JUNG: TRATAMENTO DA IDENTIFICAÇÃO COM O COLETIVO

Por Carl Gustav Jung (comentários meus)

Para resolver o problema de como livrar o indivíduo da identificação com a Psique Coletiva no tratamento prático, devemos perceber quais são os erros dos dois caminhos outrora referidos. Vimos que nenhum deles leva a um resultado positivo. O primeiro caminho reconduz simplesmente ao ponto de partida, com a perda dos valores vitais inerentes à Psique Coletiva. O segundo conduz diretamente ao âmago da Psique Coletiva, com a consequente perda da existência humana particular; no entanto só esta é capaz de oferecer a possibilidade de uma vida suportável e satisfatória. Em ambos os caminhos, porém, há valores imprescindíveis, de que o indivíduo não pode abrir mão.

A falha, portanto, não reside nem na Psique Coletiva, nem na Psique Individual, mas no fato de permitir-se que uma exclua a outra. Tal inclinação vem ao encontro da tendência monista, que sempre e em toda parte rastreia apenas um único princípio. O monismo, como tendência psicológica geral, é uma particularidade do sentir e pensar cultural e corresponde ao impulso de proclamar uma ou outra função como princípio psicológico supremo. O tipo introvertido conhece unicamente o princípio do pensamento e o tipo extrovertido somente o princípio do sentir. Este monismo psicológico tem a vantagem da simplicidade e o inconveniente da unilateralidade. Significa, por um lado, a exclusão da pluralidade e da verdadeira riqueza da vida e do mundo; mas por outro lado representa a viabilidade dos ideais do nosso presente e do passado recente. Não significa, porém, uma verdadeira possibilidade de crescimento humano. Da mesma forma, o racionalismo responde à tendência exclusivista. Sua essência consiste no fato de excluir taxativamente o oposto a seu ponto de vista, seja ele lógico-intelectual ou lógico-sentimental. Ele é, no que concerne à ratio, ao mesmo tempo monista e autocrático. Devemos agradecer especialmente a Bergson sua defesa do irracional, concedendo-lhe o direito de existência. A psicologia terá que adaptar-se ao reconhecimento de um pluralismo de princípio, embora isso não agrade muito ao espírito científico. Este é o único caminho que evitará o impasse da psicologia.

Em consideração à psicologia individual, a ciência terá até mesmo que renunciar a si própria. Falar de uma psicologia individual científica é uma contradictio in adjecto. Apenas a parcela coletiva de uma psicologia individual pode ser objeto da ciência, pois o indivíduo é, por definição, único e sem igual. Um psicólogo que pratique “cientificamente” a análise individual trai a psicologia individual. Dele se suspeita, com justa razão, que a psicologia individual que pratica seja a sua própria psicologia. Toda psicologia individual deve ter seu próprio manual, pois o manual geral contém apenas a psicologia coletiva.

Com essas observações, pretendi preparar o terreno para as considerações acerca do tratamento do problema que nos ocupa. O erro fundamental dos dois caminhos mencionados é o fato do indivíduo identificar-se com um ou outro aspecto de sua psicologia. Esta, porém, é tanto individual como coletiva; entretanto nem o individual pode ser dissolvido no coletivo, nem o coletivo no individual. A Persona deve ser estritamente separada do conceito do indivíduo, porquanto pode ser totalmente dissolvida no coletivo. O individual, porém, é justamente a instância que jamais pode desfazer-se no coletivo, não podendo identificar-se com ele. Por isso uma identificação com o coletivo ou uma voluntária ruptura com este último significa doença.

A alma humana é tanto individual quanto coletiva e que o seu crescimento só é possível se estes dois lados aparentemente contraditórios chegarem a uma cooperação natural. No âmbito da pura vida instintiva, tal conflito obviamente não existe, pois na postura natural inconsciente já reside a harmonia. O corpo e suas capacidades e necessidades proporcionam espontaneamente aquelas determinações e limitações que impedem a desmedida e a desproporção. A individualidade espiritual baseia-se no corpo e jamais poderá realizar-se se os direitos do corpo não forem reconhecidos. Inversamente, o corpo também não pode desenvolver-se se a singularidade espiritual não for reconhecida. Permitam-me usar uma imagem curiosa para ilustrar as saídas que resolveriam o nosso problema: é a do burro de Buridan entre dois feixes de capim. Sua perplexidade é falsa: nem o feixe da direita, nem o da esquerda seriam a melhor opção para começar a comer. O importante era aquilo que o impelia e para onde, esse era o problema. Ele, porém, deixou que o objeto decidisse.

A questão propõe-se do seguinte modo: o que, para este indivíduo, e neste dado momento, surge como um progresso à altura da vida? Isto não pode ser respondido por nenhuma ciência, por nenhuma sabedoria de vida, por nenhuma religião, por nenhum bom conselho, mas só pela consideração absolutamente sem preconceitos da semente de vida psicológica que se expande da cooperação natural do consciente e do inconsciente, por um lado, e do individual e coletivo, por outro. Onde encontramos esta semente de vida? Alguns a procuram no consciente, outros no inconsciente. O consciente, porém, é apenas um aspecto, e o inconsciente, outro.

Encontramos na fantasia criadora a função unitiva que estamos buscando. Nela fluem conjuntamente os elementos atuantes que se oferecem. A fantasia, entretanto, goza de má reputação entre os psicólogos. As teorias psicanalíticas, até o momento, não a levaram em conta. Para Freud, bem como para Adler, a fantasia não é mais do que um véu “simbólico” que dissimula as tendências ou impulsos primitivos, pressupostos por ambos os investigadores. Mas a fantasia tem, em si mesma, um valor irredutível enquanto função psíquica, cujas raízes mergulham tanto nos conteúdos conscientes como nos inconscientes, e tanto no coletivo como no individual. Mas de onde adveio sua má reputação? Antes de mais nada, da circunstância de que ela não pode ser tomada ao pé da letra. Se ela for compreendida concretamente, é carente de valor. Se for compreendida, como queria Freud, semanticamente, é interessante do ponto de vista científico; mas se a compreendermos como um verdadeiro símbolo hermenêutico, então ela nos apontará a direção necessária para conduzir nossa vida em harmonia com nosso ser mais profundo. O sentido do símbolo não é o de um sinal que oculta algo de geralmente conhecido, mas é a tentativa de elucidar mediante a analogia alguma coisa ainda totalmente desconhecida e em processo.

A essência da hermenêutica consiste em enfileirar analogias depois de analogias, a partir de um símbolo dado. Em primeiro lugar analogias subjetivas, dadas pelo paciente, e depois analogias objetivas, oferecidas pelo analista. Através desse processo, o símbolo inicial é ampliado e enriquecido. Teremos, então, configuradas certas linhas do desenvolvimento psicológico, de natureza individual e coletiva. O tratamento conduz, assim, à síntese do indivíduo com a Psique Coletiva. Mas é indispensável ao paciente a seriedade e sinceridade consigo mesmo, para dar ao analista subsídios verdadeiros para que se faça o caminho para o inconsciente. Se ele se esquivar, iludindo-se ou achando que apenas “analisar” é o suficiente para remover a neurose, a cura se torna impossível.

Toda verdade é sinuosa.

Friedrich Nietzsche

Como já mencionei, o elemento individual aparece em primeiro lugar na escolha especial daqueles elementos da Psique Coletiva que servem para a composição da Persona. Também dissemos que os seus componentes não são individuais, mas coletivos; no entanto, a sua combinação ou a escolha de um grupo já configurado (de um modelo) é individual. Este seria o cerne individual, encoberto pela máscara pessoal. Na diferenciação particular da Persona revela-se a resistência da individualidade contra a Psique Coletiva. Através da análise da Persona damos maior valor à individualidade e aumentamos assim seu conflito com a coletividade. Tal conflito é naturalmente uma contradição psicológica no sujeito. Numa vida puramente natural e inconsciente tal conflito não existe, uma vez que lhe bastam as exigências da vida meramente fisiológica e coletiva. Uma Função Psicológica diferenciada, porém, tem sempre uma tendência à desproporção devido à sua unilateralidade.

INDIVIDUAÇÃO

A individualidade assim chamada espiritual é também uma expressão da corporalidade do indivíduo; ambas são, por assim dizer, idênticas. Se por um lado o corpo é algo que torna os indivíduos semelhantes em alto grau, por outro, o corpo individual distingue um indivíduo de todos os demais. Da mesma forma, a individualidade espiritual ou moral diferencia uns dos outros, por um lado, mas se caracteriza também pelo fato de torná-los semelhantes.

A Persona é sempre idêntica a uma atitude típica, em que domina uma das funções psicológicas: o pensar, o sentir, a intuição, etc. Tal unilateralidade condiciona uma repressão relativa das outras funções. Em consequência disso a Persona é um obstáculo ao desenvolvimento individual. A dissolução da Persona é, portanto, uma condição indispensável da individuação. É impossível também que a individuação se processe mediante uma intenção consciente, pois esta conduz a uma atitude típica que exclui tudo o que não é apropriado a ela. A assimilação dos conteúdos inconscientes leva, pelo contrário, a um estado em que a intencionalidade consciente é excluída e substituída por um processo de desenvolvimento que se nos afigura irracional. Só este processo conduz à individuação; seu produto é a individualidade tal como acima a definimos: única e ao mesmo tempo geral. Enquanto existir a Persona, a individualidade é reprimida e se manifesta, no máximo, na escolha das características pessoais, por assim dizer pelo traje do ator. Só com a assimilação do inconsciente a individualidade emerge e se evidencia através daquele fenômeno psicológico de ligação entre o eu e o não-eu; é isto que chamamos de posição, não mais típica mas autêntica posição individual.

O paradoxo desta formulação provém da mesma raiz da qual se originou outrora o conflito universal. O “real” existente é o singular, o qual é psicologicamente existente, embora repouse nas semelhanças real-existentes das coisas singulares. Assim, o indivíduo é a coisa singular que numa proporção maior ou menor detém aquelas qualidades sobre as quais se baseia o conceito da “coletividade”; quanto mais individual ele for, tanto mais desenvolverá as qualidades que estão à base do conceito coletivo do ser-homem.

BEM-VINDO AO DESERTO DO REAL

Temos que nos haver com alguns conceitos básicos: em primeiro lugar, com o conceito do mundo real. Este deve ser entendido, de um modo geral, como aquele conteúdo de consciência constituído, por um lado, pela imagem do mundo mediada pela percepção, e por outro, mediada pelo sentimento e pensamento conscientes.

Prossigamos na consideração do Inconsciente Coletivo. Este é constituído pelas percepções inconscientes dos processos reais exteriores, por um lado, e por outro por todos os resíduos das funções de percepção e adaptação filogenéticas. Uma reconstrução da imagem do mundo inconsciente resultaria numa imagem mostrando a realidade exterior, tal como sempre foi vista. O inconsciente coletivo contém, ou melhor, é uma imagem especular do mundo. De certo modo é um mundo, mas um mundo de imagens.

O mundo da consciência é coletivo numa ampla medida, tal como o mundo do inconsciente. Estas duas esferas da psique configuram conjuntamente a Psique Coletiva no indivíduo. O indivíduo coloca-se, de certa forma, no meio, entre a parte consciente e a parte inconsciente da Psique Coletiva. O indivíduo é, por assim dizer, a superfície do espelho, na qual o mundo da consciência pode ver refletida sua imagem histórica inconsciente, da mesma forma que, no dizer de Schopenhauer, o intelecto coloca o espelho diante da vontade. Nesta arquitetônica o indivíduo seria um ponto ou uma linha divisória, nem consciente nem inconsciente, ou melhor, ambas as coisas, algo de consciente e de inconsciente.

“Porque agora vemos como por espelho, em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei plenamente, como também sou plenamente conhecido”.

Paulo de Tarso; 1 Coríntios 13:12

Esta natureza paradoxal do indivíduo psicológico contrapõe-se à natureza da Persona. Esta é universalmente consciente, ou pelo menos, capaz de consciência. É uma forma de compromisso entre a realidade exterior e o indivíduo. Corresponde, pois, na totalidade da sua essência a uma função de adaptação do indivíduo ao mundo real. A Persona coloca-se, por conseguinte, entre o mundo real e a individualidade.

Além da individualidade, que parece ser o âmago da consciência do eu e do inconsciente, encontramos o inconsciente coletivo. O lugar correspondente à Persona, entre o inconsciente individual e o coletivo, se nos afigura vazio. A experiência ensinou-me, porém, que lá também há uma espécie de Persona, de caráter compensatório, que poderíamos chamar de Anima (no homem) e Animus (na mulher). Seria uma forma de compromisso inconsciente entre o indivíduo e o mundo inconsciente, ou melhor, o mundo das imagens históricas ou primordiais. Frequentemente deparamos com a Anima / Animus nos sonhos, onde se apresenta ao homem como um ser feminino, e na mulher, masculino. Encontramos uma boa descrição dessa figura na Imago de Spitteler; em seu poema Prometeu e Epimeteu ela aparece como a alma de Prometeu, e em Primavera Olímpica, como a alma de Zeus.

Na medida em que o eu se identifica com a Persona, a anima se projeta nos objetos reais que nos cercam, como tudo o que é inconsciente. Por isso a Anima é geralmente encontrada na mulher que se ama. Podemos reconhecer facilmente tal fato nas expressões amorosas. Neste particular os poetas também contribuíram com um farto material de provas. Quanto mais normal o sujeito, menos aparecem as qualidades demoníacas da anima nos objetos de seu círculo mais próximo. Essa projeção recai sobre pessoas estranhas, como que para evitar o perigo de uma perturbação imediata. Mas quanto mais sensitivo for o sujeito, tanto mais se aproximam as projeções demoníacas, a ponto de romperem o próprio tabu familiar, dando origem aos típicos romances neuróticos familiares.

Quando o eu se identifica com a Persona, o centro individual jaz no inconsciente. Ele torna-se como que idêntico ao inconsciente coletivo, porquanto toda personalidade é por assim dizer apenas coletiva. Em tais casos há sempre uma intensa força de sucção rumo ao inconsciente e ao mesmo tempo uma fortíssima resistência consciente contra isso, manifestando-se um medo da destruição dos ideais conscientes. Há casos – pude constatá-los principalmente entre artistas ou naturezas exaltadas – cujo eu não se localiza na Persona (enquanto relação com o mundo real), mas muito mais na Anima (enquanto relação com o Inconsciente Coletivo). Neste caso, indivíduo e Persona são inconscientes.

O Inconsciente Coletivo constitui uma parte da consciência, ao passo que uma grande parte do mundo real configura um conteúdo inconsciente. Tais pessoas sentem um medo demoníaco diante da realidade, que corresponde àquele que o homem comum experimenta diante do inconsciente.

Referência:
Jung e o Ocultismo na grande mídia (Arquétipos, Anima, Animus, Casamento alquímico, etc)

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