JUNG E DEUS

O Estado Islâmico executou 19 mulheres que se recusaram a participar do seu “jihad sexual”, ou seja, manter relações sexuais com seus gloriosos guerreiros. Obviamente eles devem ter alguma Lei pra isso, baseada literal ou vagamente em alguma escritura sagrada ou passagem do tempo de Maomé. Mas antes de citar o Islamismo como a causa para tantas barbaridades, como decapitações, assassinatos de homossexuais ou aplicação da Lei de Talião, talvez devamos lembrar que muita coisa ruim está legitimada também no Velho Testamento e em outros escritos sagrados de antigas civilizações. Seria talvez mais simples culpar o Islã por suas leis antiquadas e fanatismo religioso que teimam em continuar mesmo nos tempos de hoje, mas estaríamos esquecendo o principal elemento aqui: o elemento HUMANO. Estamos em pleno século 21, com acesso à tecnologia e comunicação, avanços nos campos sociais, científicos, políticos, e ainda há pessoas e países inteiros dispostos a viver social e moralmente como um beduíno do séc VIII, mas sem abrir mão do celular, da internet, da energia elétrica. Como explicar que a mente humana se abra a algumas idéias e outras não?

Como explicar que, mesmo no Brasil, tenhamos pessoas que escolhem quais passagens do Velho Testamento elas vão usar pra guiar suas vidas, enquanto ignora solenemente outras como se nunca tivessem existido?
Como explicar o fascínio que certas passagens de poder e dominação do Velho Testamento exercem entre os Evangélicos (Leão de Judá, abrir o Mar Vermelho, Templo de Salomão, Mil cairão ao teu lado, etc) enquanto o cristianismo (afinal, eles são cristãos, né?) é baseado na figura de um Cordeiro, na humildade e na resignação?

Apenas os fatos não explicam como uma garota bem de vida na Inglaterra abandona casa, família, conforto e amigos pra servir de esposa (parideira ou escrava sexual) para combatentes na Síria. É preciso um chamado interno, mais forte que qualquer ideologia, que estruture os anseios mais inexplicáveis e dê a isso uma face, um nome, um propósito. E tudo isso carrega o nome de “Deus” ou “Diabo”. Através dessa Força o Ser Humano é capaz de realizar as coisas mais maravilhosas, e também as maiores atrocidades.

A melhor resposta a essa contradição e – por que não dizer – “loucura” está nos estudos do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung: O que consideramos (ou imaginamos) Deus é na verdade o Inconsciente ou, no mínimo, está manifestado no Inconsciente. O que faz muito sentido, porque tudo o que sabemos de Deus nos foi apresentado por SERES HUMANOS que tiveram contato com o Divino, muitas vezes em estados alterados de consciência (seja através de jejum, meditação, plantas, o que for). E toda essa “realidade” nos é passada através de símbolos e analogias que pertencem ao conteúdo do Inconsciente, do subjetivo. Os textos abaixo são parágrafos e frases dos livros de Carl Jung The Visions Seminars, Resposta a Jó e Cartas de Jung Vol. 2. Não é uma leitura para iniciantes, e ao mesmo tempo não é para os que têm o copo já cheio:

Até hoje Deus é o nome pelo qual eu designo todas as coisas que cruzam meu caminho intencional de forma violenta e imprudente, todas as coisas que perturbam meus pontos de vista subjetivos, planos e intenções e mudam o curso da minha vida para melhor ou pior.

“Para o Inconsciente Coletivo nós poderíamos usar a palavra Deus. Mas eu prefiro não usar palavras grandes, estou bastante satisfeito com a linguagem científica humilde, porque ela tem a grande vantagem de trazer toda essa grande experiência mais pra próximo de nossa vizinhança.

Todos vocês sabem o que o Inconsciente Coletivo é, vocês têm certos sonhos que carregam a marca do Inconsciente Coletivo; em vez de sonhar com a tia fulana ou tio fulano, você sonha com um leão, e então o analista irá dizer-lhe que este é um tema mitológico, e você vai entender que é o inconsciente coletivo.

Este Deus não está mais a milhas e milhas de espaço abstrato longe de você, em uma esfera extra-mundana. Esta divindade não é um conceito em um livro teológico, ou na Bíblia; é uma coisa imediata, ela acontece em seus sonhos à noite, ele faz com que você tenha dores no estômago, diarreia, constipação, toda uma série de neuroses.

Se você tentar formular e parar pra pensar no que o inconsciente é afinal de contas, você acaba por concluir que é aquilo com que os profetas estavam preocupados; soa exatamente como algumas coisas no Velho Testamento. Lá Deus envia pragas sobre o povo, queima seus ossos no meio da noite, fere os seus rins, causa todos os tipos de problemas. Então você vem naturalmente para o dilema: Este é realmente Deus? Deus é uma neurose?

É um dilema chocante, eu admito, mas quando você pensa de forma consistente e lógica, você chega à conclusão de que Deus é um problema dos mais chocantes. E essa é a verdade, Deus tirou as pessoas do seu juízo. Vejam o que Ele fez ao velho Oséias: Ele era um homem respeitável e teve de se casar com uma prostituta. Provavelmente sofria de uma estranha espécie de complexo materno.”

“A ausência de moralidade humana em Javé é um obstáculo que não pode ser esquecido, tão pouco quanto o fato de que a natureza, ou seja, a criação de Deus, não nos dá razão suficiente para acreditar que ela seja intencional ou razoável para o entendimento humano. Faltam aqui a razão e os valores morais, isto é, duas características principais de uma mente humana madura. Por isso, é óbvio que a “imagem Yahveística” ou a concepção de uma Deidade é menor do que a de determinados espécimes humanos: a imagem de uma força brutal personificada e de uma mente antiética e não-espiritual, mas inconsistente o suficiente para exibir traços de bondade e generosidade apesar do seu poder destruidor. É a imagem de uma espécie de demônio da natureza (Djinn) e ao mesmo tempo um chefe primitivo engrandecido até um tamanho colossal, exatamente o tipo de concepção que se poderia esperar de uma sociedade mais ou menos bárbara (cum grano salis).

Esta imagem deve sua existência certamente não a uma invenção ou formulação intelectual, mas sim uma manifestação espontânea, ou seja, à experiência religiosa de homens como Samuel e Jó e, portanto, mantém a sua validade até hoje. As pessoas continuam a se perguntar: Será possível que Deus permita tais coisas? Mesmo o Deus cristão pode ser questionado: Por que você deixou o seu único filho sofrer pela imperfeição da sua criação?

Este defeito mais chocante da imagem-Deus deve ser explicado ou compreendido. A analogia mais próxima é a nossa experiência do inconsciente: é uma psique cuja natureza só pode ser descrita por paradoxos: ela é pessoal, bem como impessoal, moral e amoral, justa e injusta, ética e antiética, de astuta inteligência e ao mesmo tempo cega, imensamente forte e extremamente fraca, etc. Este é o fundamento psíquico que produz a matéria-prima para as nossas estruturas conceituais. A peça inconsciente da Natureza nossa mente não pode compreender. Ela só pode esboçar modelos de um possível entendimento parcial.”

“É somente através da psique que podemos estabelecer que Deus age sobre nós, mas somos incapazes de distinguir se essas ações emanam de Deus ou do inconsciente. Não podemos dizer se Deus e o inconsciente são duas entidades diferentes. Ambos são conceitos-limites para conteúdos transcendentes. Mas empiricamente podemos estabelecer, com um grau de probabilidade suficiente, que reside no inconsciente um arquétipo da totalidade. Estritamente falando, a imagem-Deus não coincide com o inconsciente como tal, mas com o conteúdo especial dele, chamado de arquétipo do Self.”

“Deus é a própria realidade.”

“Deus é um fato psíquico de experiência imediata, caso contrário nunca teria havido qualquer conversa sobre Deus. O fato é válido em si mesmo, sem necessidade de prova não-psicológica e inacessível a qualquer forma de crítica não-psicológica. Ela pode ser a mais imediata e, portanto, a mais real das experiências, que não pode ser nem ridicularizada nem refutada.”

“Todos os povos modernos se sentem sozinhos no mundo da psique porque eles assumem que não há nada lá que eles não tenham criado. Esta é a melhor demonstração da nossa “Deusisse”, que vem simplesmente do fato de que pensamos ter inventado tudo o que é físico – que nada seria feito se não o fizermos; essa é a nossa idéia básica e é de uma presunção extraordinária. Então esta pessoa está sozinha em sua psique, exatamente como o Criador antes da criação. Mas através de uma certo treino, de repente algo acontece que não foi criado por ele, algo objetivo, e assim esta pessoa não está mais sozinha. Este é o objetivo de certas iniciações: treinar as pessoas a experimentar algo que não é sua intenção, algo estranho, algo objetivo que eles não podem identificar.

Esta experiência do fato objetivo é muito importante, porque denota a presença de algo que não é Eu, mas ainda é física. Tal experiência pode chegar a um clímax onde se torna uma experiência de Deus.”

Fonte: These things inside – Carl Jung says God is reality itself

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