DISTRITO 9

Ontem vi o que é – e provavelmente continuará sendo – o filme do ano: Distrito 9. Dirigido pelo estreante sul-africano Neill Blomkamp, é uma aula de ficção científica como há muito não se via no cinema.

Longe de ser um caça-niquel com personagens rasos e simpáticos (como Transformers ou mesmo o novo Star Trek) Distrito 9 resgata do limbo a dignidade do gênero. O filme (assim como Alien ou Exterminador do futuro) nos transporta para uma realidade crível, mesmo sendo ela fantástica. O estilo documental, com câmera na mão, aqui encontra o seu lugar de direito, com efeitos visuais fantásticos, no sentido de inserir uma gigantesca nave-mãe sobre os céus de Johannesburgo e ainda assim parecer “natural”. Sem falar nos melhores (em termos técnicos) personagens criados em computação gráfica que já vi, em um fantástico trabalho de iluminação e animação, feito não pela oscarizada empresa Weta (de Senhor dos Anéis), mas sim pela (até então desconhecida) empresa de Johannesburgo chamada Image Engine Design. Mas nada disso salvaria o filme de ser mais um Transformers da vida se não fosse pelo roteiro adulto e realista (co-escrito pelo diretor Neill Blomkamp). Uma história onde não há heróis e vilões (pelo menos não no sentido tradicional). É justamente aí que reside o grande trunfo do filme: seu impacto emocional. Saí da sessão com a triste impressão de ter visto um documentário vindo do futuro, ou um Tropa de Elite com aliens, porque dá pra reconhecer a natureza e as motivações humanas (nossas motivações) em cada ato dos personagens. É por isso que reitero: não há vilões neste filme, apenas humanos vivendo suas vidas e cumprindo seus papéis… demasiadamente humanos.

Semana passada estava falando com minha psicóloga sobre como minha única esperança para a humanidade seria a aparição oficial de uma raça alienígena. Isso porque a diferença iria nos unir. Passaríamos a ser “nós” e “eles”, humanos e aliens, e não mais o amontoado de nomes com os quais adoramos nos classificar. Vemos isso claramente nos jogos de futebol: enquanto estamos limitados por regiões geográficas (e imaginárias) do Brasil, ou nos auto-limitamos ao adotar como “nosso” um simples escudo de time, nosso vizinho ou colega de trabalho é nosso adversário, e trocamos provocações com deliciosa malícia, sem querer realmente mal, mas apenas porque faz parte da natureza humana sentir prazer com pequenas crueldades (observem as crianças brincando, ou perguntem a um fã de Tarantino). Mas estes mesmos adversários abandonam suas diferenças e se juntam para torcer, beber e confraternizar juntos pela seleção brasileira, especialmente se for contra um rival histórico como a Argentina. Aí o sadismo entra novamente em cena, pois não basta ganhar: é preciso golear e humilhar, e o adversário é o “outro”. É um pensamento meio cruel com os possíveis visitantes espaciais, mas é fundamentado na nossa (triste) realidade. E talvez “eles” já saibam disso, e aguardem uma maior maturidade de nossa parte pra aparecerem.

Mas, voltando ao filme, após vê-lo minhas esperanças para a humanidade meio que se confirmaram e meio que se desvaneceram. Explico: a Nave-mãe vai parar em cima da cidade de Johannesburgo, na África do Sul, por conta de algum problema (doença?) que deixou a tripulação fragilizada e sem comando. E a premissa do filme é: como seriam tratados os aliens se os humanos tivessem ALGUMA vantagem sobre eles? O que acontece é que os humanos estabelecem um campo de refugiados logo abaixo da nave para abrigar os aliens, e aquilo rapidamente se converte numa favela. 20 anos se passam, e a humanidade já os vê como um estorvo. O resto vocês podem imaginar.

Obviamente o filme é uma metáfora para o racismo e segregação, e é triste quando “cai a ficha” que os humanos fazem o mesmo que fazem com os alienígenas, só que com outros seres humanos. O filme foi rodado na África do Sul, entre os barracos de Soweto, palco de uma resistência contra a política oficial de discriminação racial (o Apartheid), que resultou num horrendo massacre. Ainda na África do Sul, na mesma época, os negros foram forçosamente “relocados” para um tal de Distrito 6 (que inspirou o nome do filme), na cidade de Cape Town. Mas não só os negros sofreram do problema da discriminação e foram tratados como sub-humanos durante a história. Não podemos esquecer do êxodo de judeus da Espanha e Portugal, fugindo para não morrer ou serem convertidos à força ao catolicismo. Séculos depois, os judeus teriam de fugir novamente para não morrer nos guetos e campos de concentração da 2ª guerra. E nossos índios, retirados da floresta para viver como brancos em aldeamentos jesuítas, sujeito às doenças dos brancos, que com isso dizimaram 70% dos silvícolas?

Mas não precisamos nem conhecer de História para vermos que a sociedade “naturalmente” marginaliza (ou seja, põe à margem) os indesejáveis ou aqueles que não pertencem a uma certa “casta” de privilegiados. E lá vão eles para os distri… digo, as favelas… É irônico ver no filme os “depoimentos” dos negros sul-africanos, reclamando da presença desses indesejáveis visitantes sem modos e violentos. Isso meio que confirma minha teoria, mas, ao mesmo tempo, percebi que não, a natureza humana não vai mudar (nem sequer amadurecer), mesmo diante de um fato desta natureza. Não haverá uma mudança de paradigma, apenas acrescentaríamos um elo a mais na nossa cadeia de preconceitos.

Distrito 9 tem um final melancólico e poético, com uma imagem final que ficou perdurando na minha mente até agora.

Pra quem já viu o filme e quer se aprofundar mais na história, o próprio diretor deu uma entrevista revelando alguns mistérios sobre os ETs:

Em resumo, a estrutura social dos alienígenas seria muito semelhante a das formigas e insetos sociais, porque os “camarões” não possuem capacidade de ação individual, mas comportamentos coletivos sob liderança, assim como as formigas operárias. A sociedade dos alienígenas seria dividida em castas (operários, soldados, intelectuais e Rainha), e a única diferença dos insetos sociais comuns é a de que a reprodução não depende apenas da rainha, mas qualquer camarão pode se reproduzir assexuadamente pondo ovos. além disso, todos os “camarões” seriam machos, sendo a Rainha a única fêmea.

O diretor não revelou para onde a colônia de “camarões” estava indo, mas revelou que em uma das paradas em um planeta distante, a nave mãe deles foi contaminada por um vírus mortal que logo se tornou pandêmico e matou a maior parte das castas superiores, incluindo a Rainha, os soldados e os intelectuais, deixando vivos apenas os operários que naturalmente não possuem muita inteligência e iniciativa. Como toda a tecnologia e fonte de energia dos “camarões” funciona à base de biotecnologia vinda de seus DNAs, todo o “fluido” da nave também foi afetado pela pandemia, sucumbindo à contaminação e causando uma pane geral na nave mãe.

Como a nave mãe estava programada para assumir automaticamente todos os controles em caso de falha ou perda da rainha, o piloto automático seguiu seus protocolos de segurança e selecionou entre todas as estrelas e planetas da região da pane àquela aonde os “camarões” possuiam maiores chances de sobrevivência. Por sorte ou azar, esse lugar era a Terra.

A falha total da nave mãe e a morte total dos líderes e militares da colônia dos “camarões” deixaram os operários sem liderança, e ai que começa toda a história de District 9.

Outra revelação bombástica do diretor era a de que Christopher era um dos únicos sobreviventes das castas intelectuais dos “camarões”, e que seu filho nasceu na Terra, chocado em um ovo escondido na nave enterrada embaixo de seu barraco. Ambos eram catalogados pela MNU (por isso que possuíam o carimbo branco da MNU em suas cabeças).

A maior revelação era a de que o sistema estelar original dos “camarões” e suas milhares de colônias espaciais não ficavam na Via Láctea (nossa galáxia ) mas na galáxia de Andrômeda. A imensa distância de milhões de anos luz transformou a nave dos “camarões” em uma nave literalmente perdida no espaço, tão distante de seu território natal que seu planeta-mãe não pode localiza-los e enviar um resgate.

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