REDENÇÃO

Por mim o dia 14 teria passado em branco, como qualquer outro dia. Mas o número de pessoas que entrava aqui toda semana pedindo algum post sobre essa maluca da Austrália me fez pensar: se eles querem ilusão barata, terão ilusão barata. Depois disso o 14 de outubro se tornou minha prioridade, ao procurar fazer uma homenagem a Orson Welles (mas sem o pioneirismo e o pânico criado), atrair a atenção dos incautos e no fim mostrar que há vida além dos sonhos com extraterrestres nórdicos de cabelo hidratado.

Além dos motivos supracitados, também busquei dar àqueles que também não acreditam mais em canalizações um motivo pra curtir esse evento, afinal não é todo dia que podemos desfrutar de uma convergência de (bons) pensamentos dessa magnitude. Assim como esse cara do Nebulosa Bar, eu mesmo entrei em vários sites à procura de teorias e boatos que dessem algum “tcham“, que trouxessem alguma emoção de que alguma coisa, qualquer coisa, pudesse acontecer (um carro alegórico em forma de disco voador desfilando por Alabama com uma bandinha, um vídeo de uma alienígena gostosa saindo de dentro de um bolo na casa da Blossom, qualquer coisa serviria pra dar o clímax da “festa” global). Parece que o único que se deu ao trabalho de preparar algo fui eu, então me empenhei ainda mais na criação de uma invasão alienígena nos EUA: O dia em que faremos contato, aqui mesmo no blog, procurando passar emoção e suspense nos textos pra dar pelo menos 1 segundo de brilho nos olhos pra alguém, pra fazer valer toda a torcida pela completude de seus sonhos (que já foram meus sonhos) e o resultado é que, acompanhando no contador o número de visitantes e de ONDE eles vinham, fiquei extasiado quando, ao publicar a “imagem da CNN”, o número de visitas simultâneas disparou assustadoramente, a maioria vinda do Orkut, e logo após a imagem do “close na espaçonave” o site saiu do ar. Pouco depois recebo um e-mail do servidor de hospedagem (nos EUA), dizendo que teve de suspender meu site pois estava quase derrubando os servidores deles, com quase 20 acessos por segundo.

Sucesso!

Nem consegui ficar chateado com o fato do site ter saído do ar, tamanha a felicidade de ter trazido um pouco de diversão e mistério às vidas das pessoas, e espero ter deixado claro uma lição: não acredite cegamente em coisas que viu em jornais, revistas, e especialmente Internet. Não olhem para o céu porque alguém mandou. Olhe, sim, porque você quer, QUANDO quiser. Olhe pra apreciar a beleza de um pôr-do-Sol, os desenhos das nuvens, o brilho cintilante das estrelas. Se aparecerem OVNIs faça disso um bônus, e não seu objetivo. Não passe “cheque em branco” das suas carências para outras pessoas utilizarem como quiser, pois isso machuca. Talvez muitos de vocês que esperavam o evento estejam machucados agora. Uns reagem com irritação, outros com apatia, depressão. Em fóruns querem apedrejar a Blossom, mas, de que adianta? Outros virão. Aqui no Brasil mesmo já passamos por tal frustração, em 2006. E o que aprendemos com isso? A não confiar mais no Van Elan e passar procuração pra Blossom? Foi isso? E agora a Blossom entrou na lista negra e esperaremos o canalizador da vez? É isso? 2012 está aí. É nossa data “definitiva” pro “apocalipse”, e muitos canalizadores disputarão a primazia de ser o profeta do apocalipse que dirigirá o rebanho dos “eleitos” à segurança física e espiritual. Mas certamente existirão os que virão com datas mais próximas pra eventos igualmente dramáticos, pra que nossas vidas não sejam tão sem-graça, tão sem objetivo…

Objetivo.

O que queremos pra nós? Sermos salvos de nós mesmos?

Procurar redenção seria a resposta mais correta. Fazemos isso em todas as religiões. Desde a antiguidade que projetamos nossas qualidades no “alto” e nossos defeitos em nós mesmos. A “culpa” cristã, o pecado original, a “impureza” judaica, a “imperfeição” islâmica, a “ilusão” do mundo budista / hinduísta… isso parece fazer parte do ser humano, sempre almejar algo imponderável, imaterial. Nada contra querer o melhor, buscar desenvolver-se, superar as limitações do nosso pensamento sensorial, mecânico, ordinário. Já pensou como seriam as artes sem que a imaginação não pudesse ganhar asas e buscar algo além da realidade? Mas, quando esse vôo afeta o seu desenvolvimento aqui nesse “planetinha chato”, aí sim precisamos repensar nossos objetivos. Há tanto o que podemos fazer por nós mesmos e pelos outros, aqui na Terra mesmo, nessa existência… e preferimos ignorar, achar que o Brasil e o mundo estão fadados à destruição, ao apocalipse que vai separar maquinalmente o joio do trigo (e quem pensa isso nunca se considera o joio, não é mesmo?), e que seremos eternamente felizes em outra dimensão, com outro povo, vindo de estrelas longínquas pra nos ensinar aquilo que já deveríamos ter aprendido com os Mestres daqui mesmo.

Não é desconhecido do público o efeito que ocorre com quem foi à Lua. Os astronautas – gente objetiva, acostumada a cálculos e treinamento severo – geralmente voltam como que “tocados” por algo, muitos abraçando a religião, coisa que normalmente não ocorre com quem vai ao espaço e fica orbitando a Terra. No documentário In the shadow of the Moon (2007) os únicos astronautas que foram à Lua relatam sua experiência, e no fim alguns partilham seus sentimentos em relação à Terra:

Edgar Mitchell: “A maior alegria foi no retorno pra casa”.

Aprendemos muito sobre a Lua, mas mais ainda sobre a Terra. O fato de que apenas à distância da Lua você possa levantar o polegar e tapar com ele a Terra, tudo o que você já conheceu, seus entes queridos, seus negócios, os problemas da própria Terra, tudo atrás do seu polegar. O quão insignificantes somos! E quão afortunados somos de ter um corpo, de poder desfrutar dele, e viver aqui entre as belezas da Terra.

Jim Lovell; Apollo 13

A maior alegria foi no retorno pra casa.
Em minha janela via, a cada dois minutos, a Terra, a Lua, o Sol e uma vista panorâmica dos céus.
Era uma experiência assustadora, poderosa.
E, de repente, me dei conta de que as moléculas do meu corpo, da nave, dos meus companheiros, foram feitas em uma antiga geração de estrelas.
Era uma sensação de unidade, de conectividade. Não eram eles e nós, era “isso sou eu, sou tudo; é uma só coisa”.
E isso veio acompanhado de um êxtase, um sentimento de “Sim, é isso!“.
Um insight, uma epifania.

Edgar Mitchell; Apollo 14

Aqui é um verdadeiro oásis e não cuidamos bem dele. E acho que aumentarmos a consciência disso é a melhor contribuição para salvar a Terra, se possível.

Dave Scott; Apollo 15
Astronautas Gene Cernan e Charlie Duke falam sobre religião, Deus e suas crenças espirituais após suas experiências na Lua.

Acho que, se você faz algo assim tão diferente, como ir à Lua e retornar, todos te dizem o quão maravilhoso e importante é.
Então, em comparação, outras coisas que costumavam ser importantes já não são tanto assim.
E não digo que eu seja capaz de enfrentar a vida com maior equanimidade porque fui à Lua, mas eu tento.
E talvez algumas de nossas tolices terrestres já não sejam mais tão importantes depois de viajar à Lua quanto pareciam antes.

Michael Collins; Apollo 11

A Terra mudou muito desde que começamos a voar no Gemini. Coisas como poluição urbana, que você agora pode ver em órbita.
Você pode ver que as grandes cidades têm suas próprias atmosferas. Têm mesmo!
Nós devíamos estar preocupados com nossos filhos e netos, mas o que nos preocupa? O preço da gasolina. Nos EUA nos preocupa o preço de 3 dólares a gasolina. É terrível.

John Young; Apollo 16
A Terra vista da Lua

Desde aquela época não me queixei do clima nem uma só vez; Fico feliz que haja clima.
Não me queixo do tráfego; Fico feliz que haja gente ao redor.
Uma das coisas que fiz ao retornar pra casa foi ir aos shoppings, e caminhar lá, tomar um sorvete e observar as pessoas, pensando:
“Que sorte temos de estar aqui. Por que nos queixamos da Terra?”
Vivemos no Jardim do Éden!

Alan Bean; Apollo 12
0 0 votes
Avaliação
Subscribe
Notify of
guest
134 Comentários
Newest
Oldest Most Voted
Inline Feedbacks
Veja todos os comentários

Posts Relacionados

Comece a digitar sua pesquisa acima e pressione Enter para pesquisar. Pressione ESC para cancelar.