SUPERMAN RETURNS

Superman voltou. Mas voltou mudado. Por algum inexplicável paradoxo da viagem intergaláctica, Kal-El retorna mais jovem e franzino do que quando partiu.

Ok, eu não devia fazer comparações com o clássico filme de 1978 que não só deu dignidade ao Super Homem como foi o PRIMEIRO filme a dar dignidade a um super herói… mesmo ele usando cuecas por cima das calças. Isso tudo foi graças à visão do diretor Richard Donner (Máquina Mortífera, O Feitiço de Áquila), cuja palavra de ordem para as filmagens era “verossimilhança“. Valeu, Donner, você mostrou que era possível, e assim abriu caminho para todos os outros filmes de heróis que vieram na esteira, sendo que a grande maioria foi um fracasso atrás do outro… Isso até 1989, quando resolveram dar verossimilhança a Batman, relembrando-nos que SIM, as pessoas estavam dispostas a pagar pra ver histórias em quadrinhos, desde que elas não sejam um insulto à nossa inteligência. Infelizmente a ganância dos estúdios (que faturam mais com vendas de bonecos, games e roupas do que com a bilheteria) faz com que os roteiros sejam atenuados, infantilizados, para atrair a audiência infanto-juvenil. Até mesmo o ultraviolento Robocop padeceu deste mal. E os heróis foram esquecidos novamente…

Até que um jovem diretor resolveu encarar o desafio de pegar um grupo de amados personagens e trazê-los para a vida real, com dignidade e respeito pelos quadrinhos, sem o (aparente) compromisso com a venda de bonecos. O diretor era Brian Singer, e o filme, X-Men, que se tornou um novo paradigma de como levar um herói às telas assim como foi o Superman de 78.

Foi natural que, após provar com X-Men 2 que seu talento pra dirigir filmes de sucesso não foi um mero acidente, Brian Singer fosse cotado para trazer de volta às platéias adolescentes a mitologia do Homem de Aço. Deve ter sido difícil pra Singer ter liberdade de mexer com um personagem tão consagrado, não só nos quadrinhos (desde 1938) como no cinema. Ainda assim o filme traz algumas surpresas e prepara terreno para saltos roteirísticos maiores, a serem desenvolvidos nos quadrinhos ou, quem sabe, em próximos filmes.

Ainda assim, eu esperava mais, muito mais do cara que fez X-Men. O trailer, com a voz de Marlon Brando, insinuava um mergulho na psicologia do personagem, de ele ser um alien (em inglês, alienígena, mas também estranho, estrangeiro) “se metendo” na vida dos habitantes da Terra (EUA). As próprias entrevistas dos atores e diretor indicavam essa direção… Infelizmente a questão política (tão em voga atualmente, com os EUA se metendo na vida dos Iraquianos) não foi levada adiante de forma contundente, como foi feito por Frank Miller na maravilhosa série de quadrinhos O Cavaleiro das Trevas (no caso, com a Guerra-Fria). E talvez por eu ter uma expectativa tão elevada tenha me decepcionado com o filme logo nos créditos. A música-tema, que uma vez me arrepiou todo quando a escutei em 5.1 surround EM CASA, desta vez não me causou nada no melhor cinema do nordeste, equipado com som THX, pois ficou limitada aos canais dianteiros. Os design dos créditos são uma cópia melhorada do original de 76, apenas uma das dezenas e dezenas de homenagem que vão se acumular durante toda a projeção, com frases, situações e referências ao original que só me faziam comparar um e outro e chegar à conclusão de que, mesmo com toda a tecnologia e dinheiro de hoje, não se consegue fazer um filme com a qualidade e talento de outrora. Um indício de que os tempos são outros é que, se no primeiro filme usaram enchimento nas calças do ator pra parecer que o Superman tem “aquilo” grande, hoje em dia surgiu o boato de que neste novo filme retocaram digitalmente as cenas em que o ator aparecia de uniforme porque (segundo disseram) ele é “bem-dotado”. Daí se tira a patrulha que um diretor ou produtor tem de enfrentar hoje em dia…

ISSO sim é algo icônico! Só que feito por fãs. Faltou plasticidade ao filme, mas não faltou plástico no uniforme…

Pois até mesmo os efeitos visuais – que evoluíram tanto com o advento da computação gráfica – não chegam aos pés (digo isso em termos de beleza e sensibilidade artística) dos de 78! Christopher Reeves (o eterno Superman) voava, não me importa se pendurado em arames, mas ELE VOAVA! E Brandon Ruth (o Superman atual) não voa. Ponto! Reeves tinha uma invejável forma física (incluindo aí a imagem de uma pessoa madura), Ruth mais parece o Homem-Aranha!! A fotografia do filme original é de encher os olhos, com cenas que entraram no imaginário coletivo, como o brilho fantasmagórico das roupas de Krypton (conseguido sem computação gráfica!) e o romântico vôo de Superman e Lois por cima das nuvens… o vôo atual é sem brilho ou contraste, a começar pela roupa escurecida do herói, motivo de críticas unânimes entre os fãs.

O que me faz perguntar: o que é que vocês estão esperando pra ver o original (e MELHOR)??!!

Capa do primeiro gibi em que apareceu o Superman. Lembrem-se dessa imagem ao ver o filme

Não que o Superman Returns seja ruim… não é (de todo). A cena do avião no início é simplesmente fantástica, uma das poucas (infelizmente) em que parece que Brandon Ruth não está atuando na frente de uma tela verde. Outra coisa interessante é ver o jovem Clark descobrindo seus poderes na fazenda, uma bela homenagem aos primórdios dos quadrinhos do herói, em que ele não voava (apenas saltava grandes distâncias). As cenas que poderiam ficar marcadas indelevelmente em nossas memórias são belas, mas fugazes e mal aproveitadas, como quando ele segura o globo do Planeta Diário, ou levanta um carro, recriando a capa da primeira revista em que o herói apareceu, em 1938. Uma triste ironia é que o editor do Planeta Diário, Perry White, reclama justamente que seus fotógrafos não conseguem uma imagem icônica do herói, enquanto o filme como um todo padece do mesmo mal. A trilha sonora de John Ottman é uma pálida sombra do que foi John Williams em sua década mais grandiosa (anos 70). Mas é uma comparação ingrata, pois duvido que, mesmo se Williams fosse chamado para a continuação, ele pudesse conseguir eternizar em nossas memórias algum novo tema da forma como fez em 1978…

Nesta época os produtores conseguiram recrutar grandes nomes para fazer o filme, através do poder de persuasão do dinheiro. MUITO dinheiro. Marlon Brando sozinho ganhou 3,7 milhões de dólares, e o diretor Richard Donner (famoso na época pelo filme A profecia) faturou 1 milhão. Gene Hackman ficou perfeito na pele de Lex Luthor, um arqui-inimigo à beira do caricato, mas SEM parecer ridículo (lição brilhantemente apreendida pelo maravilhoso Kevin Spacey em sua nova encarnação do personagem). O escritor da história original foi Mario Puzo (ganhador do Oscar com O poderoso chefão), com mais 3 outros roteiristas. Mas os méritos não são só deles. Toda a equipe de produção se esmerou em fazer de uma história em quadrinhos despretensiosa um filme crível, embasado. Por isso chama a atenção ver que Krypton é um planeta azul que orbita uma estrela-anã, de cor vermelha, e que este padrão (azul / vermelho) foi usado nas mantas do bebê Kal-El, que se tornará o Superman adotando em seu uniforme – por coincidência ou não – as cores do seu planeta e do país que o acolheu.

A lenda crística em Superman é clara, quando Jor-El – o pai de Kal-El – fala, antes de salvar a vida do filho, mandando-o para a Terra: “O filho se tornará o pai, e o pai se tornará o filho“. A figura paterna será a única presente na vida do garoto, pois desde bebê que o conhecimento do pai, armazenado nos cristais da sua nave, vai sendo passado para Kal-El quando de sua jornada para a Terra, numa verdadeira programação cerebral que será decisiva na sua relação com os humanos.

PS: No Making of do filme aparece aos 1:23s uma luz estranha no céu. Seria um OVNI?

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