MEUS CAROS AMIGOS…

2013 assistiu ao despertar do gigante adormecido. Assistiu também ele bocejar, virar pro lado e voltar a dormir.

MEUS CAROS AMIGOS... Gigante adormecido

Também tivemos o fato trágico da morte de grandes compositores da MPB. Reginaldo Rossi, Chorão, esses vão permanecer vivos nos corações dos fãs, mas a pior perda para a MPB foi mesmo a morte do maior de todos eles: Chico Buarque de Hollanda, esse gênio da letra e verso, que conseguia não apenas fazer singelas crônicas caseiras carregadas de beleza como também contundentes críticas ao sistema.

O autor dos versos “Dormia a nossa pátria mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações“, tão atual e tão verdadeiro, morreu a pior morte, a morte biográfica, a morte em vida no momento em que assinou o abaixo-assinado em que pedia a liberdade de José Genoíno, o homem que, como presidente do PT assinou / ratificou uma das mais tenebrosas transações que este país já tomou conhecimento material e comprobatório (há outras, de outros partidos, que espero que sejam julgadas e condenadas mas que não tornam, de forma alguma, menor está transação que, como já falou Marcos Valério, é muito maior do que os olhos da Justiça alcançam).

“Ao lembrar
Que aqui passaram sambas imortais
Que aqui sangraram pelos nossos pés
Que aqui sambaram nossos ancestrais”.

Chico Buarque

O que será que o abolicionista Rui Barbosa acharia disso? Autor de frases marcantes, que definiam o espírito do seu tempo (e dos tempos vindouros), o que ele falaria dos nossos tempos? Imortal como é (ao contrário de quem morre em vida), podemos invocá-lo e consultá-lo pelo legado intelectual que deixou:

“De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.”

Rui Barbosa

O que pensaria ele das constantes investidas do PT em controlar a liberdade de imprensa por conta de supostos “abusos”?

“A especulação é no comércio uma necessidade; é nos abusos, uma inconveniência; mas entre as inconveniências dos abusos e a necessidade do uso, esta, em todos os casos dessa espécie a liberdade, que deve ser respeitada, porque se em nome de abusos possiveis nos quiserem tirar a liberdade do uso, talvez não nos deixem água para beber”.

Rui Barbosa

Liberdade, para as grandes almas, é um conceito absoluto. Para a maioria de nós, é relativo. Para os pequenos, liberdade é somente para os seus.

“O Sarney tem história no Brasil suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum.”

Luís Inácio Lula da Silva
MEUS CAROS AMIGOS...
Palmas pra ala dos barões famintos (E), o bloco dos napoleões retintos (D) e os pigmeus do boulevard (C)

Ao se auto-exilar em Paris, Chico Buarque procurou fora a liberdade que não tinha no seu país. Hoje a situação está aparentemente mudada, mas será que temos liberdade em seu conceito mais amplo? Novamente invoco o Imortal:

“Um povo cuja fé se petrificou, é um povo cuja liberdade se perdeu”.

Rui Barbosa

Há muita liberdade para ir ao futebol espancar rivais do outro time, se candidatar à política mesmo sendo um assassino ou ladrão, muita liberdade pra se divertir, beber, brincar. Mas nenhuma liberdade pra abrir um partido sério como o de Marina Silva, nenhuma liberdade pra o POVO influenciar as decisões da CASA DO POVO (o Congresso, caso não saibam), nenhuma liberdade de se manifestar por um aumento justo como o dos professores ou reivindicar reformas políticas de forma pacífica (destruir caixas eletrônicos e prédios públicos, por outro lado, pode). E se você acha que tem a liberdade de ir e vir neste país, bem, você tem até essa prerrogativa desde que não interfira no trabalho do 5º poder, que é o poder da bandidagem no Brasil. Se você deu a sorte de não ter todos os seus pertences roubados (ou mesmo assassinado sem reagir) no caminho pro trabalho, parabéns. Porque o poder da bandidagem é o maior poder de todos os constituídos nesse país e está se infiltrando na Imprensa e nas religiões!

O que fazer?

Pegando um velho slogan da Ditadura, “Brasil, ame-o ou deixe-o“, e seguindo o exemplo do Chico de outrora – quando ainda não fazia shows a 300 reais e não captava dinheiro (que-deveria-ser-público-mas-deixou-de-ser) pra traduzir seus livros pra coreano – me auto-exilei na França. Ao contrário do Chico, infelizmente não disponho de royalties, nem tenho uma família rica, mas vou ficando (e engrossando a estatística de desempregados na Europa) enquanto o dinheiro que juntei trabalhando e pagando impostos no Brasil der (ou enquanto não arranjar um emprego de garçom, pintor ou qualquer coisa assim, que já me daria muito mais qualidade de vida do que teria no Brasil). Mas nosso governo é tão gentil com quem procura fugir das misérias que ele próprio cria, que semana passada nos brindou com um presente de Natal para quem estuda, visita ou mora fora do país: o imposto para recarga do cartão de débito subiu de 0,38% para 6,38%. O motivo? Nenhum, a não ser aumentar a arrecadação de impostos pra R$ 552 milhões por ano e fazer o brasileiro pagar um NOVO imposto em cima do seu dinheiro que já foi taxado. Pra que? A resposta apareceu na mesma semana de natal, com o aumento auto-concedido pelos deputados de 7% na cota que eles religiosamente usam pra passagem de avião, aluguel de carros e tudo mais que eles possam roubar dos brasileiros. O custo anual será de R$ 16,086 milhões. O governo pode também usar esse dinheiro do imposto extra pra financiar desfiles de estilistas brasileiros ricos em Paris (desde que, claro, a imprensa não descubra) ou continuar levando escondido amantes em viagens pelo mundo.

A quem fica no Brasil, não se inquietem, vocês também poderão contribuir, pois está previsto aumento na carga tributária. Afinal, todos têm de contribuir com os custos elevados das infra-estruturas construídas para a Copa (que não ficarão prontas para a Copa) e ainda as da Olimpíada. As empreiteiras agradecem.

“Muita careta pra engolir a transação
E a gente tá engolindo cada sapo no caminho
E a gente vai se amando que, também, sem um carinho
Ninguém segura esse rojão”.

Chico Buarque

Um bom fim de ano a todos, e um feliz 2015 pra o Brasil, porque 2014 já está perdido mesmo

A todo o pessoal, adeus.

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