ÉTICA NO DIA-A-DIA

Eu sou um apreciador de humor negro, mas me vi escandalizado com a repercussão do caso do goleiro Bruno no Twitter. O nível foi do engraçado para o trágico e depois, para o grotesco. Como se, a cada revelação do caso, fosse ficando (pra essas pessoas) mais engraçado (o que definitivamente não era). O mais triste foi perceber que ao tirarem onda da desgraça da própria vítima as pessoas estavam corroborando a idéia do próprio assassino, de que ela (a vítima) era uma ninguém, descartável, desprezível. E que sua vida era algo a ser “resolvido”.

Pensei: por que isso? Sempre pensamos “por que isso?” quando vemos algo que nos choca, e a mídia foi atrás dos motivos psicológicos pro assassinato e vaticinou que Bruno era um psicopata. Mas, nesse caso, em vez de me perguntar “por que isso?” em relação ao assassinato, me vi questionando isso sim os motivos da sociedade. Muito fácil rotular alguém de psicopata e depois ficar tirando onda com a desgraça alheia, como se isso já não fosse um indício de psicopatia. O Dexter provavelmente acharia tudo isso maravilhoso.

Talvez esteja ficando velho e “moralista”, mas já perceberam como cada vez mais essa palavrinha “moralista” vai se tornando um palavrão? É usada pra tudo. Falta pouco pra justificar crimes: “eu o matei porque esse moralistazinho não quis participar do nosso esquema”.

Semana passada o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, defendeu que o Brasil amplie as relações com a Guiné Equatorial, país acusado de graves violações de direitos humanos, argumentando que “negócios são negócios”. Amorim disse que essa aproximação, que exige padrões mínimos de democracia, “vai ajudar que estas práticas que nós apreciamos sejam também adotadas pelos outros”. Para o ministro o exemplo “tem muito mais força que a pregação moralista”. SÉRIO? Qual o exemplo que o Brasil tem pra mostrar? A corrupção do Congresso? A prática de nepotismo pelo presidente do Senado? Ou os grandes exemplos de Lula e seu “partido da ética e da moral”? Nossa aproximação na esfera diplomática tem sido SISTEMATICAMENTE com países ditatoriais, cujo povo é massacrado e a mídia silenciada, e a única vez que nosso país levantou a voz pra criticar outro foi na crise que tivemos foi com Honduras, que estava tão-somente cumprindo a CONSTITUIÇÃO de seu país.

“Se imaginais que, matando homens, evitareis que alguém vos repreenda a má vida, estais enganados; essa não é uma forma de libertação, nem é inteiramente eficaz, nem honrosa; esta outra, sim, é mais honrosa e mais fácil: em vez de tampar a boca dos outros, preparar-se para ser o melhor possível”.

Palavras atribuídas a Sócrates por Platão, ao final do seu julgamento

Vemos a Lei da Ficha Limpa, que só foi aprovada devido a uma rara pressão popular, e agora políticos de todas as legendas lutam pra derrubá-la, em particular o Bob Jefferson, que não tem a menor vergonha de expor isso no Twitter e ainda chamar a lei de “Fascista”, quando na verdade a deturpação fascista está justamente em tentar, através de malabarismos jurídicos, convencer magistrados de que uma lei moralizante é inconstitucional. Ou ainda pior, querer criar uma Lei imoral pra proteger criminosos, como fez Silvio Berlusconi agora, na Itália.

Não me digam que estou falando de novo em política. Embora esteja, estou tratando, em última instância, de ÉTICA. De que adianta estudarmos Filosofia, Religião Comparada, desconstruirmos a essência dos valores das mais diversas culturas, agregar a sabedoria de milênios e, no dia-a-dia, ignorar tudo que é correto e agir como a massa ignorante, premiando corruptos e agindo guiado pelo próprio umbigo? Cadê os brios de nosso povo? Cadê a indignação que conseguem sentir por Dunga, ou por Galvão Bueno, mas não pelos que tratam como lixo nossos valores mais básicos de humanidade? Por que o desprezo pelas leis que nosso líder máximo sente não repercute no judiciário, nos jornais, na boca do povo, como ocorre com um crime bárbaro? Por que um crime ainda é UM crime, mas o incentivo ao crime – somado ao descaso pelas leis – vindo de quem detém o poder é muito, mas MUITO mais perigoso, pois é um berço e um incentivo para milhares de futuros criminosos que crescerão em um país que sofre de um vazio ético, SEM EDUCAÇÃO, com o núcleo familiar cada vez mais destruído pela violência, miséria e cultura de massa que prega o hedonismo e a “lei do cão”. O que podemos esperar pra o futuro? Só temos em nossa “agenda de compromissos” do país a Copa 2014 e as Olimpíadas? É apenas isso que almejamos, que planejamos a longo prazo?

Esse caso Bruno só ganhou repercussão porque envolve um jogador de futebol famoso, e não exatamente por conta da violência chocante, já que só se soube dos detalhes escabrosos bem depois. Muitos casos aconteceram no mesmo período, e mais estão acontecendo enquanto falamos. No Brasil, 10 mulheres são mortas ao dia em violência doméstica, e isso eu fiquei sabendo através da CNN internacional, através de um link mandado por um colega norte-americano (o que me deixa com mais vergonha ainda). Será que nós temos de compactuar com isso, através da nossa indiferença e silêncio?

Aposto que Sodoma e Gomorra eram muito mais tranquilas que muitas cidades do nosso país. Os anjos não teriam a menor chance se viessem parar por engano numa “festinha” de nossos jogadores de futebol.

Um pouco de Ética

A reflexão ético-filosófica de Platão se baseia na pergunta de Sócrates: “Como eu devo viver?“, em relação a pólis (cidade, sociedade). A resposta se baseia na Idéia do Bem. A verdadeira “felicidade”, segundo as reflexões ético-políticas dos livros centrais de “A República“, reside na forma de existência consagrada ao conhecimento do Bem. Este ideal filosófico, portanto, seria o verdadeiro ideal humano do viver, no sentido de “assemelhar-se a Deus enquanto é possível”. E tal se dá através do equilíbrio, que Platão chama, em seu livro / diálogo “Político“, de justa medida ou proporção (pros to metrion). A medida é algo que pode aplicar-se a tudo que admite excesso ou defeito; ela é, em certo sentido, absoluta, pois responde ao que exige a essência de cada coisa: cada coisa exige por sua essência determinadas qualidades em determinado grau, e é o excesso ou defeito em relação a esta medida o que determina o que está bem ou mal nas coisas. Se a Idéia do Bem representa a objetivação no plano metafísico do sumo valor, a justa medida representa uma objetivação semelhante no plano concreto. Isto porque se supõe que esta justa medida é algo objetivo e plenamente determinado na ordem dos valores. A justa medida é o bem próprio de cada essência, e a justa medida para o homem consiste em realizar em todas as suas ações o bem que lhe corresponde por sua essência. É a mensuração do mais e do menos em relação ao justo meio, o que faz com que exista o bom e o mau. Ou seja, o bom é aquele que excede a justa medida para o bem (o bem incondicional), enquanto o justo está no equilíbrio, e o mau está sacaneando pessoas por aí. (hehehe)

“Não faça ao outro o que não queres que o outro faça a ti.”

Regra de ouro da Ética, compartilhada pelas mais diversas religiões

Cristo põe de forma pró-ativa a Lei de Ouro da Ética, dizendo:

“Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós a eles; porque esta é a lei e os profetas”.

Mateus 7:12

Nas diferentes correntes filosóficas, percebemos que existe um “bem supremo” a nortear os comportamento. Ele é o fim de todos os meios:
Para os eudemonistas, como Aristóteles, ele é a Felicidade.
Para os idealistas, é a Virtude: A finalidade última do homem está em ser bom, virtuoso, e não em ser feliz.
Para os hedonistas, é o Prazer (sensual, intelectual, artístico, etc).
Para os socráticos, é a Sabedoria.

OBS.: Há correntes mistas, como o Eudemonismo idealista (virtude é o meio, felicidade o fim) e Eudemonismo hedonista (o prazer é o meio).

Referência:
Ética e “Felicidade” em Platão e Aristóteles: semelhanças, tensões e convergências;
Resenhas de Babel – O ideal e o possível;
Ética: conceitos e classificações

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