O REINO

Porque, na verdade, ele não socorre a anjos, e sim aos descendentes de Abraão. Por isso convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas referentes a Deus, e para expiar os pecados do povo. Pois naquilo que ele mesmo, tendo sido tentado, sofreu, é poderoso para socorrer os que são tentados.

Hebreus 2:16-18

Buda e Jesus preenchem magnificamente esse perfil…

Um ponto que tem trazido muita discórdia (e sangue) é a da aceitação (ou não) de Jesus como o Messias prometido para o povo de Israel. Ora, se formos ver na Bíblia, em nenhum momento algum Jesus se proclama como tal. É sempre alguém que o denomina assim. É engraçado o primeiro capítulo de João, onde os apóstolos o interrogam e Jesus não responde nada diretamente. Pilatos também o força a se autoproclamar como o “Rei dos Judeus” e obtém a célebre frase “Meu reino não é deste mundo”. E logo após proclama a frase que revela o segredo de tudo:

Tu dizes que eu sou rei. Eu para isso nasci, e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz.

João 18:37

Jesus veio instaurar o modelo de um Reino de um outro mundo aqui na Terra. Os preceitos deste “Reino” (que não possui paralelo com os reinos terrestres) foram muito bem expostos no Sermão da Montanha (Mateus 5) e sua hierarquia é baseada na humildade e capacidade de amar. Por isso mesmo esse Reino nunca poderia ser imposto de fora pra dentro.

Jesus poderia ter sido aceito como Messias, se o povo Judeu assim o quisesse. Assim como poderiam ter aceito Buda ou qualquer outro Avatar. Por isso existe o livre-arbítrio. Mas não era (e, infelizmente, até hoje não é) o momento. O povo do Oriente Médio está tão enraizado no ódio que qualquer demonstração de paz é encarada como fraqueza. São homens pautados na mensagem “olho por olho, dente por dente“. Como poderiam aceitar a palavra de alguém que diz “se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra”?

“Olho por olho” funciona muito bem na guerra contra inimigos externos, mas não com os internos. Lembremos de Buda, quando diz “Um homem no campo de batalha conquista um exército de mil homens… Um outro conquista a si mesmo, e este é o maior…” e também do próprio Alcorão, quando diz que Maomé voltava de uma batalha e chegou à Meca vitorioso, sendo aclamado pelo povo. Disseram a ele: “Você voltou vencedor da jihad, da guerra”. Mas o grande profeta respondeu: “Eu voltei da pequena guerra santa, a guerra física, material, contra os inimigos do Islã. Mas o essencial é Jihad Al-Akbar, a grande guerra santa, aquela que todo homem deve travar dentro da sua própria alma, a batalha monumental contra a vaidade, o egoísmo, o orgulho, as paixões”.

Há muitos “cristãos” que sequer conhecem Jesus, achando que ele é uma espécie de super-herói que deve ser invocado para combater o mal (que é sempre externo a eles, e nunca dentro deles) enquanto se fecham em suas cômodas conchas, que são a Igreja, a Bíblia e as frases de efeito de Jesus (decoradas, mas nunca postas em prática). Tudo isso funciona como “salvo-conduto” para o Céu, e baseados nisso podem cometer todos os desvarios, que já terão garantida a sua “vida eterna“. E isso existe em qualquer parte do mundo, os que se escondem atrás da Torah, dos Vedas, do Alcorão, do livrinho vermelho de Mao Tsé, e os que se escondem atrás de um líder, como Jesus, Buda, Hitler ou Rael. Não estou aqui generalizando. Notem que botei meus Mestres mais queridos ao lado de verdadeiros FDPs. Isso porque as mesmas pessoas que dizem seguir os primeiros estão mais afinadas espiritualmente com os últimos. Meditem e verão que esses “sepulcros caiados” existem em toda parte.

Por isso estou mais pra Nietzsche quando diz, através de Zaratustra: “Vocês ainda não procuraram em vocês mesmos: por isso me encontraram”. Destruam seus líderes de barro, seus novos bezerros de ouro. Assumam suas atitudes, tenham coragem de ser vocês mesmos. Os ensinamentos de Jesus, de Buda, do Alcorão, da Torah e dos Vedas são carregados de coisas boas que DEVEM ser aplicadas em nós mesmos. E por que não aplicamos? Porque é muito mais fácil dizer pra uma outra pessoa que ela está errada do que reconhecer nosso próprio erro. Daí usar os Mestres ou os Escritos Sagrados como escudo ou muleta.

Os espíritos inferiores até hoje fazem escárnio dos cristãos quando dizem “seu líder morreu no meio de ladrões. Sequer teve poder pra se salvar”. Pobres estúpidos que desconhecem a trajetória de Jesus… que glória quereria na morte um homem que nasceu em Nazaré, filho de carpinteiro, que vivia com pescadores e prostitutas, curava leprosos, não tinha uma casa pra morar, dava todo o dinheiro que recebia de doações para comprar alimento para os pobres, e que pregava sempre a humildade, a fraternidade e o perdão? Que autoridade um homem desse teria se na hora de ser preso pelos romanos uma legião de anjos viesse e o arrebatasse para os Céus, e ele dissesse pra os apóstolos: “Tchau, pessoal! Agora aguentem alguns séculos de perseguição e morte em meu nome, ok?”

Dar o testemunho é condição sine qua non para ascender ao Reino (que é um Reino interno, e não externo a nós, com muros separando os bons dos maus).

Referência:
Islamismo e guerra santa (Mateus Soares de Azevedo)

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