A FILOSOFIA EM STAR WARS

Que tem Jabba The Hutt a ver com Epicuro?
E o Estoicismo a ver com a Força?
Seria Darth Vader a encarnação de Nietzsche?

A FILOSOFIA EM STAR WARS

O objetivo aqui não é traçar um perfil apurado ou filosoficamente correto dos personagens de Star Wars, mas sim associar, de forma livre e divertida, os personagens a uma linha de pensamento. Serve mais como um método interessante de aprender e fixar os conceitos.

OBI-WAN KENOBI

Obi-Wan

Obi-Wan é um Mestre Jedi que se exilou no deserto de Tatooine após as Guerras Clônicas. É uma coisa bem de Mestre Jedi procurar o isolamento como forma de penitência ou purificação, como vimos com Yoda e o próprio Luke Skywalker. Se formos associar uma filosofia de vida a esses personagens, ela seria o Ascetismo, na qual os prazeres mundanos são refreados em favor da austeridade. O nome deriva do termo grego Askesis (prática, treinamento ou exercício). Originalmente associado com qualquer forma de disciplina ou filosofia prática, o termo ascetismo significa alguém que pratica uma renúncia ao mundo com objetivo de adquirir um alto intelecto e espírito. Sidarta Gautama levou o ascetismo às últimas consequências antes de virar Buda, pra depois descobrir que não era o afastamento físico – e sim psíquico – dos prazeres terrenos a chave para o Nirvana. Jesus retirou-se para o deserto e jejuou por 40 dias para reunir forças para a parte final de sua missão. Santo Antão é talvez o melhor exemplo de ascetismo no catolicismo, ele que buscou seu aprimoramento através da reclusão, indo ao deserto enfrentar seus demônios (e apanhar deles, num caso interessante de Poltergeist).

LUKE SKYWALKER

Luke Skywalker

Luke é um garoto idealista que passou os primeiros dezenove anos de sua vida na fazenda dos tios, em Tatooine. Na adolescência, Skywalker almejava largar a vida pacata e sonhava com aventuras em lugares distantes e ser um piloto de caça. Essa filosofia se alinha com o Existencialismo, que foca na crise da existência humana e tem no filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard seu expoente. Ele escreveu sobre a aparente falta de sentido da vida, da busca de sair de um tédio existencial e sobre a realização de escolhas livres. O pensamento existencialista defende que a existência vem antes da essência: Significa que não existe uma essência humana que determine o homem, mas que ele constitui a sua essência na sua existência. Esta construção da essência se dá a partir das escolhas feitas, visto que o homem é livre. Mas essa construção constante traz angústia, pois cada escolha irá refletir diretamente no que se é. A angústia é o reflexo da liberdade humana, dessa ampla possibilidade de escolher e ser responsável por cada escolha.
Para Kierkegaard, o indivíduo é o único responsável em dar significado à sua vida e em vivê-la de maneira sincera e apaixonada, apesar da existência de muitos obstáculos e distrações como o desespero, a alienação e o tédio. Tédio era a síntese da vida de Luke em Tatooine, cuidando da fazenda de areia (Onde estão as plantações no filme?) até encontrar Obi-Wan Kenobi, que lhe trouxe a oportunidade de partir e viver seus sonhos. Mais tarde, Luke se depara com a escolha (e angústia) de seguir ou não os passos do seu pai.
Se quiserem se aventurar ainda mais pelo existencialismo, vocês têm a escolha de consultar (ou não) os trabalhos do filósofo alemão Martin Heidegger.

HAN SOLO

Han Solo

Por trás de um contrabandista, mulherengo e enrolão está um grande coração que ajudou os Rebeldes a destruir a Estrela da Morte, pilotando sua amada Millennium Falcon. Ele já viu de tudo de uma ponta à outra da galáxia com o seu fiel co-piloto, Chewbacca – mas nada o poderia prepará-lo para quando conheceu a Princesa Leia.
Humanismo é a filosofia moral que coloca os seres humanos como “medida de todas as coisas“. Têm preocupação com a ética e afirmam a dignidade do ser humano, recusando explicações transcendentais e preferindo o racionalismo. Geralmente são ateus ou agnósticos. Han Solo mesmo desdenhava dos Jedis e considerava toda essa história de “Força” um conto de fadas.

“Nenhum campo de energia mística controla meu destino. É tudo bobagem e um monte de truques baratos”.

SOLO, Han; Star Wars vol. 4. Ed. Lucas

Para o filósofo e psicanalista alemão Erich Fromm, a autonomia do homem em relação às autoridades exteriores, para contestá-las e rejeitá-las, conduz a um relativismo ético pelo qual valores e normas parecem se tornar uma questão de gosto ou preferência arbitrária. Han Solo não parece ter ética alguma, mas tem: sua própria ética, suas próprias regras (entre elas, atirar primeiro). Como alternativa ao relativismo, Fromm defende a Ética Humanista: um sistema de valores apoiados na autoridade e razão do homem partindo da premissa de que, para saber o que é bom ou mau para o homem, é necessário conhecer sua natureza.

PALPATINE / DARTH VADER

Darth Vader e o Imperador

O Imperador Palpatine é um tirano que quer controlar a galáxia, e consegue isso através da intimidação, utilizando-se da Estrela da Morte, uma máquina capaz de aniquilar planetas. Ele e seu pau-mandado Darth Vader representam o Lado Negro da Força. Assim como a Estrela da Morte é uma máquina de destruição, Darth Vader também é quase que completamente mecânico, mantido vivo com ajuda de aparelhos. Não à toa a filosofia que norteia o Império é o Materialismo e o Mecanicismo, cujo expoente é o inglês Thomas Hobbes. Segundo a teoria dele, o homem já nasce mau, ele não sabe viver em sociedade e precisa de um estado autoritário que dite as regras e as normas de convivência. Essa tese vai fundamentar sua visão de Estado Absoluto. A visão é de que homem não tem pretensão de ser social pois é mau, o que causa insociabilidade. Para se tornar social, é preciso então formar um novo pacto, um novo acordo entre homens, para que eles possam renunciar à coisa mais importante num estado de selvageria, que é a Liberdade. Hobbes chama esse pacto de “Sociedade”. Palpatine chama de “Império”.
Para Hobbes, assim como a percepção é explicada mecanicamente a partir das excitações transmitidas pelo cérebro, assim a moral se reduz ao interesse e à paixão.

“As paixões, quando as consideramos como perfídia e maldade, tornam-se más e pérfidas”.

NIETZSCHE, Friedrich

As razões de Darth Vader, além de mecânicas, compactuam com o Individualismo e a Vontade de Poder de Friedrich Nietzsche, muito embora alguns estudiosos digam que Nietzsche era mais Hierarquista, o que também bate com o contexto de vida de Darth Vader, na sua relação Mestre / pupilo com o Imperador e com o próprio Grand Moff Tarkin antes dele. Também de Nietzsche o Imperador Palpatine introjetou o Superumanismo (muitas vezes dito Anti-humanismo), onde traz o desprezo pela compaixão, a piedade e o altruísmo como uma forma do fraco tentar ter poder sobre o forte.

Dath Vader: – Ele virá até mim?
Palpatine: – Eu previ isso. A compaixão que sente por você o arruinará.

C3PO

C3PO

O dróide protocolar C3PO é a síntese do pessimismo. Ele se gaba de ser fluente em mais de seis milhões de idiomas, mas está sempre reclamando da própria sorte. Enquanto perambulam pelo deserto escaldante no filme IV ele fala: “Parece q fomos feitos para sofrer”. Tal filosofia de vida se assemelha à de Schopenhauer: “Quanto mais elevado é o espírito mais ele sofre”, ou “A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais”.
Arthur Schopenhauer foi um filósofo alemão que, baseado nas idéias de Kant, desenvolveu o pensamento de que o fundamento do conhecimento humano reside no próprio homem e não nas coisas que ele julga conhecer. Ou seja, somos limitados pra conhecer a “Verdade das coisas” (a coisa em si), se é que ela existe. Podemos captar sua representação. Todo objeto que percebemos não tem existência por si: sua existência é relativa, na medida em que depende da relação que este objeto mantém com outro objeto. Schopenhauer compara o mundo como representação a uma ilusão, como o véu de Maya da filosofia Vedanta. O próprio tempo é apresentado por Schopenhauer como sendo puramente relativo e não algo absoluto; passado, presente e futuro como sendo “coisas tão vãs como o mais vão dos sonhos”. Não à toa essa filosofia, levada às últimas consequências, dá vontade de cortar os pulsos. Ou não, afinal, nada importa mesmo…

“A vida oscila, como um pêndulo, da direita para a esquerda, do sofrimento para o aborrecimento: estes são os dois elementos de que ela é feita, em suma”.

SCHOPENHAUER; Arthur

R2-D2

R2D2

Contrapondo a covardia e o pessimismo de C3PO temos o robô R2-D2, que se mete em altas enrascadas sem titubear em prol de seus donos ou amigos. Considerando que R2-D2 não exprime tanto seus sentimentos como o BB8, podemos dizer que ele faz suas ações estoicamente.
O Estoicismo (ou Deboísmo) propõe viver de acordo com a lei racional da natureza e aconselha a indiferença (Apathea, também considerada como a anulação dos desejos) em relação a tudo que é externo ao ser. O homem sábio obedece à lei natural, reconhecendo-se como uma peça na grande ordem e propósito do universo, devendo assim manter a serenidade perante tanto as tragédias quanto as coisas boas. Estóicos mais tardios, como Séneca e Epicteto, enfatizaram que “porque a virtude é suficiente para a felicidade” um sábio era imune aos infortúnios, e de tal crença vem o significado de “calma estoica”. Podemos ver essa calma enquanto R2-D2 atravessa uma batalha de blasters entre Stormtroopers e rebeldes (sem levar um tiro) e a desenvoltura com que ele segue para dentro do covil de Jabba The Hutt.

JABBA THE HUTT

Jabba

Jabba é a criatura mais temível da galáxia, controladora de todo o submundo. Pode ser visto como a versão alienígena do Rei Herodes, um Nababo com sua corte de bajuladores, guarda-costas, dançarinas, música e comida à mão. A filosofia por trás disso é o Hedonismo, que diz que o prazer é o princípio diretor da ação humana, tanto factual quanto normativamente. Aistipo, o primeiro representante da teoria cirenaica (ou hedonista), acreditava que alcançar o prazer e evitar a dor eram a finalidade da vida e o critério da virtude. Epicuro introduziu algumas regras nos conceitos de prazer, e embora insistisse em que o prazer era o alvo da vida, afirmava que “conquanto todos os prazeres sejam em si bons, nem todos devem ser escolhidos”, porque alguns prazeres causam depois aborrecimentos maiores do que o próprio prazer.

“Luncho, koos lee-at nigh!”

DESILIJIC TIURE, Jabba; Star Wars vol. 6. Ed. Tatooine

A FORÇA

“A Força é o que dá poder ao Jedi. É um campo de energia criado por todos os seres vivos, ela nos envolve e nos interpenetra. É o que mantém a Galáxia unida”.

KENOBI, O. W.; Star Wars vol. 4. Ed. Galáxia muito, muito distante

Há duas correntes de pensamento que definem a Força: uma (o Lado da Luz, representado pelos Jedi) como uma entidade sensível, dotada de pensamento inteligente — quase como se fosse um tipo de Deus — enquanto outra (o Lado Negro, representado pelos Sith) consideram-na algo que pode ser manipulado e usado simplesmente como se fosse uma ferramenta.

Yoda

Filosofia Jedi:
Não há emoção; há paz.
Não há ignorância; há conhecimento.
Não há paixão; há serenidade.
Não há guerra;há tratados
Não há caos; há harmonia.
Não há morte; há a Força.

Filosofia Sith:
Paz é uma mentira, só existe paixão.
Com paixão, ganho força.
Com força, ganho poder.
Com poder, ganho vitórias.
Com vitórias, minhas correntes se rompem.
A Força me libertará.

Enquanto a filosofia Sith se aproxima muito da de Nietszche (como vimos acima), o ensinamento Jedi é uma coletânea filosófica que se aproxima do Platonismo, Xamanismo e Estoicismo.

“Tamanho não importa. Olhe para mim; julga-me pelo meu tamanho? E não deve mesmo. Minha aliada é a Força, e poderosa aliada ela é. A vida a cria, e a faz crescer. Sua energia nos cerca e nos une. Luminosos seres nós somos, não essa matéria bruta. Precisa a Força sentir à sua volta; aqui, entre nós, na árvore, na pedra, em tudo”.

YODA, Mestre Star Wars vol. 5. Ed. Dagobah

Os estóicos, por exemplo, ensinavam que as emoções destrutivas resultam de erros de julgamento, e que um sábio – ou pessoa com “perfeição moral e intelectual” – não sofreria de tais emoções. É do filósofo estoico Séneca a frase: “uma ira desmedida acaba em loucura; por isso, evita a ira, para conservares não apenas o domínio de ti mesmo, mas também a tua própria saúde”. Ela traz uma grande similitude com a famosa frase de Yoda no episódio I:

“O medo é o caminho para o lado negro. O medo leva a raiva, a raiva leva ao ódio, o ódio leva ao sofrimento”.

YODA, Mestre Star Wars vol. 1. Ed. Coruscant

O estoicismo afirma que todo o universo é corpóreo e governado por um Logos divino. A alma está identificada com esse princípio divino como parte de um todo ao qual pertence. Esse Logos (Razão Universal) ordena todas as coisas: tudo surge a partir dele e de acordo com ele, graças a ele o mundo é um Kosmos (termo grego que significa Harmonia). O cultivo da razão, para os estóicos, leva à compreensão de que há coisas necessárias, ou seja, que independem da vontade do indivíduo; e há coisas livres que dependem da vontade do indivíduo. Uma frase famosa de um Santo Católico está em perfeita consonância com essa filosofia:

“Senhor, dai-me força para mudar o que pode ser mudado, resignação para aceitar o que não pode ser mudado e sabedoria para distinguir uma coisa da outra”.

ASSIS; S. Francisco de
Star Wars – Yoda e o Estoicismo

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