ROMÊNIA E A VIOLÊNCIA

ROMÊNIA E A VIOLÊNCIA

O interessante de conhecer a Romênia é ver um país do Leste Europeu onde não só a população se parece com a nossa (tem o tal do “jeitinho romeno” de se virar como pode diante das dificuldades) como tem graves problemas sociais também. Eles estão divididos entre os “romenos Romenos” e os “romenos Rroms” (ciganos). A confusão se dá porque, embora nascidos na Romênia, o povo cigano que lá habita pertence à população “Rrom“, um povo à parte, ou seja, a comunidade cigana que compartilha de uma origem comum, que veio da Índia. Os ciganos estão espalhados pelo mundo e existem também na Hungria, Ucrânia e até no Brasil. Na Europa em geral (mais especialmente na França) há muitos ciganos que se especializam em bater carteira, e quem ganha a fama é o povo romeno em geral.

Os Rroms vieram muito tempo atrás pras bandas do Leste Europeu como escravos, vindo da Índia, e com o tempo foram adquirindo os traços locais, e por isso é meio difícil destingui-los. Isso criou um caso sociológico interessante em que, para se diferenciar por contraste, os “romenos romenos” usam cores sóbrias, quase não sorriem, são contidos, os homens quase não dançam, não cantam, assobiar uma melodia é quase um crime, enfim, tudo o que os diferencie dos ciganos (que são alegres e desinibidos como o povo brasileiro) e que, por contraste, pareça mais “civilizado”. Por outro lado, e isso a psicologia explica, os Romenos me parecem ter um certo fascínio pelas coisas alegres e bizarras de outros países, e pode-se ver isso nas decorações dos pubs, o lugar preferido deles. Assim, eles podem ter contato com a alegria sem necessariamente emaná-la.

Os ciganos são bem-vindos pra trabalhar para os romenos, mas não são bem aceitos para entrar numa família ou círculo de amizades (obviamente há exceções). Vários países da Europa têm sua dívida kármica com povos de outros países escravizados ou colonizados, mas o caso da Romênia é talvez o mais próximo do Brasil. A complexa relação com os ciganos é similar (em parte) ao que acontece no Brasil entre a “elite branca” e os negros, só que no Brasil isso acontece de forma terrivelmente dissimulada, enquanto na Romênia é mais escancarada. Imagino a dificuldade dos ciganos e meio-ciganos que querem viver integrados em sua cidade e pra isso precisam “se controlar”, se anular culturalmente, para assim se passar por um “romeno romeno”. Isso me fez refletir sobre as dificuldades dos negros que queiram “entrar” num certo círculo social, pois não podem “esconder” sua cor, e (conscientemente ou inconscientemente) acabam cortando (ou alisando) o cabelo, vestindo roupas e abraçando costumes que normalmente não fariam parte de seu convívio / cultura.

Tergiverso. Não é preciso sair do país pra ver isso. O que eu queria mesmo é comparar a violência (ou a falta de violência) na capital da Romênia com o Brasil. Conheço uma pessoa da Romênia que pode falar com certa autoridade: não há armas de fogo em Bucareste. Não há crimes com armas.

Há alguns grupos de malfeitores que utilizam facas, pistola de ar comprimido e até mesmo espadas(!), mas eles não ficam assaltando supermercados e pessoas nas ruas, e são raríssimos, funcionando mais como a Yakuza no Japão. Mesmo com essa sociedade desigual, onde há pobreza, discriminação, mendicância, tráfico de drogas e todos os ingredientes que temos no Brasil, não há gente sendo assaltada e assassinada nas ruas, e ele me disse que se isso acontecesse seria um escândalo na TV e jornais.

Então eu me pergunto: por que no Brasil aceitamos a violência nossa de cada dia, equivalente a um país em guerra, um “Charlie Hebdo” a cada fim-se-semana, com essa passividade bovina a ponto disso nem ter sido um assunto a ser debatido na campanha presidencial?? Foram 53.646 mortes violentas no Brasil em 2013 – 11% dos homicídios no mundo ocorrem no país, que tem menos de 3% da população mundial!

O argumento de que a violência é resultado da desigualdade social e por isso não pode ser combatida enquanto ela existir cai por terra diante do que estou vendo com meus próprios olhos!

Então vamos procurar outra explicação sociológica: Seria o alto grau de violência resultado da malemolência e corrupção do brasileiro? Pois na Romênia passaram governos EXTREMAMENTE corruptos, ditadores cruéis, e a grande maioria dos romenos aparecem até hoje nas estatísticas como recebedores de salário mínimo porque eles sonegam impostos. E isso não impediu o judiciário de lá de botar na cadeia um ex-presidente (EX-PRESIDENTE NA CADEIA) porque ele não pôde justificar a compra de uma janela (JANELA) que custava mais do que sua renda permitia!

Tudo passa por QUERER. Querer uma força-tarefa de combate ao crime, integrada, federal, eliminando de seus quadros os policiais corruptos. Querer um judiciário verdadeiramente independente, sem estar atrelado aos políticos e politicagens. Cabe também ao POVO querer segurança nas ruas a ponto de que isto seja tão importante quanto o ar que respiramos. A ponto de cruzar os braços e fazer greve geral. A ponto de não eleger quem não faz da reforma da segurança uma prioridade.

Quando eu falo dos políticos corruptos que são condenados e saem da cadeia (ou nem pisam lá) por conta de habeas corpus e falta de antecedentes meu amigo fica horrorizado e me questionando do porque a imprensa não fala disso, do porque do povo não sai às ruas, e graças a Deus alguém me entende, porque no Brasil a maioria vê o roubo de dinheiro do país como um mal menor a ponto de reeleger um partido cuja cúpula foi condenada por desviar dinheiro público! Isso seria impensável na Romênia, e me causa muita vergonha porque estamos falando de um país que saiu do inferno comunista há apenas 30 anos, tem invernos terríveis, terremotos devastadores a cada 35 anos, crises econômicas e uma moeda desvalorizada em relação ao Euro contra um gigante adormecido da América do Sul onde, se plantando, tudo dá.

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