PENSAMENTO PASSIVO

Vimos nos posts anteriores como a mente influencia nossa saúde física. Agora veremos como trabalhar a mente pra cuidar do nosso bem-estar psicológico, encarando de frente nossos monstros internos.

Por Silas Couto

O pensamento passivo é um tipo de raciocínio que vai fluindo sem o controle do Eu. É quase que um tipo involuntário de pensamento que, no entanto, nos leva a conclusões por vezes interessantes. Segundo a tipologia Junguiana, esse é o pensamento orientado pela intuição. O que o contrapõe, que é o pensamento ativo, é orientado pela sensação, controlado pelo Eu, e está estruturado e planejado em busca de uma conclusão ou resposta.

Rosto com desenhos pela cabeça, como se fossem sonhos ou pensamentos.

Já que o pensamento passivo é aquele que determina nossa metafísica (porque esta é algo irrefletido), é forçoso que o pensamento ativo seja submetido a ele, embora se deseje que as determinações do Eu sejam absolutas.

Por vezes um pensamento passivo, já que está fora do nosso controle, contraria certos paradigmas ou valores do Eu. Assim, se eu tenho uma visão maniqueísta baseada numa religiosidade dogmática, é provável que meus valores rejeitem certos sentimentos (a saber: raiva, ressentimento, etc.) e que meus paradigmas rejeitem certas idéias (ateísmo, outra visão religiosa, etc.).

Apesar desse funcionamento imperativo do Eu em relação ao filtro de idéias e sentimentos, podendo reprimir certos pensamentos alcançados de forma passiva, seria essencial para o desenvolvimento do indivíduo que ele seguisse o conselho de Nietzsche: Se transformar em leão, a fim de matar o dragão, que possui em suas escamas o “tu deves“.

Não quero passar aqui uma idéia de que se deve abrir a mente a outras (todas as) perspectivas. Não adianta tentarmos assimilar idéias que contrariem nossa essência ou estágio, pois a idéia não passará de um conjunto de palavras sem valor (eis aí um argumento contra a disciplina). Somente seria saudável reconhecer o caráter efêmero das idéias. Nossos pensamentos, em sua maioria, nada mais são do que um reflexo de nossa identidade ou do estágio no qual no encontramos. Daí decorre que abraçar dogmaticamente alguma idéia é se prender ao passado e impedir o próprio desenvolvimento, porque os pensamentos passivos não são fixos, e é bem comum eles estarem em contradição direta. Justamente por isso o Maniqueísmo impede esse fluxo, porque tende a negar mais ou menos a metade do que recebe.

Poder-se-ia objetar que é escolha do Eu decidir se quer desenvolver-se ou não. E seria plausível tal objeção em nível filosófico. Só que, em nível psicológico, a deliberação do Eu não é assim tão poderosa quanto queremos que seja: O impulso para o desenvolvimento e o equilíbrio continua acontecendo na psique inconsciente. Sobre isso, aliás, psicólogos junguianos fazem uma relação direta entre a psicossomática e a atitude psicológica: mesmo que a escolha do indivíduo seja se fixar num paradigma e nunca mudar, seu “Inconsciente” não aceita isso, do que decorrem problemas psicossomáticos.

Sobre isso, recomendo um vídeo explicativo sobre o tema do Prof. Dr. Waldemar Magaldi:

Psicossomática Junguiana – Sintomas, cura ou morte

O juízo de valor sobre uma idéia alcançada de forma passiva deveria ser sempre positivo, embora, mesmo com boa vontade, nem sempre isso seja possível, já que esse tipo de idéia flui do inconsciente com certas mensagens, que podem, por vezes, exibir conteúdos reprimidos ou que nunca foram conscientes. Assim a consciência seria expandida (no caso de o indivíduo conseguir integrar os conteúdos inconscientes à consciência) e mesmo a qualidade de vida seria melhorada (como explicado no vídeo). No entanto, quando um padrão moral toma conta da mente do indivíduo alguns símbolos são negados, e ele se mantém estagnado em seu desenvolvimento, e isso pode ser fatal. Tudo isso por uma moral que, embora possa parecer firme, é tão efêmera quando os paradigmas que vêm e vão. É de suma importância entender que nem sempre pensamentos passivos são equivalentes a algo que precede os atos. Muitas vezes (senão todas) eles são símbolos que nos ocorrem com o objetivo de expandir a consciência.

Daí decorre que se um indivíduo sonha constantemente que está matando pessoas, isso não quer dizer que ele seja um assassino, ou se ele devaneia constantemente sobre outros tipos de coisas “horríveis” isso não significa necessariamente que essas coisas se transformarão em ações: é necessário fazer uma análise pessoal e profunda. Eu recomendo um psicólogo junguiano como auxílio.

Em conclusão, o que eu gostaria de ressaltar é que as nossas idéias são muitas vezes uma busca íntima e que, portanto, não têm nenhuma relação com a busca da “Verdade” (presumindo que exista uma Verdade externa). Na verdade, nossos pensamentos são diretamente influenciados pelo Inconsciente. Em última análise, se fixar numa idéia é como se fixar um estágio do próprio desenvolvimento, pois as idéias em si se modificam com o desenvolvimento do indivíduo. Isso não é intelectualmente saudável, mas há quem não se importe em ter o hábito de permitir a mudança. Apesar disso, como mostrei com o vídeo, o íntimo está sempre impulsionando o indivíduo a permitir as mudanças necessárias para o seu desenvolvimento, sem as quais ele pode até mesmo adoecer. Isso deixa à cargo das pessoas uma parcela considerável de sua saúde, pois doenças psicossomáticas são fruto da atitude mental do próprio indivíduo.

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