HISTÓRIA DA GAMEMUSIC (parte 1)

Descubra quais foram os primeiros sons emitidos por um jogo, as melhores trilhas sonoras da história dos videogames e seus melhores compositores.

Como qualquer diretor de filmes sabe, a música é responsável por passar 50% da emoção da tela para o público. Que o diga Steven Spielberg, que chegou a reeditar o filme “Contatos Imediatos do 3º grau” apenas para dar mais espaço para a música, numa inversão de prioridades pouco comum no cinema. Mas alguém consegue imaginar o filme “Tubarão” sem a musica-tema de John Williams?

Da mesma forma que no cinema, nos videogames o som e a música também são responsáveis por grande parte da emoção (ou não) de uma partida. Quando falamos em Super Mario, a primeira coisa que lembramos (além da imagem do encanador de vermelho) é o tema “Tan Tan Tan tanã-tã“!

Mas esse reconhecimento nem sempre esteve presente no mundo dos videogames. Executivos engravatados não são exatamente apreciadores da arte, mas suas decisões podem influir decisivamente no que vamos ver e ouvir nos jogos. Somente no final dos anos 90 foi que a profissão de músico de videogame adquiriu um status de “pop-star” em todo o mundo, em parte devido às vendas astronômicas de CDs com as trilhas sonoras dos jogos e em parte devido aos fãs de dois compositores: Nobuo Uematsu e Yuzo Koshiro.

Vamos agora penetrar neste mundo fascinante da gamemusic, desde suas origens, quando não existia sequer capacidade técnica para se fazer músicas: apenas som.

O INÍCIO

Quando Nolan Bushnell criou um dos primeiros videogames comerciais (e o primeiro fliperama) de todos os tempos – Pong (1972) – o som se reduzia a um mero “plic” que acompanhava cada batida da bola (na verdade um quadrado branco) nas raquetes (dois retângulos). Três anos depois, a empresa de games Taito cria Gunfight (1975), um fliperama onde se podia ouvir os disparos.

O primeiro videogame a incorporar efeitos de som e uma “trilha sonora” foi o célebre Atari 2600, de 1977, com seus dois canais de áudio. Decerto era tudo muito primitivo, já que estávamos na Idade da pedra dos videogames, mas em jogos como Asteroids (1979) já havia disparos, explosões e um rítmico “tic-tic” que acompanhava os movimentos dos inimigos. O único jogo de Atari que eu lembro que tem uma música que acompanha toda a fase é Bobby is going home:

Bobby is going home (1983)

Um outro jogo de Atari, Gyruss, usa a música de Bach Toccata e Fuga em D menor:

Gyruss for the Atari 2600 (1984)

Em 1979 (80 nos EUA) surge o primeiro grande ícone dos videogames e da década de 80: Pac Man (ou “Come-come”). Sua revolução abrangeu todas as áreas da cultura de massa, e isso incluiu os efeitos sonoros e a música de entrada – primitiva mas atraente – que até hoje é facilmente reconhecida por quem jogou (ou ouviu jogar), cortesia de Shigeichi Ishimura e Toshio Kai. O músico Aphex Twin até pegou esses sons pra fazer tributo musical ao personagem:

Aphex Twin – Power Pill (com sons de Pac Man)

De um ponto de vista puramente técnico, o verdadeiro passo à frente em termos de som foi dado em 1981 com Tempest, um jogo de fliperama da empresa Atari que incorporava dois chips especialmente para o som (apelidados de “Pokey“), gerando assim oito canais de som simultâneos, mas ironicamente não tinha música de fundo.

Ainda neste ano surge o grande sucesso da Nintendo nos arcades, o Donkey Kong, onde jogamos pela primeira vez com o personagem Mario. A música não é lá essas coisas, mas possui uma curiosidade: foi feita pelo próprio criador do jogo, o então iniciante Shigeru Miyamoto, num pequeno teclado eletrônico.

Shigeru Miyamoto – Tema de Donkey Kong

COMMODORE 64 (C64)

Em 1982 é lançado aquele que, segundo o Guinness, é o computador pessoal mais vendido de todos os tempos: Commodore 64 (C64). Foi o primeiro sistema doméstico a incorporar um chip de som, o 6581 SID (Sound Interface System), muito avançado para a sua época, com 3 canais que dispunham de vários filtros e moduladores. O som era o mesmo dos sintetizadores de sua época, e funcionava por meio de síntese subtrativa, onde o chip converte os impulsos elétricos em ondas de som analógicas. Isso alavancou novas possibilidades sonoras que foram intensamente exploradas por gênios musicais como Rob Hubbard (Monty On the Run, Commando), Martin Galway (Rambo II, Ocean Loader) e Chris Hülsbeck (Great Giana Sisters). Tais compositores são verdadeiras lendas na comunidade nerd (micreiros, especialmente) mais velha e continuam trabalhando (de alguma forma) na indústria até os dias de hoje. Interessante notar como a música é fortemente influenciada pelo rock progressivo, com loooongas introduções e muita ambientação, mesmo que o hardware não favoreça.

Martin Galway – Parallax Title Theme (C64 music, Oscilloscope view) 1986
Martin Galway – Parallax Title Theme (1997 Remix)
Chris Hüelsbeck – To be on Top (1987)
Chris Hüelsbeck – To be on Top (1992 Remix)
Rob Hubbard – Chain reaction (1987)
Martin Galway – Comic Bakery (1984)
Martin Galway – Comic Bakery (Allister Brimble 2016 remix)
Martin Galway – Rambo: First Blood Part 2 (Chris Abbott 1997 Remix)
Chris Hülsbeck – R-Type Smooth Acid Mix (Arranjada e remixada por Putzi. Simplesmente hipnótica!)

Mas nem só de música experimental e distorções vivia o C64. Com Tim Folley temos o espírito das músicas do Atari e da influência japonesa (com o Nintendinho), que acabou por contaminar outros compositores do mesmo sistema:

Tim Follin – Bionic Commando (1987)
Tim Follin – Sky shark (1987)
Rob Hubbard – Delta (1987)
Rob Hubbard – Delta 97 (Chronological Mix by Chris Abbott & Rob Hubbard)

PERFIL DOS GRANDES COMPOSITORES

Rob Hubbard

Rob Hubbard começou programando em linguagem BASIC um software educacional para o C64. Como não conseguia vendê-los, resolveu programar um jogo pra uma companhia que acabou falindo. As pessoas que o viram disseram que “os gráficos são bons, o jogo é ruim, a música é excelente”, e assim ele decidiu fazer apenas a música e o sons dos games. Foi influenciado por Jean Michel Jarre, Synergy e outras bandas “synth” da época. Suas composições favoritas (de sua criação) são Sanxion, Kentilla, Crazy Comets e WAR. Devido a falta de editores musicais no C64, tinha de “esculpir” suas músicas direto no código-fonte. Com o know-how adquirido, Hubbard acabou por se destacar na área musical de qualquer plataforma de game. Nos anos 90 fez músicas para a maioria dos jogos de esporte da Electronic Arts, mas se destacou mesmo na trilha sonora de Road Rash e sua continuação, com um rock cheio de distorção e solos de guitarra. Tornou-se depois Diretor Técnico de Áudio da Electronic Arts.

Chris Hülsbeck

Compositor alemão extremamente talentoso e prolífico, começou a carreira musical aos 17 anos, quando entrou num concurso de música da revista alemã 64’er , levando o primeiro prêmio com a sua composição Shades. Escreveu trilhas sonoras para mais de 70 títulos, e muitas de suas partituras para o Commodore 64 são consideradas clássicas entre os entusiastas de gamemusic, principalmente o jogo The Great Giana Sisters. Entretanto, ele é mais conhecido pelas trilhas sonoras da série de jogos Turrican, mais recente.

Suas músicas foram tocadas ao vivo por orquestras na Europa entre 2003 e 2008, em concertos tais como o Symphonic Shades, dedicado exclusivamente à sua obra.

INFLUÊNCIAS

Os compositores ocidentais do início da era dos jogos eletrônicos foram fortemente influenciados tanto pelo rock progressivo (especialmente Rick Wakeman) como no som espacial de Jean Michel Jarre e o Europop. Esse tipo de som se tornou uma característica marcante do C64, já que depois disso os japoneses ditaram a forma de se fazer música pra jogos com o Nintendo.

Jean Michel Jarre – Zoolook (1984). Hubbard praticamente clonou esta música no jogo Chain Reaction, de 1987.

Martin Galway já admitiu que, um pouco antes de trabalhar em Parallax, ele estava ouvindo diariamente o álbum Rendez-vous, de Jarre. Mas seu tocador quebrou e não foi consertado por 2 meses, durante o qual fez a introdução de Parallax – seu trabalho mais cultuado – sem perceber o quanto a música de Rendez-vous estava invadindo seu trabalho. Pessoalmente, acho a estrutura da música muito mais parecida com The Overture. Confiram abaixo:

Jean Michel Jarre – The Overture (1982)

Os solos virtuosos e o som característico e criativo de Rick Wakeman parecem ter exercido uma profunda influência em Chris Hülsbeck, que usa muito pouco o recurso do refrão e usa e abusa de vários pequenos temas (cues) na mesma música, tornando-a bastante diversificada. Apesar da música que abaixo ser mais recente que a dos games, ela ilustra muito bem o tipo de som que Wakeman já vinha fazendo desde os anos 70:

Rick Wakeman – Paint it black (1993)

História da gamemusic

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