirror.
    Mais perigosamente ainda temos a figura dos movimentos sociais, que surgem financiados por grupos obscuros com as mais diversas REGRAS DE COMPORTAMENTO que DITAM como você deve se portar, pensar, apoiar ou repudiar, senão você está “cancelado” (um novo conceito de repúdio coletivo, com apoio da imprensa e das redes sociais). Tais regras são ditadas por figuras-chave do movimento com grande visibilidade e mudam ao gosto do manipulador, lembrando muito a atuação do Ministério da Verdade para reescrever a história, dizendo o que é Verdade ou Mentira (algo seguido pela novidade das agências de fact-checking, criadas e mantidas pelas mesmas forças que muitas vezes CRIAM as fake news, uma bizarrice que só rivaliza com o Congresso Nacional), ditando tendências, etc. Ou seja: é da natureza humana ser gado e buscar um grupo para adotar um comportamento de manada, independente da posição política, credo, ideologia. Basta ver os memes, que “viralizam” e hoje muitos deles são socialmente construídos para saber mais sobre você – fazendo você expor-se mais do que o necessário – e assim melhor controlá-lo.

    “A verdade é que, para muitas pessoas que se intitulam socialistas, revolução não significa um movimento das massas com as quais eles esperam se associar; significa um conjunto de reformas que “nós”, os espertos, vamos impor a “eles”, as ordens inferiores”.

    George Orwell

    Para fechar este post apresento-lhes uma matéria da BBC de Londres que eu mesmo tive de traduzir para o português, já que é o tipo de coisa que a mídia daqui não tem o menor interesse em veicular.

    1984: Por que ele ainda é relevante hoje?

    Referência:
    Youtube – Resenha do livro 1984: Seja Uma Pessoa Melhor;
    Novilíngua;
    George Orwell: Por dentro de 1984, sua obra mais visionária;
    Orwell’s Animal Farm and 1984: Critiques of Stalinism ‘from the left’?;
    BBC News – 1984: George Orwell’s road to dystopia;
    Independent – The savage satire of 1984 still speaks to us today

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