HISTÓRIA DA GAMEMUSIC (parte 3)

O fim da era 8-bit, o domínio do PC88 e da Nintendo, o surgimento de um gênio da gamemusic e o início de uma nova geração.

PC88

Esqueça tudo o que você ouviu em termos de música de videogame até agora. Estamos em 24 de junho de 1987 e no Japão é lançado o jogo Ancient Ys Vanished Omen – ou simplesmente Ys – para o computador NEC PC-8801mkIISR (um upgrade do PC8801). Um marco na história dos videogames, especialmente por conta da trilha sonora, feita por um jovem de 20 anos, recém-empregado pela empresa Falcom. Seu nome é Yuzo Koshiro e o que ele fez com a gamemusic foi equivalente ao que Elvis fez com o rock, tirando-a de um gueto, redefinindo-a, quebrando todos os paradigmas sonoros e levando-a a um público maior que sequer jogava videogames – mas que apreciava música clássica e eletrônica – porque, com o sucesso avassalador do game, no mesmo ano a trilha de Ys saiu dos cartuchos de videogame para ganhar um álbum próprio em CD, LP e cassete. Yuzo foi ao limite do que podia ser conseguido com blips e beeps e criou uma trilha que se sustenta por si só, e a maior prova disso é a longevidade da mesma, recriada nos mais diversos ritmos e estilos e vendida (e revendida) em coletâneas e arranjos até hoje. Para sermos justos, havia uma outra compositora envolvida na trilha: Mieko Ishikawa, mas ela fez menos de 10% das músicas.

Yuzo Koshiro & Mieko Ishikawa – Ys I medley (1987)

Parece que neste ano Yuzo Koshiro estava endiabrado. Ele simplesmente não conhecia limitações de hardware e criava músicas que eu acredito que nem mesmo os engenheiros dos chips de som imaginavam ser possíveis de fazer. O mais perfeito exemplo é a música Dungeon (The Stolen Scepter), que ele fez pra o jogo Sorcerian (mais um RPG da Falcom). Além da original (pro Sharp PC-88) ser fantástica, ele ainda fez uma versão brilhante para o fraquíssimo hardware PSG do Sharp X1 Turbo. Confira abaixo a evolução da música, a partir do X1, passando pelo PC-88 e por fim uma versão arranjada pela Falcom jdk band, feita em 1996 para o CD Sorcerian Forever I:

Yuzo Koshiro – Sorcerian Dungeon medley (1987)

Um ano depois é lançado Ys II, onde a compositora Mieko Ishikawa se junta novamente a Yuzo Koshiro e mais Hideya Nagata para fazer um trabalho mais distribuído entre eles, e igualmente primoroso:

Yuzo Koshiro, Mie Ishikawa & Hideya Nagata – Ys II medley (1988)

Ainda em 1988 sai Snatcher, influenciado pelos filmes Blade Runner e Akira, e criado pelo produtor Hideo Kojima, que viria a se tornar uma lenda com a franquia Metal Gear Solid. A música final, do compositor Masahiko Ikariko, é sublime:

Masahiko Ikariko – Snatcher (Beyond Sorrow) 1988

MSX

Insatisfeita com as limitações de som do já antigo computador pessoal MSX, a empresa Konami passou a incluir em 1987 um chip de som Yamaha em seus cartuchos, o SCC (acrônimo pra “Sound Custom Chip”, ou “Sound Creative Chip”), que possibilitava ao MSX usar 5 canais wavetable. Com isso a Konami estabeleceu um patamar de alta qualidade (caseira, já que o sistema da SEGA para Arcade era superior) em suas músicas, com um som rico em reverberações e distorções, e não por acaso o primeiro jogo a usar esse chip foi Gradius 2 (1987), que é conhecido no Japão por Nemesis 2.

Motoaki Furukawa, Masahiro Ikariko & Kinuyo Yamashita – Gradius 2 MSX (Ancient Planet) 1987

Quando a Konami fez a versão de Snatcher para MSX eles precisaram mudar o final, e uma nova música foi necessária. O compositor do original, Masahiko Ikariko, estava ocupado fazendo as conversões, então pegaram um novato, Mutsuhiko Izumi, cuja primeira missão na empresa foi “faça uma música de 20 minutos”! E ele fez:

Iku Mizutani – Snatcher (Ending) 1988

Saiba mais sobre os games da Konami para o MSX clicando neste vídeo.

PC-ENGINE / TURBOGRAFX-16

Em 30 de outubro de 1987 a NEC, em parceria com a Hudson Soft, lança o videogame PC-Engine (TurboGrafx-16 nos EUA). Foi marqueteado como o primeiro console da geração 16-bit, mas sua CPU era 8-bit, sendo seus DOIS chips gráficos 16-bit. Foi um grande sucesso no Japão, vendendo lá tanto quanto o Famicom (NES). Entretanto, foi um fracasso nos EUA devido ao lançamento tardio (1989) e fraco marketing. O sistema possuía 6 canais de áudio estéreo PSG com 5-bit cada, controlados pela CPU do videogame. Os dois primeiros canais podiam trabalhar em conjunto pra conseguir um som similar ao FM, e todos os canais podiam trabalhar com samples (limitados a 6.99 kHz). O som é medíocre, e talvez por isso mesmo tenham lançado um leitor de CD pra ser acoplado nele no ano seguinte.

Shinichi Sakamoto – Dragon’s Curse (Monsterland Revenge / Last Dungeon) 1991
Parodius Da! – Theme of Vic Viper (Aerial Battle 1) 1992

NES

Em 1987 o Nintendinho ainda vivia, e BEM. Um dos maiores sucessos da indústria dos games nasceu neste ano: Final Fantasy, o primeiro de uma duradoura série de RPG que tem histórias e personagens diferentes a cada jogo, mas uma coisa permanece (ou permanecia, até 2001) a mesma: a trilha sonora de Nobuo Uematsu.

Nobuo Uematsu – Final Fantasy Opening (NES) 1987

A qualidade das músicas tinha de melhorar cada vez mais, pra tentar competir com a nascente geração 16-bit:

Nobuyuki Kun & Kodaka San – Batman (Stage 1) 1989

Já no fim da vida do NES, algumas empresas japonesas acrescentaram em seus cartuchos japoneses um chip de som extra pra poder tentar competir com os novos consoles. O da Namco era o NAMCO106, o da Sunsoft, FME-7, e o da Konami era chamado VRC6 (Virtual Rom Controller), que melhorava um pouco os gráficos e acrescentava mais 3 canais de som (dois de onda-quadrada (square wave) e um de onda-serra (sawtooth wave). Ele foi usado primeiramente no jogo Castlevania 3 (1989), mas o melhor exemplo das capacidades desse chip está no game Mouryou Senki Madara, de 1990:

Hideki Matsutake – Madara (Map 2 Overworld) 1990
H. Maezawa, Jun Funahashi, Y. Morimoto – Castlevania III Ever green (versão com o chip VRC6) 1989
H. Maezawa, Jun Funahashi, Y. Morimoto – Castlevania III Ever green (versão SEM o chip VRC6) 1989

Confira uma coleção das melhores músicas do chip VRC6. Foi realmente uma época muito especial da gamemusic, que indicou o caminho de como seriam as músicas nos consoles 16-bit.

ARCADES

Nos Arcades, 1987 nos trouxe as músicas de Double Dragon e R-Type, que hoje nos parecem simples e tecnicamente inferiores (não faziam mesmo bom uso do chip Yamaha YM2151), mas que ainda emocionam qualquer marmanjo com mais de 30 anos pelo valor sentimental que carregam.

Kazunaka Yamane – Double Dragon (Slums) 1987
Masato Ishizaki – R-Type (Stage 1 & Boss) 1987

Já em 1988 saiu Gradius II nos Arcades. É o tipo de música que dá um enlevo na alma, como se estivéssemos escutando o som da música das mais altas esferas… ou, pelo menos, do meu planeta. Só sei que não me canso de ouvi-la.

Motoaki Furukawa, Masahiro Ikariko, Kinuyo Yamashita – Gradius 2 (A shooting star) 1988

Nesses anos os Arcades de maior sucesso eram os “Shoot ’em ups” (jogos de tiro com naves), e a empresa Toaplan se especializou neles e fez os melhores jogos da década, inclusive musicalmente, graças a uma característica principal dessa empresa: Os criadores dos jogos eram ao mesmo tempo programadores e compositores: Tatsuya Uemura e Masahiro Yuge. Yuge criou e compôs as músicas de Truxton e Fire Shark, enquanto Uemura criou e compôs para Hellfire e Tiger-Heli, e juntos trabalharam em Twin Cobra e Flying Shark, entre outros.

Masahiro Yuge – Fire Shark (Give Me Your Heart) 1989
Tatsuya Uemura – Hellfire (Last Dance) 1989

GAMEBOY

Em 1989 a Nintendo lançou seu primeiro portátil, o Gameboy. Com um som que tinha 2 geradores de pulso, 1 PCM 4-bit e 1 gerador de ruído, ele parece tecnicamente inferior ao Nintendinho, mas nas mãos certas soava até melhor.

Hiroyuki Iwatsuki – Ninja Gaiden Shadow stage 1 (1991)

GAME GEAR

A SEGA não ficou para trás e lançou seu portátil em 1990. O chip de som era basicamente o mesmo do Master System, só que com uma melhor separação stereo. O mesmo se dava com a CPU, então muitos dos jogos do Game Gear eram cópias do Master. Mas saiu um jogo exclusivo com uma trilha sonora de arrasar, cortesia de um músico que estava no topo de sua forma:

Yuzo Koshiro – Game Gear Shinobi (Rush) 1991

GRANDES COMPOSITORES

Yuzo Koshiro

Yuzo Koshiro começou sua carreira aos 20 anos, mas sua juventude não lhe impediu de converter-se imediatamente em uma lenda. Nascido em Tóquio, filho de uma professora de piano, desde cedo aprendeu a tocar instrumentos clássicos. Apaixonado pelos videogames, começou como colaborador de uma revista do meio, e chegou a programar vários jogos caseiros. Por isso procurou a empresa Nihon Falcom e se candidatou às vagas de programador e músico. Conseguiu a última com louvor, já que as músicas-demo que ele enviou eram tão boas, mas tão boas, que 10 delas foram usadas imediatamente em um jogo que estava sendo feito, o Xanadu Scenario II. Sua irmã Ayano Koshiro conseguiu emprego na mesma firma como artista gráfica, e juntos trabalharam no jogo de RPG Ys, que foi um enorme sucesso no Japão.

Mas Koshiro tinha uma frustração: lamentava a pouca importância concedida a este departamento naquela época, em meados dos anos oitenta. Seu trabalho em Ys nem ao menos foi devidamente creditado, sem falar que os direitos da música pertencem apenas à empresa. Por isso ele largou a Falcom e tornou-se freelancer. Foi onde sua carreira explodiu em âmbito internacional, trabalhando para as plataformas da Sega e Nintendo 16-bit. Isso porque ele foi o primeiro músico a ter seu nome incluído na tela-título ou na caixa (e até mesmo no cartucho!) do jogo, o que funcionava como uma excelente propaganda e, ao mesmo tempo, um selo de qualidade para o jogo.

Suas composições mais inesquecíveis foram feitas nos anos 90 e pertencem aos três capítulos de Streets of Rage, no Mega Drive, e aos dois Actraiser, no SNES.

Nobuo Uematsu

Nobuo Uematsu nasceu na cidade de Kouchi, em 1959. Começou a tocar o piano aos 12 anos, estudou numa carreira que nada tinha que ver com a música mas, enquanto tocava teclado numa banda amadora aos 22 anos, compreendeu que aquilo era sua verdadeira vocação. Foi o acaso que o levou ao mundo dos videogames. Queria dedicar-se profissionalmente à música, mas as gravadoras nem sequer se dignavam a escutar as fitas-demo que ele lhes enviava. Foi um amigo que lhe pôs em contato com a Squaresoft e, como ele mesmo reconhece, aceitou o trabalho que lhe ofereceram não porque lhe interessasse – especialmente o mundo dos jogos – mas sim porque aquela oferta era a única disponível.

Uematsu é um dos poucos compositores para videogames que obteve fama internacional, graças ao seu trabalho na saga Final Fantasy (começando em 1985 e durando até os dias de hoje, com várias sequências). Não tem pudor em dizer-se admirador de Elton John, Kitaro e Vangelis, pois acabou desenvolvendo um estilo próprio, que se define pela extrema delicadeza de suas melodias, cujo melhor exemplo talvez seja a canção Ária di Mezzo Carattere, originalmente incluída em Final Fantasy VI que, em sua versão orquestrada, possui a voz de uma soprano. Uma música que é difícil escutar pela primeira vez e não emocionar-se.

Tampouco deixou de enveredar por outros ritmos, como o rock e a verdadeira música gótica, que pode ser apreciada no tema do personagem Sephiroth, em Final Fantasy VIII: Fithos Lusec Vinosec, uma canção cantada por um coral em latim, que é tão contundente quanto “O Fortuna”, de Carl Orff.

Baseado no cinema, Uematsu criou um precedente no mundo da gamemusic: o de compor um tema para cada personagem dos jogos de RPG. Através da música, era transmitida a personalidade, as alegrias ou tristezas de cada um deles.

A música do Uematsu se tornou muito popular porque caiu nas graças do grande público, especialmente o ocidental. Uma fusão do clássico com o oriental: do tradicional músico clássico e sua orquestra triunfante, passando pelo bardo Elton John, com suas melodias cativantes e populares, até ao new-age de Kitaro, Nobuo Uematsu é sem dúvida uma lenda viva do mundo dos videogames, com suas músicas sendo até hoje executadas por orquestras ao redor do mundo em eventos que são verdadeiras “óperas de videogame”.

Em 2003 Nobuo expandiu seus horizontes formando “The Black Mages”, uma banda de rock que toca músicas de Final Fantasy e composições originais. Uematsu fica nos teclados e é acompanhado por outros músicos que reinterpretam e expandem suas composições.

Em 2004, depois de 19 anos na Square, Uematsu decidiu fundar sua própria empresa, a Smile Please. Continua compondo para Square Enix, mas também para outras companhias.

ARRANJOS

Existe um anônimo violinista japonês chamado “The Screamer” que ficou (relativamente) famoso graças a seus vídeos de cover de gamemusic com violino, publicados no Nico Nico Duga (O Youtube japonês). Ele curte muito o Koshiro do PC88, e fez um cover de Sorcerian:

Yuzo Koshiro – Sorcerian (Dungeon) tocado por “The Screamer”
Yuzo Koshiro – Sorcerian (The Wizard of the Dark Swamp / Red Dragon). O álbum “Sorcerian Forever I” é um arranjo definitivo de Sorcerian (feito pela Falcom J.D.K. Band) e traz AINDA mais energia às músicas de Koshiro.
Yuzo Koshiro – Sorcerian (Desert medley)
Yuzo Koshiro – Ys (Church). O melhor arranjo já feito pra uma música de Ys veio justamente de uma música que acabou não sendo usada no jogo. A original é bem simples, mas esta versão, feita por Atsushi Fukai, é mais lenta e elaborada, no melhor estilo Bach, utilizando-se do mais belo instrumento sonoro antigo depois do órgão de tubos: o cravo.
Yuzo Koshiro – Ys (To Make the End of Battle). Versão heavy metal feita pela Falcom J.D.K. Band, a banda oficial da Falcom.
Yuzo Koshiro – Ys (The Morning Grow). Arranjo do álbum “Ys Eternal”. Essa é música mais cheia de emoção e sentimentos de Ys, na minha opinião. Adoro ouvi-la.

Eu estou colocando músicas demais da Falcom (e de Yuzo) aqui, mas é porque foi um movimento importantíssimo pra história da gamemusic: o sucesso desses jogos movimentou a indústria da música de tal forma que até versões CANTADAS foram vendidas:

Yuzo Koshiro – Ys (Endless History). Versão da mesma música anterior (The Morning Grow), mas com vocais da Shoko Minami e arranjos mais elaborados, como solo de guitarra, feito por Hiroshi Shinkawa.

Músicas de videogame não são coisa de criança. Desde os anos 90 que elas são executadas em auditórios ou ao ar livre, em grandes eventos, por orquestras renomadas. E quem capitaneou isso foram os jogos Dragon Quest e Final Fantasy, rompendo barreiras e abrindo caminhos pra que a gamemusic seja reconhecida como uma forma de Arte. Um belo exemplo disso é Final Fantasy Symphonic Suite, que foi executada pela Orquestra Sinfônica de Tóquio, com arranjos de Katsuhisa e Takayuki Hattori:

Nobuo Uematsu – Final Fantasy (Symphonic Suite Scene 3 – FFI Opening Theme, Town, Matoya’s Cave). Executada pela Orquestra Sinfônica de Tóquio.

Até mesmo a tradicional Filarmônica de Londres se rendeu aos games:

Motoaki Furukawa, Masahiro Ikariko, Kinuyo Yamashita – Gradius in classic (Title demo). Executado pela London Philharmonic Orchestra. Do jeito que está, se dissessem que é uma trilha sonora de John Williams, muito cinéfilo acreditaria.

Konami Kukeiha Club é o nome genérico da “banda” oficial da Konami. Assim como a J.D.K. Band da Falcom, muitas vezes não sabemos quantos são ou quem faz os arranjos. Mas nesse caso aqui a Jun Irie fez um arranjo de Ever green (de Castlevania III) para o álbum “Perfect Selection Dracula New Classic” que pra mim se tornou uma das mais belas músicas que já ouvi na vida:

H. Maezawa, Jun Funahashi, Y. Morimoto – Castlevania III (Ever green). Arranjo por Jun Irie. Tocado por Nazo² Project e a Konami Symphonic Orchestra.
A banda Minibosses tocando os 3 primeiros estágios de Contra. Devo admitir que é o melhor arranjo não-oficial de gamemusic que já ouvi, superando até mesmo a banda brasileira Megadriver

ENTREVISTAS

Nobuo Uematsu fala sobre o tema principal de Final Fantasy e como ele evoluiu ao longo do tempo:

Nobuo Uematsu Discusses The Final Fantasy Main Theme

História da gamemusic

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