JEAN MICHEL JARRE (Parte 1)

A partir de hoje inicio uma série de posts sobre um dos meus compositores favoritos, Jean-Michel Jarre, e como sua obra está marcada na minha história e na História da Música como um todo, por ter sido um pioneiro em unir as pessoas e abrir portas através da música:

INÍCIO

Jean-Michel Jarre é um compositor francês que é filho do (também famoso) compositor de filmes Maurice Jarre (que fez Dr. Jivago, Lawrence da Arábia e Mad Max 3). Mas seu pai teve pouca ou nenhuma influência na composição do filho, já que cresceu longe dele (Maurice nos EUA e Jean na França) e só o viu de novo aos 20 anos. Sua mãe, Francette Pejot, era uma grande figura da Resistência Francesa. Após a guerra, sua melhor amiga abriu o clube de jazz mais famoso de Paris, Le Chat qui Pêche (O gato pescador). John Coltrane, Archie Shepp, Don Cherry e Chet Baker tocaram lá.

“Quando criança, eu compartilhava momentos com esses caras no clube o tempo todo e não fazia ideia de quem eles eram. No meu nono aniversário, Chet Baker me sentou no piano e tocou para mim por cinco minutos. Essa foi a minha primeira experiência física de como o som pode me afetar. Lembro-me do impacto do som de seu trompete no meu peito quando criança. Chet Baker me disse: “O jazz não é apenas sobre melodia. Todo mundo pensa que é sobre a melodia, mas é sobre fugir da melodia para tentar obter o SOM”.

Jean-Michel Jarre; Organic meets Electronic

Como qualquer jovem músico de sua época, nos anos 60 Jarre tinha uma banda de rock chamada “The Dustbins”, e essa banda apareceu em um filme chamado Des Garcons Et Des Filles de 1967, e nele pode-se ver Jean-Michel Jarre cantando e tocando guitarra aos 14 segundos:

Seu maior mestre foi mesmo Pierre Schaeffer, criador da “Musique concrète“. Pierre foi seu professor por 3 anos, e o encontro se deu no mesmo ano em que estourou a revolta dos estudantes em Paris (1968), e havia por toda a parte a idéia de revolucionar e rejeitar as tradições. Pierre dizia que “a música não era feita de notas, e sim de SONS”. Foi nesse espírito transgressor que o compositor Jean-Michel Jarre “nasceu”.

Seu primeiro trabalho foi em 1971, com AOR, uma trilha de um ballet pra Companhia de Ópera de Paris. Seguindo o que seria uma tradição, Jarre foi um desbravador de ambientes com sua música: Foi a primeira vez que música eletrônica tocou na tradicional sala de espetáculos Opera Garnier, e a reação foi metade louvor, metade horror. Ouvindo hoje, mal dá pra chamar de música direito, mas sim experimentação.

Seu primeiro Single foi desse mesmo ano: La Cage. Foi um fracasso, vendendo apenas 117 cópias (uma curiosidade: Em 1993 ele fez uma releitura do lado B desse single, Erosmachine, transformando-o na belíssima Chronologie part 2). Em 1973 ele fez a trilha sonora para o filme Les Granges Brûlées, e graças a isso deu sua primeira entrevista à TV, onde a repórter pergunta justamente sobre a influência do Pai famoso, e ele se sai dizendo que o pai vive há 10 anos nos EUA e por isso há bem pouca interferência na carreira um do outro:

Também em 1973 ele lançou seu primeiro álbum (Deserted Place), que na verdade é mais um portfolio de músicas pra serem usadas em comerciais, shows de TV, etc. Nele tem uma música que meio que define uma característica do Jarre, que é pegar algo tradicional e trazer para uma nova linguagem sonora, ou seja, a dos sintetizadores. A faixa Music Box Concerto é claramente feita no estilo dos “Automates” (Autômatos), ou seja, bonecos animados que dançavam ou tocavam música, tudo movimentado por engenhosos mecanismos movidos à corda e que foram populares na França no século 18. Sim, 18.

Música de um Automate no Musée des Arts et Métiers (Paris)

Quando eu ouvi pela primeira vez um desses Automatons me veio imediatamente à mente as músicas de videogames: a construção simples, os tons, a melodia pegajosa. Temos nos Automatons do séc. 18 o primórdio da música eletrônica, e Jarre faz aqui sua homenagem:

Music Box Concerto

CARREIRA POP

Assim como Vangelis nos anos 60, Jarre nos anos 70 fez algumas melodias pra cantores conhecidos da época colocarem a letra: Françoise Hardy, Christophe e Patrick Juvet. Duas delas Jarre relançou depois de estar famoso, somente com a melodia. Uma é La belle et la bête (A Bela e a Fera), com Gérard Lenorman, um pop de 1975 com letra boba e que uma década depois viraria a apoteótica faixa Rendez-Vous 2:

Gérard Lenorman & Jarre – La belle et la bête

Se nessa música já vemos o som de Jean-Michel Jarre mais próximo do que ele é hoje, somente no próximo ano é que veremos sua forma final.

A outra música que ele reaproveitou foi também a que fez com Gérard Lenorman, La mort du cygne, que viraria depois Rendez-Vous 3:

Gérard Lenorman & Jarre – La mort du cygne

OXYGÈNE

Sua carreira internacional começou de fato no ano em que nasci, 1976, com um enorme, gigante sucesso, que foi o álbum Oxygène. A exemplo do que aconteceu com os Beatles, nenhum dos grandes estúdios quis publicar um álbum conceitual desse cara de 28 anos, gravado em 8 meses com sintetizadores analógicos e gravadores instalados por toda a cozinha de sua casa, até que Francis Dreyfus, de um pequeno selo, resolveu apostar nele.

Algumas pessoas que compraram o álbum mandaram ele de volta pro fabricante reclamando que no começo do disco havia um ruído de estática (era o som do sintetizador criando a ambientação para a música). Era um novo paradima de som que o jovem francês trouxe para o grande público, e uma coisa que Jarre tinha aprendido com Pierre Schaeffer era que “A diferença entre barulho e música está na mão do músico”.

Oxygène II

Era um som que pode ser definido numa palavra: Etéreo. Uma característica que se tornou marcante de Jean-Michel Jarre e estava presente desde a primeira música eram os sons “passeando” pelas caixas de som. Raios, beeps, ruídos alienígenas, mexendo com os sentidos e com a imaginação. Numa entrevista de 2018 Jarre relembra que, por conta da má qualidade da fita que ele usou pra gravar Oxygène em casa, havia muito ruído, então ele usou White noise (ruído branco) pra mascarar o ruído e isso meio que criou o ambiente etéreo do álbum.

Foram impressas 55 mil cópias, mas o álbum acabou indo pro topo das paradas e vendendo 18 milhões de cópias em todo o mundo. Na França até hoje seu recorde permanece inalcançado. Surgiu aí uma parceria que nunca se desfez, até a morte de Dreyfus em 2010 e o fim do selo.

Um DJ tocou o álbum do começo ao fim na rádio britânica, e daí ele ganhou o mundo. Arthur Clarke – escritor inglês de ficção cientifica e autor de 2001 Uma Odisseia no espaço – lembra que estava em sua casa no Sri Lanka quando ouviu Oxygène na rádio e ficou maluco procurando com os amigos quem era o autor daquilo. Quando descobriu, virou fã. Tempos depois ele e Jarre se conheceram e ficaram encantados de saber que a obra de cada um influenciou a do outro (a musica de Jarre tocou durante toda a escrita de “2010: O ano em que faremos contato“):

“Quando comecei no final dos anos 60-70, eu estava abrindo portas em territórios virgens porque era o começo da música eletrônica. A música eletrônica, para mim, não desmentia nada – minhas influências eram de filmes e livros. Filmes como 2001 – Uma Odisseia no Espaço foram realmente uma grande fonte de inspiração para mim como músico e artista. Foi lançado em um momento em que tivemos uma visão bastante positiva do futuro. Tivemos uma espécie de ficção científica líquida, o tipo de visão do futuro de que, depois do ano 2000, tudo voaria.

Também fui influenciado por Asimov e Ray Bradbury, Frank Herbert e, claro, por Arthur C. Clarke. Quando 2001 foi lançado, lembro que assisti todos os dias durante uma semana, voltando ao mesmo cinema. Desde então, minha música está ligada à ficção científica, provavelmente por causa da explosão do uso da tecnologia na música. Existe um vínculo entre a evolução da cultura pop e a evolução da tecnologia. Também fomos à Lua pela primeira vez, enquanto toda a cultura pop explodiu nos anos 60. Depois disso, a música eletrônica seria chamada de música espacial, fortemente ligada à ficção científica.”

Jean-Michel Jarre; Entrevista sobre Asimov (2019)

As referências de música eletrônica na época eram Mike Oldfield e Tangerine Dream, e no começo a crítica (especialmente a inglesa) meio que massacrou o álbum Oxygène em comparação ao que conheciam, mas logo ficou claro que estávamos diante de algo novo.

“Oxygène foi provavelmente o primeiro álbum a criar um link entre pop, clássico e experimentação”.

Jean-Michel Jarre
Oxygène IV

EQUINOXE

Dois anos depois de Oxygène, em 1978, Jarre lança a sua obra-prima: Equinoxe. Um perfeito domínio da melodia, dos sintetizadores, do ambiente sonoro que é criado e que nos transporta, até hoje, para um outro mundo, misterioso e sensual. Sim, pois ser sensual é a intenção declarada de Jarre com sua melodia, que embora seja eletrônica é (ou era) criada de forma muito manual, cortando fitas pra fazer loops, girando muitos botões e descobrindo sons muito por tentativa e erro. Se Oxygene é um álbum cujo ambiente é o ar, Equinoxe é uma ode às águas, com o som do mar quebrando entre as músicas, ou o gotejar de Equinoxe parte 3:

Equinoxe, Pt. 3

Uma das minhas primeiras lembranças de música eletrônica talvez seja Jean-Michel Jarre. Não tenho certeza, pois Vangelis e Rick Wakeman também tocaram em tenra idade lá em casa, mas eu tenho essa memória de estar num carro na viagem que fiz ao Rio de Janeiro e estar tocando Equinoxe, e essa associação dessa música totalmente nova e sensorial com toda a novidade de estar vendo um “novo mundo”, estar pela primeira vez longe de casa, isso é algo que definitivamente me marcou. A Parte 1 de Equinoxe é simplesmente sublime, algo que chega à minha mente como uma “explosão suave” de sons que se abrem como pétalas de Lótus, ou o nascimento de uma galáxia:

Equinoxe, Pt. 1

Equinoxe causa em algumas pessoas, como eu, uma sensação de dèjá vu, de pertencimento, de “casa”, além de melancolia.

Foi aqui que Jarre cunhou outra de sua assinatura, um tipo de pop eletrônico que não dá exatamente pra dançar, e ainda assim dá vontade de não ficar parado, tudo isso sem perder a parte contemplativa. A música Equinoxe 5 é uma representação perfeita disso:

Equinoxe, Pt. 5

Uma curiosidade é que o avô de Jean-Michel (André Jarre) era engenheiro e foi um dos primeiros a inventar uma mesa de mixagem de som, para a rádio de Lyon, e um toca-disco portátil (estilo pickup) alimentado a bateria. Além disso, tocava Oboé.
Jean-Michel passava 6 meses por ano na casa do avô nos seus primeiros 8 anos de vida, e pela janela ele via muitos artistas de rua se apresentarem. Jarre diz que essa foi uma grande influência em sua vida, e na música Equinoxe Parte 8 podemos ver uma representação disso, com a simulação de uma banda de artistas de rua, na chuva, que vai se aproximando pela caixa de som da esquerda, ocupa o centro e depois vai embora em direção à caixa da direita:

Equinoxe 8: Band in the Rain

Aqui ele deu uma entrevista, em 1979, sobre Equinoxe:

Com Equinoxe, Jean-Michel Jarre firmou seu lugar no mundo da música e a partir daí pôde sonhar mais alto e elaborar uma coisa que se tornou outra de sua assinatura: Os Concertos gigantescos que mobilizam grandes cidades.

Parte 2: Descobrindo a China

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