EI, VOCÊ!

Lady Gaga, Britney Spears, Shakira, Christina Aguilera. Além de serem “cantoras” e loiras, qual a outra semelhança entre elas? Seus clipes, onde o sensual se confunde com o grotesco. Propositalmente.

A perversão do sexo não é algo novo; é tão velho quanto a humanidade, e segue a tendência do ser humano de perverter tudo. Boas idéias às vezes surgem disso, como duas mulheres besuntadas de óleo se agarrando num ringue de gel, mas a verdadeira perversão a que me refiro é a das IDÉIAS, conceitos, e não de posições ou preferências sexuais (então não adianta vir com bandeiras e defesa de movimentos, que não tem nada a ver com isso).

A gota d’água que me fez escrever isso foi o clipe da Christina Aguilera Not Myself Tonight. Eu estou longe (muito longe) de ser um puritano, e confesso que a experiência de ver a Christina de calcinha vermelha foi maravilhosa, mas o saldo geral que ficou foi triste, uma saturação de imagens e situações que eu preferia não ter tido, ainda mais vendo um videoclipe. O último clipe da Lady Gaga foi como uma visita ao inferno, com ela de guia turístico. Não era sexy, não era atraente, então qual o atrativo aqui? Perversão? É isso que estamos cultivando como valores visuais, sociais e de promoção? (não vou falar de moral aqui, afinal clipes não são aulas de moral e cívica). É inegável que o entretenimento em massa exerce uma influência considerável na sociedade, especialmente nas novas gerações. Somos irmãos mais novos da Madonna, da sua fase Vogue e Erotica, e hoje vemos ela ser imitada na cultura pop (algo que é publicamente reconhecido por todas essas cantoras listadas acima). Só que Madonna seguiu em frente: Ela teve fase sexy, espanhola, eletrônica, Wicca, mãe-de-família, disco, etc. A imagem que Madonna passa é de uma mulher completa, bem resolvida, que curtiu tudo o que tinha de curtir e pode assumir qualquer faceta de sua personalidade.

E hoje, o que cultuamos? Uma fração do que Madonna foi, e potencializamos isso ao ponto do grotesco. A imagem que passa para as mulheres (especialmente as novinhas, que estão em formação de caráter e são “amamentadas” pela mídia) é a de que pra se impor é preciso ser uma dominatrix, ou seja, transbordando sexo pelos poros e com uma postura excessivamente MASCULINA. ISSO é perversão. Se formos buscar isso em Madonna vamos achar sua fase andrógina, com várias posturas masculinizadas (demonstrações de “força” e “poder”) aqui e ali mas nunca uma caricatura como vemos hoje. Então não, isso não é uma homenagem à Madonna, isso não é uma libertação da mulher, na verdade isso não é nem uma mulher, e sim um subproduto grotesco da mídia que tem por trás o desejo de uma certa parcela dos produtores de conteúdo (que dominam o mundo da moda) de subtrair o verdadeiro poder e papel da mulher na sociedade.

Quando se diz o ditado “por trás de um grande homem tem sempre uma grande mulher” erroneamente se concebe um verdadeiro líder, viril, e uma mulher submissa e compreensiva que, com seu sacrifício, ajudou-o a estar ali. Quando crescemos e conhecemos a natureza feminina é que percebemos que ELA é quem o moldou (ou manipulou) para que ele chegasse ali (muitas vezes sem que ele o perceba). Seja como mãe, namorada, amiga ou esposa, a mulher é como um rio que, com sua força, marca a fundo a geografia masculina e nos irriga com vida e, às vezes, destruição. É uma potência divina, e como tal deve ser usada e dosada. Quando se PERVERTE essa energia (e não estou falando de sexo) estamos na verdade criando diques e desvios nesse rio que, sabemos, irão causar transtornos ao ecossistema e até mesmo a morte desse rio (e o Mar Morto é um exemplo dessa exploração errada).

Conheço adolescentes “criadas” por Britney Spears que acham legal se comportarem e se vestirem como prostitutas (embora não o sejam de fato). Numa fase onde a auto-afirmação é fator predominante e a personalidade está cristalizando, que tipo de gente estamos criando? Os japoneses são os reis da perversão. E são o exemplo mais pungente do sentido em que quero usar essa palavra. Primeiro, porque a sociedade CASTRA a sexualidade explícita japonesa em TODAS as mídias de forma cínica, que foca tão-somente nos órgãos genitais (o que já é uma perversão). O resultado é que os japoneses desenvolveram novas formas de explorar sua sexualidade graficamente e, com o passar do tempo, o que era uma metáfora virou o objeto de adoração! Calcinhas usadas são mais valorizadas por eles que o “conteúdo”, se é que você me entende. Os caras lá tem uma tara por tentáculos (isso mesmo, TENTÁCULOS de polvo! Freud explica) penetrando por todos os orifícios das mulheres. A mulher de lá, submissa culturalmente por milênios, até hoje é uma “vítima” do sexo e aprendeu a associar dor e violação como “prazer” no ato sexual. E tudo isso são perversões que vão destruindo o bom viver (se não acham, perguntem às japonesas molestadas nos metrôs) e corrompendo um dos pontos de maior sustentação de uma sociedade, que são as mulheres! Mas, mesmo com toda essa perversão, os japoneses ainda têm arraigados na sociedade a idéia de família e educação como base de lançamento para a vida. Nós, ocidentais, não temos. Então, o que será da gente?

Posso parecer um velho rabugento valorizando o passado, mas não é o caso. Adoro os tempos atuais, onde a pessoa pode ser o que ela QUER ser. Só não curto quando vejo que, mesmo num mundo aberto a tantas fontes de informação a manipulação da mídia continua atuando pra influenciar as pessoas a serem o que ela (a mídia) quer produzir. É como o cachorro correndo atrás do próprio rabo, onde o desejo alimenta a mídia, que alimenta (e cria) o desejo. E fica nisso! Não há novas aspirações no sentido de mudar o foco, apenas um desejo cada vez mais doentio! E novamente invoco a figura da Madonna (que estou usando propositalmente como a personificação da mulher), que acompanhou (diria até liderou) a libertação da mulher na sociedade machista e competitiva, e que soube se TORNAR um produto sem SER um produto. As músicas são um atestado dessa transformação / busca: O sofrimento e insegurança feminino em Borderline, a aceitação e inversão do papel de mulher-objeto em Material Girl, a ode à independência em Express Yourself, a transição da garotinha pra mãe em Papa don’t preach, a dominatrix em Erotica, a valorização da elegância em Vogue, a introspecção de The Power of goodbye, a tristeza de Take a bow,a fase TPM em What It Feels Like For A Girl e o pingo nos is de Human nature… enfim, várias facetas do feminino, sem se deter em nenhuma. Madonna é conhecida por ser um camaleão, mas o que é a mulher senão uma esfinge que, se não decifrarmos, nos devorará? (especialmente na TPM).

Ei você,
Lembre-se disso
Nada disso é real
Incluindo o jeito que você se sente

Primeiro ame a si mesmo
Então você pode amar alguém
Se você conseguir mudar alguém
Então você salvou alguém

(Madonna)

bandeira da espanha Ler em espanhol (por Teresa)

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